terça-feira, 16 de outubro de 2012

QUANDO A PEDRA E O JORNAL TOMAM O CARÁTER ATEMPORAL - 14 DE OUTUBRO DE 1983.

JORNAL A TARDE SALVADOR, TERÇA-FEIRA, 14 DE OUTUBRO DE 1983.

QUANDO A PEDRA E O JORNAL TOMAM 

O CARÁTER ATEMPORAL

O arquiteto, artista plástico e professor da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia, Jamison Pedra está de volta. Retorna dos Estados Unidos onde fez um  curso de mestrado em Artes Plásticas na Universidade de Cincinnat, estado de Ohio.
Jamison e logo prepara uma exposição que será aberta no próximo dia 17, na Art Boulevard Galeria, onde teremos a felicidade de ver e sentir a sua obra, que é a própria tese de Mestrado que defendeu em março deste ano na School of Design Art, Architecture and Planning.
A mostra é composta de duas séries, com tiragem de uma cópia, o que dá o caráter de obra única, apesar de ser uma técnica de reprodução. Cuidadoso, calmo, o Jamison construiu uma obra através dos anos que lhe permite agora, trabalhar com muito mais força e qualificação. Nesta mostra aborda dois temas: a pedra e o jornal diário. “Objetos simples, comuns e únicos. A pedra encontrada em toda parte, possui a sua individualidade. Cada uma possui sua forma própria”.
Portanto, a sua sensibilidade aguçada permite que retire de uma pedra inerte a sua essência, dando-lhe grandiosidade, ressaltando sua textura e volume. Outras vezes, transformando-a, quase em signos, que são confundidos com mensagens extraterrenas ou com pegadas perdidas no tempo. É nesta transposição para a gravura que ele ressalta a individualidade de cada uma delas dando-lhe o caráter atemporal.
O segundo tema, fragmentos de jornal, “nos dá o limite do cotidiano. São trechos colhidos com cuidado, destacados e transportados fotograficamente para o papel”. Diz Jamison que “o diário, fugaz e temporário ao ser transportado para a gravura toma o caráter atemporal”. Na verdade os motivos a primeira vista pareçam distantes, se relacionam no tempo e no espaço e foi assim que Jamison desenvolveu os estudos para sua tese. As litografias, desenhos e fotogravuras do artista foram feitos em papel Arches, com 100% de algodão.
Jamison Pedra Prazeres. Este é o verdadeiro nome deste artista criativo que sempre busca várias formas de expressão. A pedra incorporada a sua própria identificação ganha forma expressiva quando ele a retira da frieza e da total falta de identidade dando-lhe força e destacando a suas formas texturas variadas.
Arrumadas, como que num jogo, ele as coloca em posições diversas. Enfileiradas, sobre um fundo mais claro ou escuro. O que lhe interessa é realçar a sua plasticidade dentro de uma visão lúdica.
Depois da pedra, que transparece frieza e imobilidade chegamos aos prazeres, onde transparece toda a carga de emotividade e essencialmente a presença humana. Portanto, uma junção de palavras que identifica e resulta nesta figura pacata, criativa e visionária. Criando espaços, formas e contrastes Jamison Pedra Prazeres nos leva a um mundo de emoções onde seus objetos gravitam entre espaços claros e escuros e o fugaz torna-se perene, a frieza torna-se emoção. Ligando a elaboração de jornal, todos os dias, posso testemunhar que esta coisa passageira e contínua do jornal diário emociona e deixa transparecer reflexões. É o espelho da própria sociedade. Se estamos vivendo num momento de crise e de escalada de violência o jornal reflete exatamente isto, porque a nós jornalistas não é permitido inventar, entrar no reino da fantasia como acontece com o escritor e o próprio artista plástico, que a exemplo de Jamison pode sonhar. Nós jornalistas reportamos o que acontece ou vai acontecer, dando pinceladas do nosso testemunho, dentro das informações que conseguimos captar, Jamison, utiliza da notícia pronta como matéria prima para a sua própria arte.
E, assim retira o fato do seu tempo para dar-lhe o caráter atemporal.É verdade também que enxergo laços de união entre o artista e o jornalista. Entre Jamison que se apossa da notícia ou da ilustração jornalística para criar sua obra, e o repórter que colhe as informações codificando os detalhes ou o fotografo que registra com sua máquina os flagrantes de um acontecimento. Existem pontos de referências.
Jamison também foi chamado à atenção aquela leitura muitas vezes pela curiosidade contida no próprio texto ou ilustração. Selecionou e criou em cima deles, portanto o jornalista conseguiu o seu objetivo que era o consumo da informação. Não apenas, foi mais longe, quando Jamison deu-lhe caráter de atemporalidade. É esta visão e este fazer, esta relação que veremos nesta exposição de Jamison que é o seu retorno, vitorioso e criativo ao movimento artístico baiano. Ele nos brindará com obras recheadas de informações contemporâneas para serem consumidas, depois é claro, de uma discussão mais ampla. É isto exatamente que Jamison deseja uma discussão para uma compreensão maior da própria criatividade inerante às suas litografias, desenhos e fotogravuras.


ALGUMAS IDÉIAS DO GRAVADOR E DESENHISTA 
RUBEM GRILO

O artista plástico Rubem Grilo é um dos bons gravadores deste país. Um caipira de cidade pequena, como ele mesmo se define, nasceu em Pouso Alegre, há 37 anos. Formado em Agronomia em 1969, trabalha com o irmão arquiteto, na Fundação Beatriz Gama, em Volta Redonda.
Tentando vencer um certo torpor que aquela atividade lhe provocava, começa por conta própria, a trabalhar com o barro.
Modela um busto do papa João XXIII, uma Pietá “bem mulher de rua, segurando uma criança pobre”, e mais duas obras menores para as crianças da fundação. Neste mesmo ano, descobre os primeiros segredos técnicos da xilogravura, freqüentando, por mais ou menos dois meses, as aulas do Prof. José Altino, da Escolinha de Arte do Brasil, RJ. Em 1971, matricula-se na  Escola de Belas Artes, mas desiste logo no início. De 1971 a 1973, trabalha com o pintor Lênio Braga e freqüenta o ateliê de Iberê Camargo, aprendendo a técnica de gravura em metal: no mesmo período faz curso de Litografia no Parque Lage, sob a orientação do Prof. Antônio Grosso. Em 1972, participa do IV Salão de Verão do MAM-RJ. Em 1973, do V Salão de Verão do MAM-RJ e do XXI Salão Nacional de Arte Moderna, MEC-RJ. De 1973 a 1975, publica seus trabalhos no Semanário Opinião; de 75 a 78, colabora no Semanário Movimento; de 78 a 79, no Versus, Jornal do Brasil, O Globo, Pasquim e Artefato; de 79 a81, no Folhetim, Suplemento da Folha de São Paulo. Em 1981, expõe na Escola de Artes Visuais, RJ. Em 1982 no MAM-RJ, “Universo do Futebol”; no VI Salão Carioca de Arte, RJ; na V Mostra Anual de Gravura, em Curitiba, PR e no V Salão Nacional de Artes Plásticas do MAM-RJ. Há dez anos, é professor de xilogravura para adolescentes, no Centro Educacional de Niterói, RJ. Desde 1980, realiza trabalhos de paisagismo, com a arquiteta Maria da Assunção-Teresópolis, RJ, e colabora no caderno Especial do Jornal do Brasil.
Falando sobre a sua opção pela gravura, Grilo disse: “A xilo é uma arte popular. Eu nem falo sobre o poder comprar, por ser mais barato. A linguagem em si da xilogravura, dentre todas as técnicas, acabou sendo a que me respondeu ao apelo do tosco, do rudimentar. Ela resiste bastante ao refinamento. O meio-tom, na verdade, são tramas de preto e branco, ela não permite o degradê, não aconselha determinado tipo de acréscimo de elementos. Ela é sempre resultado de uma gravação, de uma incisão da ferramenta sobre um material resistente. Não é uma coisa elástica, que você faz dela o que quer. Depois de um certo limite, ela não aceita mais a quebra.
Então, há um caráter áspero, que se aproxima um pouco de uma visão dramaticamente mais popular. Não é uma coisa refinada, não é toda xilogravura que cai bem com qualquer sofá”. E com relação a escolha da madeira: “No começo, eu não me importava muito, trabalhava com o que me cala nas mãos. Mas, com o tempo, observei que cada madeira me possibilitava diferentes resultados. Então eu vou mais ou menos procurando selecionar algum material que me facilite a realização de um trabalho. Mesmo com madeira resistente, você pode fazer nela uma gravação, uma gravação sem requintes talvez, mas que você consiga tirar dela tudo aquilo que ela possa dar de preciso, de refinado. Nesse caso, é evidente que a madeira, o material tem que ser selecionado.
A melhor madeira seria aquela que pudesse ser macia de corte e consistente.A gravação não é um gesto de força, tem que ser natural como a escrita. Se você faz força, é queda-de-braço, não é gravação.
A coisa tem que ser espontânea, não se pode proibir o gesto. Na medida em que você faz força, o corte se altera. Portanto, ela tem que ser macia e deixar que a ferramenta corra o mais suavemente possível por ela, mas com certa consistência. Não pode ser muito porosa, nem frouxa. Tem que ter fibras mais ou menos juntas, mas essas fibras não devem impor muita resistência, têm que ser como a carne, como um corpo só. Existem algumas madeiras que se aproximam disso: o mogno, a maçaranduba, o louro-vermelho, alguns tipos de caneta. De qualquer forma, o melhor é gravar o mais naturalmente possível. A conformação do fio da madeira, você terá que descobrir e trabalhar sempre a favor dele.Caso contrário, estará exigindo, da ferramenta e da sua mão, um esforço maior”.Trabalhou no Opinião, de 78 a 78, no Suplemento da Folha de São Paulo, , chamado Folhetim, de 79 a 81.
. Fez, também, alguns trabalhos para o Pasquim, Versus, O Globo e no Caderno Especial do Jornal do Brasil, mas esporadicamente. Acha importante atuar nesse campo, porque o jornal é um espaço não codificado, um espaço sem vício, é um veículo de massas, onde você não tem aquelas coisas do artista que gosta de botar regra em tudo e, essas regras não levam a nada, acha que o terreno da arte é um campo minado. Existem regras demais para tão pouca produção. “A gente tem que fazer o máximo, fazer duas vezes antes de pensar; se não prestar, dane-se, ninguém vai sair perdendo nada com isto”.
Ele usa o jornal como um veículo de libertação dos dogmas da arte. “Tentei procurar um caminho que desse sentido ao meu trabalho. Essa atitude é, na verdade, um pequeno gesto de uma preocupação maior que é procurar viver, dentro dessa vida que eu acho abstrata, com um sentido dado por mim. Tenho plena consciência de que o ‘eu’ tem uma profundidade existencial muito grande, é uma coisa única. É uma patente que ninguém reproduz, e só existe enquanto eu estiver vivo. O homem tem mais de 40 milhões de anos, e uma evolução inteiramente inexplicável, que deu origem a uma personalidade que está aqui, porque é natural que esteja, mas as probabilidades são infinitamente grandes para que não estivesse. Então, realizar esta entidade, realizar este ‘eu’, é possível quando você cria princípios nos quais acredita. Porém ser princípios religiosos, acho fantástico que muitas pessoas tenham, ou digam que têm, e levem isso ao extremo. Mas, mesmo sem Deus, acabo sendo religioso, porque tenho fé”.