sexta-feira, 26 de outubro de 2012

ESTRANHOS INSTRUMENTOS MUSICAIS DE RAMIRO - 10 DE AGOSTO DE 1987

JORNAL A TARDE SALVADOR, SEGUNDA-FEIRA, 10 DE AGOSTO DE 1987.

ESTRANHOS INSTRUMENTOS MUSICAIS DE 
RAMIRO MAGALHÃES

Suas telas provocam uma ferrenha vontade no espectador em descobrir o que significa cada elemento que as compõem. Numa observação mais apurada a gente começa a descobrir que se trata de estranhos e gigantescos instrumentos musicais. São verdadeiros protótipos que um dia ele diz que vai construí-los utilizando metais para que funcionem verdadeiramente. Se vão funcionar ou não é outra conversa. O que interessa é que este jovem de São Felipe, interior da Bahia, é um visionário musical. E para acompanhar os estranhos instrumentos que brotam de sua criatividade ele apresenta figuras também muito estranhas a movimentar os foles e as paletas ou cordas de tais objetos.
Ao lado o Sax-fício, uma das obras-instrumento do artista de São Felipe, Ramiro Magalhães.
O verde e o amarelo cor-de-cobre sobressaem em muitos de seus trabalhos. Faz também esculturas, a exemplo desta, onde aparece ao lado, que é seu auto-retrato escultural, com uma bola sobre a cabeça formando um verdadeiro paliteiro com os pincéis. É neste mundo fantástico que Ramiro Magalhães vive provocando gargalhadas e espanto nas pessoas. Por quase unanimidade reconhecem que por trás desta postura hilariante existe um artista sensível que conhece bem a técnica de pintura e até da escultura. Seu propósito é criar cada vez mais mostrando que tudo é fruto de uma grande força de vontade.

SOFRIMENTO

Ele revela que desde os oito anos de idade sente uma profunda necessidade de criar.
 Para ele “a arte é um sentimento propulsor contínuo, comparado a um desejo de anseio fisiológico que não pode deixar de ser feito”.
Andou por este País afora, conheceu 18 estados, viveu em favelas e morros, sentiu de perto a vida dos mendigos a até dos ciganos.
Assistiu a grandes derrubadas de mata virgem do Amazonas. Em seguida veio para Santo Amaro da Purificação e aqui trabalhou retirando madeira que era transportada para uma serraria de Salvador.
Foi perto do Vale do Iguape, onde existe uma velha Igreja em ruínas exatamente no povoado de Santiago do Iguape que diz ter encontrado com um amigo, imagens carcomidas pelos cupins e resolveram restaurá-las “para devolver a comunidade”.
Foram surpreendidos por autoridades da região e acusados de ladrões de imagens.
Levados para Cachoeira, ficaram detidos na delegacia durante 45 dias. Enfrentaram aí os piores vexames misturados com ratos, baratas, e marginais da pior espécie.
Ramiro ao lado da escultura onde se auto-retrata com uma bola e os pincéis.
Depois de libertados retornaram a Salvador e Ramiro reiniciou suas atividades artísticas, quando concluiu uma peça intitulada “Os Dedos da Justiça”, que foi premiada com uma Medalha de Bronze num salão. Fez outras exposições até que foi convidado pelo prefeito de sua cidade natal (São Felipe) para restaurar as estátuas que ornamentam a entrada do velho e imponente casarão onde funciona o executivo municipal.
Ramiro Magalhães não é um artista de grande instrução. Tudo parte de uma intuição. Muito forte e ele brinca dizendo que esses instrumentos musicais são resultados de sua frustração de não ter sido músico. “Como não sou músico, não sei tocar instrumentos, resolvi criar os meus próprios instrumentos e sinto como estivesse tocando no momento que estou criando.” Se esta parafernália de foles, cornetas, paletas e tambores viesse a funcionar, certamente o barulho seria muito grande ou Ramiro ia encantar a todos nós com estranhos sons. O que interessa é que o visual é muito bonito, a composição equilibrada e uma temática polêmica e intrigante.

     PARTIU EM SILÊNCIO O PINTOR DE INTERIORES

Um homem observador e meticuloso vivia no mundo de silêncio, de pouca incidência de luz, locais propícios à meditação. Silencioso como sempre foi em vida ele nos deixou, partindo para as galáxias.
Chamava-se José Lima e nasceu em Altamira, no interior da Bahia, mas sempre teve uma ligação muito forte com a cidade de Estância, para onde mudou-se com sua família. Foi sem dúvida um dos maiores pintores interiores deste país.
Sempre falava compassado e no final de sua existência sentia dificuldades em ouvir o que as pessoas falavam. Não gostava, por muita humildade, que matérias fossem feitas sobre sua arte e com isto muita gente deixou de conhecer o grande artista que ele era. Tinha alguma cultura, viajou por alguns países da Europa e pintou muitas naves e abóbadas de Igrejas e mosteiros. Isto em nosso País tanto em Sergipe, Bahia e até no Rio Grande do Sul.
                                        Acima o advogado Paulo Emanoel com uma obra de autoria de José Lima.

QUEM ERA

Nasceu na cidade de Altamira, em 23/08/22 e morreu em 27/02/87.
Seu nome completo era José Lima dos Santos. Por várias vezes confidenciou a amigos que gostaria de doar algumas obras de sua autoria à Biblioteca Monsenhor Silveira, em Estância, além de todos os seus livros. Mas até agora não se sabe se deixou alguma coisa escrita neste sentido. Sempre falava que desejava deixar o Rio de Janeiro e voltar a morar em Estância com sua irmã Tercília, mas veio a falecer em 27 de fevereiro. Seu corpo foi translado para Estância, sendo enterrado no dia 1º de março por volta das 10 horas da manhã.
Ao lado foto de 1961, do pintor José Lima.
Pode parecer tardio este registro da morte do mestre José Lima. Mas é um preito de gratidão e reconhecimento por tudo que ele fez pela arte baiana, especialmente a arte sacra. Ele deixou obras fantásticas retratando os interiores de nossas igrejas de São Francisco, Nossa Senhora da Conceição e muitas outras.
Tinha uma noção muito precisa de profundidade, de luz e perspectiva que nos permite olhar demoradamente cada obra. Em várias delas colocava com perfeição os quadros que estavam nas paredes, portanto, numa só obra fazia vários quadros e muitas vezes até paisagens que surgiam por trás das vidraças. É uma pintura harmônica e eterna.
Imorredoura e grandiosa. Diria que José Lima foi o pintor do silêncio, viveu assim, e assim desapareceu.
Deixou para nós um legado de criação que as gerações que se sucederão haverão de enaltecer.

               MUSEU CRESCEU COM D. CLEMENTE NIGRA

O diretor do Museu de Arte Sacra, Pedro Moacir Maia, enumerou alguns dos grandes méritos de D. Clemente Nigra, falecido recentemente: o de organizador do Museu de Arte Sacra da UFBA., de redator dos verbetes e informações dos dois primeiros catálogos do museu, descobridor de dois escultores do século XVII, os monges beneditinos frei Agostinho da Piedade e frei Agostinho de Jesus, biógrafos dos artistas e construtores do Mosteiro de São Bento no Rio de Janeiro e autor de importantes artigos sobre a arte antiga brasileira em diversas revistas, notadamente na revista editada pela SPHAN.
Mais recentemente, D. Clemente Nigra localizou e começou a estudar centenas de desenhos e aquarelas de artistas que participaram de expedição Langsdorf, por volta de 1820, no Brasil, o material foi encontrado em museus da União Soviética e será editado, ainda este ano por um editor baiano, residente no Rio de Janeiro, Salvador Monteiro.
Retrato de D. Clemente Nigra que está no Museu de Arte Sacra.
 A organização do Museu de Arte Sacra, disse o diretor foi o mais importante legado, deixado por D. Clemente Nigra, à preservação da arte antiga baiana, em particular, e brasileira, em geral.
E essa importância pode ser medida pelo Banco Safra em, dentro do seu programa cultural, publicará o catálogo do acervo do Museu de Arte Sacra da Bahia, a ser distribuído no final do ano.

LIVRO-ÁLBUM

Afirma Pedro Moacir Maia que atualmente o pessoal do museu, inclusive ele, está ocupado na preparação dos textos e das fotos do acervo do MAS o livro-álbum a ser editado pelo Banco Safra até o final do ano. Há seis anos esse banco edita livro-álbuns sobre grandes museus brasileiros e o MAS foi o escolhido de 1987. Será o 6º da série. A edição será composta de 250 fotos em cores e 250 fotos em preto e branco acompanhadas de textos explicativos. O livro-álbum do ano passado foi sobre o Museu Nacional do Rio de Janeiro, e o anterior, o Museu Emílio Goeldi, no Pará (José Fontenelle).