quarta-feira, 31 de outubro de 2012

ALGUNS ESTRANGEIROS NA 19ª BIENAL (FINAL) - 09 DE NOVEMBRO DE 1987

JORNAL A TARDE SALVADOR SEGUNDA-FEIRA, 09 DE NOVEMBRO DE 1987.

ALGUNS ESTRANGEIROS NA 19ª BIENAL (FINAL)

Neste último artigo sobre a 19ª Bienal Internacional de São Paulo, vou enfocar alguns artistas estrangeiros, cujas obras merecem destaque. Inicialmente temos que falar de Marcel Duchamp, o pai das vanguardas das últimas décadas, representado por várias obras cedidas pelo colecionador Arturo Schwarz, radicado em Milão, e pelo Moderna Museet de Estocolmo, além de documentos e fotografias da réplica do Grande Vidro. Sua presença está intimamente relacionada com sua importância como artista que foi e, principalmente, porque este ano é o centenário do seu nascimento. A curadora geral da bienal, Sheila Leirner, justifica a presença de Duchamp dizendo que é um contraponto para o embate ‘Utopia versus Realidade’. Duchamp é um marginal diante dessa questão.
Um outsider que revolucionou o pensamento e o olhar sobre a arte do nosso século. Assim, nada mais natural que merecesse uma exposição especial, inédita na América Latina.
Sem dúvida que é extraordinária a obra do escocês David Mach, uma grande instalação feita com 15 toneladas de revistas, que são dispostas sem qualquer colagem ou recortes.
Por cima delas um trator que nos dá uma sensação de total destruição, levando à sua frente, com a força dos seus cavalos invisíveis, tudo que o David resolve captar como elemento e integrar à sua obra. Esta sua identificação com retalhos da produção industrial ou da sociedade de consumo é fruto de
uma observação que o acompanha desde o tempo de estudante, quando aproveitava as férias de Verão para trabalhar como operário em fábricas. Ele ficava impressionado com os excessos de produção. Não trabalha com sucata. Suas obras são sempre construídas com objetos novos, como os que usou nesta sua instalação na Bienal paulista.
Ele disse gostar de trabalhar em público, ao contrário de muitos artistas que preferem o silêncio do atelier, “porque as pessoas fazem perguntas perturbadoras que nos obrigam a pensar”. Podemos destacar que as 15 toneladas de revistas, o trator e outros objetos do nosso mundo real que utiliza em sua instalação permitem a criação de várias imagens de acordo o ângulo em que o visitante se coloca para examinar a sua obra.
A instalação passa uma imagem de um turbilhão de revistas que vai invadindo os espaços e o trator cumprindo o seu papel de levar adiante o resultado daquela catástrofe. A instalação pode servir ainda a muitas leituras, e, como diz Mach, “eu me interesso na diferença entre a insensibilidade da produção em massa, a maneira não espiritual com que as coisas são feitas e a afetividade que se pode ter por alguma coisa”
A FAMÍLIA BOYLE
Todos que lêem sobre arte já conhecem os trabalhos da família Boyle ou pelo menos já devem ter ouvido falar. Na Bienal a família apresenta 12 relevos em fibra de vidro e todo o seu trabalho é formulado nas observações nos solos em várias partes do mundo, ou seja, desde uma rua movimentada de uma grande metrópole à superfície de um deserto. Mark Boyle, o chefe da família, nasceu em  Glasgow, estudou Direito e, em 1964, iniciou com Joan Hills os trabalhos com a superfície da Terra. Mais tarde, os filhos do casal, Sebastian Boyle e Geórgia envolveram-se também nesse trabalho e os quatro passaram a assinar como Família Boyle
Eles tem viajado pelo mundo afora recolhendo material para o seu trabalho que é realmente arrebatador. Diz Mark Boyle que “ao contrário do que pensam as pessoas que conhecem o nosso trabalho, não existe uma fórmula para executas as nossas peças.                                                                     Detalhe de uma obra executada pela Família Boyle.
É fatal engano imaginar que sabemos como vamos fazer uma determinada superfície.
O que é importante é que nós que tivemos oportunidade de ver de perto obras da família Boyle ficamos visivelmente impressionados com a capacidade inventiva do grupo e a habilidade em transportar para seus relevos imagens que estão gravadas no solo de várias partes do mundo. Os mínimos detalhes, como uma ponta de cigarro amassados numa velha calçada de Londres são reproduzidos com perfeição. É um trabalho apurado com as resinas e conseguem dar o colorido exato.

ERWIN WURN

O austríaco Erwin Wurn, festejado em sua terra, apresenta uma instalação onde une e superpõe objetos utilitários de metal, especialmente grandes tachos e latões que nos dão a impressão de estarem soltos., disponíveis à assumir variadas e intrigantes posições, juntamente com a Brigite Kowanz, representa a Áustria e nos informa Peter Baum que ele, com 30 anos de idade, foi homenageado com o prêmio Otto Mauer, e já apresenta como referência uma obra pluralística e de grande conseqüência, ilustrando claramente, através da contrapontuação na utilização diferenciada da cor, a mudança,, a seqüência de  materiais aplicados, tais como madeira, concreto, palha e chapa de alumínio

Acima obra do austríaco Erwin Wurn,com objetos utilitários.

MARGRETE SORENSER

A dinamarquesa Margrete Sorenser apresenta quatro séries de escadas reais ou oficinas, que se dirigem para uma plataforma. Todos que visitam a exposição imaginam subir as escadas, porém isso não é possível.
O movimento é indicado, mas não de forma física. É o movimento do material para o imaterial. Na realidade trata-se de uma escultura em forma de cruz, já conhecida em Copenhague, onde foi montada há cerca de dois anos.
Para Oystein Kjort a obra de Sorenser pode ser considerada uma apresentação teatral, durante a qual o observador convidado a ver as amplas possibilidades do espaço, encontrando-se, de sonho e obsessão, de posse do desconhecido.
Podemos ainda destacar as obras do alemão Anselm Kiefer, com sua pintura que prima por anotações nebulosas de arquitetura e paisagens.
Uma atmosfera que para alguns críticos de arte evoca temas históricos e a própria mitologia germânica. Para outros, alude ao arcaico, a um passado fora do próprio tempo presente, lembrando a atitude dos antigos mestres alemães.
Também o japonês Tadashi Kawamata, mora em Tóquio, apresenta uma instalação composta de duas partes. No pavilhão da Bienal tem uma documentação fotográfica e explicativa de sua obra e, numa rua próxima ao parque de Ibirapuera fez uma montagem usando sarrafos de madeira numa casa em ruínas.