quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

O REALCE DA IGNORÂNCIA - 28 DE SETEMBRO DE 1981


JORNAL A TARDE, SALVADOR,  28 DE SETEMBRO DE 1981

             O REALCE DA IGNORÂNCIA

Washington , vítima da
ignorância alheia
O escultor Washington Santana recentemente fez uma exposição, no foyer do Teatro Castro Alves, de suas obras que foram apreciadas por todos aqueles que tiveram oportunidade de visitar a mostra. O escultor é um jovem artista, e um dos poucos escultores que existem na Bahia, devido a dificuldade do material empregado, que via de regra é caro e necessita de muito espaço para o trabalho do artista. Mas, Washington consegue superar as dificuldades e vai criando suas bonitas e modernas esculturas. Incansável, resolveu expô-las no Dique do Tororó viando que grande número de pessoas participasse da sua criação. Contou com ajuda de algumas pessoas ligadas ao gabinete do prefeito e partiu para a ação. Comprou tonéis para fazer plataformas flutuantes onde repousariam as esculturas e quando estava por terminar a montagem das peças foi surpreendido pela ignorância funcional de um burocrata da Prefeitura que resolveu retirá-las e danificá-las. O artista esteve nas redações dos jornais, inclusive manteve contato, comigo revoltado com a ação maléfica do funcionário da Superintendência de Parques e Jardins chamado de Tiago Neto que as considerou destoantes e sem nenhum realce com o ambiente. Fiquei pasmado. Não conheço o Sr.Tiago (ainda bem!), mas certamente seu gosto pela arte esteja fundamentado em informações distorcidas de estética. Mesmo se concordasse com  a atitude arbitrária do funcionário da Superintendência de Parques e Jardins não justifica a falta de respeito para com um artista sensível e criativo.
Somado a arbitrariedade o Sr. Tiago ainda declarou a um jornal local que em lugar de nos procurar para explicações, Washington preferiu falar a imprensa e tentar escandalizar o fato. Ora, Sr. Tiago, tenha paciência, suas afirmações são piores que a atitude. Não existe justificativa para tal arbitrariedade, que certamente foi tomada de comum acordo com seus superiores e subordinados. O que demonstrou foi insensatez, ignorância e falta de respeito para com o artista.
Posso dizer ainda que suas preferências estéticas são duvidosas e não representam as preferências dos membros de nossa comunidade. O realce que você buscou não poderia encontrar porque não conhece e não tem sensibilidade para julgar ou entender uma obra de arte. Tratou uma escultura como quem pega uma mala e retira de um lugar para outro sem ao menos ter o cuidado de não danificar.
Mas, infelizmente estas atitudes a gente encontra, até ás vezes, dentro de museus. Lembro agora que uma escultura de Mário Cravo estava apodrecendo no Museu de Arte Moderna e precisou que Jorge Amado escrevesse uma carta para que a peça fosse colocada num lugar apropriado. Não sei no entanto, se já recuperaram a escultura como prometeram na ocasião. Porém, este é mais um exemplo. E, aconselho ao Sr. Tiago que antes de procurar o realce leia sobre estética e aprenda a respeitar uma artista e sua obra de arte.
O que não realça é que pessoas desinformadas sejam escolhidas para lidar com artistas sensíveis e criativos.Espero que Washington não esmoreça com este tipo de atitude, que ainda existem em muitos setores de nossa administração. Se duvidar dê uma olhada no Parque Metropolitano de Pituaçu, que você encontra uma escultura de Juarez Paraíso abandonada, suja e rodeada de materiais imprestáveis. A escultura custou caro ao estado e foi adquirida com dinheiro do povo e lá está á espera que acabem as divergências entre administradores e que deem continuidade a instalação dos equipamentos que ainda faltam  do referido parque.

     21 BAIANOS PARTICIPAM DO IV SALÃO NACIONAL

Num clima de expectativa, foi divulgada a relação com os nomes dos 28 artistas nordestinos (21 baianos), cujos trabalhos foram classificados para o IV Salão Nacional de Artes Plásticas, a ser realizado em novembro, no Rio de Janeiro. A recomendação do júri que preferiu que o resultado fosse dado através da Secretaria do Museu de Arte Moderna da Bahia, foi no sentido de que os artistas plásticos só tivessem acesso ás informações, após a publicação pela imprensa.
O júri nacional que havia convocado entrevista coletiva com a imprensa no mesmo momento em que debateria com os artistas plásticos ou critérios do julgamento e a necessidade de reformulação do salão, ao que parece, temeu dar o resultado para, assim, evitar que os ânimos se acirrassem. Antes, porém, todos os integrantes do júri confessaram que não podemos eliminar os critérios subjetivos do julgamento, revelando ainda que já discutimos bastante e até tomamos tranquilizantes.
Do Nordeste inscreveram-se 104 artistas, representando os estados do Rio Grande do Norte, Paraíba, Alagoas, Pernambuco e Bahia, cada um com três trabalhos. O percentual da seleção foi de 25 por cento, índice bastante superior ao do Rio de Janeiro e São Paulo, segundo Aracy Amaral, integrante do júri.
A Bahia, dos estados do Nordeste que se inscreveram, foi o que apresentou maior número de vencedores: Juarez Paraíso (escultura); Pedro Amado de Souza (pintura); Gustavo Ubeda (pintura), Sante Scaldaferri (pintura), Eudes Mota (pintura); Juracy Dórea (pintura), Francisco Liberato (pintura); Emma Valle (pintura); Murilo (pintura); Araripe (proposta); Grupo Posição (proposta) Florival Oliveira (gravura); Bel Borba (desenho); Márcia Magno (gravura); Paulo Serra (desenho); Bartira Silva ( Desenho);Sérgio Rabinovitz (gravura); Vaulúzio Bezerra (pintura); Rino Marconi ( fotografia); Juarez Paraíso(fotografia) e Antônio Luiz Morais de Andrade (proposta).
De Pernambuco foram classificados Francisca Silva (escultura); José Barbosa (desenho); Justino Marinho (desenho); Ricardo Aprígio (pintura); da Paraíba, Frederico Svendensen (pintura) e José Crisólogo da Costa (PB) e de Alagoas, Sílvio Márcio Paiva (pintura).

CONSCIÊNCIA DO IMPASSE

Frederico Morais, um dos integrantes do júri disse que temos absoluta consciência do impasse do Salão Nacional de Artes Plásticas, explicando que os custos são muito altos para a rentabilidade cultura que se consegue. Justificou ainda que parcela muito poderosa da arte brasileira não está presente no salão, que, por conseguinte, não representa a arte brasileira. E um dos motivos que ele cita para que nomes expressivos não estejam representados, é o valor do prêmio que vem caindo significativamente.
Outro membro do júri nacional que abordou a questão foi Aracy Amaral que definiu o trabalho como muito difícil e muito duro, acrescentando que os critérios de julgamento são subjetivos, o que torna difícil a aproximação da nossa visão de mundo, da nossa realidade com a do artista.
O ideal, defendeu Amílcar de Castro, seria um salão aberto onde a arte e o artesanato estivessem presente. Mas como não há aparelhos científicos para julgar as obras de arte, o júri ainda é a melhor forma (Ana Maria).

SEIS ARTISTAS EXPONDO NA GALERIA LA 
MAISON FRANÇAISE

Avelar Rodrigues, Eduardo, Eduardo Gomes, Iraquitam, Isaías, José Raimundo, Ubiraci e Tia Dadi. Um sergipano, um maranhense e cinco baianos dão início, hoje, ás 21 horas, na La Maison Française, a uma mostra coletiva que ficará aberta até o dia 6 de outubro. Com essa mostra de pintura, La Maison Française, segundo uma das suas diretoras, Diomida Rossi Jesuíno, dá o primeiro passo para se transformar num centro cultural voltado para a comunidade da Pituba, onde está localizada na Rua Sergipe, número 4.
Dos pintores, dois estarão estreando nessa coletiva, Eduardo e Ubiraci, ambos baianos, sendo que dos demais, o maranhense Isaías, mestiço da tribo Timbira é o que traz uma maior bagagem artística, já tendo participado de várias exposições coletivas em seu estado, em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Fortaleza, além de algumas individuais, possuindo, ainda, quadros em acervos particulares europeus. Eduardo Gomes é baiano e foi um dos componentes da equipe de Juarez Paraíso, responsável pela decoração da cidade em 1978; Iraquitam, também baiano, trabalha com vários materiais; José Raimundo, de Santo Amaro, já participou de outras coletivas, o mesmo acontecendo com Tia Dadi, que é baiana e Avelar Rodrigues, sergipano que se dedica também ao teatro e outras manifestações culturais.

O QUE É LA MAISON

La Maison Française, que funciona juntamente com o Consulado da França como uma forma de suprir uma lacuna existente na Pituba após o fechamento da filial da Aliança Francesa.Diomida Jesuino, Sônia Maria Moniz e a consulesa da França, Áurea Recchia, todas professoras, criaram a Maison inicialmente com apenas cursos de língua francesa.
Atualmente, além do curso de Francês, La Maison já oferece um curso de Literatura Brasileira e proximamente deverá ser iniciado um curso de artesanato com a utilização de vários materiais. O objetivo, segundo Diomida, é transformar o local no centro cultural dirigido à comunidade da Pituba. As atividades foram iniciadas em março e o balanço só poderá ser feito após o encerramento do curso mas, segundo ela, a priori, a receptividade está sendo boa contando a escola com 16 turmas de francês. As aulas são dadas duas vezes por semana durante uma hora e meia, pela manhã, à tarde e à noite, sendo que para as pessoas que não podem assistir aulas em nenhum horário foi criado um grupo especial aos sábados pela manhã.
A Maison conta com cinco professores, sendo três deles franceses. Os cursos estão divididos em iniciante, básico e conversação e na aplicação das aulas são utilizados instrumentos de audiovisual, revistas e livros didáticos trazidos da França. A intenção maior da escola, segundo Diomida, é crescer em qualidade.

  FRANCISCO SANTOS NO PELOURINHO 
A força interior de Francisco Santos é notável e ganha relevo a cada investida sua no meio artístico. Seu nome não é estranho a muitos e não poucos admiram o traço e a cor com que revela o movimento da dança e a beleza das vestes do candomblé. Seu trabalho figurativo é bonito e é documental e o seu propósito de agora é mostrar as coisas que ainda estão cobertas no candomblé. O Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia organizou a exposição de Francisco Santos porque reconhece o seu talento e porque o artista é ex-aluno do seu programa educacional. Foi no Setor de Treinamento e Produção Artesanal -Serpa, órgão do IPAC, onde Francisco aprendeu desenho e pintura. Seu Valor foi logo notado e em pouco tempo ele se tornava monitor da turma, recebia bolsa de estudo para o curso de xilogravura da Escola de Belas Artes, oferecida pelo IPAC, cuja confiança no artista fez com que o incluísse na equipe que restaurou a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos.
Francisco nasceu na zona rural do município de Amélia Rodrigues, em 10 de outubro de 1955 e viveu na roça do pai até completar 10 anos. Filho do carpinteiro e lavrador José Bispo dos Santos e da bordadeira Maria Oliveira Bispo, Francisco tem oito irmãos e é o penúltimo filho do casal. Diz que seus primeiros desenhos foram feitos nas paredes da casa do pai. Tinha então sete anos. Ele chegou a Salvador em 1965, para viver com o irmão mais velho, Manoel, camelô que morava com a vendedora de churrasquinho Lourdes Ferreira, na Rua João de Deus, 20, no Maciel. Aqui sua força o encaminhou no sentido da educação.
Com a morte de seu pai, em 1967, a família toda veio morar na capital e Francisco voltou a viver junto com sua mãe numa pequena casa de Avenida na Rua Eudalto Silva Lima, 25-E, na Fazenda Grande do Retiro.

               EMMA VALLE EXPÕE EM ITABUNA

Com uma boa aceitação, vem sendo realizada pelo PACCE (Projeto de Atividades Culturais Cacau), em Itabuna, uma exposição de artista plástica Emma Valle, a qual permanecerá até o próximo dia 08 de outubro, no saguão do CCPC. A população tem demonstrado interesse em adquirir algumas obras de Emma.
Integram a exposição 41 trabalhos em guache, pastel, pintura a óleo (tela e Eucatex), além de gravuras coloridas em lápis cera e conchas de praia pintadas a óleo (em bico-de-pena). Um quadro medindo 1x60 por 1 metro, com moldura em homenagem à Cidade de Itabuna vem chamando atenção de todos os visitantes pela sua composição que mostra três fases da Bahia: a escravidão, colônia e contemporânea.
A artista Emma Valle é uma das participantes do IV Encontro Nacional de Artistas Plásticos do Rio de Janeiro, cuja seleção realizada em Salvador, no Solar do Unhão.
Além disso, integrou o I Encontro de Artes do Nordeste, promovido pela Fundação Cultural do Estado da Bahia, no último mês de agosto.
Diversas doações tem sido feita dos seus trabalhos, a exemplo de uma gravura doada no último dia 04 deste mês para a Feira de Artes da Escola de Belas Artes da UFBa de onde foi aluna do Curso Livre, além de um outro quadro de pintura doado para o Encontro de Cores de Artes Plásticas.