sábado, 23 de fevereiro de 2013

MÁRIO PEDROSA - 06 DE NOVEMBRO DE 1981

JORNAL A TARDE,SALVADOR,  06 DE NOVEMBRO DE 1981

                 MÁRIO PEDROSA

Está enterrado na sepultura número 13.656 do Cemitério São João Batista, no Rio, o mais importante crítico de arte que este país já teve. Chamava-se Mário Pedrosa, nome que será perpetuado todas as vezes que alguém pensar na História da Arte brasileira.
Polêmico, amado e odiado, ele viveu para a arte e debate dos grandes temas nacionais. Acalentou durante sua existência e idéia de ver este país caminhando para o socialismo e nos últimos anos abraçou a bandeira do Partido do Trabalhador, o PT de Lula, metalúrgico, do qual foi um dos fundadores. Morreu aos 81 anos de idade. Morreu revolucionário e inconformado como acontece com todas as pessoas lúcidas, com a injustiça social que campeia por este país afora. Por defender os mais fracos foi exilado e sofreu restrições outras na sua própria pele. Mas, conservou como crítico de arte, pensador e político, suas idéias até o momento de sua morte ocorrida às 3 horas da manhã da última quinta-feira.
Apesar de ter defendido uma arte mais racional como lembrou na semana passada Ferreira Gullar, ele apoiou as pesquisas que em 1947, desenvolvida a doutora Nise da Silveira, que fundou recentemente o Museu do Inconsciente, e agora, seu trabalho foi reconhecido com o nome de Arte Incomum na Bienal Internacional de São Paulo. Também o psicanalista Hélio Pelegrino classificou-o de um socialista libertário e tiveram uma amizade inabalável durante os trinta últimos anos de existência de Pedrosa.
Mário Pedrosa desapareceu, mas aqui ficaram seus pensamentos, suas idéias e acima de tudo, sua imagem de homem apaixonado e de mente aberta.
Nasceu no engenho de Juçaral, em Timbaúba, em Pernambuco a 25 de abril de 1900. Fez seus primeiros estudos num colégio de freiras na Paraíba, mas aos 13 anos foi estudar na Suíça.Aos 16 voltou da Paraíba em seguida entrou para a Faculdade Nacional de Direito, no Rio de Janeiro. Em 1924 fazia crítica de livros, em 1928 entrou para o partido de Trotski, do qual foi expulso no ano seguinte. Foi em 1933 que estreou como crítico de arte com uma conferência sobre Katha Kollwitz e as tendências sociais da arte realizada no Clube dos Artistas. Em 1947 criava a seção de artes plásticas no antigo Correio da Manhã, o que faria dez anos depois no Jornal do Brasil.
Voltou a política em 1964. Aos 76 anos estava trabalhando no Chile quando Allende caiu e teve que exilar-se na França. Deixo registradas nesta coluna alguns dados biográficos sobre este homem que soube conduzir a crítica dentro de sua visão plástica lúcida.
Realmente a morte de Mário Pedrosa deixou o Brasil sem um pedaço significativo de sua inteligência. Morreu unido com as paixões de sua vida: a arte e a política.
E, para essas duas paixões deixou contribuições inesquecíveis, as quais deverão ser sempre motivo de curiosidade e estudo de todos aqueles que gostam e militam nestes setores. A morte de Mário não marca o seu fim porque sua inteligência continuará viva iluminando as consciências dos mais pobres.

CERÂMICA UMA VELHA ARTE SEMPRE ATUAL E RENOVADA

De todas as artes plásticas, a cerâmica é aquela que não liquida o trabalho do modelador ou do colorista quando ele dá a última cartada do pincel. Fica pela frente a consagração do fogo, feita em fornos de alta temperatura. Dentro dessa perspectiva de arte vista pelo prisma do amanhã vem sendo elaborado o trabalho de Zilma Motta e suas alunas, ora expondo cerâmicas após um ano de experiências.
A mostra atual renova-se com os efeitos obtidos pelo fio de cobre, colado nas peças a serem fundidas com esmaltes coloridos. Levado a fogo alto, o cobre se derrete e injeta no vidro seus efeitos escorridos em nuances de rara beleza e profundidade. Outra técnica bem explorada é da corda seca, antiga, pois foi usada pelos tradicionais oleiros do Egito. Lá, folhas secas serviam de esqueleto à separação das cores em compartimentos estanques. Hoje em dia, diversos materiais isolantes, até mesmo um lápis  de grafite gordo, servem de barreira ao contato das cores entre si, formando espaços celulares de esmaltes que se completam na harmonia do colorido sem se fundirem. Ainda poderemos apreciar um efeito raro nas cerâmicas de Zilma Motta: O proveito tirado da fusão de vidros coloridos, em benefício de texturas e volumes para as superfícies planas das cerâmicas. Levado á alta temperatura, o vidro integra-se á tinta trazendo como oferta um rebuscado sentimento de cor e espessura. Aí, sente-se que o tato acrescenta mais um momento de descoberta ao trabalho do ceramista. A arte deixa de ser puramente visual para se tornar táctil e corpórea.
Para tranqüilidade dos cultores da cerâmica, distantes dos grandes centros de pesquisas químicas, informa-se que todo o material usado na exposição de Zilma Motta é de origem nacional: as tintas, os lustres metálicos, os óxidos minerais e até os cacos de vidros de nossas garrafas e recipientes diversos. Com a imaginação criativa e os recursos locais, casando tons e efeitos mágicos, o ceramista vai plantando uma gama de descobertas, fértil e surpreendente.
Suas pesquisas baseadas na natureza do material em mão serão somadas á experiência do forno testado em diversas temperaturas. A peça vai para a queima em corpo maçudo de pintura de parede e volta recoberta de brilho, cor e surpresas volumétricas.
Na foto, técnicas em expressões diferentes. O vaso á esquerda é com fio de cobre; os dois ao fundo, com fusão de esmaltes; a caixa explora a corda seca; o prato e o cinzeiro, tem colorido à base de vidro em cores e óxidos.

                  A PINTURA DE ZIZI

"\Luiza de Souza Martins de Sá Menezes, senhora da nossa sociedade, sempre se dedicou à pintura. Mineira de nascimento, impregnou o seu espírito com a beleza dos monumentos históricos de Ouro Preto, Congonhas, Mariana, Sabará etc; que guardam as relíquias mais preciosas do nosso passado colonial, onde predominaram, sempre, o rendilhado e a pompa da arte barroca.
Vindo para a Bahia, aqui encontrou um ambiente semelhante, onde pululam os tempos magníficos, o casario colonial e a paisagem marinha, esta que lhe faltou em terras mineiras. No recolhimento do seu lar, o pincel passou a ser o instrumento das suas horas de lazer. Pintava por pintar. Por vocação, por gosto, por requinte estético, dando vazão ás suas inspirações, num eterno deslumbramento pelo belo. Nunca pensou, no entanto, em expor.
Mas, nem por isso deixava de produzir. De uma escola antiga sempre nova, a acadêmica, retraça nas suas telas ora um campanário, ora um interior, ao jeito de um Presciliano, um Valença, um Jaime Hora, onde o claro-escuro aparece na medida justa. O seu poder de perspectiva é perfeito. Os traços, firmes e seguros, delineam o objeto projetado. Também marinhista, há trabalhos seus que lembram Pancetti, onde o verde-azul dos nossos mares surge deslumbradoramente e o céu aparece azul, imenso e iluminado. Agora, porém, cedendo a instâncias de amigos, Zizi, como assina os seus trabalhos, acendeu em expor. Na Galeria Panorama se encontra a sua mostra, inaugurada a 23 do mês passado. É uma bela visão o conjunto das telas, a maior parte de motivos baianos e outras de Minas Gerais. Variados os tamanhos, em face dos motivos. Aqui, o claustro de São Francisco, em dimensão condizente com o tema; ali, um pequenino quadro onde aparece o teto, patinado pelo tempo, de uma torre de ermida; adiante, a fachada de um velho sobradão colonial, com as suas sacadas, com balcões, onde aparecem as pinhas coloridas. Um conjunto, certamente, encantador, que o visitante admira e, sobretudo, entende.
Como dissemos no início, o estilo da pintora Zizi é acadêmico. Diríamos que, em alguns traços, predomina um neo-academicismo, o que lhe enriquece, ainda mais, a criação.
E, sobretudo, em todos os seus trabalhos, há uma nítida impressão de calma e de serenidade, sem perder uma intensa carga lírica que comove mesmo aos menos entendidos na arte pictórica. Só a um reparo a fazer: é que a pintora demorou demais para expor. Mas veio, ainda, a tempo. O belo, já sentenciava Platão, é eterno.
Atualiza-se em qualquer época. De parabéns, portanto, a artista, que pode prosseguir na revelação, sempre intensa, da sua vocação." (por Antônio Loureiro de Souza)

SCLIAR NA ÉPOCA- Scliar tem uma ligação com a Bahia e com o Patrimônio Histórico Nacional pois é um intransigente defensor das coisas que nos são caras. No saguão no IAPSEB, no Centro Administrativo, da Bahia ele nos brinda com dois grandes painéis sobre Porto Seguro e Baía Cabrália com suas cores tênues. Quando da realização da Segunda Bienal Nacional de Artes Plásticas da Bahia teve uma sala especial.Além disto, Scliar tem muitos amigos baianos.Agora retorna para uma bela exposição de seus últimos trabalhos na Galeria Época, no Rio Vermelho, a qual será aberta no próximo dia 12.Scliar, grande pintor, é um bom papo, uma pessoa capaz de prender a atenção do interlocutor por várias horas.Na foto Bule Azul
PRETINHO DE DEUS -O pintor sergipano José de Dome- um Pretinho de Deus, como ele próprio se define, está exibindo a sua centésima exposição no Cassino Estoril.Para esta exposição, José de Dome pintou 25 telas durante os dois meses que viveu em Cascais. Os conhecedores da sua obra acreditam que os quadros reunidos na mostra ficarão na História da Pintura de Dome como o período português. Estes quadros, disse o pintor, retratam uma visão rósea e apaixonada deste bocadinho de Portugal que eu vivi.
Dome nasceu há sessenta anos, em Sergipe. Órfão de mãe aos dez anos, começou a trabalhar depois numa serraria e, um dia ao sair da fábrica vi uma senhora pintar uma paisagem.
Puxei conversa e ela ofereceu-me um livro que foi o meu ABC da pintura, disse o pintor.
Quando eu nasci, em Estância, Sergipe, só uma coisa existia: a fome, mas muito cedo descobri que não seria dela que eu viria a morrer (...) lá em casa toda a luta era para conseguir o que comer. Para aprender a ler eu tive de fazer um negócio com uma vizinha: como ela tinha medo de ratos, eu os matava em troca das ações...Puxei conversa e ela ofereceu-me um livro que foi o meu ABC da pintura, disse o pintor.

Biografia
José de Dome
(José Antônio dos Santos)

(Estância/SE, 1921 – Cabo Frio/RJ, 1982)

Pintor. Em razão de sua mãe se chamar Dometila, ficou conhecido como José de Dome. Trabalhou em 1935 na mesma fábrica onde sua mãe e sua avó Dona Maria Pastora trabalhavam como tecelãs. Ele se mudou cinco anos mais tarde para a Cidade Baixa (“Massaranduba”), em Salvador, onde conheceu Mario Cravo, Mirabeau e Carybé, que o incentivaram a desenvolver seu talento artístico. Durante essa época foi servente de pedreiro, vigilante noturno, ajudante de serraria, entre outros. Mas já em 1943 viu despertar a sua sensibilidade para a pintura. Ganhou um livro sobre técnica de pintura e, impressionado com o que viu no livro, neste mesmo ano, de modo autodidata, ele pinta sua primeira tela que chamou “Igrejinha de Massaranduba”. Sua primeira exposição, realizada em 1955, ocorreu no Belvedere da Sé, em Salvador, onde voltou a expor em 1956 e 1958. Já estabelecido como pintor, transferiu-se para o Rio de Janeiro em 1962, integrando-se aos meios artísticos cariocas. Tornou-se conhecido após uma exposição realizada na Galeria Goeldi, em 1964. Pintou a paisagem urbana de Salvador, crianças, prostitutas, peixes e corujas, flores, paisagens naturais e marinhas. Ao longo dos seus 40 anos ininterruptos de trabalho, realizou mais de cem mostras (individuais e coletivas) não só na Bahia, mas também em São Paulo, Sergipe, Brasília, Paraná, Pernambuco e outras cidades brasileiras e também no exterior, por exemplo, em Madri (Instituto de Cultura Hispânica), em Lima (Galeria Portinari - 1966), em Portugal (Galeria de Arte do Cassino Estoril), na Inglaterra (1971), mas também nos EUA, México, França e na Nigéria. O professor e jornalista Gilfrancisco se lembra do artista citando suas próprias palavras: "Todos os meus trabalhos que acham que não são concluídos, não precisam de mais porque é assim que eu quero mostrar a impressão que me tocou a mensagem que aquela figura me deu. Se eu ficar rebuscando, perdem. É por isso que eu não faço figura igual ao desenho. E as cores para dizer as coisas, têm que sair direto".
NR . Esta pequena biografia foi tirada do Google (Museu Afro Brasil) porque estou reproduzindo numa homenagem a este grande artista e  indignado pela ausência de José de Dome na história da arte de seu estado. O Governo e os intelectuais de Sergipe precisam resgatar e divulgar a sua obra.

ESCULTURA- Nos meses de março e abril do próximo ano, o Museu de Arte de São Paulo estará realizando uma grande exposição sobre a escultura brasileira nos últimos cem anos. Juntamente com a mostra, será lançado um livro sobre o assunto, contendo a análise crítica e vasta documentação fotográfica, preparado pelo professor P.M. Bardi, diretor do MASP, e pelo crítico Jacob Klintowitz. Uma ampla pesquisa vem sendo desenvolvida há vários meses sobre a escultura brasileira em todos os estados para o preparo da exposição e do livro, patrocinado pela Philip Morris e com a colaboração da Galeria Skultura.


Além dos mestres mais conhecidos, foram destacados numerosos escultores, cujas atividades repercutiram somente nas cidades onde operaram, e dos quais os organizadores estão procurando obras para serem incluídas na exposição.
O MASP solicita a quantos possam colaborar indicando escultores e obras a serem considerados na manifestação, a se comunicarem com o Museu de Arte de São Paulo, na Avenida Paulista 1578, CEP 01310. Na foto Figura, de Oxana Narozniak.