quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A ARTE E O PODER - 10 DE OUTUBRO DE 1983.

JORNAL A TARDE, SALVADOR, 10 DE OUTUBRO DE 1983

                    A ARTE E O PODER

Tenho lido e meditado sobre a relação arte e poder, a acompanhado os brados de independência de muitos artistas de vanguarda ou não. Em todos esses brados sempre parece uma ponta de reclamação de que o Governo não está ajudando, que o governo não incentiva ou que o governo não se preocupa com a cultura. Na realidade, é uma reclamação que rompe o tempo e pela característica reformadora e inconformista do artista isto vai continuar sendo martelado. Mas quando observo os vanguardistas querendo romper os cânones preestabelecidos, e uns até contestando ou pedindo a mudança de estruturas, não consigo entender a atitude paradoxal de pedir ajuda ao Estado que estão contra.
E isto acontece sob um manto de independência cultural e consciência política. O que se apresenta neste quadro, são pinceladas desconexas e que só agradam aos ingênuos e aqueles que não acompanham toda a trajetória do movimento de arte no mundo.
O Estado, como estrutura de poder, sempre canaliza suas potencialidades para campos onde pelo menos tenha uma resposta positiva, ou, melhor dizendo, a seu favor, porque não é lógico que os dirigentes ou mantenedores do sistema venham financiar movimentos contra sua própria sobrevivência. Aí seria mais paradoxal. No entanto, é isto que reclamam, muitos artistas que contestam as estruturas do poder, querendo que este mesmo poder financie suas ideologias que sejam de direita ou esquerda, na variedade de ismos que existem por aí.
Não podemos esquecer que os consumidores de arte, em sua grande maioria, são formados da classe mais favorecida das sociedades. Quando pensamos nos clássicos lembramos, de imediato dos grandes mecenas que foram os reis, os papas e os grandes negociantes da época.
Estes incentivavam e assim dispunham do que existe de mais importante na produção de arte. E os Médices tiveram um papel muito significativo nesta relação íntima entre o poder e a arte. Hoje, em menor escala, pela própria diversificação das sociedades modernas, esta relação ainda existe através dos organismos oficiais e privados que incentivam as artes e, evidente, são os beneficiados. Infelizmente, isto tem determinado quase uma linha imaginária que separa a arte produzida pelos artistas engajados neste processo e a arte popular produzida informalmente pelo povo sem obedecer a qualquer norma estética e outros elementos que são transmitidos de geração a geração, através dos mestres e das escolas de arte espalhadas por todo o mundo.
Quando olhamos os artistas que trabalham com obras monumentais, aí a relação com o poder tende a aumentar quer seja com o poder do Estado ou com o poder econômico, no caso dos regimes capitalistas. Portanto, não vejo esta independência com a mesma clareza de alguns que bradam contra os ventos como um Dom Quixote montado num cavalo de ferro. O que vejo é a necessidade de abandonar os pedestais já corroídos pelo tempo e olhar o que se passa à sua vida.
Em todos os regimes esta relação entre arte e poder sempre vai existir. Nos regimes de força socialistas ou comunistas, são estabelecidos mecanismos de ação e ditado o que pode ou não ser feito, o que deve ou não ser criado. Nos regimes capitalistas o que determina é o mercado tão reclamado e tão procurado por aqueles que desejam sobreviver na produção da arte.
Ao crítico cabe clarear e mostrar o que realmente está acontecendo. Dizer, mesmo, que não agrade aos ajustados e desajustados dentro desta relação arte e poder que sua independência é muito relativa. O que precisamos é continuar criando livremente e através da própria qualidade do trabalho ser reconhecido e procurado espontaneamente. Trabalhar sob encomenda ou mesmo sugerir coisas às vezes revela um comprometimento bem maior.
Não cabe ao crítico ditar normas de comportamento, e, sim, falar sobre o mercado dentro de toda sua abrangência.
Na atividade jornalística, muitas vezes no calor de uma entrevista, o repórter destaca declarações bombásticas, tidas pelos ingênuos como geniais. Mas, no fundo, nada revelam de geniais. São emocionais e desprovidas de um maior conteúdo quando as analisamos demoradamente. Está, portanto aberta a discussão sobre a relação arte e poder e estou disposto a ouvir sugestões para que possamos entender melhor a produção de arte neste país, que tropeça entre as exigências do FMI e a busca incansável de modelos fabricados em série, nas avenidas das grandes capitais, sob as luzes desgastadas das vítimas do consumo.



OS GESTOS DE SÉRGIO RABINOVITZ SERÃO MOSTRADOS 
NA GALERIA MAB
Após três anos sem expor em salvador, Sérgio Rabinovitz mostrará, de 14 a 31 deste mês, na MAB Galeria de Arte, Rua Guanabara 187, Pituba, suas mais novas pinturas e desenhos, caracterizados na superfície da tela ou do papel por uma tônica fundamental: a emoção.
“Acredito numa pintura espontânea, gestual, que traduza o ritmo e a velocidade de nosso tempo e de nossa vida. A emoção de viver expressa na emoção de pintar. É o gesto acompanhado e traduzindo a própria dinâmica da vida e a intensidade de nossos mais puros sentimentos. O artista tem de traduzir à emoção de seu tempo”.
Sérgio Rabinovitz é pintor, gravador e desenhista, com bacharelado em artes plásticas pela Cooper Union For The Advancement Of Science and Art, em New York.
Já fez exposições individuais em Salvador (Galeria ACBEU, 1975; Museu de Arte Moderna, 1979; Museu de Arte,1980), São Paulo (Museu de Arte, 1980; Galeria Paulo Figueiredo, 1981; Galeria Arte Sobre Papel, 1982); e New York (Houghton Gallery, 1978).
Entre as coletivas, sobressai a “International Graphics 77”, no Alternative Center For The Arts, em New York; a “Variations 77”, na Harkness House Gallery, em New York, o IV Salão Nacional de Artes Plásticas, no Rio de Janeiro, em 1981; e a III Mostra do Desenho Brasileiro, em Curitiba, 1981, onde é um dos vencedores, destacando-se como um dos melhores desenhistas brasileiros. Seus trabalhos podem ser encontrados em coleções como a da Davison Print Collection, Ewsleyan University, USA; Museu de Arte Moderna da Bahia; Fundação Cooper Union, New York, USA; e Window South Collection, Califórnia, USA.
Iniciando autodidatamente seu aprendizado, estimulado por Calazans Neto, Sérgio Rabinovitz criou suas primeiras gravuras. Quando do começo da década de setenta, passa a trabalhar no atelier do escultor Mário Cravo Jr., fazendo uso do equipamento ali existente para a prática da gravura. É durante este período que vem a desenvolver um extenso material em xilogravuras, despertando a atenção sobre o seu trabalho, e disto resultando na nomeação para uma bolsa de estudo em arte, nos Estados Unidos, patrocinada pelo Instituto Internacional de Educação e Comissão Fullbright.
Com a viagem para os Estados Unidos em 1975, onde estuda na Universidade de Wesleyan, em Connecticut, e na Cooper Union Arts School, graduando-se, e sendo aluno de Hans Haacke e Krishna Reddy, mantém, uma intensa atividade criativa e profissional, além de prosseguir suas pesquisas nas mais diversas maneiras de gravuras, desenvolvendo extensamente seu vocabulário gestual em desenho e pintura, 
 a volta para a Bahia, sua terra natal, as pinturas adquirem grande porte, partindo da linha gestual e caligrafia, que são, pode-se dizer, a sua marca registrada.

As técnicas, bem variadas, vão da direta, de transferência de pintura, sempre procurando dar uma forma  à textura. Às cores, substancialmente puras, explodem diante dos olhos, sem uma procura de embelezamento, mas como um elemento ativo de toda a construção. Quanto aos desenhos, imediatos, instantâneos, integram-se ao espaço do papel, numa forma de registrar sua vivência, desenvolvidos pela tensão dos signos.
É um mundo da pintura, um mundo dentro da pintura, um universo da pintura, com esta traduzindo a vida e o viver, focando o espectador, ativamente, a se posicionar com um relacionamento direto, no ressaltar abertamente da dimensão e da cor, numa tradução do mundo e dos nossos sentimentos sobre este, lembrando a cada momento da-a-própria-ação do homem sobre a natureza e dos dois sobre os muros, rochas e paredes,num trampolim para o sonho e a imaginação.

DUAS OPINIÕES

Mário Cravo Neto e Belchior, dois artistas de agora, falam sobre o trabalho de Sérgio Rabinovitz, e mostram por que este é considerado um dos mais versáteis e atuantes representantes da mais nova geração de artistas brasileiros.
De Mário Cravo Neto: “No desenvolvimento do trabalho de Sérgio Rabinovitz, venho observando a procura e do domínio da forma, ao invés de deixa-la perder-se em nuanças e texturas. Traços caligráficos, símbolos visuais de uma intensa claridade definem a forma de expressão e comunicação. O uso da cor no seu trabalho acentua e separa os elementos primordiais no campo visual. A simbologia encontrada por Sérgio traz ao espectador, tão quanto ao artista, uma foram de prazer e descanso, mostrando-nos como devemos aprender a ler e interpretar nossos símbolos. Pertence a ele essa procura de contemporaneidade”.
De Belchior: “Em Sérgio, o presente pinta a cada gesto, aquele presente que só se pode apreender com a liberdade, a espontaneidade, a naturalidade do olhar realmente descondicionado das convenções que impedem o livre trânsito e o livre gozo da pintura como prática de depuramento e elevação da vida dos homens”.

                  A ARTE PLUMÁRIA

A exposição “Arte Jovem na Alemanha”, que pode ser vista atualmente na Galeria Nacional de Berlim, dá a jovens artistas, que já receberam vários prêmios de incentivo, a oportunidade de apresentarem seus trabalhos a um publico mais amplo.
Este arranjo de penas, que se abre mecanicamente nun círculo, é uma contribuição de Rebecca Horn. A artista, de 35 anos de idade, que já se tornou conhecida em 1977, na “Documenta” de Kassel (República Federal da Alemanha), estudou desenho e escultura na Academia de Hamburgo. Ambos ainda desempenham um papel nas suas criações atuais, embora ela se tenha decidido por materiais leves como poliéster, tecido e pernas. Seus objetos não são para serem vistos como “esculturas” soltas, mas têm seu sentido na sua utilização. Só assim é possível notar os pormenores, as perspectivas especiais, os ritmos e os efeitos de cor dos objetos.