quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

EXPOR-80, A ARTE NO BELVEDERE DA SÉ - 03 DE FEVEREIRO DE 1980


 JORNAL A TARDE, SALVADOR,  03 DE FEVEREIRO DE 1980

EXPOR-80, A ARTE NO BELVEDERE DA SÉ

Entalhe de Ramos Melo
Para Eloy, um dos participantes e organizadores da EXPOR-80, aberta ao público na última sexta-feira no Belvedere da Sé: “Será sempre novo aquele que caminha”. E esta busca de experimentos, esta caça ao ato de criar, tem sido uma constante no cotidiano destes jovens artistas plásticos que mostram até o dia 10 de fevereiro seus mais recentes trabalhos: Wal de Oliveira, busca a perfeição dos traços na madeira; R. Bonfim, a consciência do óleo sobre tela; Ramos Melo, a valorização da madeira; Walter Morais, bico-de-pena; Luiz Mário, a pintura sobre tela; Eloy, a valorização das sucatas, o uso consciente do novo e Maria Bethânia, o barro, sua realidade.
Todos sabem das dificuldades de sobrevivência do artista-particularmente nos dias de hoje. Mas não desistem, ao contrário, persistem. Afinal, diz Eloy, “ainda que selvagem, o homem tem sua linguagem; no prazer, a descontração; na tristeza, a contração dos tecidos e na arte, a soma das sensações”. O prazer de criar que se vê nestes jovens, “não são euforia de fim de uma década ou princípio de outra. São, como dizem, “a necessidade de expressar o que existe dentro de cada um”. Mesmo com as inúmeras dificuldades impostas pelas regras de um mercado. Já o Ramos Melo, pernambucano, 29 anos, desde 65 trabalhando com madeira, afirma:
Aqui, galeria de arte é uma casa onde as pessoas tem poder aquisitivo mais alto e fazem de seu negócio um passatempo. Quando programam uma exposição, só fazem com artistas bem projetados, aqueles que fazem uma arte mais para executivos e gente da classe alta. Outro problema é a participação das instituições oficiais de cultura.
Elas financiam quem não precisa. Quando é para ajudar artistas novos, as verbas são minguadas, mas quando é para alguém famoso, que já possui toda uma estrutura do trabalho, com seus ateliers e excelentes condições financeiras, então a verba é alta e o dinheiro sobra.
Por outro lado, as galerias cobram muito caro as percentagens - em torno de 33 por cento. Por isso não tenho feito questão de expor. Sobrevivo mais de visitas, faço minhas peças sob encomenda.
A saída para sanar estes entraves, no entender de Ramos Melo, é uma mudança de método que estas pessoas que ocupam postos dentro das galerias e nas fundações culturais “tomem consciência do problema e não traiam seus próprios princípios, em relação à arte, em relação ao homem”. Diz ele:
“essas mesmas pessoas são jovens, passaram problemas semelhantes e depois de ocuparem estes postos mudam de comportamento. Aí é que está o problema. Estas pessoas precisam manter a integridade quando passam para o lado de lá”.
Walter Morais, 30 anos, baiano, trabalhando com uma temática do cotidiano e do fantástico, considera que o maior obstáculo ao mercado de arte localiza-se na figura do intermediário, na figura do “marchand”.
Era preciso-salienta um verdadeiro movimento dos artistas que abalasse estas estruturas viciadas. Uma feira de arte permanente, por exemplo, ajudaria a diminuir a figura deste intermediário.
Só assim teríamos condições de mostrar os novos artistas e integrá-los com aqueles que já tem uma certa tarimba na profissão. Era preciso que os grupos se movimentassem, formassem um órgão de classe, com condições de melhor articular contatos com as instituições oficiais. Uma associação de artistas plásticos coligada com as outras artes.
Os nomes constantes desta, EXPOR-80 não podem ser chamados de novos artistas. Há algum tempo eles trabalham com arte, embora alguns sejam desconhecidos do público e conseqüentemente do mercado de arte vigente. É o caso, por exemplo, de Maria Bethânia, ceramista há seis anos. Ela participou de algumas  mostras, seus trabalhos são bons e mesmo assim não consegue acesso fácil às galerias, às instituições oficiais. Ainda recentemente, participou da Exposição Cadastro, organizada pelo Museu de Arte Moderna da Bahia, onde recebeu elogios e estímulos, dada a qualidade de sua arte em trabalhos com o barro. Para Bethânia, expor o que se faz “é dar-se ao público, é sair do individual para o coletivo, é tentar um contraponto dentro de uma realidade caótica opressora da criação, é mais um esforço de crescer, difundir, dividir o trabalho”.
-Infelizmente - prossegue - contamos com todas as dificuldades, desde o momento da produção, onde se investe não só a criação mais o tempo, o espaço, a vida, no jogo da incerteza do que poderá vir em troca.
Neste sistema a arte é relegada à última necessidade, tornando-se elitista no sentido de ser privilégio de poucos, tanto de quem a faz quanto de quem a absorve.

ARTISTAS NO MAM SÃO PAULO : ALDEMIR, DOUCHEZ, IANELLI E NICOLA

O Cavaleiro, obra  do cearense Aldemir Martins
O Museu de Arte Moderna de São Paulo inaugura a 5 de fevereiro próximo, uma exposição intitulada Quatro Artistas. Obras de Aldemir, Douchez, Ianelli e Nicola ficaram expostas no MAM até o dia 2 de março de 1980, nos horários de 13 às 19 horas de 3ª a 6ª. feira e de 11 às 17 horas aos sábados e domingos. Após o encerramento, esta exposição será levada para uma interessante tournée no exterior patrocinada pela Bayer do Brasil. O Sr. Oscar Landmann, idealizador e organizador desta mostra e presidente de honra da Bienal de São Paulo, declara que:
“Por acreditar nos nossos valores artísticos e nos múltiplos aspectos das artes plásticas brasileiras, iniciei gestões, já desde os tempos em que ocupava a presidência da Bienal de São Paulo, no sentido de levar exemplos representativos da nossa arte numa tournée pelo exterior.
“Evitei uma manifestação demasiadamente ampla, que certamente diluiria a expressão de cada artista, preferindo mostras individuais simultâneas que ilustrassem algumas técnicas de nossa arte. Optei por quatro nomes já consagrados, que vêm desenvolvendo um trabalho sério e do mais alto nível, cuja obra é analisada, em texto de apresentação, pelo crítico professor Wolfgang  Pfeiffer, diretor do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo”.
“Estas obras, possivelmente, não retornarão em grande parte, uma vez que estão formalmente comprometidas para integrarem os acervos dos vários museus onde serão expostas. Esta é, portanto, uma das principais razões para exibi-las aqui, primeiramente, antes da sua partida. Fico satisfeito, como idealizador e organizador desta mostra, de poder contribuir para a divulgação de nossa arte em outros países.E não tenho dúvidas do completo êxito que terá, em cada cidade onde for exibida.
Para o professor Wolfgang Pfeiffer, diretor do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo:“Os quatro artistas que participam com obras recentes nesta exposição formam um conjunto de expressões plásticas que pode ser considerado bem significativo da arte brasileira de nossa época. Eles não apareceram recentemente. Eles se tornaram conhecidos no decorrer dos últimos 30 anos. O que quer dizer que eles não são jovens principiantes e das últimas modas. São mestres com bastante caminho percorrido no desenvolvimento e na apresentação do seu trabalho. Todos coerentes na sua evolução individual, nas suas experiências e nos resultados característicos de seu talento criativo de cada um.Provém de áreas bem diferentes, mas todos eles pertencem, sem dúvida, ao panorama da arte atual brasileira..
Prossegue o professor Pfeiffer referindo-se agora a cada artista em particular.
Consideramos Aldemir Martins desenhista de grande potencial criativo, alcançado entre nós por poucos.
O pintor mais puro e mais sóbrio na sua arte que poderemos apresentar é Arcângelo Ianelli. Ele realiza sem qualquer dúvida o que chamaríamos de pintura.Com seu trabalho deu contribuição importante à arte brasileira, igualmente apreciada no âmbito internacional.
As novas tapeçarias de Nicola e Douchez são uma contribuição relevante para a arte brasileira de agora, e sua obra deve ser recebida com interesse no exterior.

O ARTISTA DIPLOMATA

O brasileiro João Frank da Costa, que foi designado pelo secretário geral das Nações Unidas, Kurt Waldheim, para secretário geral da Conferência das Nações Unidas sobre Ciências e Tecnologia para Desenvolvimento, realizado, recentemente, em Viena. O diplomata que dirigiu Departamento do Ministério das Relações Exteriores do Brasil e foi, por exemplo várias vezes representante do seu país na Unesco e, em conferências das Nações Unidas é também, um artista de renome internacional.
Ceramista desde 1948, Frank da Costa concentrou-se, desde 1970, em assemblages e esculturas. Muitas das suas obras estiveram integrando exposições coletivas internacionais e, em bienais. Em seus trabalhos usa, principalmente, sucata, que recolhe em quintais de seus amigos e mesmo nas ruas. Em fins do ano passado realizou sua última exposição em Viena, quando mostrou esta Madona de rara beleza.

II SALÃO NACIONAL RECEBEU CERCA DE 2.500 VISITANTES

Cerca de 2.500 pessoas visitaram o II Salão Nacional de Artes Plásticas encerrado em fins de janeiro e que abrigou mais de 800 trabalhos de artistas de todas as regiões. O II SNAP, organizado pelo Instituto Nacional de Artes Plásticas da Funarte, marcou a reabertura do espaço do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro fechado desde julho de 78, destruído pelo fogo.
Os trabalhos que integraram o salão estão à disposição dos artistas que queiram retirá-los, na sede do MAM no horário das 14 às 17h. As obras não retiradas serão entregues no decorrer dos próximos meses, a domicílio, por serviço de entrega especializada.
Resultado da fusão de dois salões oficiais de arte, o Salão Nacional de Arte Moderna  e o Salão Nacional de Belas Artes, o II SNAP concedeu 830 mil cruzeiros em prêmios apontados por um júri escolhido pela Funarte e pelos artistas inscritos.
Inscreveram-se, 995 artistas de todo o país, num total de 4 mil obras abrangendo a pintura, a escultura, desenho, gravura e expressões contemporâneas de fotolinguagem e performance corporal. Foram premiados os artistas Cláudio Tozzi, Júlio Vieira, Wilson Piran e Paulo Garcez (Viagem ao Exterior); Clécio Penedo, Luiz Áquila da Rocha Miranda, João Sérgio Lima e Vicente de Souza (Viagem pelo País); Isis Braga (Melhor Conjunto de Obras) e Miguel Ângelo Gontijo, Flory Meneses, Rui Meira, Georgete Melem e Osmar Pinheiro de Souza (Prêmio Aquisição).
Os artistas que queiram retirar suas obras deverão identificar-se mediante documento ou recibo de entrega de seus trabalhos.Aqueles que não receberam o catálogo do salão poderão obtê-lo no Instituto Nacional de Artes Plásticas, á Rua Araújo Porto Alegre, 80, Rio.
Os certificados de participação serão enviados, brevemente, pelo Correio a todos os classificados.
O III Salão será aberto, ainda, este ano, com data prevista para 20 de outubro franqueado a quaisquer artistas brasileiros ou domiciliados no Brasil há pelo menos cinco anos.