quinta-feira, 11 de outubro de 2012

QUATRO ARTISTAS BAIANOS REUNIDOS NA MAB GALERIA


JORNAL A TARDE SALVADOR, TERÇA-FEIRA, 21 DE NOVEMBRO DE 1983

QUATRO ARTISTAS BAIANOS REUNIDOS NA MAB GALERIA

     Obra de Juraci Dórea                 Trabalho de Francisco Liberato            As figuras de Santa Scaldaferri

Sante Scaldaferri, Chico Liberato, Juraci Dórea e Antônio Brasileiro estão expondo na Mab Galeria de Arte, na Pituba, cuja mostra permanecerá aberta até o dia 15 de dezembro. Quatro artistas unidos numa temática calcada no Nordeste, onde sobressaem a temática, o uso de elementos e materiais desta região sofrida. Mas, não um regionalismo caolho, um regionalismo que não enxerga o que está acontecendo aqui e no exterior. São artistas informados do movimento de arte em nosso mundo, mas que por coerência ao vivenciado optaram por um trabalho ligado a sua própria linguagem. Não ficam perambulando, como outros artistas que dão verdadeiros vôos cegos utilizando materiais e linguagens completamente destoantes das suas realidades.
Não defendo uma arte regional fechada. Seria uma contradição, já que sou professor de Comunicação e um jornalista que trabalha há dezesseis anos, diariamente divulgando informações. O que defendo é uma arte voltada para a própria realidade do artista, uma arte feita com os pés no chão, isto é, sabendo o que está fazendo. Uma arte para ser consumida em qualquer local, que tenha características de sua origem, mas com uma linguagem universal.
O trabalho “Noites no Sertão”, de 1982, de Juraci Dórea, dá uma demonstração inclusive que até o suporte feito de couro e pedaços de madeiras, além de inovador, é também de material comumente usado no Nordeste. Como bom nordestino, filho da zona da caatinga, me veio á lembrança dos couros de boi e carneiros esticados com varas, que os empregados de meu pai colocam no sol para secar. Verdadeiros estandartes, que são uma demonstração da sobrevivência. A morte do animal para alimentar o homem, que expões ao sol o couro deste animal abatido para em seguida usá-lo na feitura dos arreios, selas, sapatos e gibões que vão ser usados pelos vaqueiros na labuta diária com outros animais na caatinga insólita. Um ciclo e uma relação entre a vida e a morte.
O desenho de Liberato, feito em acrílico sobre madeira, intitulado “Os Astronautas”, lembra os cordéis vendidos nas feiras livres do Nordeste. O mandacaru e os esqueletos que se espraiam sobre na terra quente. Chico é também um artista muito ligado á temática nordestina, embora tenha toda uma formação que lhe permite, se quisesse, percorrer outros caminhos.
Antônio Brasileiro, conheço desde os tempos em que estudava Ciências Sociais, na antiga Faculdade de Filosofia, na Avenida Joana Angélica, onde fomos colegas em algumas matérias. É verdade que conhecia Brasileiro apenas como poeta. Tenho algumas publicações de suas poesias. Sempre preocupado com o homem. Mas, confesso que ainda não tinha visto nenhuma obra plástica de sua autoria. Finalmente, o Sante Scaldaferri que costumo chamar de o artístico com cara de beato. Sobre sua obra, já falei em outras ocasiões.
Mas aconselho ler a carta de sua autoria que publico abaixo.

CARTA DE SANTE RESSALTA MOVIMENTO DE ARTE NO PAÍS

"Caro Reynivaldo:
É com muita satisfação que neste momento vejo o movimento de arte da Bahia. Acho que estamos alcançando uma fase mais madura onde os resultados já estão aparecendo muito satisfatórios. E não podia deixar de ser assim, já que o número de habitantes cresceu com a cidade e em conjunto amadureceu para as coisas da cultura e da arte. Estamos deixando cada vez mais de ser província, apesar dos resquícios reacionários normais, e que afinal não têm a mínima importância diante da grandeza da arte verdadeira.
A arte neste começo de década está mostrando que as chamadas vanguardas, já incorporadas à história da arte com a consagração de seus artistas maiores, está dando lugar a outras novas tendências mais atuais. Sempre foi e será assim.
A arte de hoje, devido a vários fatores e principalmente aos meios de comunicação, conta-se por décadas. E neste começo de década já sabe o que está ocorrendo devido às grandes exposições internacionais e ao mercado dos países produtores de arte, onde a liderança inconteste é dos Estados Unidos e New York tornou-se o centro irradiador das artes visuais internacionais.
O comportamento da arte de hoje é a não existência de nenhuma predominância, de uma tendência sobre a outra. O que existe é a feitura das obras com os materiais tradicionais e o que está se chamando prazer de pintar, de realização, que transparece nas cores vibrantes, na alegria e na beleza.
Não a beleza tradicional, evidente. É primário saber-se que também os conceitos de beleza mudam e acompanham a evolução e contemporaneidade das linguagens.
O que está acontecendo nos países produtores de arte é que seus artistas maiores estão cada um com a sua linguagem, volvidos para a identidade cultural de suas respectivas regiões. Os artistas contemporâneos latino-americanos estão cada vez mais em evidência e mostrando a sua grande força criadora.
São Paulo, hoje, com seus grandes museus, críticos, colecionadores, artistas e público, nos dá o grande momento da arte brasileira. E é também com muita alegria que se constata a presença cada vez mais envolvente da arte de outras regiões do país, não só a Bienal que, juntamente à Panorama, dá uma clara visão da atual arte brasileira, como também com a presença marcante de seus artistas com exposições em inúmeras galerias.
E pode-se verificar que muitos artistas não se submetem a uma arte colonizadora absorvida do estrangeiro. O projeto da Funarte, “Arte nas Religiões”, elaborado a partir de vários seminários, tem sua primeira experiência, “Circuito de Artes Plásticas no Nordeste”, já em realização.
Atualmente estão ocorrendo em todas as capitais dos estados do Nordeste exposições organizadas por seus órgãos culturais. Uma comissão composta de três membros, dois eleitos pelos artistas e um representando a Funarte, já selecionou os trabalhos que irão formar a grande exposição itinerante por todos os estados do nordeste, Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro.
Na Bahia, onde o surgimento de um grande número de novos artistas é evidente, também proporcionalmente atravessa um período muito bom de atividades artificiais.
Os novos artistas, alguns mais maduros e com maior experiência, vêm se destacando tanto nos meios profissionais como em meio ao público, usando em suas obras uma linguagem contemporânea e pessoal. Não reconhecer isto seria ridículo ou mesmo burrice.
Você mesmo Reynivaldo, com sua bondade, já publicou, tempos atrás, que eu, dos artistas com maior experiência, sou o mais aberto aos jovens. É que a idade física não importa. A obra é que tem de ser jovem. Por isso estou ao lado deles na conquista dos nossos espaços.
E esses artistas já conquistaram os seus espaços e o reconhecimento da comunidade.
Vou citar para você alguns poucos exemplos dos muitos que existem. Exemplo muito rico vemos no painel coletivo da Biblioteca Central da Universidade, onde grande maioria de artistas jovens ao lado de outros mais antigos executarem a idéia de Juarez Paraíso, acolhida pelo ex-reitor Macedo Costa.
Temos a louvar no campo da cultura a administração do ex-reitor que, apesar da crise econômica e financeira, nos deu boas realizações neste setor, coisa que não se via desde os tempos magníficos do reitor Edgard Santos. A Fundação Cultural, através de sua executiva. Olívia Barradas, vem implantando satisfatoriamente os seus projetos culturais sem paternalismos e dentro de critérios previamente estabelecidos.
O vereador Ednaldo de Souza Santos apresentou projeto aprovado pela Câmara de Vereadores e sancionado pelo prefeito Manoel Castro, reconhecendo de utilidade pública a Associação de Artistas Modernos da Bahia, que representa a classe dos artistas plásticos.
Após, o prefeito cedeu o prédio onde funcionava a Academia Bahiana de Letras, no Terreiro de Jesus, para sede da referida associação.
Eventos coletivos de arte como este magnífico Sertania o Boi Misterioso, realizado por Lia Robatto e o Grupo de Dança Viravolta, com música de Ernest Widmer e Elomar, sobre o tema do desenho animado de longa-metragem Boi Aruá, que está sendo elaborado por Chico Liberato, já são constantes e mostram a força da união.
Com o abraço fraterno e o agradecimento de Sante."

                SIVOLC EXPÕE NO DIA 22

O artista Sivolc, pseudônimo do engenheiro Durval Oliveira, expõe a partir do dia 22, na Galeria “O Cavalete” vários de seus trabalhos, ricos em colorido e que apresentam um perfeito equilíbrio geométrico. Consagrado engenheiro e projetista, Durval resolveu adotar este pseudônimo buscando uma nova identidade no campo da arte.
O Sivolc é realmente versátil. O próprio catálogo da exposição foi idealizado por ele aproveitando vários slides que fez de suas obras. Colocou-os dispostos numa folha e mandou imprimir, resultando num catálogo encontramos uma montagem com vários recortes de jornais e fotos também recortadas de sua mulher e filhos. Tudo é disposto de tal ordem que funcionam bem plasticamente.
                                                Sivolc por trás do quadro onde aparece a silhueta do corpo da modelo.
Conheci o Sivolc através de um telefonema da jornalista Ângela Guimarães, sua amiga há muitos anos. Na conversa que mantivemos por telefone Sivolc ficou de trazer alguns quadros até a Redação deste jornal para que pudesse examiná-los e escrever sobre sua exposição. Poucos minutos depois estava o artista diante de mim com alguns quadros. Já entrou na sala brincando e dando explicações sobre os trabalhos.
“Este aqui é o corpo de uma grande modelo, que resolvi geometrizar. Veja você as linhas retas que dividem o corpo e as curvas que o contornam”. E assim, passou a descrever os demais. Chamei o fotógrafo para documentar os trabalhos e quando nem esperava o Sivolc estava escondido por trás das telas procurando uma postura original. O fotógrafo ficou um pouco embaraçado, mas ele passou a explicar o que desejava. E, assim, foi fotografado, mostrando que a obra é mais importante que o próprio autor.
Também, que desejava fugir daquela postura tradicional, onde o artista fica duro diante ou ao lado de suas obras.
Depois dessas explicações podemos sentir um pouco que Sivolc não é um artista saído de uma prancheta de um escritório de projetos arquitetônicos calado e quase parado. Ao contrário, sua obra versátil e corajosa reflete justamente a sua postura, que está sempre em busca de inovação.
Num dos recortes que colocou no catálogo sublinhou uma frase que considero interessante: “o que os une os homens é a produção de riquezas morais e materiais”. Diria então que Sivolc vive em busca da união, procurando cada vez mais enriquecer os seus conhecimentos estéticos, variando as suas atividades no campo da criação.