sexta-feira, 26 de outubro de 2012

A OBRA DE FERJÓ TEM UMA LINGUAGEM QUE É UNIVERSAL - 13 DE JULHO DE 1987

JORNAL A TARDE SALVADOR, SEGUNDA-FEIRA, 13 DE JULHO DE 1987.

A OBRA DE FERJÓ TEM UMA LINGUAGEM QUE
 É UNIVERSAL


Peixes flutuam tendo ao fundo o horizonte em tons acinzentados a amarelados, retratos onde a presença feminina é marcante, tendo como complementos da composição elementos variados, que vão desde zebras africanas a jogadores de beisebol. Não existe qualquer preocupação em combinar elementos, o que interessa é exatamente esta diversidade de figuras na composição, mas sempre deixando prevalecer algo que ele elege como essencial em cada tela. O trabalho de Ferjó tem, mesmo assim, um conteúdo que permite uma leitura universal. Nesta tela Ferjó mostra toda sua técnica como pintor.
Embora seja baiano de Caculé e pinte na Filadélfia, portanto bem longe do nosso clima tropical, conserva dentro de si arte dos baianos. Por essa razão, vez por outra retoma a Salvador para expor sua produção. Cada vez que retorna me surpreende pela qualidade apurada de sua arte.
O hiperrealismo vem fascinando muitos artistas em todo o mundo. Talvez, a influência do vídeo e da própria fotografia tenha contribuído para que alguns artistas plásticos realizem trabalhos cada vez mais próximos da realidade, permeando-os com elementos que lhe permitem assegurar a personalidade da pintura. Cada artista coloca nos seus trabalhos elementos que convive dentro do seu próprio existencial, deixando no espectador aquela sensação de indagação como, por exemplo, do por que do pincel flutuando entre quatro peixes? Este exercício nos transporta para o mundo da fantasia, para imaginarmos aqueles peixes, que de repente parecem reais, estão flutuando fora d’água. Enquanto a concepção das figuras é bem próxima da realidade, a composição por sua vez gravita no mundo do irreal. Neste clima aparentemente contraditório está a essência da arte feita por Ferjó, que se especializou numa academia americana.
Conheço o seu trabalho desde o tempo que trabalhava na então Secretaria de Planejamento e Tecnologia (Seplantec), nos primeiros anos de sua criação e tenho inclusive uma pequena tela onde aparecem alguns casarões. Portanto, embora já tenham se passado alguns anos, a distância entre a arte feita naquela época por Ferjó não tem nada a ver com a sua produção atual. Melhorou em qualidade.
Está com uma temática bem mais variada, deixando que pulse em suas mãos os sonhos que o menino de Calculé não pôde realizar na sua infância. E, no seu mundo de fantasias e brincadeiras até a sisuda Mona Lisa é convidada e ri e olha debochada os seus interlocutores.

 O artista Ferjó ao lado de uma tela onde aparece sua Mona Lisa, um dos temas preferidos para pintar.
Sua figura também tem alguma coisa de distanciamento da realidade. Com sua inseparável boina, cobrindo a cabeça raspada, finos bigodes bicoloridos e uma barbicha, bem cuidados, formam um tipo realmente fora dos padrões normais e que chama atenção. Muitos indagam a sua profissão, e quando ficam sabendo da sua condição de pintor, respiram aliviados, e passam a entender melhor o Ferjó, que é uma pessoa afável, batalhador incansável e talentoso. Talvez alguns fiquem espantados por minha sinceridade em falar de Ferjó desta forma, mas confesso que é a vontade de muitos e que falo com o maior respeito por sua pessoa e sua arte. Sou um admirador de Ferjó e também de sua luta.
Quem curte uma arte de qualidade vá até a Galeria O Cavalete porque desde o dia 9 que ele expõe seus últimos trabalhos.

É HORA DE SALVAR ACERVO DOS HANSEN

Até que enfim a autoridades estaduais tomaram conhecimento da existência do Museu Hansen Bahia, em Cachoeira, e a Casa dos Hansen, em São Félix, ambos imóveis integrantes da Fundação que reúne um rico acervo de 3 mil xilogravuras e muitos originais do artista Hansen Bahia. Ele gostava tanto desta terra que tomou Bahia como seu sobrenome.
Alemão de nascimento, Karl Heinz Hansen trocou de nome depois que conheceu a Bahia e aqui passou a morar. Antes de morrer em junho de 1978, doou aos baianos a fazenda em São Félix, com 25 hectares, e o Museu em Cachoeira, para que nos dois espaços fossem instalados  escola, creche, casa de farinha, olaria, área de lazer, oficinas de arte e teatro de arena, em benefício das comunidades pobres do Recôncavo, especialmente  de Cachoeira e São Félix.Grande parte do projeto de Hansen e da sua esposa Ilse, no entanto, ainda não se concretizou.
Acima uma bela xilogravura do mestre Hansen Bahia, que traz a sua marca de genialidade.
Para a diretora da Fundação, Noelice Costa Pinto, escolhida por Hansen Bahia para ser a curadora-testamenteira dos seus bens, é injustificável a falta de apoio dos órgãos culturais da Bahia para um projeto de tamanha importância.
Ela diz que já recebeu inúmeras propostas do governo alemão que deseja a transferência do acervo, mas não quis nem pode aceitar nenhuma delas. A vontade de Hansen e de Ilse de doar seus bens aos baianos era tão grande que fizeram quatro testamentos, inclusive um gravado, além da escritura pública de doação registrada.
Quem visita a Fazenda Santa Barbara ou, como é mais conhecida, a Casa dos Hansen, em São Félix, tem impressão que o casal ainda reside lá. Apesar de todas as dificuldades financeiras, a casa está em perfeito estado de conservação, cheia de fotos, objetos pessoais e trabalhos dos dois artistas. A última obra de Ilse inacabada, continua no cavalete, exatamente como ela a deixou em junho de 1978. Trata-se de uma técnica mista, de folha de ouro com pintura em vidro. No armário do quarto do casal ainda estão as bonecas, os vestidos e sapatos dela, na cabeceira da cama, os colares que não saiam do seu pescoço.
Próximo a casa está a capela com as cinzas de Ilse (que morreu em 1983) e Hansen. Em volta, 25 hectares, onde planejaram a implantação de uma creche, uma escola pública de 1º grau uma espécie de “Escola Parque” do interior, embasada no pensamento do famoso educador Anísio Teixeira, trabalhos comunitários de plantações de verduras, hortaliças e de mandioca, criação de pequenos e médios animais de consumo caseiro, casa de farinha aberta ao povo, olaria para fabricação de telhas e tijolos para substituir as casas de palha e sopapo, além de áreas para casamentos, aniversários, batizados, lazer e cultura e para a construção de pousadas que servissem para estimular o turismo na região e manter a FHB.

Para o museu em Cachoeira, onde está a maior parte de sua obra, Hansen Bahia pensou nas oficinas de arte, literatura de cordel, biblioteca, teatro de arena e salões de exposições. “locais onde poderão trabalhar mais de 100 pessoas”, informa Noelice Costa Pinto, “aprendendo, pesquisando, criando, produzindo e também expondo e vendendo em benefício próprio o produto do seu trabalho artístico”.
O Museu funciona na antiga casa de Ana Nery, emprestada pela Prefeitura de Cachoeira.
“A Prefeitura nos doou uma casa para a sede definitiva da Fundação, em 1976, e nestes 11 anos lutamos para obter recursos para a sua restauração”, conta Noelice.
Vemos ao lado reprodução de foto de Hansen,ao lado de sua Ilse, viveu e amou esta terra.
Agora, finalmente, o Ministério da Cultura liberou uma verba de CR$ 2 milhões para as obras, a casa está em ruínas, que serão realizadas pela SPHAN/Pró-Memória. 
A diretoria da Fundação está convencida de que a Bahia poderá ser um importante centro de xilogravura a partir das atividades do Núcleo de Cachoeira, tornando-se realidade o sonho de Hansen de aperfeiçoar o homem através da arte”e contribuir para o soerguimento cultura de Cachoeira e São Félix”.
Mas, para isto, adverte Noelice, são necessários “o esforço de todos nós e o apoio decisivo moral e material dos governos municipal, estadual e federal”.