terça-feira, 22 de janeiro de 2013

OS TRAÇOS GESTUAIS DE SÉRGIO, NO MUSEU DE ARTE -10 DE NOVEMBRO DE 1980


JORNAL A TARDE, SALVADOR,  DOMINGO 10 DE NOVEMBRO DE 1980

OS TRAÇOS GESTUAIS DE SÉRGIO, NO MUSEU DE ARTE

Sérgio Rabinovitz fez sua primeira individual na Mini Galeria Acbeu, em 1975, e depois esteve estudando nos Estados Unidos. Dos jovens artistas baianos, Sérgio é um dos poucos que dispõe de informações necessárias para uma conscientização do trabalho plástico.
Sérgio com uma de suas obras
Não é um simples artesão que pega a goiva ou outro instrumento qualquer e faz uma forma ou figura plástica. Ele sabe porque está fazendo e como fazer. Agora, Sérgio volta com mais uma exposição, desta vez na Galeria do Museu de Arte da Bahia, na Pousada do Carmo, a partir do dia 20, numa promoção da Fundação Cultural do Estado da Bahia.
Quem faz a apresentação é Mário Cravo Neto, também um jovem artista, o qual afirma”que traços caligráficos, símbolos visuais de uma intensa claridade definem a forma ancestral de expressão e comunicação”.
Esta forma de expressão de Sérgio realmente nos faz relembrar os traços gestuais dos homens das cavernas. A espontaneidade que brotou daqueles homens que procuravam abrigo nas cavernas e lá deixaram sua expressão. As manadas de búfalos, veados e alguns ursos solitários. Outros, apenas, traçaram riscos sem um significado maior. Mas, Sérgio vai mais longe, quando idealiza seus traços e escolhe suas cores, visando uma comunicação com o homem do século XX. Sua arte, sua gravura tem contemporaneidade. Vamos deixar que o próprio Sérgio fale do que pretende mostrar na Galeria da Pousada.
Disse ele que desde que surgiu a ideia para a realização da exposição, há pouco mais de um ano, que vem trabalhando na sua concretização.Levou em consideração o vasto recinto, as imensas paredes grossas e o altíssimo pé direito do imóvel e daí formulou um trabalho que vai interagir, pois as gravuras são de grande porte. Para Sérgio, este grupo de trabalho segue a mesma linha gestual e caligráfica os anteriores, só que perdeu o caráter intimista da mostra que realizou tão logo retornou de Nova Iorque. É um trabalho reintegrado com a nossa paisagem.

XII PANORAMA DE ARTE ATUAL BRASILEIRA, 
NO MAM PAULISTA
Trabalho de Ronaldo Paiva
utilizando a técnica água
forte e água tinta

O Museu de Arte Moderna de São Paulo, Parque Ibirapuera, vai inaugurar no dia 13 o seu décimo-segundo Panorama de Arte Atual Brasileira. A mostra anual, organizada em rodízios, apresenta pintura, desenho e gravura, escultura e objeto. Neste ano, o MAM exporá desenhistas e gravadores.
Neste vasto território a ninguém é dado conhecer os muitos artistas com qualidade para participarem do Panorama. Esse fato incontestável motivou a abertura do Panorama/80 a quantos ele quisessem participar, submetendo-se a júri da seleção. Pareceu à Comissão de Arte ser essa medida democrática, capaz de preencher ausências apontadas pela crítica e de admitir o talento jovem menos difundido. Conseqüentemente, convidou artistas em menor número, para abrigar em seu espaço os inscritos aceitos; gravadores: 25 convidados, 16 inscritos aceitos. Ao todo 110 artistas, com 330 obras.
A Caixa Econômica Federal, no seu tradicional empenho de colaborar para difundir cultura, patrocinou os prêmios: Prêmio MAM, Desenho/80, cem mil cruzeiros; Prêmio MAM, Gravura/80 , cem mil cruzeiros; Prêmio C.E.F., Desenho/80, cinqüenta mil cruzeiros; Prêmio C.E.F, Gravura/80, cinqüenta mil cruzeiros.Esses prêmios serão atribuídos nos próximos dias de entregues na data da inauguração.


AS MÃOS DO CRISTO DE MÁRIO CRAVO

Não são as mãos de um pianista esculpidas em ferro. Trata-se de um detalhe do Cristo que o escultor Mário Cravo fez para a Cidade de Vitória da Conquista, o qual reinará eternamente com seus braços amarrados e abertos abençoando aquela cidade. Porém, antes de deixar Salvador, o Cristo foi fotografado por Carlos Santana, de A Tarde que conseguiu este detalhe de grande força plástica. O cravo quase desaparece e as mãos parece movimentar-se numa tecla de um imenso plano. Na verdade, são as mãos cravejadas e sofridas do Cristo, que até hoje continua, como símbolo, sendo cravejado pelos gananciosos que esmagam aqueles que tem as mãos calejadas e as barrigas vazias.


O RECORDE DO PINTOR ARGENTINO  EMÍLIO PETORUTTI

Obra O Quinteto, de Petorutti
Uma obra cubista do pintor argentino Emílio Petorutti foi adquirida em Nova Iorque por 190 mil dólares - CR$11.400,00 ,estabelecendo um recorde no preço alcançado por uma obra individual de um artista latino-americano, por uma obra de arte Argentina e por uma obra de Petorutti, segundo informou uma porta-voz das galerias Aquavella.
A obra O Quinteto , de 1927,foi posta à venda pelo Museu de San Francisco, e foi adquirida pelas galerias Aquevella ,de Nova Iorque  em um leilão na casa especializada Sotheby’s que recebeu a soma sem precedentes de 1.699,250 dólares ou seja CR$101.955.000,00.
Segundo a porta-voz , foram leiloadas 113 obras de artistas latino-americanos entre elas seis pinturas da coleção particular do falecido Nelson Rockfeller.No mesmo leilão também foi quebrado o recorde de preço alcançado pela obra do mexicano Julio Castellanos, com a compra de O Dia de São João por 46 mil dólares -  CR$2.760.000,00.
O recorde anterior pelo preço alcançado por uma obra de um artista latino-americano foi estabelecido em maior deste ano, também em leilão pela Sotheby’s quando um quadro com o título de Modesta, do pintor mexicano Diego Rivera foi arrematado por 120 mil dólares -  CR$7.800.000,00.



UMA CASA DE ARTE E A POLUIÇÃO

Esta coluna não é somente minha, mas também de todos aqueles que desejam movimentar este mercado, falar dos valores e de tudo que diz respeito às artes visuais. Hoje, público este artigo de meu amigo Wilson Rocha sobre a atuação de uma casa de arte onde ele faz algumas considerações sobre o comportamento do nosso mercado. Vejamos:
“O problema crítico das vanguardas, a decadência e morte dos salões e das bienais e os grandes descalabros mundanos da manipulação mercadológica estão promovendo, principalmente nas grandes cidades, uma enorme dispersão na própria arte, de quem cria e de quem olha. A crise de energia e as outras grandes crises generalizadas, que em decorrência disso estão debilitando a economia de todos os países, representam uma séria ameaça à sobrevivência das instituições oficiais de cultura. E, por sua vez, os efeitos da contracultura lamentavelmente está conduzindo a maioria dos artistas jovem a uma exploração equívoca das raízes da arte popular, num reaproveitamento falso,  em que nada permanece da autenticidade da arte popular genuína.
Na Bahia dos últimos anos, tem sido visível a todos os que se encontram mais ou menos ligados à produção e ao consumo das artes visuais, incluindo o teatro e a dança, a desoladora realidade de não se poder afastar a impressão do mediocridade do ambiente de província, sem confronto e sem crítica, e onde os mentores da vida cultural vivem os dias de um delírio turístico ou continuam dormindo um interminável sono burocrático. E já não é mais possível falar em tradição, porque tradição tornou-se sinônimo de mola propulsora para atrair o turismo, a maioria das vezes, num esquema tão artificial que não reside à menor análise ética nem estética. Improvisados e apressados marchands de subúrbio  -mercadores espertos manipulando compradores desavisados-transformaram Salvador em uma Cidade de muito artista e pouca arte. A poluição pictórica, repleta de folclorismos e ingenuismos comerciais, surrealismos e até vanguardismos surrados, Aliciou multidões de marginais da arte- vira-latas da pintura, acadêmicos, pintores de domingo e até falsificadores ridicularizados por uma pretensiosa e delirante supervalia, perigosamente reunidos e montados em tristes vernissagens.
“Mas, outras idéias felizmente surgiram e se impuseram desde logo, a tal ponto esse interesse se acentuou de três anos para cá, como constatamos agora preenchendo o vazio e a insipidez dos programas dos nossos modorrentos museus e absurdas galerias de arte, o aparecimento, em 1977, de uma casa de arte que vem confirmar o crédito de confiança e apoio que tem granjeado junto ao público verdadeiramente interessado na apreciação e no consumo das artes plásticas- a Teresa Galeria de Arte, localizada entre o Teatro Maria Bethânia e o Hotel Meridien, num belo casarão centenário, provavelmente a mais antiga mansão do bairro do Rio Vermelho, primeiro passo para uma cidade mais humanizada pela arte, idéia plausível e corajosa e uma experiência gratificante de sua diretora, a senhora Teresa Freitas. Um exemplo de uma promoção de cultura apoiada  em bases empresariais, um projeto integrado de diversos departamentos, amplas salas de exposição, loja de material de arte, molduraria de classe superior, pioneira no uso de madeiras finas de lei, com emprego de pátinas, ouro velho e restaurações, além de setores de gravura, desenho e decoração e o Café Concerto Strike 1878, agradável ponto de encontro entre os artistas e o público.
“N o acervo da galeria- considerado um dos melhores do país em pesquisa realizada em 1978 pela Revista Arte Hoje-, encontram-se obras de artistas renomados, como Picasso, Salvador Dali; Lasar Segall, Portinari, Djanira, Scliar, Iberê Camargo, Mário Cravo Jr., Emmanuel Araújo, Genaro de Carvalho, Vasco Prado, Clóvis Graciano, Teruz, Bianco, Bustamante, Augusto Rodrigues, Zoravia Bettiol, Clara Melro, Juarez Machado, Fernando Coelho, Bel Borba, Nair de Carvalho, e muitos outros. A galeria, que mantém um escritório de arte me Londres e um convênio com o Trevo Galeria de Arte, do Rio, tem realizado notáveis exposições de artistas de São Paulo, Rio e Bahia e promove mostras periódicas especiais e individuais, sem ônus para o expositor, se impressão de catálogo- o Salão do Mês, que recentemente mostrou-nos a energia da cor e a força da obra de Edval Ramosa, artista brasileiro com larga vivência na Itália. Muito simpática, ainda a atuação da primeira galeria local a se interessar por mostras individuais de artistas da fotografia, como Júlio Angeleri Valente”.