domingo, 10 de fevereiro de 2013

GALERIA DO ESPAÇO XIS PODE INCENTIVAR NOVOS TALENTOS - 7 DE NOVEMBRO 1988


JORNAL A TARDE,SALVADOR,  SEGUNDA-FEIRA, 7 DE NOVEMBRO 1988

GALERIA DO ESPAÇO XIS PODE INCENTIVAR 
NOVOS TALENTOS

Quero aplaudir o surgimento demais uma galeria de arte, especialmente quando este espaço é público, portanto, qualquer artista de talento poderá utilizá-lo. Trata-se do Espaço Xis criado pela Fundação Cultural do Estado, e daqui quero parabenizar Florisvaldo Matos. Traz ainda um dado significativo que é o mural pintado por 15 artistas plásticos Márcia Abreu, Hilda Maria, Ray Viana, Denise Pitágoras, Sônia Rangel, Zeca Araújo, Sônia Regina, Graça Ramos, Buro Pires, Zu Campos, Lígia Campos, Ligia Aguiar, Anacélia, Caetano Dias e Vera Medrado. A galeria fica no subsolo do prédio da Biblioteca Pública do Estado, nos Barris.
Como podemos observar, alguns artistas são conhecidos, tem uma obra e uma história. Outros, são artistas que anda lutam por um maior reconhecimento. Isto é bom. Apenas, não posso endossar o critério porque não se processou como deveria. Prefiro um concurso público. Tenho conhecimento que isto não existiu. Algumas pessoas teriam escolhido e há gente reclamando. Como estamos num processo de exercício democrático é salutar que reclamem. Sei que o mural já está feito e inaugurado, logo, é um caso sem jeito. No próximo evento, é bom que o critério do concurso será respeitado, assim será verdadeiramente democrático. Vencerão os melhores.
O que está registrado nos 28 metros que o painel ocupa dentro da Galeria do Xis é, principalmente, o sonho, a fantasia, o lúdico, o movimento da dança, a música, o vídeo ou o próprio computador, ou seja, todas as linguagens que existem dentro desse espaço alternativo e de apoio às mais variadas produções artísticas, inclusive a Escola de Circo Picolino. Este, por exemplo, foi um fato que, de acordo com a artista Hilda Maria, teve uma influência na feitura do mural. È uma atitude de enorme repercussão, talvez a única existente no estado, daí também a nossa temática ser muito a partir do sonho.
Como o espaço Xis pretende absorver todas as linguagens artísticas, constam ainda da programação da galeria, além da exposição dos artistas plásticos que integram o mural, a mostra “Fotovaral” do Núcleo de Fotografia, com fotos de profissionais como Marco Aurélio Martins, Eduardo Kalif, Célia Aguiar, Maria Sampaio, Edvalma Santana e Leda Marques.
Num outro painel estão recortes de jornais com notícias da Fundação Cultural e também cartazes de eventos que a instituição vem apoiando. Outro destaque é a exposição de folhetos, xilogravuras e tacos de cordelistas organizada pela Divisão de Literatura de Cordel, acompanhada de uma apresentação de Bule Bule. Outra exposição da galeria é a “Memória de Itapagipe”, realizada pelo projeto História dos Bairros.

VINTE E CINCO LITOGRAFIAS DE CÍCERO DIAS EXPOSTAS DIA 8
Amizade, litografia de Cícero Dias
Quando pensamos na arte brasileira deste século surgem os nomes de Di Cavalcanti, Milton da Costa, Djanira, Cícero Dias e muitos outros. Porém, hoje, quero falar do pernambucano Cícero Dias que reside em Paris há vários anos e lá soube cultivar amizades de grandes nomes da pintura e da intelectualidade universal, inclusive de Picasso. Agora, algumas litogravuras serão expostas a  partir do dia 8 na Galeria Prova do Artista, na Avenida Presidente Vargas, no Salvador Praia Hotel.
Para Roberto Pontual, Cícero Dias é o artista brasileiro vivo em que mais se entesouram  as peripécias do século XX. Estivemos demorando a tomar consciência disto, talvez por causa de um afastamento do País, que dura desde 1937, quando ele pôs os pés na França, mas há sinais concretos de que a hora chegou de assumi-lo como fundador, patriarca, fonte preciosa de experiência. Obra variada no arsenal de imagens, espelhando as opções, contraditórias do século- da figura em majestade ao império da pura construção, do devaneio à disciplina, da memória à invenção porém rigorosamente regida por uma lógica interna que é osso dever, a partir de agora, destrinchar. Elo a elo, do surrealismo à abstração, ele armou sua história com linguagem própria e seus desenhos são marcos da história da arte brasileira.
Cícero Dias, pernambucano de nascimento, vivendo em Paris, é um dos pioneiros do modernismo entre nós, sendo com Tarsila, Ismael Nery, Vicente do Rego Monteiro, Di Cavalcanti, os artistas brasileiros desta nossa época. Esta exposição em Salvador, integra a série de mostras que percorre o Brasil este ano (além daqui estarão sendo apresentados em Recife, Porto Alegre, Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília). Da mostra que conta com 25 litografias, criadas a partir das imagens e composição de cada original, Cícero Dias retorna o contato com o Brasil.

PERSEU LEMOS ESTÁ EM SALVADOR

Está em Salvador participando do 25º Congresso Brasileiro de Cirurgia Plástica, que se realiza no Hotel Meridien, o cirurgião pernambucano Perseu Lemos. Sua presença nesta coluna não é, evidente, por ser um cirurgião plástico, embora também aí é preciso ter sensibilidade artística, mas pela arte que paralelamente desenvolve.
Aliás, herdou este talento de seus antepassados, especialmente do seu avô José Castro, que é um dos mais importantes pintores pernambucanos da virada do século. As paisagens pernambucanas, tanto urbanas como rurais, foram retratadas com maestria por José Castro num estilo acadêmico, onde notamos a enaltação da paisagem e a quase ausência da figura humana.
Já o Perseu Lemos é cirurgião, artista e historiador da arte. Ele escreveu um catálogo intitulado um pintor de Pernambuco no virar dos séculos XIX e XX, quando resgatou a memória de seu avô. O catálogo traz  algumas ilustrações preto em branco e outras a cores. Falando sobre o catálogo o presidente da Academia Pernambucana de Letras, Waldemir Miranda, ressalta que ambos tocados do amadorismo pictorial de que foi exemplo destacado José de Castro, avô do biógrafo, é certamente o maior dentre os pintores não profissionais de Pernambuco. Circunstância ainda hoje válida para todo aquele que não sufoca o imaterial que há em si a reclamar seu direito de presença a cada instante da vida.