quarta-feira, 31 de outubro de 2012

OS BRASILEIROS NA BIENAL DE SÃO PAULO (1) - 26 DE OUTUBRO DE 1987

JORNAL A TARDE SALVADOR, SEGUNDA-FEIRA, 26 DE OUTUBRO DE 1987.

OS BRASILEIROS NA BIENAL DE SÃO PAULO (1)


Um dos trabalhos de Luiz Zerbini, onde aparecem figuras numa piscina.
Acabo de retornar de São Paulo onde visitei demoradamente a 19ª Bienal Internacional. Fiquei impressionado com alguns artistas latino-americanos, os quais não devem nada em termos de qualidade e contemporaneidade aos mais famosos e destacados estrangeiros convidados. Quanto á representação brasileira, composta de 23 artistas, não encontrei nada de sensacional. Não sei que critérios nortearam a comissão de arte e cultura da Bienal. Senti uma preocupação muito grande com a inovação ou com o tema Utopia versus Realidade e grandes falhas na execução. A instalação do Juracy Dórea, por exemplo, ficou muito mal produzida, dando a impressão de uma porção de posters espalhados, sem muito critério.
Acho que se o Juracy levasse à Bienal os painéis coloridos, os originais, sua obra estaria melhor representada. Quanto ao Ivens Machado, catarinense que reside e trabalha n Rio de Janeiro, apresenta oito peças escultóricas de proporções feitas em cimento, pedras, óxido de ferro. Ivens é um conceituado artista brasileiro, já tendo exposto em várias galerias do Rio e São Paulo. Seu trabalho, no entanto, não sensibiliza a maioria dos visitantes, como tive oportunidade de constatar com as diversas pessoas que conversei.
Já o Rogério Nazari e Telmo Lanes, do Rio Grande do Sul, com sua instalação composta de 25 pinturas feitas segundo processo e imagens tradicionais, calcadas em elementos do absurdo, demonstram que conhecem bem a técnica da pintura e souberam jogar todos os elementos, inclusive com um fundo musical perfeitamente enquadrado à proposição.Na realidade, os dois conseguiram estabelecer um discurso místico com o público que procurava entender a cada passo o naturalismo romântico ali explicitado na sua obra. Rogério é arquiteto e Telmo tem fundamentação no estudo das Letras.
Karin Lambrecht, também de Porto Alegre, apresenta uma pintura registrando o gesto, não como representação gráfica, mas como captação da energia, do movimento e do momento da matéria e ganha a tridimensionalidade ao formar um mesmo conjunto com objetos de madeira e sucata.
Luiz Hermano, com sua visão lúdica do mundo, materializa imagens que mantém um parentesco próximo com as do desenho animado e da história em quadrinhos.São quadros de grandes dimensões com espaçonaves que vagueiam de um lado para o outro em meio a constelação de estrelas e astronautas que flutuam em espaços azuis, entremeados de pontos brancos, indicando estrelas.Um trabalho agradável, bem próximo dos quadrinhos que tanto encantam as crianças.
Márcia Grostein, de São Paulo, reside e trabalha em Nova Iorque, apresenta uma instalação intitulada Os 7 Continentes com pinturas utópicas sobre partes imaginárias da Terra.
Iran Espírito Santo, de Mococa, São Paulo, ironiza com suas pinturas, desenhos, objeto e instalações os modos tradicionais de representação.
César Brandão, Minas Gerais, apresenta Spurbeuyflycheckmate contra o canto das sereias, onde há comentários sobre as pesquisas plásticas e estéticas de Marcel Duchamp, Leonardo da Vinci, Josef Beuys, Drummond e Titãs etc. Ele utiliza materiais como o mel, o couro, a cera, barbantes e discute a sedução exercida pela utopia em contraste com a realidade.
Geórgia Creimer, paulista, residente em Viena, Áustria, mostra pinturas feitas em 1987 e integram uma instalação simbólica onde a força individual de cada trabalho, o seu funcionamento, dependem intrinsecamente da relação entre si e o espaço que ocupam. As peças adquirem uma quantidade específica em função da posição, canto ou altura onde foram colocadas para que atuem em ralação ao público em uma outra dimensão.
Cássio Michalany, também paulista. Como podemos observar, há uma prevalência quase absoluta de paulistas entre a representação brasileira. Ele mostra quatro trabalhos com uma tendência de sintetizar os elementos componentes, concentrando atenção em questões específicas a pintura como o espaço, a cor, sempre livres de qualquer tipo de significado e representação. Cássio explora as relações entre superfícies monocromáticas e texturizadas.
Dudi Maia Rosa, São Paulo, nos anos 70, seus trabalhos se caracterizam por transcrever objetos e cenas cotidianas com traçados livres, cores vibrantes e atmosfera luminosa. Observa-se no decorrer dos anos 80 uma progressiva diluição destas imagens e sua transformação em zonas de cor, grafismos cromáticos e inscrições sobrepostas em camadas sucessivas. No início de 84, Dudi intenciona com sua obra banir conceitos, idéias, significados e de concentrar na obra com existência em si mesma, definida somente em suas qualidades físicas: formas geométricas simples, cor, estrutura e oposição opaco-translúcido.
Afirma ele que em seus trabalhos sua ação acontece no interior da pintura, por usar pigmento envolvido em poliéster sob uma camada de fibra de vidro.
Artur Lescher, São Paulo, com seu Aerólito discute o espaço do edifício da Bienal projetado por Niemeyer. Lembra um Zepelim, todo feito de cor, Lâminas de metal com cor prateada que ficam flutuando. São dois. Um do lado de fora e outro dentro, separadas pela vidraça do prédio.
Ângelo Venoso, de São Paulo, apresenta quatro esculturas de grandes dimensões, usando madeira e tecido gomado e pintado.Suas esculturas se configuram em formas orgânicas e zoomórficas, aludindo ao arcaico e a vivências primárias.
Cynthia Vasconcelos, Porto Alegre, mostra oito pinturas.
Ana Maria Tavares, de Belo Horizonte, sua instalação ocupa 228m² e compreende painel com desenho e pintura, esculturas em aço e vidro. Trata-se de um trabalho que revela colisão, desarmonia e influência da “baixa cultura” característica das novas gerações. 
Tunga, Palmares, pernambucano, mora e trabalho no Rio. O arquiteto Tunga chama a atenção de todos que visitam a Bienal. Sua instalação está bem no centro do edifício e uma imensa cortina de  limalha de ferro pesando duas toneladas pende do teto e no chão chapas de ferro servem de piso para o resto da instalação que ainda utiliza ímãs. O seu trabalho é coerente com tudo que Tunga vem mostrando desde 74, quando iniciou sua trajetória como artista plástico. Muitos não gostam do seu trabalho. Mas é intrigante e ninguém consegue ficar imune com sua presença.
Sérgio Romagnolo, paulista, trouxe sete esculturas em fiberglass, com tamanho variando entre 120 e 270cm, configurando imagens vindas da cultura de massa. Esses trabalhos são cheios de humor e crítica, e discutem as questões da representação emergentes da pintura.
Eliane Prolik, de Curitiba, é a atual diretora do Museu Alfredo Anderson e Atelier de Arte, em Curitiba. Com sua instalação “Lúmen”, ela utiliza as características de iluminação do Pavilhão da Bienal, trabalhando com luz e sombra e as metamorfoses ocasionadas pelo papel heliográfico.
Alexander Pilis, Rio de Janeiro, reside e trabalha do Canadá. Sua tese “memória Coletiva, o território da morte” sugere que os locais, construções, os objetos e símbolos ligados à morte obedecem aos mesmos códigos e procedimentos empregados na “Cidade dos Vivos”. Sendo arquiteto, sua instalação Architecture Ego: Codes of Disruption, discute exatamente esta região.
Milton Macahdo, carioca, com sua instalação Hi-Fi” (alta fidelidade) consiste no empilhamento de macotecas de aço sobre estrutura tubular e música eletroacústica de autoria de  Rodolpho Caesar. Ele mostra ainda o “Semáforo” que consiste no empilhamento de 25 lâminas de vidro planos, pintadas de vermelho, amarelo e verde e fonte luminosa que projeta as cores no ambiente e nos visitantes. Mas, sem dúvida, que a “Hi-Fi” é que tem mais força e impressiona, principalmente com a perfeita coordenação com sons metálicos. As mapotecas são pintadas de preto e o ambiente fica apropriado para imaginações.
Heloísa Pini, outra paulista. Sua instalação mede 108m², usa aço carbono e tecido emborrachado de ar.
Luiz Zerbini - com três instalações Solimões com o Negro, com 30m² azulejados em preto e mármore, com iluminação artificial e um sofá onde flutua um boto.Tempestade em copo d’água, onde uma imensa cortina torcida desemboca em um copo. O Sistema, formada por 50 carrinhos de feira contendo objetos encaixados formando um círculo, de modo que ao movimentar um todo o círculo se move.
Falei propositadamente, com certa rapidez, sobre todos os brasileiros para que aqueles que não verão a Bienal tenham pelo menos uma idéia da nossa representação. Muita coisa exposta, mesmo em nome do nosso país, é passível de muita discussão. Os critérios subjetivos  de escolha e concepção correm por linhas e caminhos paralelos e que  muitas vezes se encontram em locais indefinidos.Se é que se encontram...


As criativas fachadas nordestinas enfocadas por Ana Mariani.
Mas não posso deixar de registrar aqui a minha satisfação em encontrar na Bienal, fotografias de fachadas de casinhas da cidade onde moram meus pais e onde passei minha infância. É a querida Ribeira do Pombal, enfocada pela sensibilidade de Ana Mariani, que é baiana, e reside em São Paulo.
Ela enfoca cores fortes, as formas curiosas das fachadas das casas nordestinas. Cruzou o sertãozão nordestino e foi captando as fachadas multicoloridas que trazem o traço da cultura nordestina. Em algumas surgem verdadeiros signos, abstratos outras vezes figurativos. E algumas fachadas de casinhas pombalenses estão lá fora para todo visitante admirá-las.