domingo, 10 de fevereiro de 2013

SALÃO ABRE NO DIA 10 COM 300 ARTISTAS E 900 OBRAS - 26 DE SETEMBRO DE 1988


JORNAL A TARDE, SALVADOR, SEGUNDA-FEIRA, 26 DE SETEMBRO DE 1988

SALÃO ABRE NO DIA 10 COM 300 ARTISTAS E 900 OBRAS

Nasce vitorioso o I Salão Baiano de Artes Plásticas com quase trezentos artistas inscritos e 900 obras das mais variadas tendências, técnicas e qualidade.  Os organizadores estão neste momento trabalhando na separação das peças que serão examinadas pelo júri composto de Ivo Vellame, Reynivaldo Brito, ambos da Bahia, e Marc Berkovitz, de Rio de Janeiro, e Olívio Tavares de Araújo e Cassimiro Xavier de Mendonça, de São Paulo.
O calendário sofreu uma pequena alteração diante de algumas dificuldades operacionais, porém o júri estará escolhendo os trabalhos nos dias 6,7 e 8 de outubro e o resultado final será conhecido no dia 10. Realmente os jurados terão muito trabalho porque durante três dias vão examinar nada menos que novecentas obras, as quais já se encontram no Solar do Unhão.

IMPORTÂNCIA

Sempre defendi a importância do salões, embora advogasse que os mesmos devem sofrer mudanças para acompanhar a própria modernidade que é um fator determinante na criação. Muitas vezes me coloquei contra alguns artistas mais radicais que trabalham sempre contra os salões e bienais. Na verdade a não participação ou tentativa de boicote de alguns no fundo é uma demonstração de covardia, de falta de espírito democrático em não se expor. Assim estariam concorrendo nas mesmas condições. E os medalhões não admitem concorrência. Preferem ser convidados ou mesmo ganhar concorrências daquelas maneiras que todos nós conhecemos. O Salão é importante porque estimula o mercado de arte. Proporciona o aparecimento de novos artistas porque coloca em confronto novas técnicas e os talentos.
Além do mais uma grande quantidade de pessoas visita o Salão e muitas delas nunca tiveram contato maior com obra de arte e às vezes despertam.
O Diretor do Departamento de Artes Plásticas, da Fundação Cultura e artista plástico Zivé Giudice está satisfeito com a participação dos artistas baianos e disse que o número de inscritos superou todas as expectativas dos organizadores. Ele entende que este Salão tem alguns aspectos muito interessantes. Além do confronto das gerações vai possibilitar uma integração entre os artistas já conhecidos e os emergentes. É um espaço imprescindível dentro de nosso meio porque vai permitir o surgimento de muitos valores que estavam ai, meio escondidos. Vamos também retomar o diálogo entre a arte produzida aqui na Bahia e o mercado de arte do sul do País. Foi com este objetivo que convidamos dois críticos baianos e mais três do sul do país, sendo dois de São Paulo e um do Rio de Janeiro. Vamos agora aguardar a abertura e posteriormente o julgamento para se fazer uma avaliação melhor do Salão.

GIL  MÁRIO EXPÔE NA GALERIA O CAVALETE

O artista feirense Gil Mário caminha por uma estrada silenciosa, por onde não andam carros poluindo a atmosfera com seus motores de explosão e as fábricas não despejam seus detritos químicos. É um mundo à parte longe do vanguardismo e de outros ismos, tão comuns nos dias de hoje. Mas, nem por isto, sua arte deixa de ser atual, pois os movimentos de suas figuras demonstram uma busca constante em combinação com as cores suaves que são preferidas. Diria mesmo que existe uma grande harmonia deste seu mundo silencioso com a arte que ele produz. Consegue bons efeitos superpondo elementos e com transparências ritmadas que elavam o espectador observar cada detalhe numa obra de sua autoria. Os pássaros., principalmente as garças, de elegância invulgar são os mais presentes em, sua obra. Eles se prestam a uma figuração de grande beleza plástica. Mesmo quando trabalha com a figura humana existe um tom muito pessoal de Gil Mário. Ele está expondo na Galeria O cavalete até o próximo dia 30 do corrente ,mês.

MUDANÇA TOTAL NA OBRA DE ABELLEIRA
O artista Abelleira entre duas obras de sua fase onde utilizou sua  nova ferramenta que é a espátula
Aguardem uma mudança radical. Trata-se da nova fase de Abelleira que deixou de lado uma posição confortante de pintar quadros hiper realistas e bem aceitos comercialmente, para trabalhar com espátula. Portanto Abelleira deixou de lado o pincel e o aerógrafo para trabalhar com a espátula que é um instrumentos que exige mais do artista. A pintura limpíssima, detalhista e próxima da fotografia cedeu lugar a uma pintura mais solta, mais expressiva e que exige muita habilidade técnica. Acredito mesmo que se Abelleira continuar trabalhando coma espátula ele vai pegar em pouco tempo todos os macetes desta nova técnica que abraçou.
Tem talento e muita disposição para trabalhar. Sempre está enfocando suas mulheres, onde surgem rostos expressivos ou mesmo detalhes do corpo. O jogo de claro e escuro , entre a sombra e a luz, a definição dos volumes são muito mais difíceis de serem concebidos com o uso da espátula.
Mas Abelleira é um vencedor e vai em frente. Ele está preparando uma nova exposição. Aguardem.

        GRAVURA E DESENHOS DE MARIA ADAIR

Gravuras e Desenhos de Maria Adair estarão expostos a partir do dia 30 deste mês a 10 de outubro sob o título A Grande Viagem, na Galeria Prova do Artista. Explica Adair que são pinturas tecidas de linhas, cores e formas , evocando emoções vividas em pontos específicos da América, Europa e África. No pouso em Marrakech tive que descortinar um visual novo. A  terra  quase nua de vegetação, cheia de calor, seco e brilhante , num panorama quente , exótico e bonito. Foram três meses fora do Brasil e esta experiência do Marrocos encheu meus olhos de brilho, deslumbramento e fascínio. Espetacular a exuberância na arquitetura das formas , na riqueza de concepção e material. A partir disto ao visitar outros lugares despertei interesse para formas específicas. Ai está o ponto de partida para o fazer de agora.
Maria Adair nasceu em Itiruçu,Bahia. Com Licenciatura em Desenho e Plástica pela Universidade Federal da Bahia, desde 1965. Já participou de exposições coletivas na Bahia, Goiás, São Paulo, Paris, Pittsburgh, Iowa City e Nova Iorque. Com 15 mostras individuais no Brasil e nos Estados Unidos, neste país obteve o Mestrado em Arte pela Universidade de Iowa. Seus trabalhos , hoje, encontram-se em coleções nos Estados Unidos, França, Turquia, Panamá, Venezuela e Japão, ressalvando-se deste o que se encontra na Embaixada Brasileira em Washington, D.C. e na sede do Brazilian Cultural Institute, também nesta mesma cidade.