quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

A CRIATIVIDADE EXPERIMENTADA NOS CURSOS PROMOVIDOS NO MAM - 25 DE MARÇO DE 1980


JORNAL A TARDE SALVADOR, 25 DE MARÇO DE 1980

 A CRIATIVIDADE EXPERIMENTADA NOS CURSOS
 PROMOVIDOS NO MAM
Sônia Castro examina com alunos uma
 prova da gravura
Hoje, o ensino das técnicas é sobrepujado por um princípio de ordem mais geral, o da criatividade. O objetivo é revelar em cada aluno o seu potencial criativo, em muitos casos enfatizando o caráter coletivo, a participação de todos na elaboração das propostas, visando uma melhor apreensão do saber artístico em questão.
Jovens e velhos experimentam a criatividade
da xilogravura
Os cursos de arte em série realizados no Museu de Arte Moderna, no Solar do Unhão, por iniciativa de um convênio da Coordenação de Museus, Fundação Cultural do Estado e Funarte, é um projeto que abre a possibilidade em salvador (como de resto em toda a Bahia) da eventualização de um movimento bastante amplo na área da produção de múltiplos, isto é, gravuras em madeira (ou xilogravura), em metal, em pedra (litografia) e serigrafia (ou silk-screen)
Dividido em duas etapas, xilogravura e gravura em metal na primeira, serigrafia e litografia, na segunda, o curso contou com um total de 60 alunos e mais alguns poucos alunos-ouvintes. A verba oferecida pela Funarte, porém, destinava-se a um total de 40 alunos (20 em cada curso) mas como o número de inscritos ultrapassou as expectativas, foi decidido um aumento de 10 alunos em cada curso. Alguns problemas de falta de material, prejudicando o perfeito andamento das aulas (experimentos), graças aos entraves burocráticos das nossas instituições culturais.

PROPOSTAS E CRÍTICAS

A artista e professora de artes plásticas, Sônia Castro, responsável pelo ensino da xilogravura, nos cursos do MAM, ao ser interrogada sobre os objetivos do curso, não se limitou a constatar a possibilidade da abertura de mercado para os artistas, mas estigmatizou uma proposta ainda mais definida e com uma perspectiva bem mais ampla:
-A finalidade não seria a de formação de artistas (embora este ainda seja o objetivo do curso), mas de instrutores para levar o curso às escolas de primeiro e segundo graus das escolas públicas da periferia, despertando o interesse dos poderes públicos em possibilitar a formação complementar na educação dos novos contingentes de alunos.  
Nesse sentido, teceu críticas à educação artística que é oferecida no ensino básico, afirmando que embora conste das legislações, não tem sido aplicado convenientemente: “Existem projetos aprovados, mas que não vêm sendo cumpridos”.
Para a artista baiana, mas radicada em São Paulo, o problema básico da arte plástica está justamente na reversão da carência do ensino artístico nas escolas de primeiro e segundo graus. “A arte deve ser encarada como um instrumento de vida, ajudando o ser humano a se encontrar, produzir-se a si mesmo, porque o homem é o objetivo e não a arte”.

O CURSO, O EXPERIMENTO

 - Didaticamente, esclarece Sônia Castro, o curso compõe-se de dois elementos: o experimento e a especialização (no sentido de extensão universitária), pois enquanto alguns alunos estão tendo seu primeiro  contato com esse fazer artístico, outros estudam ou já cursaram a Escola de Belas Artes da UFBa.
Sônia Castro transmite
sua experiência
O processo de elaboração da gravura, de uma maneira simplificada, implica em criar o modelo (a ideia), produzir o clichê, ou matriz, que só se torna gravura na medida em que passa para o papel, especificado em dois tipos: o apropriado para a cópia na prensa e o “papel de arroz”, para a cópia manual.

Destacando o aspecto lúdico da arte, Sônia Castro fez ver o papel de catarse desempenhado por esta prática, possibilitando uma sensação de prazer, com a liberação de toda a carga cultural (psicológica, antropológica e etc.) dos indivíduos, ao que se pode acrescentar, no caso específico da xilogravura, uma “nostalgia afetiva”, quanto ao trabalho com a madeira, pelo que esta, originalmente, possui de vida.
A gravura sempre existiu ao lado da pintura, por isso mesmo o múltiplo, de uma maneira geral, não tem o sentido de desmistificar o “objeto único”. O preconceito existente para com a aquisição de uma obra de arte produzida com similar, é um comportamento pré-industrial, de postura acadêmica. A revolução Industrial acabou completamente com esse tipo de atitude.

                                                                          
PROGRAMAÇÃO  VISUAL
 Quanto à questão de hierarquia de materiais (mais ou menos nobres), na elaboração da gravura, considerando que a arte contemporânea tem se apropriado da sucata industrial para a eventualização dos seus projetos, Sônia afirmou que isso não ocorre no âmbito da gravura, pois esta depende de materiais definidos: “Em xilogravura, as ferramentas são específicas, ainda que variadas, e a madeira tem que ser especial”.
Para Sônia Castro, entretanto, “toda a problemática artística contemporânea consiste na programação visual voltada para a sobrevivência dos indivíduos. As cidades brasileiras (Salvador particularmente) não foram ainda solucionadas a nível de um planejamento geral. A codificação que esquematiza a locomoção das pessoas das nossas metrópoles é completamente arcaica, obsoleta, importada dos países desenvolvidos, esse códigos não são programados para com a linguagem do nosso povo, dificultando a decodificação e pondo em risco a própria vida das pessoas, basta constatar que Salvador é uma das cidades de maior índice de atropelamentos do mundo. A diversificação muito grande de símbolos visuais, alem de inviabilizar uma “leitura” mais fácil para a comunidade, impede o necessário contato do homem com a natureza”.
Ao falar sobre a exposição dos trabalhos do curso de arte em série, decidida na última reunião dos responsáveis pela direção das atividades, estabelecendo o seu início para 17 de junho, com a característica de que as “obras” serão apresentadas ao público sem que os alunos paralisem as aulas, os experimentos, Sônia Castro lembrou que em 1963 participou de uma grande feira de gravuras, realizada em Salvador pelo Centro Popular de Cultura (CPC), acentuando o fato de que com a tomada do poder pelos militares, em 64, os trabalhos desenvolvidos pelo CPC foram completamente destruídos e muitos artistas perseguidos (ela própria, inclusive).
As áreas de música e teatro, embora fortemente afetadas, conseguiram dar continuidade aos trabalhos que vinham desenvolvendo, mas isto não ocorreu nas artes plásticas, onde houve um corte drástico no processo.

MICHAEL WALKER: A GRAVURA EM METAL

Embora o nome leve a crer, não se trata de um estrangeiro (francês, suíço, ou mesmo americano). Michael Walker, responsável pelo ensino da gravura em metal, é brasileiro, mais exatamente paulista. Sua formação, entretanto, se deu basicamente na Inglaterra e em Genebra, na Suíça, onde formou-se na Escola de Design e Escola de Belas Artes, respectivamente, além de ter trabalhado no Centro de Gravura, também em Genebra, aprendendo, inclusive, muitas técnicas com artistas brasileiros que lá estavam radicados.
Com bastante conhecimento das técnicas da gravura em metal, o artista garantiu que deseja transmitir essas informações de uma maneira integral, não pretendendo formar grupos, ou escola, no sentido de passar um único estilo, padronizando a produção.
Por envolver técnicas diversas, desenho básico, água-forte (traço gravado pelo ácido na placa de metal) que permite uma maior clareza das linhas), água-tinta (efeitos tonais, dado também pelo uso de ácidos) e ponta seca (que tem a função de facilitar a gravação no metal, sem o uso de ácidos), a gravura em metal continua em aberto para  a realização de muitas experiências. A gravura é a arte plástica, não é somente reprodução, arte gráfica.
A pintura dominou por muito tempo o mercado, desvalorizando o desenho. Não que se queira dar uma noção de valor, continua Michael Walker, porque para a arte, hoje, interessa a expressão do artista, a exteriorização do que ele quer dizer. A gravura possibilita a aquisição de uma obra de arte a baixo custo, por parte do público.
Quem reage com preconceito aos trabalhos de gravação, ignora completamente o que seja o processo de elaboração da gravura. Na Europa e Estados Unidos existem movimentos, no sentido de levar a gravura a um público mais amplo, não só nas galerias, mas também nas fábricas.
Michael trabalhando com seus
alunos no Solar do Unhão
Na Bahia, Há um predomínio da xilogravura. No entanto, a gravura em metal oferece uma maior flexibilidade e um campo de pesquisa mais amplo. Se na pintura não existe tanto a possibilidade de criação coletiva, a gravura permite o trabalho conjunto, embora o artista, hoje, de um modo geral, adverte Michael, tenda a individualizar-se.
Mas a própria eventualização dos cursos de arte em série, nesse sentido, se mostra inteiramente experimental, ainda que somente através do contato com artista (gravadores já formados) os interessados poderão adquirir a técnica dessa especialidade artística.
Na realidade, contudo, a última técnica desenvolvida pela gravura em metal compreende a inclusão do clichê fotográfico nas chapas metálicas que podem ser de zinco, cobre ou, mais raramente, de ferro, pela dificuldade de gravação. A gravura em metal sofre o mesmo processo da impressão tipográfica e, de uma maneira ainda mais clara, os sistemas de impressão podem ser divididos em dois tipos: Manuais- xilogravura, gravura em metal, litografia e serigrafia; Mecânico- tipográfico e off-set.

ARTE PARA CAVALETE

Araripe Júnior, cineasta, poeta, artista plástico e aluno em xilogravura nos cursos de arte em série do MAM, falou a respeito da importância do curso em nome dos demais.
Disse que o curso é “importantíssimo” pela possibilidade de conhecimento de técnicas inteiramente desconhecidas.
Na Escola de Belas Artes, só temos xilo e gravura em metal, mas sem uma informação mais profunda.
Aqui, além de “lito”e serigrafia, o espaço e instrumentos oferecidos possibilitam, inclusive, a deflagração de um movimento de gravura em geral, não se restringindo à xilogravura, como ocorreu durante a década de 60.
A gravura é importante pela sua reprodução em série, diminuindo o custo e possibilitando o acesso de uma obra artística a um público mais amplo. Vale lembrar que existem questões de ética envolvendo a produção e a venda. Os trabalhos têm que ser numerados, se você vende a alguém uma gravura afirmando que foram impressas apenas 20 e essa pessoa em contra o mesmo trabalho com o número 21, ele pode até processar o artista. E é bom que fique claro que ainda encontro preconceito para vender as minhas xilogravuras, mas o fato é que, com gravura reproduzida em  série ou não, continuamos a fazer arte para cavalete. 
( Albenísio Fonseca)