quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

PROJETO NORDESTE AGORA APRESENTADO EM MACEIÓ - 9 DE MAIO DE 1988


JORNAL A TARDE, SALVADOR, SEGUNDA-FEIRA, 9 DE MAIO DE 1988

PROJETO NORDESTE AGORA APRESENTADO EM MACEIÓ

Grupo de artistas que integra o Projeto Nordeste
Dando prosseguimento ao Projeto Nordeste de Artes Plásticas o grupo de artistas formado por Eckenberger, J. Cunha, César Romero, Chico Liberato, Márcia Magno, Sônia Rangel, Murilo, Bel Borba, Antônio Brasileiro, Juarez Paraíso, Washington Falcão e Juraci Dórea está na cidade de Maceió e logo a seguir vai para Recife. O grupo já expôs em Salvador, Aracaju e pretende ainda mostrar os trabalhos em João Pessoa, Natal, Fortaleza e São Luís. As viagens são programadas com debates, exposição e interferências. O projeto vem cumprindo um papel muito importante porque rompe o isolacionismo existente entre os centros produtores de arte do Nordeste.
Por falar em isolamento vale lembrar que não existe em Salvador um movimento, uma cooperativa, ou outra qualquer denominação que possamos dar que motive os produtores de arte a um encontro sistemático. Tudo é feito e realizado isoladamente em cada atelier. Os encontros são esporádicos, ligeiros e fortuitos. Geralmente acontecem durante uma exposição, na hora do coquetel, dos comes e bebes e tudo termina por ali.
Houve uma tentativa de aglutinação quando organizamos a exposição Geração 70, que não teve a pretensão de isolar, ao contrário, visava, através de etapas, englobar os principais produtores de arte. Porém, alguns desentendimentos e vaidades pessoais afloraram de tal sorte que terminei por desistir de correr atrás do trem. É preciso consciência de grupo, é preciso determinação e desprendimento para realizar um trabalho em grupo.
Acredito que o pessoal que integra este Projeto Nordeste leve adiante esta ideia como forma de fortalecer a produção e o futuro mercado de arte baianos.
Este artigo foi feito antes da ida do pessoal para Maceió. Fui convidado a participar da experiência da qual falarei da próxima coluna, mostrando os prós e os contras. Afinal, este é o meu papel como profissional, que vem há vários anos incentivando o mercado de arte baiano.
A exposição do Projeto Nordeste vai acontecer na Galeria Karandashe de 6 a 14 de maio, na Avenida Moreira e Silva, 89, no Centro de Maceió. No Recife a mostra acontecerá no dia 22 de julho a 31 do mesmo mês na Galeria Metropolitana de Arte Aluísio Magalhães, que fica na Rua da Aurora, 265, Boa Vista. O grupo está documentando toas as exposições visando depois um estudo detalhado do que ocorreu para em seguida se tirar as lições. Espero que outros artistas, que não integram este projeto, possam participar ouvindo os relatos, lendo os relatórios e mesmo assistindo aos vídeos.
Se não for feito um trabalho de grupo mais cuidadoso entre os artistas baianos vamos continuar enfraquecidos, e com isto torna-se mais difícil alcançarmos os mercados mais desenvolvidos.
Acabo de ler que no Rio de Janeiro os donos de galerias estão realizando inúmeras reuniões objetivando a criação de uma revista de arte e discutindo vários aspectos desde a produção até a comercialização. Aqui os galeristas ficam a mercê que os artistas batam em suas portas com um trabalho debaixo do braço ou mesmo a contatos telefônicos com artistas já consagrados, querendo expor seus trabalhos. Não existe um trabalho em cima de novos artistas, não existe interesse, porque buscam o lucro imediato. È hora também de aliar o lucro ao importante trabalho cultural que às galerias devem exercer.

PINTOR SERGIPANO TEM BANANEIRA COMO TEMA

J.Inácio mostrando sua arte com as bananeiras
Recentemente estive com o pintor sergipano José Inácio de Oliveira e Silva ou simplesmente J. Inácio, que veio a Salvador trazido pelo colecionador Paulo Emanuel, com o qual fez uma boa amizade. É um artista muito querido no vizinho estado e sua marca fundamental são as bananeiras que ele concebe com grande maestria. É uma figura singular, brincalhão e mesmo com os cabelos alvos ainda teima a ser galanteador. Nasceu em Araú, na comarca de Estância, em 11 de junho de 1911, estando portanto, com 76 anos de idade.
Desde adolescência demonstrava pendor para o desenho e a pintura, tendo recebido em 1930, do então governador de Sergipe, Augusto Maynard, uma bolsa de estudos para se aperfeiçoar em pintura e desenho na Escola de Belas- Artes do Rio de Janeiro, com uma pensão garantida do Estado, enquanto lá estudasse. Foi seu professor o mestre Marques Júnior.
Uma pintura do artista sergipano

Após a conclusão da bolsa, passou J. Inácio cerca de 25 anos no Rio de Janeiro e nesta ocasião fez várias viagens para São Paulo, Bahia e principalmente para Sergipe. Chegou a participar do Grupo Bernadelli composto pelo saudoso José Rescala, Martinho Diário, José Menezes, Edson Motta, Takoaça, Malagoli e ainda freqüentado esporadicamente por Pancetti e Portinari. Eles não se submetiam às formas clássicas da pintura impostas pelos professores da Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro.
O velho J. Inácio com uma
obra recente

Além de pintar J. Inácio gosta de posar de filósofo popular, mas é acima de tudo um andarilho. A idade não conseguiu aplacar o gosto pelo novo. Gosta de elaborar algumas poesias e por muitos anos dedicou-se à literatura de cordel e à caricatura como meios de sobrevivência.
Mas, certamente são suas pinturas enfocando as folhas largas das bananeiras no reino do tropicalismo e as casas de farinha, onde predominam os tons verdes e amarelos fortes  que ele demonstra seu próprio estilo, com grande elegância.
Já fez exposições individuais no Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia e Sergipe. Tem obras no Museu de Belas-Artes do Rio de Janeiro e em condições particulares espalhadas pelo Brasil e até no exterior.
Disse que sua vida é gostosa por fora. “Dentro das minhas estranhas, geme”. Mas acredita que a purificação da alma só acontece através do sofrimento. E, por falar em sofrimento, relembra que quando morou no Rio de Janeiro habitava um humilde barraco e lá teve que sofrer muito para sobreviver. Chegava extenuado depois do dia inteiro de batalha para garantir o mínimo de sobrevivência. Talvez por isto, hoje continua levando uma vida muito simples, sem uma organização profissional maior, que lhe assegure condições melhores. É do tipo imediatista, que vai consumindo o que produz.

ESCULTURA COM UM TOQUE SUTIL DE AGRESSIVIDADE

Ele trabalha quase em silêncio. Vai construindo seus painéis, murais e suas esculturas em madeira, em ferro e até com fibras sintéticas. Seu relacionamento é maior com os arquitetos e não com as galerias, como acontece com a maioria dos artistas. Seu nome é Celso Cunha, que recentemente entregou mais uma escultura, deste vez no Edifício Palácio Itaigara, no bairro do mesmo nome. Explica o artista que sua nova proposta que norteou esta escultura foi dar uma concepção plástica contemporânea. Ele criou zonas de tensão harmônicas, com movimentos que considera sensuais e dotados de uma sutil sugestão de agressividade, resultando numa composição dinâmica e equilibrada.
Pintou a escultura de um vermelho intenso, contrastando com os tons sóbrios dos materiais empregados no revestimento do edifício e a simetria da construção. Com isto Celso Cunha conseguiu uma integração plástica de grande impacto visual e prazeirosa leitura. Ele já tem outros trabalhos em agências do Banco Econômico, em São Paulo, em Salvador, em prédios da Petrobrás, Centro de Convenções e muitos prédios particulares. Trabalha em painéis de madeira desde 1971 e depois de um bom período de profissionalização resolveu estudar Arquitetura. Esta sua nova escultura é um verdadeiro sanduíche de fibra de vidro com estrutura de alumínio e pintada com tinta automotiva.
A escultura tem 3,5m x 4,5m e pesa em torno de 700 quilos.
Vista de certos ângulos a escultura parece uma flor em movimento, noutros destaca-se sua porta rompendo os espaços.Ele confessa que tem vários projetos que deverão ser executados à medida que arranjar espaço para colocar suas obras.