segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

MINHA TERRA, MINHA GENTE - 11 DE MAIO DE 1980


JORNAL A TARDE  SALVADOR, 11 DE MAIO DE 1980

MINHA TERRA, MINHA GENTE

Cinquenta fotografias compõem a mostra do artista norte-americano Arthur Rothstein, que os baianos verão durante o mês de maio no Salão de Exposições do Museu de Arte Moderna da Bahia, Solar do Unhão. È uma promoção da Fundação Cultural do Estado com a colaboração da USICA, Agência de Comunicação Internacional, dos Estados Unidos.

Arthur Rothstein
Americano, nascido em 1915. Formado pela Universidade de Columbia. Membro da Associação de Segurança Agrícola, de 1935 a 1940.
Fotografo da equipe de LOOK, em 1940, deixando a revista logo a seguir para unir-se à Seção de Informação Bélica e depois ao Exército. Serviu como fotógrafo chefe da Administração de Reabilitação e Assistência das Nações Unidas, na China.
Em 1946, retornou à Revista LOOK como diretor técnico de fotografia, sendo nomeado diretor de fotografia em 1969. Tornou-se editor da Revista INFINITY, em 1971; consultor de recursos visuais da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos e do Instituto Americano de Aço e Ferro. Membro da Faculdade da Escola de Graduação em Jornalismo da Universidade de Columbia, desde 1962. desenvolveu o processo Xograph D-3, por um período de mais de treze anos. Colunista constante da revista especializada US CAMERA. Atualmente, é editor associado de PARADE, semanário dominical. Fundador e membro da Sociedade Americana de Fotógrafos e Revistas.

EXPOSIÇÕES
Smithsonian Institute, Washington, D.C. Museu internacional de Fotografia, New York; Museu de Arte Moderna, New Iork; Sociedade Real de Fotografia; Biblioteca do Congresso, Washington, D.C.
Coleções Principais:
Biblioteca do Congresso; Instituição Smitsonian; Real Sociedade de Fotografia; museu Internacional de Fotografia e no Museu de Arte Moderna, New York
LIVROS
Creative Color, 1963; Photo-journalism, 1956; Look at with William Saroyan, 1967 e Color photography Now, 1970.
Arthur Rothstein realizou uma obra-prima, quando foi enviado a documentar a condição dos fazendeiros, cujas terras tinham sido assoladas pela seca. De todas as imagens do grupo de Dustbowl fotografado por Rothstein, a que mais chama a atenção é a do fazendeiro juntamente com os filhos correndo em direção a seu casebre em meio a uma tempestade de areia, em Címaron, Oklahoma. São vistos a meia distância, apenas, mas, independentemente do valor pictórico, esta bela fotografia aparenta possuir os princípios que influenciaram as pinturas tanto de Thomas Eakins como do mais recente artista de Philadelphia, Walter Stumpfig.
Também de grande impacto é o instantâneo do fazendeiro desempregado e desesperançado do futuro.
Sua mulher, obviamente, grávida e sua crescente família participam da miséria geral.
Os Fotógrafos Compassivos trouxeram de volta a fantasmogórica evidência da intensa batalha do homem contra a natureza no que ela tem de mais cruel, mas ninguém foi melhor do que Rothstein para mostrar áreas abertas, jogos de baseball, rodeios, bandas de música em marcha e colheitas de algodão; fotografou também John Marin, Salvador Dali, alguns papas, homens bem humorados, membros do Exército da Salvação em trabalho, os encapuçados da Ku-Klux-Klan, acontecimentos e personalidades relevantes do mundo atual. Ele documentou a Conferência de Quebec, na qual foi planejada a invasão da Europa, durante a Segunda Guerra Mundial, a guerra na China, a assistência a flagelados da fome na China em 1946, e Cabo Kennedy. Arthur Rothstein diz do seu trabalho: “A câmara é o meio pelo qual eu transmito aos outros um significado, um estado de espírito, ou uma sensação.
Gosto de pensar que meus esforços são primariamente uma forma de comunicação.

MAMB VAI MOSTRAR O QUE HÁ DE MELHOR NAS
 ARTES PLÁSTICAS
 Dali , tendo ao fundo uma obra de sua autoria

Desde o dia 06 de maio, no Solar do Unhão, que o baiano está conhecendo trabalhos originais de Salvador Dali, Folon, Sônia Delaunay, Valadié, Poliakoff, Leonor Fini, Maria Helena Vieira da Silva, Van Don Gen, nas 25 gravuras que constituem a mostra desta exposição francesa, que é uma promoção conjunta da Aliança Francesa e da Fundação Cultural do Estado da Bahia.
Salvador Dali, pintor espanhol, sofreu a influência do Impressionismo, e posteriormente do Cubismo, tornando-se surrealista a partir de 1928. Para alguns o ponto de referência sobre Dali são os seus bigodes em forma de pára-raio, o que de forma nenhuma pode se separar dos seus trabalhos, pois para ele este seu ornamento piloso é o seu centro imperial, e em lugar de atrair raios, tem a propriedade de atrair dólares e ouro. Mas será que alguém, realmente, acha que conhece Dali? Ele próprio já renunciou a medir a extensão do seu “poder cósmico”, de sua “fecundidade transcendental” e de sua “inspiração fantástica-parabólica”. Um exemplo: Paris, 1927, dali tem 22 anos, mas quando aluno da Escola de Belas Artes de Madri, apresentou duas exposições.
Acontece que Picasso já tinha visto em Barcelona uma de suas telas, e falou com seu “marchand”, impressionado.
Neste ano dá-se o encontro dos dois e dali disse: “Soube imediatamente que os dois botões de jade de seus olhos me reconheceram. Eu sou o outro. Eu era o único capaz de lhe dar a réplica. Em verdade, agora sei que o mundo era um pouco pequeno para nós dois”.
Jean Michel Folon, abandonou seus estudos de arquitetura pelo desenho, mas suas composições continuaram marcadas por elementos estruturais. Os seus desenhos humorísticos, sempre em cores, inspirados principalmente pelo último absurdo do destino, tornou-se uma de suas características.
“O humor”, diz ele, “é a recusa de falar tragicamente de coisas trágicas”. É assim que numa cidade, numa metrópole, um desastre cósmico, não declarado, não registrado (civilização?) destruiu tudo, menos os imóveis de funcionários, os sinais do tráfego, uma árvores sem folhas. Neste vazio desesperador de uma absurda complexidade, um grupo silencioso de sobreviventes erra sem objetivo. Canalizados para uma existência sem alma, através de um caos de setas, eles sobem escadas que não levam a nenhum lugar, carregam caixas que nada contém, fixam palavras ilegíveis.
Não são bons nem maus. Não são nem mesmo vítimas.
Folon pintou a desesperança deste mundo solitário, com precisão, paciência e uma surpreendente delicadeza. Suas imagens não fazem sorrir. Mas quando as olhamos temos um inexplicável sentimento de otimismo. Talvez não sejam nem pinturas, nem desenhos de humor, mas panfletos que se deixam cair no labirinto de gargantas de cimento armado, indicando a todas as pessoas uma saída secreta, que os conduz aos espaços verdes e ao céu azul.
Sônia Delaunay, apesar de ter a sua obra ligada ao seu marido Robert Delaunay, falecido em 1941, apresenta posteriormente caminhos próprios. Por volta de 1925 lança os “tecidos simultâneos”, cujas cores vivas e formas nítidas passam a construir uma revolução na indústria têxtil. Nas vésperas da guerra de 1939, o atelier dos Delaunay em Paris é um verdadeiro centro de abstracionismo, e as suas reuniões tornam-se o local onde Robert Delaunay explica longamente sua concepção da arte abstrata e ajuda jovens artistas a encontrar o seu caminho como aconteceu a Serge Poliakoff.
Lá onde o passado deixa de existir, onde ele é apenas o ponto de partida de uma realização nova, está a pintura de , Serge Pollakoff, pontificada pelos seus excepcionais dons de colorista. Seus trabalhos conseguem ultrapassar a frieza da abstração geométrica, indo contra a ordem pré-estabelecida das formas. Com esta sua reação ele consegue seu objetivo, apoiando-se inteiramente na cor. Nas suas composições nenhuma linha enrijece as formas, delimitando-as. Somente o vaivém do pincel é que as limitam, ao mesmo tempo em que lhes dá cor, e como é esta a exposição frontal ( e mural) que o pintor quer acusar, ele sempre utiliza e se serve dos tons vizinhos. Cada nuance torna-se assim a extensão que a vista sente prazer em percorrer.
Leonor Fini, nasceu em Buenos Aires, mas trabalhou sobretudo na França. É autora de numerosos retratos, de temas fantásticos, de cenários e vestimentas de teatro, onde ela alia sua inspiração surrealista com uma postura clássica.
Entre os pintores que trabalham em Paris, é preciso colocar á parte uma artista que elaborou o estilo pessoal muito forte. Ela é Maria Helena Vieira da Silva. A evolução de sua pintura a partir de 1947 permite ver como o tema representado se afasta progressivamente de seu aspecto real, e em seu afastamento, enquanto as formas unem-se umas ás outras, surge uma angústia que repercute na técnica. As cidades e suas ruas, e o seu indeslindável emaranhamento, são os elementos favoritos desta pintora para quem nada terminou, nem nada começa.


PROPOSTA 80

OS COMPROMISSOS COM A CONTEMPORANEIDADE
DA ARTE

Para o Diretor do Museu de Arte Moderna da Bahia, Francisco Liberato, a Exposição Proposta – que o Mamb realiza no Solar do Unhão – incluiu-se numa estratégia de trabalho proposto pela entidade na busca de uma maior identificação da relação museu-artista. Essa estratégia, segundo ele, é orientada no sentido de evitar o preconceito em relação a novas propostas e a posicionamentos de novos valores estéticos.
A Exposição Proposta é na opinião do diretor do MAMB, uma mostra aberta a todas as manifestações das artes plásticas na Bahia e uma consequência imediata da primeira sondagem feita pelo Museu de Arte Moderna, através da Exposição Cadastro, realizada em outubro do ano passado.
“Naquela ampla amostragem – diz Francisco Liberato – pudemos sentir o que estava acontecendo com as manifestações de artes plásticas na Bahia. Partimos para o segundo estágio do processo, onde se estabeleceram alguns critérios, o principal deles possibilitado pela visão resultante da Cadastro, a partir da qual convidamos alguns artistas.

CONTEMPORANEIDADE

Segundo Liberato, o Mamb ainda não pode se arrogar a critérios de julgamento por qualidade, por estar engajado no momento a um processo que visa estabelecer a identificação de novos valores da expressão plástica no Estado. Destaca, no entanto, como critério mínimo para a participação de artistas na Exposição proposta a preocupação com a contemporaneidade.
- A exposição continua, praticamente, impondo como única limitação que os artistas nela incluídos se expressem de acordo com nossa época. Uma prova é que ela reunirá cerca de 113 artistas convidados.
Para o diretor do Mamb, a mostra servirá, principalmente, para a discussão das atividades mais consequentes, para despertar o interesse da comunidade, levantar os problemas que os artistas plásticos enfrentam em suas atividades e para tentar encontrar os meios de uma melhor abordagem para a verdadeira  relação entre o museu, o artista e a comunidade.
Um dois itens incluídos na programação da Exposição Proposta é a escolha de critérios para a seleção de 10 projetos a serem produzidos pela Fundação Cultural do Estado e que representarão as artes plásticas baianas no encontro nacional que se realizará no mês de novembro em Salvador. Este encontro, segundo Liberato, deverá ser repetido anualmente e terá como característica principal a reunião das manifestações mais significativas do momento brasileiro.
- Para o encontro deste ano, além dos 10 artistas baianos selecionados no Concurso de Projetos, virão artistas premiados nos diversos salões realizados o País, tomando por base o último salão de cada estado. Serão discutidos a validade destes salões e seus regimentos, na tentativa de imprimir maior dinâmica e atualização aos mesmos.

PROGRAMAÇÃO PARALELA

Diversas tendências e estilos estarão incluídos entre os trabalhos presentes na Exposição Proposta, desde os ligados às raízes e fonte culturais até tendências geométricas, arte conceitual, ambientação e integração de expressões artísticas através de trabalhos de equipe. Um dos trabalhos mais originais é o da dupla Orlando Vareda e Júlio Valverde, que apresentará um Video-Arte.
Dentre outros artista, participarão Juarez Paraíso, Edson Luz, Bel Borba, Humberto Vellame, Chico e Alba Liberato, Zivé, Murilo, Chico Augusto e o Grupo Comunicação – Carlos Petrovich, Sônia Rangel, Eckenberger, Chico Diabo, Zélia Martins e Juracy Dórea.
Paralelamente à Exposição Proposta, o Mamb promoverá uma mostra de litografias originais promovida pela Aliança Francesa com a participação, entre outros de trabalhos de Salvador Dali e Vieira da Silva. Haverá ainda,uma exposiçãode gravadores brasileiros do Projeto Arco-Iris, da Funarte, e uma mostra de cartazes da Embaixada Norte-Americana, além da apresentação de shows musicais pelos integrantes do Projeto Mutirão ( de Béu Machado)