quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

UM ÍNDIO, UM MULATO E UMA AMERICANA DEIXAM SAUDADES -02 DE MAIO DE 1988


JORNAL A TARDE, SALVADOR, SEGUNDA-FEIRA, 02 DE MAIO DE 1988

UM ÍNDIO, UM MULATO E UMA AMERICANA 
DEIXAM SAUDADES
Isaías batalhou muito pela vida
Três mortes me tocaram de perto.
Eram três pessoas completamente diferenciadas. Isaías Silva, um índio da tribo Timbira, do Maranhão, Carlo Barbosa, um mulato feirense; Lygia Clark, americana. Isaías aqui apareceu mostrando uma pintura simples, como foi sua própria vida, como descendente direto de uma tribo indígena. Traduzia as cores fortes encontradas na natureza e tinha a cidade de Fortaleza como sua base. De lá andava pelo Norte e Nordeste mostrando seus trabalhos onde a flora e a fauna tropical explodiam em suas cores cruas. Era simples no falar, manso, gentil e na tez revelava a sua descendência. Fui surpreendido com sua morte através de um pequeno telegrama, de pouco mais de dez linhas, onde a agência de noticias informava que Isaías morreu de AIDS. Era casado com uma artista cearense e não tive noticias durante sua existência que fosse homossexual. Recentemente fiz uma apresentação, que foi solicitada por ele do Ceará, a qual enviei através dos Correios. E, só agora recebo noticias do Isaías, quando não estava mais aqui.
O artista Carlo Barbosa que morreu de Aids
Carlo Barbosa morreu também de AIDS. Esteve no exterior onde passou um período, e principalmente, no Sul do País onde viveu grande parte do tempo que se dedicou a arte. Nos primeiros contatos com seus conterrâneos, após o retorno parecia magoado e esteve em nossa casa, quando o entrevistei sobre um projeto que ele tinha, de fazer um grande painel com Lucas da Feira, aquela figura  controvertida que teria sido morta pela população depois de praticar vários crimes perversos.
Lygia Clark marcou sua existência pela ousadia. Era uma artista de ponta, de sair na frente com suas formas que deixavam qualquer espectador inquieto. Sua vida ela definia como um processo de continua reconstrução. Em 1963 chegou a abandonar a carreira.Com Hélio Oiticica fez grandes manifestações que hoje fazem parte da história da arte brasileira. Isto aconteceu quando ela retornou de Paris e aqui encontrou um grupo Frente, que tinha partido dos problemas de geometria e da matemática, provenientes da obra de Max Bill. Começou, como uma forma de  expressão muito geométrica- aliás, as formas geométricas são uma marca presente na maioria da sua produção.
Lygia Clark deixa legado

O corpo também sempre motivou a sua arte como como ela acreditasse que a arte precisava de um mote vivo para que fosse compreendida. Sempre havia algum relacionamento de sua obra com as pessoas. Tanto nos trabalhos onde utilizou a terapêutica, como em outros onde os volumes eram desfeitos ao bel prazer do espectador.
Ela declarou em 1980 que gostava de fazer um filme que teria este título. As coisas que acabaram, mas que continuam existindo, e colocaria neste filme os museus, as igrejas e os divãs dos psicanalistas. O certo é que esta visão de Lygia parece se enquadrar com os nossos museus que já morreram e não sabem especialmente os baianos.

A ARQUITETURA FANTÁSTICA DE GAUDI 
SERÁ APRESENTADA AQUI

Sagrada Família, Porta Del Rosário
Antônio Gaudi Y Cornet, nascido em 1852, e um gênio da Arquitetura, cujas obras são exemplos vivos de sua capacidade criativa absolutamente original ao ponto de não ser enquadrada a rigor dentro de tendências ou estilos. Os estudiosos apontam apenas que Gaudi sofreu a retomada da arquitetura medieval, mas o que desejou fazer, e o que fez acima de tudo, foi uma arquitetura personalíssima, em que os edifícios que concebeu assemelham-se a elementos de florestas petrificadas. Uma arquitetura fantástica.
Demonstrou total desinteresse pela tradição arquitetônica de sua época em obras como a Casa de Mila, de Barcelona, e, sem dúvida, é um dos inovadores da arquitetura do século. Sua obra- prima e o celebre Templo Expiatório da Sagrada Família, em Barcelona (1883-1926), Gaudi morreu em 1926 deixando a posteridade obras que inquietam estudiosos e principalmente os arquitetos.
Aqui vemos a grandiosidade de sua arquitetura

Alguns criticam as suas obras pelo antifuncionalismo, porém, ultimamente vem despertando grande interesse pelo clima fantástico de torres que assemelham-se a grandes árvores petrificadas antecipando-se aos grandes arranha-céus, que mais parecem, quando alinhados, florestas de concreto armado.
Para nossa alegria o governo espanhol fará uma grande exposição da obra de Gaudi na Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia em junho próximo, quando teremos oportunidade de conhecer melhor a sua importância como arquiteto. Sabemos que a arquitetura sempre muda seus objetivos de acordo com a própria evolução do homem.
Desenho do arquiteto feito por Opisso

No Egito se prestou para perpetuar a imortalidade dos faraós em Roma para mostrar a grandeza do Império, na Idade Média a aproximação do Reino de Deus, já os barrocos exaltavam a monarquia. Nas democracias os arquitetos buscam assegurar melhores condições de vida. Com isto, surgem discussões ideológicas como a existente a respeito da arquitetura de Oscar Niemeyer que alguns classificam de monumental, sem uma preocupação com o homem, que deve ser seu objetivo básico. Discussões à parte, o que importa é que a arquitetura de Gaudi se aproxima da natureza, que sempre foi o centro de inspiração dos arquitetos no decorrer dos séculos. A geometria com suas formas essenciais como o círculo, linha reta, cubos, planos, triângulos e retângulos são utilizados pelos arquitetos para suas concepções. Só que Gaudi se aproximou mais ainda da natureza produzindo trabalhos que hoje causam espanto com formas mais complexas. Cronologicamente ele estaria no tempo dos estilos ecléticos, como a da art nouveau, porém sua personalidade original volta-se para um estilo pessoal e invulgar.
Do grande livro da natureza extraiu os modelos da geometria, deixando as formas essenciais que tanto são utilizadas pelos seus colegas arquitetos para adotar formas mais ousadas. Os animais e vegetais são utilizados para ornamentar os seus prédios.
Ele estudou alguns anos na Escola de Arquitetura de Barcelona, exatamente de 1870 a 1878, inspirando-se inicialmente na arquitetura espanhola, mas logo depois abandonou e criou novas formas. Precisamente no Templo da Sagrada Família pode mostrar sua personalidade destoante e seus cálculos empíricos que levaram a utilizar colunas inclinadas, arcos parabólicos e outros elementos hiberboloides. O Parque Guel, que construiu de 1900 a 1914 é uma obra importante, mas a que lhe absorveu foi a da Sagrada Família, que não chegou a concluir.