quinta-feira, 4 de outubro de 2012

A REALIDADE E A IMITAÇÃO

JORNAL A TARDE SALVADOR, TERÇA-FEIRA, 26 DE SETEMBRO DE 1983

          A REALIDADE E A IMITAÇÃO


Estamos em plena seca. Crianças esquálidas e mulheres envelhecidas precocemente enchem os vídeos dos aparelhos receptores de TV as páginas dos jornais. Alguns poucos artistas aproveitam e fazem suas denúncias, apresentando este povo sofrido que não arreda o pé de suas crenças, clamando por deus, descrentes das providências dos homens.
A terra seca e o gado morre de fome.Uma morte cruel, onde as forças vão desaparecendo, os passos começam a ficar cada vez mais lentos, trôpegos, até a queda! As tentativas dos homens em levantar os animais com a ajuda de pedaços de paus, são infrutíferas. E a agonia dos animais é um quadro triste, cruel e indescritível.
Sou um homem do Nordeste. Um homem que, desde criança, vi e aprendi na fazenda do meu avô como vive aquela gente e como sofre sendo explorada, sem perspectivas de dias melhores.
Quando jovem veste o gibão e vai pegar touro a unha enfrentando a caatinga inóspita, quebrando grossos galhos de árvores em suas costas, durante a corrida para recuperar o garrote que extraviou da boiada. O corpo é marcado por cortes de galhos e espinhos de cactos e unha –de - gato. Outros dedicam-se a roçar o mato do pasto, onde o gado vai comer, em época de chuva ou vão cercar mais terras para o fazendeiro. E as mulheres fazem as coivaras, que são montes de matos arrumados para a queimada. Porém, o tempo passa e, quando velhas, vão esmolar pelas sedes municipais ou viver à custa de parentes, nem sempre satisfeitos por sustentá-los.
Nunca entendi porque tanto sofrimento e o paradoxo do conformismo.Sempre cultivando a esperança de dias melhores, que nunca chegam. Já dizia Euclides da Cunha “o nordestino é antes de tudo um forte”. Parodiando o grande autor de “Os Sertões”, diria que o nordestino é antes de tudo um sofredor. Esta conversa de forte me parece ter contribuído para que deixassem o Nordeste de lado com seu povo sofredor enfrentando tempo duro.
Ninguém nasce para enfrentar tempo duro.Não é justo que esta gente morra tão perto de nós e nada possamos fazer. Campanhas emergenciais são importantes neste momento, mas não suficientes para o nordestino tornar-se forte. O nordestino antes de tudo é desprezado, abandonado e espoliado. Uma escravidão branca. Obrigado, a deixar sua terra, suas raízes para construir prédios gigantescos os quais depois de prontos ele não tem direito nem a entrar para visitá-los.
Mas, como esta é uma coluna de arte vamos falar de arte nordestina. Muitos são contra os regionalismos, mas esquecem que mesmo as fantasias elas partem de raízes da própria vivência. Assim, a arte nordestina não deixa de refletir este sofrimento, este descaso público e esta exploração. Temos muitos exemplos na arte popular vendida nas feiras livres e até nas telas concebidas com tintas e outros materiais que são importados dos grandes centros do Sul do país e até do exterior. Lembremos de Portinari quando pensou no Nordeste que surgiu em suas telas! E de outros artistas nordestinos ou não, quando pensam nesta região o que transparece.
Exatamente a miséria. É esta imagem que está fixa em nossos olhos, em nossas consciências. E isto não podem ser esquecido por nenhum de nós que trabalhamos com artes visuais. É a nossa própria realidade que está sendo multiplicada, exposta aos olhos deste país em crise. Uma realidade cheia de contrastes. É esta imagem que não podemos abstrair ou esquecer.
Esta foto de Waldir Argolo, nosso colega, mostra a plasticidade e a beleza desta cena ao entardecer no sertão da Bahia.
Mas, por trás dela está a realidade cruel e o sofrimento. Levando uma cabaça, um balde plástico, e uma panela de alumínio, estas mulheres enfrentam quilômetros para conseguir um pouco d’água para beber. Em primeiro plano, o mandacaru, que não está florido, e por isto não há esperança de chuvas.
Assim caminha o Nordeste, esquecido até por muitos de seus artistas que estão mais preocupados em imitar grosseiramente os modismos das ruas de Paris ou New York. Os artistas que também, como os burocratas, caminham insensíveis freqüentando as galerias com seus letreiros de neon, esquecendo as letras esgarranchadas feitas pelas crianças nordestinas nas paredes dos muros esburacados de suas casas. Esquecendo que o nordestino cantado e tido como forte, já não agüenta de tanto sofrimento. É hora de você, que também é artista dar uma olhadela para sua própria realidade.
Ninguém deseja que o artista nordestino feche os olhos para o que está acontecendo em Paris ou New York. Defendo que é preciso saber do que está ocorrendo nos grandes centros culturais e participar na medida do possível. O que condeno é o fechar de olhos para a nossa realidade e o distanciamento, não muito ético. Ninguém deseja que todo o artista nordestino pinte miséria! Mas, ninguém entende por que esquecem dela!

ABERTA ATÉ O DIA 30 A EXPOSIÇÃO DE CHICO MAZZONI

Continua aberta, até o próximo dia 30, a exposição de desenhos do artista plástico Chico Mazzoni, na Galeria de Arte da Aliança Francesa (Rua Recife, 222, Barra Avenida), das 8:00 às12:00 horas e das 14:00 às 20:00 horas. Os desenhos apresentados nesta mostra são todos os anos 80 e correspondem à última fase de produção do autor.
Explica Chico Mazzoni que esses trabalhos são todos sobre papel branco feitos com pastel, tinta acrílica, nanquim colorido, lápis de cor e até de impressão. “São igualmente adotadas técnicas variadas de desenho, diz Mazzoni, que vão de leves traços às manchas carregadas de cor, imprimindo volumetrias diferenciadas”.
Revelando que esta fase da sua obra sofre, acima de tudo, uma influência da pintura contemporânea, sobretudo de mestres como Picasso, Mazzoni diz que os desenhos possuem em comum uma certa continuidade construtiva, frutos de pesquisas formais minhas, tomando como ponto de partida a pintura renascentista na sua procura do ideal anatômico e nos princípios da geometria, da perspectiva e da matemática”.
Chico Mazzoni tem 29 anos e é arquiteto formado pela Universidade Federal da Bahia, com pós-graduação em Restauração de Documentos pela “Scuela di Perfezionamento in Restauro dei Monumenti dell’Universitá degli Studi di Napoli”. Durante os dois anos que passou na Itália, participou da 2ª Biennale D’Arte Santa Chiara 79; da exposição sob tema “Inferno de Dante Alighieri”, e da exposição coletiva” TEMPO- Cinque Brasiliani si Incontrano e Mostrano”, está em 1980.
Atualmente, além de exercer a profissão como autônomo, trabalha como assistente da supervisão do Grupo de Trabalho Modelo reduzido da Cidade do Salvador-Casa Civil da Prefeitura e no Padim-Programa de Apoio Didático e Memória da Arquitetura na Faculdade de Arquitetura da UFBa.

          LIVRO SOBRE O DESENHO BRASILEIRO

Será editado, este ano, o livro “Mestres do Desenho Brasileiro”, preparado pelo crítico de arte Jacob Klintowitz, em continuidade ao projeto social de incentivar, divulgar a apoiar a cultura nacional da Volkswagem. No passado, a empresa editou e distribuiu o volume “A Cor na Arte Brasileira”. A bibliografia de arte brasileira é muito pequena e obras antológicas sobre a arte nacional existem em pequeno número. E segundo Klintowitz, “este é o primeiro livro inteiramente dedicado ao desenho brasileiro. Neste sentido, a Volkswagem tem dado exemplo, pois esta será a segunda obra de caráter abrangente e antológico”. Além do tema inédito, Jacob Klintowitz justifica a escolha dessa temática por considerar o desenho a base de toda a arte. Segundo o crítico, “ele não é, como muita gente pensa, pensa, apenas um traço com grafite sobre uma superfície de papel.
O desenho é todo apontamento, assinalamento, demonstração, indicação. Desta maneira, no seu início, na sua origem, não há qualquer diferença entre desenho e escrita. E todo o trabalho artístico, finaliza pintura, escultura, gravura, tem o seu desenho.

                         EXPOSIÇÃO NO QUATRO RODAS

O advogado Paulo Emanuel está organizando uma mostra que ficará aberta de 25 a 30, no Hotel Quatro Rodas, durante o 9.º Encontro de Produtores de Acrilintrila (produto petroquímico) com a participação de representantes de empresas de vários países. O organizador não tem qualquer interesse financeiro na mostra, apenas é uma pessoa que gosta da arte e está empenhado em promover os artistas baianos.
Ele já conseguiu quadros de Rescála, Eduardo Carvalho, Carlos Bastos, José Lima, Floriano Teixeira, Edvaldo Assis, Walter Góes e outros que serão vendidos a preços de atelier, ou seja, não será cobrada qualquer taxa extra porque não há intermediação. A exposição é aberta à comunidade baiana, aos hóspedes do Hotel e aos congressistas.Quem desejar comprar um bom quadro, a preço acessível é só visitar a exposição. Esta tela acima é de Edvaldo Assis fará parte da mesma.