sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

QUATRO ARTISTAS EXPÕEM NO MAM E NA GALERIA 0 CAVALETE - 29 DE FEVEREIRO DE 1988


JORNAL A TARDE, SALVADOR,  SEGUNDA-FEIRA, 29 DE FEVEREIRO DE 1988

QUATRO ARTISTAS EXPÕEM NO MAM E 
NA GALERIA 0 CAVALETE

Aprígio, Dina Oliveira, Leonel Mattos e Brito Velho
Está em Salvador o artista Leonel Mattos, que abre duas exposições simultâneas. Uma, no dia 2, no Museu de Arte Moderna da Bahia, juntamente com os artistas Aprígio, Britto Velho, Dina Oliveira, sendo que serão mostradas cinco obras de cada, medindo 130x100, enquanto a da Galeria O Cavalete será aberta no dia seguinte, com quatro obras de cada.
“O Brasil irmanado de norte a sul, pode? Pode, e muito”, quem afirma é Ivo Zanini, coordenador do Espaço Cultural Cásper Líbero, que faz a apresentação da exposição, que está percorrendo várias cidades brasileiras, num patrocínio do Banco Itaú. Portanto, são quatro pintores de estados diferentes que estão levando suas mensagens aos quatros cantos deste País. Eles nem se conheciam quando foram convidados a expor juntos. Brito Velho é gaúcho, Dina Oliveira paraense, Leonel Mattos o baiano do grupo, e Ricardo Aprígio é pernambucano. Lógico que cada um deles tem sua própria maneira de criar e suas temáticas são também diferentes.
“O homem é a meta na obra de Britto Velho, enquanto não cessa a sua pesquisa em aplicar com rigor, cores fortes nas áreas previamente determinadas. Em seus quadros predomina uma certa atmosfera satírica humorística do ser humano em busca do seu destino maior. Ele monta e desmembra a anatomia em contínua reelaboração, nitidamente de caráter intuitivo.
Nas telas de Dina Oliveira, a sensibilidade formal é o seu maior atributo. A artista paraense consegue retrabalhar o clima amazônico-nordestino com grande fulgor e beleza visual, tanto nas construções bem-estruturadas como na cromática, e tendo surpreendentes efeitos. Trabalho de muita aplicação, com efetivos resultados, a evidenciar uma artista prestes a firmar seu nome nacionalmente.
Obra de Leonel Mattos

Leonel Mattos extravasa na pintura o mundo fértil que corre solto na realidade e na sua imaginação. Figuras com muitos artifícios explodem em suas criativas composições, em que o simbolismo lírico também é uma constante. Cada obra resume uma extensa gama de sutis montagens, a fortalecer o formal e o informal que se conjugam e se interligam.
O pernambucano Ricardo Aprígio, dedicado a uma composição de expressiva imagística, reflete em seus quadros a fantasia de acontecimentos de forma livre e em alguns trabalhos, abstratizante.
Na riqueza de pormenores concentra-se um dos pontos altos da sua obra. Sempre cuidadoso na textura que utiliza para compor as pinturas, o artista já conseguiu marcar a sua obra.
Os quatro expositores com estas obras resumem a contemporaneidade de um setor da pintura brasileira, verdadeiro painel caleidoscópio de um País em transformação, especialmente na abrangência da arte. Que essas mutações não cessem

   ESTE ESPAÇO ESTÁ ABERTO À CERÂMICA

Recebi uma carta da ceramista Sônia Costa reclamando da falta de apoio e da discriminação contra a cerâmica. Diz ela que “ não estou falando das ceramistas mais abastadas, que têm um oleiro para trabalhar”.
Ela se refere àqueles ceramistas que lutam contra toda espécie de discriminação em torno de seu trabalho.
Concordo com a reclamação de Sônia Costa, ela tem razão. Lembra a artista que ao organizarem os salões ou exposições esquecem dos ceramistas, e que não há espaço nas galerias.
Sônia, esta coluna está aberta à você ou a todo e qualquer ceramista que me procurar. Não tenha inibição em me telefonar (estou no jornal sempre a partir das 19 horas) que conversaremos sobre o seu trabalho.
Conheço o processo da cerâmica desde a dificuldade em se conseguir um barro de qualidade, à necessidade de um bom forno para a queima, e tudo mais. Concordo, dá uma bonita matéria e estou disposto e elaborar desde que você e seus amigos entrem em contato comigo.

OSWALDO PINTA EM CABO FRIO SEM ESQUECER 
A BAHIA QUE LHE ACOLHEU

A suavidade é a tônica na obra do sergipano Oswaldo
Nascido na cidade de Lagarto (Sergipe), o pintor Oswaldo, iniciou seus estudos com o artista Florisvaldo Santos. Obteve em Aracaju na Galeria Acauã a  Medalha de Bronze com o quadro Invasão (1966) e o título de Melhor Pintor de Sergipe (1967), com Portas 43.
Em 1968 chega à Bahia, entrando em contato com outros artistas, participando ativamente do movimento artístico e cultural da terra. Como nordestino perseverante, começa a construir seu próprio caminho, evitando atalhos fáceis, com obstinação e sem recuos, em busca da sua identidade criadora.
A Bahia, matéria-prima de beleza natural, foi retratada por Oswaldo, num colorido de sonho e lirismo. As suas manhas são construídas em transparências, com toques sutis de cores quentes, frias e meios-tons, com esmerado rigor e equilíbrio nas suas composições.
Como todo artista, sofre as transmutações da sua realidade existencial, pintando cristos desvinculados da religião, mas integrados num todo universal. Figuras humanas, natureza-morta também incluídas em suas criações, mantendo sempre uma unidade cromática.
Nos quadros de retirantes, vê-se a dramaticidade pungente, as mãos, os pés deformados reforçam o sentido expressionista da composição estrutural, sem cair no apelo panfletário ideológico, mas denunciando uma realidade que deve ser transformada e que a arte serve como suporte interpretativo desta mancha social.
Em 1969, é levado ao Rio de Janeiro por Gustavo de Fana. Conhece em seguida Cabo Frio. A paisagem um toque mágico. A paixão pelo local propicia uma nova fase que transforma e amadurece sua arte. Inicialmente, ainda mantém-se ligado às influências da Bahia, mas aos poucos suas marinhas passam a receber delicados foques de abstrações, sem perder a beleza do seu requinte criador. No seu diálogo com a natureza fala com sentimento, e nos seus quadros passeando no infinito, como flocos de sonhos sem destino, criando uma bela linguagem poética.
Integrado em Cabo Frio, começa a fundir casas, horizontes, mar e outros elementos, numa estrutura mais rígida com pinceladas espessas sem perder o equilíbrio expressionista do produto final.
Oswaldo é um pintor que conseguiu fazer de sua arte uma linguagem amadurecida, construindo com suas próprias mãos um acúmulo de experiências realizadas com os instrumentos da sua criatividade . Conforme disse o crítico de Arte Flávio de Aquino:
“Atualmente, vendo-se a rota que o artista traçou,  podemos ter certeza de que o que ele fizer sempre o fará após lenta elaboração. Em arte, Oswaldo é como um artesão consciencioso, um operário aplicado que coloca, pacientemente, tijolo sobre tijolo até construir uma casa. È este artesão, em cada obra levantada, em cada tela terminada, acrescenta algo de seu, de sua criação poética”.
Sua exposição está aberta permanentemente na Rua Marquês de Monte Santo, 59, AP.204, no Rio Vermelho. (Jorge Mendes).