quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

OS ESPANTALHOS DE MURILO - 10 DE FEVEREIRO DE 1980.


JORNAL A TARDE, SALVADOR, DOMINGO, 10 DE FEVEREIRO DE 1980. 

                    OS ESPANTALHOS DE MURILO

Tristes figuras humanas infestam os bolsões de miséria que estão localizados na periferia das grandes cidades brasileiras, e principalmente no Nordeste do país. São homens, mulheres e crianças que desconhecem uma roupa e uma alimentação, além da habitação em condições dignas. Vivem como párias- ou pior que esses perambulando e sofrendo a falta de emprego. Uma vida só de sofrimentos. Uma vida só de tristezas. E é deles exatamente que lembro quando observo com cuidado uma dessas fortes e vibrantes telas de Murilo. São pessoas “fotografadas” pela sensibilidade deste jovem artista, que vem crescendo de qualidade a cada dia. E concordo com Ivo Vellame quando afiram que esta nova fase de Murilo (a  dos espantalhos) é talvez a mais importante das apresentadas por ele, a mais expressiva, plena de melancólica poesia, marcante pela tristeza que se vê estampada nos rostos das figuras por ele criadas.
Seus espantalhos transcendem àqueles outros que são muito comuns habitantes das lavouras para espantar os pássaros e os ladrões menos avisados. Estes últimos têm uma poesia lírica, são feios e a feiúra serve para espantar, mas em contrapartida são imóveis, parados e insensíveis. Porém os retratados por Murilo parecem seres vivos que vivem massacrados pelas violências, pela arrogância daqueles que buscam o lucro fácil e transbordam. São vítimas dos insensatos e das frustrações sem limites. Mas, concluindo devo dizer que os espantalhos criados por Murilo são dignos de compor coleções as mais exigentes, inclusive já deveria integrar uma de suas telas a coleção do Museu de Are Moderna da Bahia. Fica aí a sugestão para a atual diretoria do MAM-Ba.

                      A BUSCA DOS LADRÕES DE ARTE

O Esquadrão das Artes é uma das recentes divisões da famosa Scotland Yard embora conte com 11 anos de vida. Também estamos certo de que não gozaria de fama internacional a não ser pela recompensa com que têm sido gratificados os seus consideráveis esforços. Referimo-nos ao fato de que o famoso esquadrão conseguiu recuperar mais de 75 milhões de dólares em obras de arte e antigüidades na Inglaterra e no resto do mundo. Para avaliar exatamente a importância desta divisão da Scotland Yard basta pensar que o roubo de obras de arte é atualmente, o “negócio” mais lucrativo depois do tráfico de drogas.
O Esquadrão das Artes foi criado em 1968 quando se teve conhecimento da existência de importantíssimos roubos de obras de arte tanto de museus como de coleções particulares. A isto deve-se acrescentar que a lei inglesa estabelece que quem compra de boa fé uma obra exposta livremente não pode ser privado dela, embora se trate de material roubado. As duas circunstâncias exigiam das autoridades ação urgente.
Inicialmente foram destinadas a este esquadrão três pessoas que pouco ou nada sabiam de arte, razão pela qual tiveram de atualizar-se freqüentando cursos ou lendo livros especializados.
Hoje, graças ao sucesso obtido, esta divisão da Scotland Yard possui um registro minucioso de todas as peças roubadas de museus, galerias e coleções particulares.
Por outro lado, é preciso acrescentar que os métodos usados pelo esquadrão serviram de modelos a outras organizações como FBI americano e Sureté francesa.
O inspetor Graham Ward, que há vinte anos serve na Scotland Yard informa: “naturalmente nenhum de nós é um especialista em arte, mas rodos somos detetives experientes, no sentido de que, para agir neste setor, deve-se estar em condições de tratar tanto com o submundo do crime como com grandes especialistas ou comerciantes que se dedicam a este lucrativo negócio”.
O esquadrão publica todos os meses um boletim que distribui em lugares estratégicos e também a pessoas entendidas no ramo com uma lista das antigüidades e das telas que foram furtadas, segundo seus proprietários.
Durante 1978, o esquadrão recebeu 1516 pedidos de informações de policiais não ingleses e graças às informações prestadas recuperaram-se cerca de Um milhão e 200 mil dólares em objetos e telas. É preciso registrar também que muitas vezes a rápida ação desta divisão deve-se mais que a própria à atitude de informantes ligados diretamente ao comércio de obras de arte que alertam com informações precisas.
Um funcionário da Scotland Yard confessa: na realidade umas das chaves da eficácia do esquadrão é o seu serviço de permuta de informações, o que significa que quando um negociante de obras de arte recebe uma mercadoria que poderia não ter sido comprada legitimamente, pode recorrer imediatamente à divisão a fim de que esta comprove se a peça em questão está incluída em sua lista.
Por sua vez, estes “marchands”, declaram: “o esquadrão é que deve dar a última palavra, pois muitas vezes criam-se situações embaraçosas quando não se pode estabelecer a origem de uma peça. Por isso, apoiamos nas autoridades. Também, deve-se ter em conta que estamos a enfrentar um novo fenômeno: o ladrão de obras de arte culto, que sabe perfeitamente o que vale a pena roubar. Por outro lado, acreditamos que se está a organizar um tráfico de telas roubadas, mas... Não posso adiantar-lhe mais, só que o registro do  esquadrão mostra que estes ladrões podem vangloriar-se de uma imaginação capaz de rivalizar com as próprias obras, alvo das suas ambições.

                               MÁRCIA MAGNO, UM SUCESSO

Agradou a todos aqueles que tiveram oportunidade de visitar a exposição dos trabalhos de Márcia Magno no Rio de Janeiro. O meu amigo Geraldo Edson de Andrade escreveu na revista isto/É, de São Paulo, sobre o seu trabalho e em certo trecho afirmou- formas geométricas habilmente construídas, transparências de cores puras com um acentuado ludismo extravasam a fantasia criativa da jovem gravadora. Que não se contenta somente com a gravura em si.
Dela parte para  pipas (pandorgas, papagaios, etc.) que, soltas ao vento, dão lhe uma nova função, alegre e colorida, além da parede ou da mapoteca costumeira.
Diria ainda que Márcia é uma das esperanças do fortalecimento da gravura baiana, e fico feliz com isto porque aos poucos a xilo retoma o seu verdadeiro lugar, especialmente com novos talentos que começam a despontar, alguns deles, como é o caso de Márcia Magno, contando com a orientação criteriosa e segura do mestre Juarez Paraíso, que diga-se é um gravador de mão cheia.
Mas, por falar em Márcia também Walmir Ayala deu sua opinião sobre o trabalho da gravadora baiana, afirmando que ela usa a matriz de madeira, manipula a cor e exercita a geometria. Tudo com grande eficiência técnica, envolvendo o olho do espectador numa festa de cor-ritmo compositivo. As transparências, o efeito das superposições, a simetria e o respeito Aragão, Dedé Santana, Mussum, Zarcapela linguagem natural do material (madeira) resultam nesta série de xilogravuras de grande unidade a par de uma rica seqüência de estímulo visual.
A exposição de Márcia Magno foi realizada na Galeria Macunaíma da Funarte, e ela foi selecionada entre os expositores do Salão Nacional de Belas Artes. É uma boa esperança para o futuro das artes plásticas baianas.

OBRAS NO PRÉDIO DA FUNARTE E MUSEU DE BELAS ARTES


O prédio do Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro onde também está instalada a sede da Funarte, passa, a partir deste mês, por um período de  150 dias (seis meses), pela primeira reforma das fachadas externas desde a sua construção em 1908, a partir do projeto de Moralles de Los Rios. Ampliado em 1922, quando foram criadas galerias internas e erguido outro pavimento, o edifício ocupa o quarteirão compreendido entre a Avenida Rio Branco e as ruas Araújo Porto Alegre, México e Heitor de Melo. Nele funciona, além do MNBA (com quatro andares voltados para a Avenida Rio Branco, em frente ao Teatro Municipal) a Funarte, que desde 1977 está instalada no espaço originalmente ocupado pela Escola de Belas Artes, hoje integrada ao campus da UFRJ, na Ilha do Fundão.
A obra, orçada em CR$ 985 mil, compreende limpeza e reconstituição da parte exterior do prédio tombado pela Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Órgão encarregado da orientação técnica da restauração. As especificações foram elaboradas pelo setor de engenharia da Funarte e aprovadas pelas Sephan.
O trabalho está dividido em fases distantes. A primeira tratará do hidrojateamento- limpeza com jatos de água quente sem utilização de qualquer produto químico ácido ou alcalino- das quatro fachadas. Os apinéis de baixo-relevo não serão lavados por esse processo, e sim manualmente, porque podem se desfazer.