domingo, 17 de fevereiro de 2013

RESTAURANDO A VERDADE ACERCA DE DOIS SALÕES - 21 DE NOVEMBRO DE 1988


JORNAL A TARDE, SALVADOR, SEGUNDA-FEIRA, 21 DE NOVEMBRO DE 1988

RESTAURANDO A VERDADE ACERCA DE DOIS SALÕES
O Salão Universitário está
no TCA e bem representado
com bons trabalhos
Não é verdade que 40% dos participantes selecionados no I Salão Baiano de Artes Plásticas foram convidados de fora da Bahia e esses mesmos foram premiados em 70% dos prêmios. Não é verdade que artistas antes não selecionados foram convidados após a divulgação oficial do resultado.
Não conheço ex-comentarista de futebol que tenha se tornado crítico de arte e, se isto acontecesse, não seria demitido porque por gostar de futebol não quer dizer que não possa entender de arte.
Este é um preconceito abominável. O Salão não é contraditório. Contraditório, primitivo e reacionário é um manifesto anônimo onde seus autores escondem-se por trás de um palavreado distorcido e panfletário.
Fico imaginando como as pessoas são capazes de não aceitar uma crítica séria, feita com cuidado, com critério, por pessoas que há anos acompanham e estudam os mecanismos da arte em todo o mundo. Fico imaginando o ego vaidoso que não aceita discordância. Tenho certeza que essas pessoas, que não conseguem despir-se dos falsos ou auto-elogios jamais vão realizar um trabalho de arte apreciável. Realmente selecionamos o que achamos de melhor. Pessoalmente, achei que uns poucos recusados poderiam estar incluídos no Salão.Mas fui voto vencido, apenas um, entre cinco jurados, e aceitei tranquilamente a decisão da maioria, porque tenho espírito democrático.
Quanto ao tempo de 20 horas para apreciar pouco mais de oitocentas obras, posso dizer com toda tranqüilidade que muitas das obras recusadas não resistiam a um olhar, porque na verdade são ruins, e não resistem a qualquer seleção, nem mesmo de um galerista preocupado em agradar ou ganhar um pouco de dinheiro.
Tanto o I Salão Baiano de Artes Plásticas quanto o Salão Universitário de Artes Visuais, este ainda aberto no foyer do Teatro Castro Alves, demonstram a pujança da arte feita na Bahia. Lá estão o que foi apresentado de melhor para avaliação das comissões julgadoras. Esta estória de manifesto e protestos já é muito batida. É reclamação de quem perdeu e não aceita perder. É choro de gente que não realiza bem o seu trabalho e quer justificar ou tentar justificar o seu insucesso.
Quanto aos suportes, mal utilizados, posso assegurar que o jornalista é mais bem informado do que os anônimos. Aliás, asseguro que o jornalista é bem informado, por exigência da sua profissão.
Posso revelar que o jornalista tem acesso a publicações com muito mais rapidez e freqüência do que pessoas que iniciam a sua carreira e iniciam mal, escondidas num panfleto.
Também querer centralizar grosserias contra os membros dos júris, que residem aqui, é uma atitude primitiva, reacionária e colonial. O panfleto, travestido de manifesto, não suporta uma simples olhadela. Aliás, está no mesmo nível da arte de seus autores. Ruim.

SANTE SCALDAFERRI COMEMORA 30 ANOS DE ARTE COM EXPOSIÇÃO EM SÃO PAULO
A obra de Sante é moderna e não
deixa o espectador apático.

Durante um mês o santeiro Scaldaferri estará mostrando seus últimos trabalhos e especialmente os 30 anos de pesquisa e dedicação à arte popular nordestina. Afirmo com segurança que entre os artistas de sua geração é o que ousa. Está sempre inconformado e procurando introduzir na sua obra novos elementos, procurando novas formas de expressão utilizando a mesma temática.
A exposição que realiza na capital paulista desde o dia 17 de dezembro, na Galeria Choice, é muito importante porque é mais uma oportunidade que ele tem de mostrar o que está fazendo em outro mercado. Com sua linguagem contemporânea e universal certamente vai conseguir passar com certa tranqüilidade as mensagens inseridas em sua obra mítica e expressiva.
A apropriação que faz dos ex-votos é determinante na medida em que a religiosidade nordestina está presente, mesmo quando o artista consegue interferir de forma criativa. É hora dos paulistas, cariocas, gaúchos, enfim dos brasileiros darem uma olhada para dentro deste país onde também se faz uma arte forte e importante. No catálogo de apresentação desta sua exposição o critico Carlos Von Schmidt assume também uma postura de defesa da arte feita no Brasil diz ele: “Enquanto no eixo São Paulo-Rio a maioria dos artistas preocupa-se com o quintal alheio, especialmente de Nova-Iorque, Kassel, Sante em Salvador olha em seu entorno com a curiosidade de um menino descobrindo o mundo.
Se não soubesse ver, dificilmente saberia encontrar. Á maneira de Picasso, Sante não procura, acha.
Logo por trás dessa apropriação existe todo um discurso erudito, pois Sante tem formação acadêmica, tem informações que poderiam determinar que fizesse uma arte de vanguarda, no sentido de questionamento do estabelecido.
Mas, ele prefere uma arte criativa fincada nas raízes fortes que o prendem nesta Bahia mística e sensual.
Vejo agora a introdução de varas, material muito importante na vida dos nordestinos que utilizam para fazer suas moradias, esticar peles de animais que matam para garantir sua sobrevivência, para fazer cercas, vários utensílios domésticos. As varas surgem funcionando como molduras e também para delimitar espaços numa mesma tela. Isto é uma demonstração da sua busca constante em utilizar o óbvio, o que vemos e deixamos passar despercebidos.
se alguém merece uma manifestação pública de reconhecimento pela sua obra e dedicação à arte na Bahia seu nome è Sante Scaldaferri.
Um batalhador incansável, uma pessoa muitas vezes incompreendida e até recentemente injustiçada pela vaidade ou talvez pela insensibilidade do administrador que chega e não sabe ver os indivíduos Omo pessoas, e sim como números e serem preenchidos ou descartados. Pode até que seja a sua cara de profeta nordestino, de fala mansa, pausada, e barba quase toda branca a razão de despertar alguma inquietação entre os não crentes.
Porém, Sante na sua pregação levando como estandarte os seus ex-votos que acredito é a própria interpretação da sua imagem, retratada em madeira ou barro. Esta sua capacidade de juntar sua formação erudita com a arte popular nos dá uma lição de vida e de grande simplicidade plástica. Ela não reflete apenas o drama da minha gente do Nordeste, mas também uma mistura de ingenuidade e sabedoria. Coisas que a princípio me parecem distantes ou contrastantes, mas que convivem com a sua arte, possibilitando interpretações as mais variadas.
É um profissional competente e cuidadoso.Minucioso, até. E agora para minha alegria ele surge com um catálogo que tem a marca  dessas qualidades. Acompanhei de perto o seu empenho para que esta data tivesse um elemento que ele pudesse reunir um pouco da sua história, um pouco da sua trajetória de muitas paradas, semelhantes a uma verdadeira via crucis nordestina, de promessas e mais promessas, de ilusões desfeitas, e por que não dizer até de momentos de desilusões. Graças à Petrobras e à Bahiatursa ai está o catálogo que tem idealização gráfica e fotografias e ainda tradução para o inglês de Michael Lee Wanner, produção gráfica Edson Calmon, artefinal de Antônio Lobo e tradução para o italiano de Giovani Narcisi. Portanto, é um catálogo em três línguas que certamente servirá em muito para melhor compreensão no exterior da obra de Sante Scaldaferri

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CARLOS RODRIGUES SELECIONADO

Uma das telas selecionadas para
o Salão pernambucano
Com as obras Dados da Memória 1,2 e 3, na realidade três telas independentes , de 1,37m X 1,15 m cada, o artista plástico baiano Carlos Rodrigues está representando a Bahia pelo segundo ano consecutivo no Salão de Arte Contemporânea de Pernambuco, edição 88. Este ano entrando já como profissional, Carlos Rodrigues teve suas obras examinadas por uma Comissão de Seleção  composta pelo crítico Márcio Sampaio, de belo Horizonte,e pelos artistas plásticos José Cláudio, Plínio Palhano, Marcos Cordeiro e Sérgio Lemos.
Em 1987, Carlos Rodrigues foi o único pintor baiano a participar do Salão, com a obra Pausa para Descansar, em meio a um total de 109 artistas de todos os cantos do país. Carlos Rodrigues pinta desde 1973 e já participou , entre outros eventos, da I Mostra de Artistas Publicitários e de uma coletiva no Museu de Arte da Bahia; Salão de Arte Contemporânea de Pernambuco, edição 1887, coletiva no foyer do Teatro Castro Alves - com o Grupo Interferência, pintou diversos murais nas rus de Salvador e foi, recentemente, selecionado para o I Salão Baiano de Artes Plásticas, tendo seu quadro recebido o Prêmio Referência Especial.
A pintura de Carlos Rodrigues é caracterizada por exuberante criatividade e a utilização de intenso colorido. Ele se confessa um eterno pesquisador em busca sempre do mais criativo e pinta sem cessar, pois acredita na máxima de Picasso, que dizia ser o seu trabalho " 90% transpiração e 10% inspiração".
Carlos Rodrigues trabalha, em Salvador nos eu ateliê, localizado na rua Ceará, no bairro da Pituba, onde atualmente, produz uma série de trabalhos com vistas à exposição individual que realizará no próximo ano, na Galeria O Cavalete.