terça-feira, 25 de junho de 2013

BENÉ: " NÃO SEI NEM SE ISTO CHEGA A SER ARTE "

JORNAL A TARDE, SALVADOR,  SÁBADO, 7 DE FEVEREIRO DE 1976

Bené Fonteles, com um dos últimos trabalhos que foi
realizado no sul do país, onde ele faz um estudo ou
exposição fotográfica com o seu próprio corpo.
Dentre os cem jovens artistas que foram escolhidos pelos críticos de arte Roberto Pontual para participar da mostra Arte Agora I Brasil 70-75, que será realizado no próximo mês, no Rio de Janeiro, encontra-se Bené Fonteles, cujo trabalho que vem desenvolvendo já algum tempo caracteriza-se basicamente em um trabalho experimental, vivido a toda hora e a todo momento, o qual ele próprio chega a dizer não sei nem se isto chega a ser uma arte.
"Não tenho nenhum compromisso com uma arte, a não ser a do experimento. Se sou vanguardista conceitual, não cabe a mim classificar minha situação atual. Sou um comentarista de fatos ligados à linguagem atual, não só artística mais jornalística. Tanto que chamo uma série de trabalhos que executo para um indivíduo no Rio, Reportagem - recortes, colagens, reportagens - que são interpretações de acontecimento de jornais e revistas.
Nascido no Pará em 1953, com um longo período de vivência no estado cearense, José Benedito Fonteles, mais conhecido como Bené Fonteles está radicado atualmente em Salvador, onde já mantém um bom contato com artistas baianos, tendo inclusive iniciado um interessante trabalho fotográfico com Mário Cravo Neto. Sobre sua arte ele costuma dizer que está inteiramente divorciada da comercialização, pois não tenho nenhum interesse em vendê-la. Para sobreviver, faço programação visual, cartazes, logotipo, jornal, enfim tudo o que aparecer.
Seu primeiro contato com a arte foi realizado em 1971, quando ainda se encontrava em Fortaleza. Sem nunca se preocupar com o folclore local, Bené Fonteles passou por um vasto processo de pesquisa, estudos e observação. Seus instrumentos de linguagem podem ser através de trabalhos com lixo, onde ele aproveitava material usado e outros defeituoso, ou ainda o áudio-visual, a curta metragem, a fotocópia, a colagem, a escultura, o objeto ou a fotografia, quando incluir ainda aquilo que ele chama de trabalhos mais sérios ou seja os trabalhos que realizo para bancos ou firmas comerciais.
 "Meu trabalho sempre foi uma frequentação de coisas, aproveitamento de material e fatos e ele cumpre até hoje esta finalidade de uma maneira coerente para completar o circuito de uma vivência que pode se romper e dá lugar a outra realidade e acredito que o trabalho que comecei a fazer ano passado, com fotografias vai me levar a este conhecimento."
O trabalho totalmente experimental a que me dedico possibilita, às vezes surpresas, encontros imagináveis e o que me comove na arte é a possibilidade da descoberta freqüente de formações, propostas interiores, imagens.
Num espaço relativamente insignificante (71-76) para a formação de um artista, Bené Fonteles está desenvolvendo cada vez mais sua arte, com a realização de um trabalho voltado para atualidade, utilizando uma linguagem individual e é ele mesmo quem diz: "se sou um vanguardista conceitual, não cabe a mim classificar minha situação atual. Sou um comentarista de fatos ligados à linguagem atual, não só artística mais jornalística".
Na Bahia de onde deverá seguir para Londres, Bené está com o seu mundo voltado para suas próprias realizações e mantendo contatos com pessoas ligadas à arte como Mário Cravo Neto, Bartira, Tati Moreno, Fernando Coelho e entre outros com a jornalista Matilde Matos. Suas atividades estão tendo continuidade e ele espera concluir dentro de pouco tempo sua mais nova idealização que consiste em um trabalho onde faz um resumo total de sua vida até a data  em que foi tirado o título de eleitor ano passado. Neste trabalho, os fatos vão surgindo de uma caixa mostrando a sua revelação diante do mundo. Em resumo é um jogo de porcaria que o público joga em cima de mim.
Lá Fora Tudo é Chiqueiro,sequência de três fatos,mostrando
 a sua revelação diante do Mundo
Sobre sua participação na Mostra Arte Agora I Brasil 70-75, Bené ainda não definiu nada. Mas acredita que deverá apresentar o trabalho que está sendo realizado com Mário Cravo Neto, numa sala de foto linguagem que sem dúvida alguma deverá ser colocado à sua disposição pela Comissão Coordenadora. Neste trabalho, ele reúne 160 fotos, como linguagem do artista. É a reunião de uma sequência de fotografias em cujo trabalho utilizo o corpo e a mente de Mariozinho, voltados para um determinado fato. É um trabalho que revela conceito, um trabalho de imagem recolhido no momento.A fotografia representa um ponto de observação da vida, ou melhor de imagens.
"Não é importante para mim ser o primeiro ou o último a revelar um mundo, um questionamento de fatos. Importa meu trabalho fazendo como suas sequências de momento. Minhas imagens idéias, são próprias do meu circuito de vivência, de leitura de minhas sacações naturais.". Tito Lívio