sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

NEWTON MESQUITA VEM ABRIR GALERIA PROVA DO ARTISTA - 19 DE SETEMBRO DE 1988.


JORNAL A TARDE, SALVADOR, SEGUNDA-FEIRA, 19 DE SETEMBRO DE 1988.

NEWTON MESQUITA VEM ABRIR 
Newton Mesquita traz oito gravuras
de seu novo álbum
GALERIA PROVA DO ARTISTA

Para a inauguração, no dia 22, da Galeria Prova do Artista, no Salvador o artista Newton Mesquita com suas gravuras baseadas na peça Eu Te Amo, com Bruna Lombardi e Paulo José.
Newton Mesquita nasceu em 1949, em São Paulo. É um dos artistas de maior importância dentro da arte atual brasileira, já tendo ganhos vários prêmios e sua obra incluída em acervos de empresas, coleções particulares e museus como o MASP Museu de Arte de São Paulo, MAB Museu de Arte Brasileira, e a Galeria Degli Uffizzi, Florença, Itália. Há dois anos sem expor na Bahia, Newton retorna com uma mostra feita com exclusividade para a Galeria Prova do Artista.
Apresentando a mostra, Caio Fernando Abreu escreveu um texto onde cria uma história sua sobre a obra de Newton Mesquita. Vejamos “Mal vejo você, entre as sombras.Os retalhos de luz que vêm de fora e entram pela janela aberta iluminam trechos do seu corpo parado na porta. A curva do braço, na altura do ombro, a cintura, o cabelo quando bate no ombro. Detalhes tão pequenos de nós dois. Não sei se você me olha, não sei se você me vê. Que longo, penso, que longo caminho que eu tive de percorrer para chegar até você. De onde estou, parado no extremo oposto da porta de onde você está, também não sei se o que vejo será  mesmo um corpo real- o seu, seu corpo exato, particular, inconfundível ou apenas uma ilusão dos meus sentidos. Estes que nunca mais se recuperaram da loucura de ter mergulhado um dia no seu gosto, no seu cheiro, no seu tato.

Foto recente do artista
Não te conheço, nunca te vi. E hoje, trago apenas uma pedra no meu peito. Mas nessa luz vermelha que vem de fora e não sei se será neon, abajur ou pôr-do-sol, as imagens que recupero me trazem de volta outros momentos. Não este, em que estou parado aqui, na extremidade do espaço que você também ocupa, mas outros, aqueles nossos momentos. Além do fluxo sem nenhum movimento, nada mais acontece nesse ar vermelho para aproximar, um pouco mais, seu corpo do meu. Clima, sugestão, blues. Meu bem, meu mal: dançaremos na chuva como dois simpáticos canastrões
Imagem de Leitura,de  Newton Mesquita
 de musical americano ou nos esbofetearemos, aos gritos, feito casal de melodrama neo-realista? Fritaremos juntos almôndegas em lata ou deslizaremos pela pista ao som do Danúbio Azul, entre cortinas de renda sopradas pelo vento? Clichê, firme, vida real: onde encontrar o jeito certo, a palavra justa? Vejo você, mas entre sombras,e foi tão longo chegar aqui, meu bálsamo benigno. Não me diga não, não me diga adeus. Enquanto nada acontece, nenhum minuto se passa, palavras não ditas atravessam o ar que nos separa. Chegar, partir, reaprender. Ao do telefone, fumando, espero ao som de Billie Holiday. Nunca é tarde, nunca é demais. Respiro fundo, estendo a mão.
E vou deixando de sentir medo, e não me importo que você ria na minha cara ou me chame muitas vezes de ridículo, quando finalmente, sem compromisso algum com qualquer outra coisa a não ser nos dois aqui parados, um em frente ao outro, conseguir dizer aquilo que irá nos unir ou separar para sempre. Eu abro a boca, você dá um passo. De ouro, seu corpo brota da sombra. Eu sei que você me olha, eu sei que você me vê. De ouro, minhas palavras tombam sobre seu corpo. Você sorri e eu te proponho."

DOS MUROS DA CIDADE ELES CHEGAM AO FOYER DO TCA

Os artistas do Grupo Interferência , vendo-se ao fundo alguns trabalhos da mostra do TCA
O Grupo Interferência expôs no foyer do Teatro Castro Alves até ontem. São quatro pintores e um escultor, que vem utilizando os muros da cidade entre os quais dos viadutos da Graça e do Politeama, no Rio Vermelho, Avenida Contorno, lateral do Estado da Fonte Nova, Vale dos Barris e Canela, enfim, o pessoal tem fôlego de gato, e, onde houver espaço mostra sua expressividade. O grupo começou por volta de 1980, os integrantes têm em média 30 anos de idade.
O escultor é Ademir Tuy que começou a trabalhar em madeira, passando para a pedra-sabão e, hoje, trabalha metarenito. Ele concebe formas humanas onde a desfiguração e a mutilação são constantes. Uma crítica, segundo informa, à própria autodestruição do homem que vive guerreando em defesa de ideologias e sentimentos religiosos duvidosos.
Donizete sofre uma influência da pintura rupestre, daquelas primeiras manifestações tão decantadas por estudiosos de civilização do passado.
Paulo Portela é mais intimista. Os elementos de sua pintura não apresentam contornos.
Carlos Rodrigues é um pintor do cotidiano, são pinceladas vibrantes e fica entre o figurativo e o abstracionismo. Uma influência da sua atividade de publicitário quando com traços rápidos é capaz de definir suas pinturas em movimento. Ele está fazendo um trabalho de programação visual de excepcional qualidade aqui em A TARDE, principalmente no Caderno Lazer & informação que acompanha as edições de domingo.
Finalmente, Caetano Dias que tem uma pintura de formas orgânicas. Segundo César Romero há uma sensualidade nos cortes e insinuações breves, criando um  clima de mistério e busca. Há o prazer de pintar, o cuidado com a textura, transparência e ritmo.

INTERFERÊNCIA

A pintura mural é realizada ao ar livre e tem como suporte, geralmente, as paredes dos muros e viadutos da cidade. São superfícies de textura riquíssima, verdadeiros corredores dominados pelo cinza da civilização. Interferir neste cenário é privilégio  de artistas contemporâneos, uma tentativa de rememorar a pintura rupestre dos primitivos que celebravam sua relação com a natureza. Seu universo cotidiano, sobre pedras, mostrava a ação intuitiva de perseguição e fuga, dor e prazer, vida e morte e liberdade.
Hoje a selva é outra, as feras, mais civilizadas e mortíferas. O homem volta a imprimir seus símbolos, agora sobre pedras armadas em concreto. Em atitude intelectual e gesto instintivo volta a celebrar, sobre os muros marcados, fazendo ressurgir do cinza das paredes a natureza humana.
O mural de rua é um estímulo objetivo, a resposta é a mais diversa. Os atos dos espectadores denunciam aceitação e rejeição. São manifestações peculiares que vão do aplauso mais fervoroso ao protesto mais agressivo. Restitui-se a vida, quebrando a indiferença cinza da cidade.
A produção artística contemporânea de Salvador está ocupando outros espaços.
São as superfícies dos muros e viadutos, impiedosamente poluída com pichações de todo o tipo. Em oposição a toda essa sujeira, artista contemporâneos vem colorindo a cidade com seus trabalhos. A cada esquina instante há uma surpresa: são belas pinturas que surgem refletidas nas faces das pessoas, mudando a cara da nossa cidade e atuando junto ao público na questão estética, incitando a uma visão mais crítica da sociedade moderna.
A incursão pictórica no panorama urbano de Salvador teve sua origem nas pesquisas desenvolvidas em estúdio, pelos integrantes do grupo, em caráter individual. As primeiras interferências foram feitas no viaduto do Largo da Graça por Massola, Donizete e Caetano Dias. Em seguida foram feitos painéis, juntamente com Portela, Carlos Rodrigues e Ademir Tuy. Os painéis estendem-se por vários locais da cidade como nos viadutos do Politeama, Campo Grande, Contorno, Centenário, Ogunjá e no muro de contenção da Vila Olímpica e no Rio Vermelho.
O trabalho de estúdio funcionou como base para a pintura de rua. Atualmente, a interação entre os dois tem levado a uma produtividade muito grande e de maneira bastante espontânea.
Ademar Tuy, Caetano Dias, Carlos Rodrigues, Donizete e Paulo Portela, são artistas profissionais que fazem parte de uma nova geração, vindos de um longo percurso com passagens por salões, galerias e museus é nesta fase a pintura mural surgiu como um espaço alternativo para um contato mais direto dos seus trabalhos com o povo.