domingo, 21 de outubro de 2012

QUATROS EM EXPOSIÇÃO” NO MUSEU DE ARTE - 25 DE MAIO DE 1987.

JORNAL A TARDE SALVADOR, SEGUNDA-FEIRA, 25 DE MAIO DE 1987
QUATROS EM EXPOSIÇÃO NO MUSEU DE ARTE DA BAHIA
A partir de amanhã e até o dia 10 de junho, Carlos Rodrigues, Donizete Lima, Márcia Abreu e Tércio Rímole estarão expondo suas pinturas no Museu de Arte da Bahia, numa coletiva intitulada Quatros em Exposição. Uma peculiaridade do vernissage será a existência de um fundo musical, reproduzindo quatro versões do clássico “ Quadros de uma Exposição”, do compositor russo (século XIX) Modest Mussorgsky, considerado um dos grandes precursores da música moderna.
Carlos Rodrigues pinta, desde de 1973, óleo e acrílica sobre tela. Seus quadros caracterizam-se pelo forte colorido e contraste das cores, dentro de uma atmosfera de muito movimento, retratando cenas comuns do cotidiano, como Diversões na Mesa do Bar”, Descanso Sobre Sacos de Ração, ou ainda um sentimento de ternura pelo ser humano, como em Amizade.  Obra Diversões na Mesa do Bar l, de Carlos Rodrigues.
Afirmando que não gosta de falar de negócios, mas sim de pintar, Carlos Rodrigues não se estende ao comentar sobre a comercialização das suas obras. “ Claro que preciso vender”, porém, para ele, “a hora mais feliz mesmo não é aquela de receber o cheque, mas sim quando vemos os rostos das pessoas iluminarem-se diante do impacto estético da arte feita com esforço, técnica e criatividade. A inspiração é essencial, mas gosto sempre de lembrar Picasso: arte é 90% transpiração e 10% inspiração. É preciso de um trabalho árduo”.
Carlos Rodrigues faz questão de frisar a sua incessante busca do máximo de criatividade, “a essência da arte”. No entanto, não deixa de lembrar, toda vez que fala do assunto, que “o aprendizado acadêmico, O conhecimento das técnicas de mistura de tintas, combinação de cores, traçados na tela, da própria feitura da tela, tudo isso é fundamental para que o artista tenha os instrumentos através dos quais possam expressar sua criatividade”

.O LADO ACADÊMICO


Donizete Lima pinta desde 1971, confessando-se impressionado com a estética de duas raças básicas o Brasil: o negro e o índio. Ele explica que seus quadros (acrílica sobre tela) são resultados dessa sua fascinação pela estética  dos rituais índios, dos símbolos negros. Já participou de diversas mostras e exposições, em São Paulo e Salvador. No Salão Metanor/Copenor, obteve Menção Honrosa, é sua última exposição foi a mostra coletiva dos publicitários baianos, no Museu de Arte da Bahia.
Tércio Rimole, mineiro, nascido em 1955, vive em Salvador desde 1977. Pinta desde criança, “incentivado por meu pai, jornalista com grande aptidão pela pintura e desenho”.
Tércio conta, com orgulho, que seu primeiro grande incentivo foi ter sido premiado no colégio, ainda criança, quando pintou um ônibus “inteiramente transparente, com todos os passageiros sendo vistos lá dentro”. Já realizou diversas exposições, tendo participado também da mostra dos publicitários, no ano passado, no Museu de Arte da Bahia. Ao lado a obra de Donizete Lima com inspiração no negro e no índio.
Os expositores de Quatros em Exposição fazem questão de agradecer ao Departamento de Museus e Artes Plásticas-Demap, da Fundação Cultural do Estado, que colaborou para a realização da mostra.
UMA SAUDAÇÃO E DESMOND TUTU
Emocionado com a presença do símbolo da luta contra o apartheid em Salvador, o artista Ângelo Roberto elaborou um desenho de Desmond Tutu o qual enviou-me acompanhado do texto-poema de autoria  de Adelmo Oliveira. O desenho é este que publico juntamente com o referido texto, que se completam, e realmente tocam de perto àquelas pessoas que estão preocupadas com este grande mal que é o preconceito racial. Nós que não admitimos o preconceito racial temos que ter, por outro lado, o cuidado para que esta postura combativa, também, não se transforme num preconceito às avessas. Eis o texto de Adelmo:
 Bilhete a Desmond   (em mãos)
“E vi descer do céu um anjo”
         (AP-ZO-1)
 Estamos pobres de liberdade
E precisamos de tua palavra, Desmond
Aqui em Pretória
Estão pisando sobre nossas sementes
Tentam por acordo de amizade
Convencer o mundo
De que somos um pedaço de terra
Dentro da Geografia, mas fora da História!
De que nossas famílias já se acostumaram
A viver sob o julgo da nações mais fortes
De que somos a lenha
para alimentar a fornalha
para fortificar os arsenais
Estamos pobres de liberdade
Mas a hora é de fazer cair o medo
Não podemos suportar o peso
Que as gerações
Século após século
Não conseguiram extinguir
Apeando as portas deste dragão maldito
 As marcas estão todas aí
No corpo, na língua e nas vestes
Todavia, esse oceano azul
Nos une cordialmente
(Miramo-nos em idêntico espelho
E temos os mesmos dons para o sofrimento)
E tu, tu, Desmond
Já não representas mais unicamente
Uma Pretória sacudida pelas Fúrias
És agora a cabeça de um grande corpo negro
Este corpo de que fazemos parte
E que marcha para o mundo da esperança
      A ARTE INTRIGANTE DE SÉRGIO  RABINOVITZ
Uma seta sinuosa e intrigante invade manchas vermelhas que mais parecem sombras de uma cidade noturna, deitada sobre os conflitos de seus habitantes. Noutro, grossos traços amarelados com um fundo negro, sugerem pedaços de folhas. O terceiro, lembra as inscrições que vejo nas ruas, as quais não têm qualquer significado deliberado de seus autores, ficando, portanto, a mercê da imaginação. É este mundo fantástico e envolvente que gravita a obra de Sérgio Rabinovitz, que muitas vezes é vítima de leituras mal feitas e expressões mal compreendidas, principalmente por sua ação gestual e simplicidade dos traços. Mas, por trás desta aparente facilidade está um trabalho sério, cuidadoso, estudado, técnico e consciente. O encontro da ação gestual carregada de simplicidade é exatamente o fruto do conhecimento das técnicas e da busca de uma linguagem e expressiva contemporânea. “O gesto é a maneira de interpretar os signos da caligrafia humana”. E nesta busca da interpretação, Sérgio parece comunicar-se até com seres de outros planetas, escrevendo mensagens atéreas que pulam em nossos olhos em grande destaque.
Seus trabalhos são poemas que saem daquela postura estática e movimentam-se através da leitura que, obrigatoriamente, o espectador tem que fazer, goste ou não goste, entenda ou não entenda. Nenhum espectador fica insensível diante dos seus traços gestuais. Esta provocação é a parte integrante do seu trabalho, rico em cor, ora mais carregadas, ora mais fracas. Mas estas imagens são concebidas com um rastro de brasilidade.São as raízes deste artista que, embora jovem, conhece a arte feita aqui e lá fora, onde estudou algum tempo. Ele está expondo na Multiplus, na barra, a partir do dia 28.