quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

LEONEL FAZ PAINEL EM DEFESA DE ITAPARICA - 28 DE JANEIRO DE 1985

JORNAL A TARDE SALVADOR, 28 DE JANEIRO DE 1985

LEONEL FAZ PAINEL EM DEFESA DE ITAPARICA

Resumo da Ilha de Itaparica , painel de Leonel Matos
Mais um artista baiano que parte em busca de novas experiências num centro cultural mais ativo.Trata-se do pintor Leonel Matos, que está de partida para São Paulo, onde pretende passar uma temporada. Ele não sabe quanto tempo ficará por lá, porém, sabe que está disposto a lutar para permanecer durante o tempo que for possível. Já tem assegurado que menos de seis meses não será. Leva consigo alguma experiência, inclusive de trabalhar nas ruas da cidade, no manicômio e em outros locais não vistos comumente como apropriados para execução de um trabalho artístico.
É que Leonel Matos teve a ideia e a concretizou de fazer alguns trabalhos com a participação do povo nas ruas. Ele pintou como prova na Barra, na Liberdade, na Feira de São Joaquim, na Casa de Detenção etc.
Leonel Matos tem muita disposição e satisfação em trabalhar. É um desses profissionais que fica entusiasmado quando fala do seu trabalho, mas que ele tem a humildade de reconhecer que é preciso trabalhar cada vez mais e acima de tudo conviver com o que existe de novo na sua atividade. Ele leva para São Paulo uma coleção de trabalhos de sua nova fase. Acredito que esses trabalhos terão boa aceitação pela qualidade que possuem. Mas não podemos esquecer que o mercado de arte em São Paulo, embora seja bem maior e mais significativo que o mercado baiano, é de difícil penetração.
Caberá à capacidade de Leonel Matos de se relacionar com os artistas, com os marchands e donos de galerias e lutar para que as pessoas vejam seus trabalhos. Os críticos paulistas poderão também dar uma força para que os colecionadores e o grande público tomem conhecimento da arte que ele se propõe a realizar.

UM PAINEL
Antes de viajar, Leonel Matos deixou sua marca registrada na ilha de Itaparica. Trata-se de um painel que foi encomendado pelo prefeito de Vera Cruz, Aquinoel dos Santos, com 3,60X36 metros.O painel foi confeccionado em tela e em seguida ele colou em placas de Eucatex e está localizado no Terminal de Bom Despacho.
Segundo Leonel, o painel é um resumo da Ilha de Itaparica, onde ele utiliza uma nova figuração, com símbolos e presença do grafismo. O painel tem ainda quatro figuras onde estão simbolizados os nativos tentando proteger a Ilha da Sanha dos turistas e veranistas que chegam como bandos de gafanhotos, devastando tudo.
Uma figura em forma de coração é, para Leonel Matos, o símbolo do amor que se alimenta de mariscos. As cordas de um violão puxam um barco de pescadores.Aparecem ainda o aguadeiro, a lavadeira e os tradicionais vendedores de frutas, especialmente de cajus e umbus. Ele tem uma tendência natural em retratar os nativos e sente com muita expectativa esta invasão, a qual não consegue assistir na passividade a sua forma de protesto vem através desta figuração e simbolismo.
Portanto, quando você for a Itaparica e tronar o ferry-boat preste atenção a este painel que é um documento de um local ainda paradisíaco que á Ilha de Itaparica, mas que certamente dentro de poucos anos será uma espécie de Niterói baiana. Lá existem as barcas, aqui os ferries. Lá existem os prédios e o movimento incessante dos lá residem e trabalham no Rio. Aqui este fluxo tende a aumentar. Muita gente já mora em Itaparica e trabalha em Salvador.
A invasão de hotéis, condomínios e loteamentos é feita abertamente sem qualquer controle. Em pouco tempo os cajus e umbus serão raridades, os pescadores serão empregados, transformados em caseiros e vigias das grandes mansões e assim por diante. Salvemos a Ilha! Ainda há tempo.

VINTE E TRÊS ARTISTAS NA EXPOSIÇÃO O RIO É LINDO

Vista da Baía de Guanabara, aquarela de
Wiegandt Bernhard, 1889.
Com o título O Rio é Lindo, a Galeria de Arte Banerj inaugurou uma exposição que reúne obras do acervo que mostram os diversos aspectos da paisagem carioca. São ao todo 39 obras, entre pinturas, aquarelas, desenhos e gravuras, de 23 artistas.
Obra de Brenno Tiedler, Rua Primeiro de Março, No Rio
Entre os destaques da mostra estão obras de alguns artistas estrangeiros, especialmente alemães, que residiram no Rio de Janeiro, no século passado, e que constituem, hoje, não apenas obras primas indiscutíveis, como preciosos documentos iconográficos sobre a paisagem carioca e/ou brasileira. Entre essas obras estão uma edênica Vista da Baía de Guanabara, possivelmente a derradeira aquarela que Bernhard Wiegandt realizou no Brasil (1889) ou a obra mais festejada de Emil Bauch, o grande panorama da cidade do Rio de Janeiro, datado de 1872 ou a marinha Entrada da Barra do Rio de Janeiro, pintada a óleo em 1898 por Brenno Treidler, além de uma ampla série de cromolitografias de Victor Frond, mostrando diferentes aspectos da paisagem natural e arquitetônica do Rio, tais como a Candelária, o Hospital da Misericórdia, o Morro do Castelo, a Ilha das Cobras e o bairro de São Cristovão, outrora tão aprazível. Ou uma vista do Jardim Botânico, de um autor quase desconhecido, L. C. Peixoto, bem como obras de La Michellerie e D’Hastrell.

OBRAS PRIMAS DO SÉCULO XIX

Entre as obras contemporâneas, uma deliciosa aquarela do pintor Cícero Dias, datada de 1930, aliás reproduzida no cartaz-catálogo da mostra, em que se vê o Graf-Zeppelin em sua passagem pelos céus cariocas, um precioso desenho a crayon de Di Cavalcanti sobre a Ilha de Paquetá.
Obra de José Sabóía os Clóvis
Avançando pela paisagem social, religiosa e cultural do Rio, a exposição da Galeria de Arte Banerj mostra também a torcida do Flamengo, numa tela de José Sabóia, os Clóvis do Carnaval rural nos desenhos de Aloysio Zaluar, as prostitutas do Mangue, numa bela xilogravura de Segall, o padroeiro da cidade, São Sebastião, numa esplêndida tela de Guignard. Integram ainda a exposição, obras de Alvim Menge, Anna Vasco, Kalixto Cordeiro, Aldo Bonadei, Pancetti, Sigaud (uma de suas obras mais significativas, “A estátua do Comércio e a rua”), uma paisagem da Gamboa pintada por Inimá de Paula e um dos cinco quadros que integram o grande painel de mais de 19 metros, que Marcier fez a pedido do Banerj, sobre “Motivos do Rio de Janeiro”.
Num dos textos de apresentação da mostra, o critico Frederico Morais, coordenador cultural da galeria afirma:” O Rio é Lindo. Uns mais, outros menos, todos, porém, concordam: o Rio é lindo. Uns terão disto isto ontem, outros estão dizendo agora, outros ainda dirão, embevecidos diante da paisagem carioca: o Rio é lindo. De tom Jobim a Gilberto Gil, de Le Corbusier a Niemeyer, de Debret a Glauco Rodrigues, de Drummond a Pedro Nava, todos, pintores-viajantes do século XIX, brasileiros e cariocas de hoje, todos disseram, á sua maneira, em quadros, poemas, crônicas, música, dança, arquitetura e urbanismo: o Rio é lindo”.
Por sua vez, o critico e historiador Carlos Maciel Levy afirma, em outro texto, que “o objeto do paisagismo do século XIX no Brasil é a iconografia rural e urbana do Rio de Janeiro”, cidade que possuindo “um relevo de extraordinária beleza e toda a variedade vegetal característica da região, foi capaz de proporcionar estímulos bastante diferentes daqueles provocados pela inclinação cientificista do século XIX”.
Todas as obras expostas são acompanhadas de verbetes sobre cada artista, enquanto na exposição foram afixados textos de vários autores sobre a beleza da paisagem carioca. Durante o vernissage serão ouvidas músicas sobre o Rio de Janeiro.
A Galeria de Arte Banerj estará aberta ao público até o dia 8 de março, das 12 às 19 horas, de segunda a sexta-feira. Quanto aos sábados, abrirá apenas nos dias 26 de janeiro e 2 de fevereiro, das 16 às 21 horas.