sábado, 29 de junho de 2013

DEPOIMENTO DE EMANOEL ARAÚJO

JORNAL A TARDE,SALVADOR,  SÁBADO, 22 DE NOVEMBRO DE 1975

DEPOIMENTO:

Uma gravura de armar de Emanoel Araújo
R-Emanoel, como você explica a passagem da gravura para a escultura?
EA- Vamos começar desde 1968 quando surgem as primeiras experiências com relevo na xilogravura. Eu fazia uma gravura figurativa de cunho heráltico, simbolista, e comecei a geometrização da estrutura, e relevos.Depois se inicia minha fase abstrata entre 1969 a 1970 e logo em seguida as gravuras de armar, já uma tentativa além daqueles relevos gravados. As gravuras de armar se estruturavam no espaço com interferências do ambiente. A gravura era plana e as interferências de cortes ( matriz) eram feitas com faixas, também gravadas, que projetavam formas no espaço.Daí a gravura se arma mais simples ainda, sugerindo o relevo.
Então começo a fazer uns murais de concreto como uma sugestão que vem da gravura. O relevo e a escultura feitos por mim nasceram da gravura, inclusive do sincronismo entre a gravura e a escultura.
R-Como se deu esta passagem ? Foi uma passagem natural?
EA- A gravura se armou no espaço de tal forma que o relevo foi uma coisa natural.Daí os relevos de madeira, que estou expondo no Rio atualmente, foram sugeridos pelos relevos de concreto nos murais em grandes dimensões que fiz em prédios em Salvador.
O que sempre me interessou foi fazer gravuras grandes. Isto é, que essas gravuras ocupassem um lugar de importância na Arquitetura. Uma importância falada, que ela falasse, gritasse, não timidamente como queria Goeldi, mas que ela tivesse uma importância como teria a pintura, a escultura. Representa um passo mais longo você utilizar a Arquitetura ou uma tentativa não de integração, porque esta é uma afirmação muito complicada, mas de presença da arte na Arquitetura. Então esses murais para mim são importantes e vitais porque é a maneira que você tem de criar em grandes espaços.
R-Você concorda também, que além disto, a arte em grandes espaços ou a arte presente na Arquitetura possibilita que seja vista e valorizada por um  maior número de pessoas?
EA- Claro, a arte ganha maior dimensão e é uma satisfação para o artista porque aquilo que ele fez está em constante contato com o público.
R-Como você se sente com a utilização de novos materiais e também com mais espaços?
EA- evidentemente com esta tentativa da presença da arte na Arquitetura você trabalha com materiais utilizados na Arquitetura, que estão em contato com a Arquitetura, e com o tempo, como o concreto, a madeira a água, a qual utilizei como elemento novo em trabalho. Além disto utilizei granito.
Quero destacar a água porque recentemente utilizei água num trabalho que fiz em São Paulo onde entra o concreto e um material que é extremamente novo, que é vulnerável, se tratando de uma coisa que está em contato com a água. O que me interessa neste trabalho é a sua união com a água. Este material é o xaxim que é matéria orgânica viva.
Este xaxim em contato com a água vai criar elementos vivos ou sejam plantas . Isto vai criar uma alteração orgânica no próprio trabalho.
É uma espécie de cortina de concreto com a água que umedece o xaxim e aí os elementos vão se modificando com o passar do tempo este material é frágil pois dura de sete a dez anos, mas pode ser substituído. São formas mais ou menos geométricas com possibilidades de outras pessoas substituírem esses elementos porque as formas e espaços foram definidos.
R-Como você explica o abandono do figurativo, o abstrato, passando para o geométrico? Seriam fases?
EA- Não sei dizer se por muitas fases.Como jovem artista passei por algumas delas.Melhor dizendo, uma procura. Quando fiz minha primeira exposição no Rio de Janeiro eu estava mais ligado a atmosfera local. Estava revendo há pouco coisas antigas e pude verificar que elementos que apareciam hoje são repetições de coisas feitas em 1968. Esses elementos vão e voltam na medida que você amadurece, que você envelhece e busca mais. É o reencontro que o artista busca em outras linguagens.
R-Como Emanoel Araújo vê os múltiplos?Sua importância para o desenvolvimento do mercado de arte brasileira?
Escultura Aranha de Emanoel Araújo, 1981
EA- Já fizeram muitas tentativas de múltiplos. A gravura é o mais antigo múltiplo na História da Arte. Ela sempre foi feita com o objetivo de alcançar um maior número de pessoas. As tiragens sempre proporcionaram a arte a preços mais acessíveis. Quero destacar que a gravura brasileira surgiu de uma gravura de reprodução como aconteceu na Europa. Ela surgiu com os gravadores fazendo só gravuras com um público que não acompanhou o movimento, dando sua devida importância.
Vale destacar que o movimento dos gravadores, uma das coisas mais importante das artes do Brasil. Isto é muito engraçado pois talvez seja o Brasil que tem  um número maior de gravadores importantes. O público talvez tenha ficado alheio porque o público não era atingido pela gravura de reprodução.
Então a gravura surgiu como experiência, basta lembrarmos Carlos Oswald e Lívio Abramo.
Eram puros gravadores, que gravavam suas chapas, fazendo sua impressão, que lutavam sozinho fazendo sua tiragem. Assim este material nasceu caro e não chegava ao público.
-Este movimento é importante porque a classe média pode adquirir um múltiplo a preços mais acessíveis a arte alcança um maior público.
R-Dizem que existe no Brasil um preconceito contra o papel , é verdade?
EA- No Brasil  existiu um preconceito contra o papel, que foi sempre um elemento rejeitado. O público que compra uma gravura é quase o mesmo que compra a pintura, que compra o quadro de Di Cavalcanti por CR$ 80 mil cruzeiros, e pode comprar uma gravura, dez ou vinte por CR$ 2 mil cruzeiros. Nunca existiu no Brasil como existe na Europa e nos Estados Unidos um público que só compra gravuras.
R-E o desenvolvimento da gravura brasileira?
EA- Acho que a gravura brasileira tem vários estágios e cada um deles com a sua importância no seu tempo. Um tempo heróico foi o de Goeldi, um intimista, um homem muito mais ligado ao expressionismo e sua formação europeia, um homem que fazia sua gravura pequena, com a preocupação de guardá-las em pastas, muito delicadas. Depois em continuação surgem os seus alunos. Outro estágio seria a primeira manifestação, que considero mais importante que é a chegada de Fred Lander com seu trabalho no Museu de Arte Moderna, quando surge Fayga, Ana Letíca e outros gravadores.
Paralelo a este movimento há um em São Paulo iniciado por Lívio Abramo já com outro tipo, mas intimista, impresso a mão, delicada e frágil.
O grande momento da gravura de metal brasileira, quando o metal começa a ser estipulado. É outro estágio onde aparecem novos gravadores, com gravuras de maiores dimensões. Na Bahia Havia um movimento importante, embora nunca chegou a dar o seu grito porque houve uma dispersão. Não podemos negar a importância da gravura das pessoas que foram orientadas por Mário Cravo, e logo depois, por Henrique Oswald, mas como sempre fui rebelde, ela ganhou outra dimensão pelo constante contato que venho com o eixo Rio-São Paulo, que é de suma importância para um jovem artista, para um artista que começava. Ainda mais, a gravura que se fez aqui, que se criou aqui deu uma contribuição nova à gravura brasileira porque fizemos uma gravura de madeira impressa em prensa de metal.
Tirávamos a fragilidade do papel japonês e a impressão de colher a mão. Este papel tem mais resistência e nos dá possibilidades de fazer trabalhos com maior dimensão e de seu uso ao lado da Arquitetura.
No Brasil não há um preconceito contra o múltiplo e sim contra o papel. Isto é muito curioso porque está provado que o papel é um dos mais resistentes que a própria tela. Lembremos que vários desenhos de Da Vinci estão bem conservados e foram feitos em papel, enquanto as suas telas já chegaram a ter 400 restaurações.
O papel, evidentemente, tem que ser cuidado e uma pessoa que adquire uma gravura deve ter a consciência que ela não pode estar exposto a luz ou ao sol.
Emaneol diante de uma escultura de sua autoria num espelho d"água
Mesmo uma tela não resistiria. O preconceito é mais contra o suporte no caso o papel, do que contra o múltiplo.
R-O que acha da responsabilidade com relação a limitação exata da tiragem? Das tiragens irregulares?
EA- Creio que um artista que assina e enumera suas gravuras deve ter a responsabilidade de manter isto.Se ele não mantém, não é um profissional digno. Se isto acontece é lamentável, mas deve ser por falta de informação. Não creio que ocorra com frequência. Foi definido num congresso internacional o que seria uma gravura original, uma gravura reprodução, tiragem, provas, etc. O gravador tem por direito fazer uma tiragem o que se pode chamar comercial numerada de um a dez, por exemplo, e de tirar várias provas que equivalem a um número total. Tira provas dos estágios de impressão, prova de artista e a final, e depois, as  que serão comercializadas. Há essa possibilidade e por isso não vejo como se trair. Esta traição será mais a ele próprio, ao seu próprio trabalho.