sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

ARCOS DA CONTORNO SERÃO PÓLOS DE ARTE - 8 DE FEVEREIRO DE 1988


JORNAL A TARDE, SALVADOR, SEGUNDA-FEIRA, 8 DE FEVEREIRO DE 1988

      ARCOS DA CONTORNO SERÃO PÓLOS DE ARTE

Mais um projeto na prancheta e nós daqui torcendo pra que dê certo. Trata-se do Projeto Arco-Íris que, em suma, pretende aproveitar os bonitos e relegados arcos da Avenida Contorno em ateliês e oficinas de arte e artesanato. Será, na opinião de seus idealizadores, “um importante espaço”. Com o grande privilégio de descortinar-se a bela baía com seus poucos saveiros, e, na linha do horizonte, as ilhas, principalmente a de Itaparica. Uma bela paisagem, um local privilegiado, mas continuo afirmando de difícil acesso. Para ver de perto os arcos da Contorno eu tive que fazer uma verdadeira viagem. Encontrava-me no Campo da Pólvora e tive que ir até a Rua Chile, descer na Rua Pau da Bandeira, Ladeira da Conceição, fazer o retorno em frente ao prédio da Marinha para, em seguida, tornar a pista que dá acesso ao prédio do Solar do Unhão. A pé, nem pensar!
Seria mais um número da estatística macabra controlada pelos funcionários do Nina e editores de páginas policiais.
Portanto, junto com a realização deste projeto, tem que ser feito um estudo para repensar o acesso áquele espaço. Não basta a instalação de um posto policial, porque inclusive os policiais instalados nos módulos são instruídos para não arrear um centímetros do local. Eles são como verdadeiros robôs que atendem às necessidades a que foram programados, naquele espaço (não o cultural, é claro!)
Ormindo ajudou na recuperação
A idéia de reaproveitar os arcos, em número de sete, é de Zivé Giudice, que está contando com a ajuda do arquiteto Paulo Ormindo. Nesses arcos, mestres irão trabalhar com aprendizes, os quais inclusive devem ser recrutados em ter os filhos dos moradores das favelas circundam o monumento Solar do Unhão, procurando desta forma um envolvimento maior com aquela comunidade.
Estive visitando o local com Zivé e realmente fiquei a imaginar aquele espaço ocupado por oficinas, por um pequeno bar que servisse de encontros dos artistas baianos, com pequenas apresentações de jovens músicos, leitura de poesias, enfim um espaço aberto às manifestações emergentes.
Para isto lembrei-me da necessidade de uma pessoa que tivesse a capacidade de envolver esta gente num projeto deste porte e que ao mesmo tempo atraísse permanentemente público para o local. Confesso que não me surgiu ninguém. É um desafio. Também é um grande desafio este projeto de Zivé e como estamos num país onde a tônica é a falta de apoio à cultura e a descontinuidade administrativa, confesso que estou com meu desconfiômetro ligado.
pretende  ainda dar uma abertura maior às oficinas de gravura, que já vinham funcionando no Solar do Unhão, sob direção de Juarez Paraíso, mas que no meu entender pecou por fechar-se num grupo que se abre e fecha em torno do mestre. É preciso que as oficinas sejam um pólo aglutinador de tendências variadas e, acima de tudo, que sejam abertas a ponto de sempre atrair o interesse de novos artistas. As oficinas poderiam ser um instrumento importante de formação de bons impressores e uma espécie de cooperativa poderia ser criada para reproduzir gravuras de jovens artistas e comercializá-las.
Está ainda no programa a criação de uma oficina de cenografia, uma atividade onde já militaram grandes artistas nacionais e estrangeiros.
Núcleo
Porém, a retomada dos salões e da Bienal de Artes Plásticas da Bahia será realmente o ponto alto da administração da Secretaria da Cultura e do atual chefe de Departamento de Artes Plásticas, Zivé Giudice, se conseguirem concretizar. Estou sempre colocando a condição se realizar, porque sempre estou atento para futuras cobranças. Este é o papel do colunista. Tenho o compromisso com os leitores, e, principalmente, com minha responsabilidade como profissional. Portanto, divulgo com toda a abertura e alegria, mas, cobro com a mesma desenvoltura a sinceridade.
Zivé reconhece as dificuldades financeiras que ora atravessa este estado e sabe das limitações orçamentárias para os eventos culturais da Bahia.
Porém, acredita que vai realizar tudo isto e, para tanto, vem mantendo contato com algumas grandes empresas sediadas no estado para que ajudem às manifestações artísticas utilizando a Lei Sarney.
No projeto, entre as justificativas de sua execução está inscrito que “os espaços existentes em Salvador não parecem suficientes para abrigar a demanda de espetáculos e eventos, sobretudo aqueles de caráter experimental. Daí a proposta: se faz necessária a criação de uma estrutura mínima capaz de assegurar as manifestações comprometidas com as práticas renovadoras dos conceitos. É preocupação desse Centro de Arte Plásticas do Solar do Unhão” criar espaços para apoio das manifestações citadas.
Finalmente, o projeto prevê a instalação de serviços de apoio, com cantina e choparia, como falei acima
Exposição
Porém, pouca gente sabe que uma boa exposição está montadas nas instalações do Solar do Unhão. Trata-se de uma exposição que objetiva mostrar a produção contemporânea baiana. Coisa pra turista ver. E baiano também. Os que aparecem para visitar aquele monumento (Solar do Unhão) ou em busca do restaurante que funciona no local, encontra a exposição montada. Mas, não existe um catálogo ou mesmo um impresso qualquer que sirva de suporte, que fale um pouco sobre cada um dos expositores, para que o visitante passe a reconhecer a obra e o autor. Por que não tem catálogo? Indaguei a Zivè, que francamente me respondeu que não houve verba para confeccioná-lo.
Portanto, mesmos os baianos que visitam a exposição não conhecem  bem vários artistas que estão expondo.
Porém, vamos acreditar a fazer figa, para que tudo dê certo, porque só temos a lucrar e a cidade está precisando de espaços alternativos.

A PALAVRA DE ZIVÉ

Os anos 60 representaram para as Artes Plásticas na Bahia o último grande momento da efervescência.
A cassação das bienais baianas interrompeu um processo de consolidação da Bahia como centro de reflexão da produção das artes plásticas.
A Bahia apresentava-se como uma proposta de descentralização das decisões e discussões teóricas na medida em que as Bienais se incorporam no calendário nacional de Artes Plásticas e despertavam o interesse de artistas de outros centros.
Zivé chegou  cheio de ideias
A responsabilidade de confeccionar evento de tamanha importância conferia à comunidade dos artistas, críticos e intelectuais locais a oportunidade da discussão e do debate sistemático em torno de uma idéia. Era precioso, tanto do ponto de vista organizacional como da participação da produção local, uma proposta capaz de assegurar para a Bahia a sede definitiva das Bienais nacionais, visto que São Paulo reivindicava o direito de sediá-las.
As Bienais da Bahia não tiveram só a importância de espetáculo visual, elas suscitavam o debate do ponto de vista conceitual e formal, transferiram informações, antes do patrimônio de grupos dominadores e influíram nos meios de produção. E, na produção, estimularam o exercício da  teorização e da critica, contribuíram para  a ruptura do pensamento ainda afeito a valores acadêmicos e revelaram a um mercado de conceitos ortodoxos e extemporâneos, verdades de uma produção contemporânea.
Todos esses processos fora interrompido com a instalação dos governos de força que, através de instrumentos repressivos como o Al-5, impediram a livre expressão da sociedade no campo da ciência, da política e das artes. Essa situação perdurou nos anos subsequentes. A Bahia sofria de uma paralisia, no que se refere ás Artes Plásticas. As instituições limitavam-se à organização de eventos que reproduziam o ideal do sistema.
A Escola de Belas Artes era, por vezes, uma exceção. Timidamente, fazia um ou outro Salão de efeitos domésticos, mais importantes. Artistas de uma geração surgida na década de 70 e alguns outros de gerações anteriores formavam a resistência á situação, com propostas de trabalhos comprometidos com o novo, mas ainda longe de devolver à Bahia o conceito perdido.
Reverter tal situação é o compromisso assumido pelo departamento de Artes Plásticas da Fundação Cultural do Estado da Bahia perante a comunidade dos artistas plásticos e de toda a sociedade. Para tanto, entendemos necessário a retomada das Bienais, a implantação de um Salão anual baiano, a promoção do intercâmbio com outros centros, como forma de trocar experiências e idéias, do fomento aos projetos aos projetos de pesquisas em artes plásticas e a implantação do Centro de Artes Plásticas.
Observação - As fotos de Paulo Ormindo e de Zié Giiudice são do Google e atuais ( 2013)