domingo, 17 de fevereiro de 2013

TRINTA DESENHOS DE AILTON LIMA NA GALERIA CAÑIZARES - 14 DE NOVEMBRO DE 1988


JORNAL A TARDE SEGUNDA-FEIRA, 14 DE NOVEMBRO DE 1988

TRINTA DESENHOS DE AILTON LIMA NA 
Vejam a plasticidade da folha de bananeira
neste desenho de Ailton Lima
GALERIA CAÑIZARES
Trinta desenhos em pastel-seco serão mostrados a partir do próximo dia 25 na Galeria Cañizares, da Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia, de autoria do professor Ailton Lima. Há 16 anos que o artista leciona o curso de Licenciatura em Desenho e Plástica. Ele tem mestrado em Arte/Educação nos Estados Unidos. Natural de Estância, no vizinho estado de Sergipe Ailton é de origem rural, onde morou com sua família até a idade adulta numa propriedade chamada Usina Cedro, secular fazenda de cana-de-açúcar.
A técnica dos trabalhos que vai apresentar-pastel-seco-é de origem italiana de fins do século XVI, mas foi com os impressionistas que esta técnica ganhou destaque entre os artistas. Tem uma grande vantagem sobre outras técnicas porque a ausência de aglutinantes permite que as cores utilizadas sejam mantidas com toda sua intensidade durante longos períodos.
Ailton Lima é um dos poucos artistas que gosta de falar do seu trabalho. Durante a exposição estará lá para prestar informações didáticas sobre o uso dessa técnica centenária. Seus trabalhos são atualmente facilmente identificados, principalmente pelo uso de um verde suave, a base de sua expressão. A figura humana, pombos e a vegetação surgem em composições suaves e equilibradas. É quase uma simbologia com uma linguagem ecológica forte. Diria que Ailton é protagonista de uma sociedade onde se respeita a natureza.Tem momentos que lembro da falta de sentimento ecológico de pessoas que nos cercam, as quais continuam destruindo as matas, caçando irresponsavelmente os animais selvagens, que sinto Ailton como uma peça rara, um  elemento que se assemelha a um Don Quixote tal a quantidade de insensatos em sua volta. Mas espero que ele continue com esta sua temática suave e, por que não dizer, romântica, que agrada aos olhos e transporta uma paz espiritual.
"Não é à toa que sua exposição chama-se Geração Sonhos ...Diz Ailton, continuo pintando uma temática suave, romântica, pautada numa linha dorsal neo expressionista, mas, acima de tudo, usando uma linguagem pictórica nada complicada. Por isso as pessoas têm facilidade em decodificá-la, o que lhes dá uma chance de maior emoção... O conjunto de trabalhos versa basicamente sobre a figura humana; uma figura humana que está ali assumindo a posição de um símbolo, modelada em verde, traduzindo o ser jovem, cercado ainda em seu pequeno mundo maior, que poderia ser bonito e acolhedor, mas ás vezes se torna meio assustador. Gosto de usar formas ricas em simbolismo, pois elas me ajudam a criar no quadro o clima propício para o viajar com o pensamento para além das fronteiras estabelecidas pelas limitações do seu espaço físico, gerando sonhos... A proposta é um mergulhar introspectivo, lírico e romântico nas interioridades existenciais de cada símbolo.Gosto da capacidade expressiva mistério e sensualidade, suavidade e dramaticidade - uma certa magia. Essa é a minha pretensão ao pintar."

  MURALISMO BRASILEIRO É TRATADO NUM NOVO LIVRO

Mural de Clóvis Graciano, num edifício, em Higienópolis, São Paulo.Foto Dado Leal




O livro Artistas do Muralismo Brasileiro, que a Volkswagen do Brasil lança no dia 23 de novembro, é também uma homenagem a um dos nomes mais importantes da arte do Brasil: Clóvis Graciano, falecido em junho, que deixou mais de uma centena de murais em São Paulo. A capa do livro reproduz um de seus trabalhos na Avenida Rubem Berta, em azulejo, que resiste à poluição de uma das principais vilas de tráfego da cidade. Para Graciano, o mural era a forma mais democrática de compartilhar a arte.
Ao publicar um livro pioneiro sobre muralismo brasileiro, a empresa procura registrar e valorizar essa manifestação artística sujeita a destruição pelo tempo e pela omissão. A obra não pretende ser definitiva nem enciclopédica, mas abre espaço para 17 artistas de diferentes gerações e tendências, a partir de Cândido Portinari. Muito deles, como João Câmara, Athos Bulcão, Carybé, Miguel dos Santos, Mário Gruber e Cláudio Tozzi, estarão reunidos no dia do lançamento um momento raro.

OBRA NA RUA

Artistas do Muralismo Brasileiro é o prosseguimento de uma tradição iniciada há sete anos, de registro, memória e divulgação de arte brasileira. Acreditamos que uma das obrigações da iniciativa privada é colaborar, de todas as maneiras possíveis, para o aprimoramento cultura e a divulgação do melhor de nossa produção artística, diz Wolfgang Sauer, presidente da Autolatina, holding que reúne Volkswagen e Ford.
O argentino-baiano Hector Júlio Paride Bernabó-Carybé-77, considera a publicação da empresa necessária e importante: “Desperta a atenção e o entusiasmo pelo mural, valorizando-o”. Foi essa a intenção do crítico de arte Jacob Klintowitz, 44, ao sugerir o tema e selecionar artistas e obras para as 240 páginas do livro: O mural representa uma resposta do artista brasileiro à questão do espaço urbano. Ou como diz o pintor e escultor Miguel dos Santos, 43, é a obra que todo artista gostaria de fazer- a obra na rua, um grande espelho onde o povo se vê.
Não foi por acaso que o artista plástico Mário Gluber, 60 chamou o povo para participar, com sugestões, da elaboração de seu mural no metrô da Sé, inaugurado em janeiro de 1987, depois de seis anos de trabalho. Essa obra está registrada no livro “Como sempre esteve, o amanhã está em nossas mãos nome sugerido por um estudante. Gluber preocupa-se com a preservação do mural no Brasil. E tem motivos para isso: de um painel que fez para um grupo escolar de Santos, em 1965, só restam vestígios.
TEMA ATUAL
Parte do mural Orixás, de Carybé,que ficava no TCA

Além de registrar o mural nas estações do metrô de São Paulo -Mano Gluber e Cláudio Tozzi, ambos na Sé -, Artistas do Muralismo Brasileiro documenta também painéis em clubes e igrejas, como os de Maria Beromi em concreto mostrado; em hospitais e museus, como os de Francisco Brennand; em órgãos públicos, como os de Emanuel Araújo e Lula Cardoso Ayres.
O livro reproduz ainda a obra “Inconfidência Mineira”, do paraibano João Câmara, que está no Memorial JK. Mural que o artista considera como uma pintura para jovens: Algo que sublinha nossa memória solidária e tem o impulso da esperança.
De Athos Bulcão, Klintowitz foi buscar, em Brasília, o maior mural da história do País: o jogo de volumes da parede externa do Teatro Nacional, de concreto em alto-relevo, tão integrado à paisagem urbana a ponto de poucos de darem conta de que se trata de um mural.
Para o artista, o livro é oportuno:
“Trata de assunto atual, a arte na arquitetura, diz

OS CRISTOS DE TATI MORENO ESTÃO NA  GALERIA ÉPOCA

Depois de passar uma boa temporada venerando os orixás do candomblé, o escultor Tati Moreno resolveu voltar sua atenção para a figura do Cristo e introduzir mais um elemento como matéria-prima de sua arte, a madeira. Com esta sua nova visão plástica surgiram obras de grande significado e, também, carregadas de uma carga de religiosidade principalmente quando pensamos no mistério da cruz que o Cristianismo, durante séculos, vem pregando em suas catacumbas, igrejas e, mais recentemente, em sedes de entidades associativas dos bairros periféricos das grandes cidades.
Aí surge a dualidade entre o bem e o mal. Tema sempre tratado no decorre dos séculos e que podemos observar dos museus europeus e americanos, onde existem guardados e preservados tesouros pictóricos retratando o Cristo e cenas de sua passagem por esta terra.
São os 12 grandes cristos e 11 menores onde Tati Moreno surpreende a todos àqueles que vem acompanhando o seu trabalho. Vejo a introdução da madeira como um elemento muito positivo em sua obra e, também, o respeito a própria tradição do Cristianismo onde aprendemos que Jesus carregou uma pesada cruz em seus ombros percorrendo as ruas íngremes de Jerusalém para depois ser crucificado. Esta sua preocupação, intuitiva ou não, serva para mostrar que o mistério da cruz é um dado importante na própria formação do artista. Também nos apresenta cristos com um toque de modernidade, fugindo dos padrões estabelecidos. Tati ousou, ao voltar os seus olhos para uma temática eminentemente religiosa, forte, mística.