quinta-feira, 4 de outubro de 2012

KANTOR MORREU LONGE DA BAHIA QUE TANTO AMOU

JORNAL A TARDE SALVADOR, TERÇA-FEIRA, 12 DE SETEMBRO DE 1983

KANTOR MORREU LONGE DA BAHIA QUE TANTO AMOU







 Esta foto à direita foi feita em 1976 na redação do jornal A Tarde, em Salvador, Bahia. Ao lado o auto retrato, de 1930, ressai a dedicação do grande artista.



Ao folhear o segundo caderno da edição de “O Globo”, do último dia 8, à procura de matérias sobre arte, deparei com uma foto que logo identifiquei ser de um quadro do meu amigo Manoel Kantor. Foram segundos de satisfação! Interrompido logo em seguida. Quando li o título: “Kantor, que tinha o Brasil nos olhos, morreu em Israel”. Fiquei quase parado, lembrando do seu riso largo, de sua preocupação em cuidar dos mínimos detalhes, de sua extensa correspondência com amigos espalhados nos quatro cantos do mundo, da sua persistência em encontrar as pessoas e falar de sua arte.Durante sua permanência, em duas temporadas em Salvador, mantivemos um laço fraterno de amizade. 
                                La Marcha Hacia El Este, 1941, crítica ao nazismo.
Porém, o corre corre de minha vida profissional não permitiu que ficássemos mais tempo conversando sobre suas andanças e experiências. Sim, porque Kantor, além de um excelente pintor, era um grande viajante.
Natural da Argentina, onde nasceu em 1911, Manoel Kantor foi morrer em Jerusalém, Israel, longe de sua terra natal e da Bahia que tanto amou. Desde 1947 que fez sucessivas viagens ao Brasil, pois foi aqui que realmente explodiu sua grande vocação de pintor.
Durante a guerra, sendo judeu, participou ativamente da condenação das atividades do Estado nazista com suas charges bem feitas e fortes denunciando a opressão e a matança.Suas caricaturas foram publicadas durante, anos em jornais argentinos e uruguaios, e depois reunidas num livro intitulado “Kantor, Disgni”, editado na Itália, do qual tenho um exemplar com uma dedicatória amável: “Para Reynivaldo, mui querido amigo. Em recuerdo de esta temporada de reencontro com La antigua Y La Nueva Bahia
Diria que Kantor era um pintor viajante, onde as paisagens e ambientes das cidades o prendiam por algum tempo.
Ao esgotar os contatos e o gosto pela paisagem, arrumava as malas e partia em busca de novos horizontes, levando em sua bagagem desenhos que depois, transformavam-se em belos quadros, os quais normalmente integravam nova exposição.Kantor realizou exposições nas principais capitais e cidades de vários países. Só ao Brasil ele fez dezoito viagens durante trinta anos.

SUA VIDA

 Panorama Distante de Acre , Israel, de 1953.            Tela de Kantor do seu atelier em Buenos Aires.

Aos 15 anos, ou seja, na segunda metade da década de 20, Manuel Kantor iniciou uma atividade variada no campo da criação artística, que começou com a caricatura. Mas, ao lado da caricatura foi também um grande registrador de viagens, onde com naturalidade, e em poucos minutos conseguia com seus traços leves e por vezes vigorosos captar o essencial de uma paisagem transformando-os numa obra de arte. Em 1947, conheceu Cândido Portinari de quem se tornou amigo.
Foi através de Portinari que conheceu alguns críticos e intelectuais brasileiros. Apresentação, esta, feita sob a recomendação: “um pintor de talento”. Realmente, apresentação do mestre serviu para lhe abrir caminhos e assim pôde realizar numerosa série de desenhos e retratos, ligando-se a seguir ao mundo social e cultural carioca. Depois desta época, passou a residir em Buenos Aires, Rio de Janeiro e outras cidades que despertavam interesse estético.
Em 1978 fez sua última grande exposição no Brasil no Museu Nacional de Belas-Artes, comemorando seus 50 anos de atividades artísticas. Ali, elegantemente, como sempre gostava de fazer, recebeu grande número de amigos e artistas brasileiros. Uma retrospectiva, organizada a partir de obras criadas durante os longos períodos, que viveu no exterior.
O que mais me chamava atenção em Kantor, era que embora fosse um homem sexagenário tinha um vigor extraordinário e uma sensibilidade à flor da pele. E, pintava as paisagens baianas e cariocas com o mesmo entusiasmo de um artista estrangeiro que acabava de desembarcar.
Na retrospectiva que fez no Rio de Janeiro ele montou de tal forma que o primeiro trabalho era “Filha -de- Santo”, pintado assim que chegou ao Brasil, entusiasmado com a Bahia e terminava com outro de Nininha Nabuco, amiga de família, feito em 1978. Os 35 quadros restantes mostravam as cidades onde viveu e trabalhou como Lima, México, Rio, Salvador, Buenos Aires, Nova Iorque, Paris, Roma, Toledo, Mallorca e Jerusalém. Kantor nunca desembarcou em qualquer cidade na condição de turista. Ao contrário sempre chegava e partia em busca de trabalho, de locais apropriados para criar seus desenhos. Ele mesmo afirmou, em 1978, que “quando chego num lugar, fico muito tempo, vivo intensamente o ambiente para poder trabalhar. É interessante notar, no entanto, que apesar dos temas diferentes, eu apresento uma retrospectiva que começa e termina com telas basicamente semelhantes em termos de proposta. A continuidade, e conseqüentemente a unidade, são por isso, mais características do meu trabalho do que a própria variedade de motivos ou cenário de inspiração. A busca constante de novos caminhos acabou me devolvendo à minha essência de artista. Mesmo aqueles que observarem rapidamente, notarão.

UMA ENTREVISTA

Em 1978 estive pela segunda vez com Kantor e de lá para cá sempre estivemos em contato, quer através de cartas ou de seus catálogos de exposições, que me enviava de onde estivesse. Da última vez que aqui esteve, ficou hospedado no Hotel Vila Romana, no Morro do Gavazza, na Barra, de onde descia para ver o mar, quando o dia começava a raiar ou o sol começava a esconder-se no horizonte. Sempre teve uma paixão especial pelo mar. E, como todo homem de sangue espanhol, costumava apaixonar-se pelas coisas que gostava. Suas discussões sobre determinados temas e pessoas eram acaloradas e quando estava mais aborrecido gesticulava muito. Era uma pessoa sensível, doce e amável. Tão amável que na procura de agradar, manter contatos e sedimentar amizades era muitas vezes incompreendido e até evitado. Lembro de algumas destas cenas, que por vezes ele veio a mim queixar-se.
Não quero com isto colocá-lo num pedestal como um santo.

Ao contrário, enxergo-o com seus defeitos, naturais em todo nós. Mas, por estar trabalhando sem hora marcada, por ser dono do seu próprio tempo e destino, o que não acontece com a maioria de nós, em determinados momentos tornava-se muito insistente e as pessoas que tinham outros afazeres e compromissos evitavam maior contato com ele.
Kantor era, repito uma pessoa muito sensível, um artista que vindo de Buenos Aires soube captar o ambiente e o jeito baiano. Amava a Bahia e falava de Salvador com palavras cheias de ternura.
Oscar Niemeyer, falando sobre ele, disse: Não é apenas sua pintura que me comove e a vocês recomendo, mas o amigo fraterno que tantas vezes encontrei pela vida afora, abraçado às suas telas, otimista e generoso com o mundo e os homens. Exatamente, generoso e otimista e foi esta imagem que ficou.
Para Carlos Drummond de Andrade: “Kantor invade o país dos signos e deles faz sua mansão”. É curioso que este artista ao chegar numa cidade se instalava de tal forma, se preocupava com os detalhes, como se fosse morar ali por muitos e muitos anos. Lembro que ao chegar ao Hotel Vila Romana arrumou o seu quarto, transformando-o num atelier.
Num atelier de um artista que não esperava nunca mais sair dali.
Mesmo longe, acredito que o velho Kantor estivesse assim instalado em Jerusalém, onde morreu.
A notícia publicada em “O Globo”, não diz se Kantor morreu no dia 7 e se estava em companhia de sua esposa Ana Maria, uma boa poetisa, com quem se correspondia quase diariamente trocando impressões e palavras de afeto.
É mais um amigo que se foi. É mais um artista de talento que deixa o pincel e parte para o desconhecido, deixando o seu rastro de luz que brilhará através de sua obra.