terça-feira, 25 de junho de 2013

LUÍS BRITTO EXPÕE OBRAS DE DOIS ANOS DE TRABALHO

JORNAL A TARDE, SALVADOR,  SÁBADO, 10 DE MAIO DE 1975.


Detalhe do painel, com 2,20m por 1,60m, de
Luís Britto intitulado Lua de Praia,Amor
Marinheiro, que será exposto no TCA
No próximo dia 19 o pintor Luís Britto estará expondo no foyer do Teatro Castro Alves diversos trabalhos, resultado de dois anos de estudos e pesquisa. É uma pintura que apresenta muita individualidade, porque o artista vinha desenvolvendo há vários anos a sua técnica que só agora é mostrada ao público através de dezenas de quadros e um grande painel.. Ele busca as raízes da nacionalidade, as nossas cores, as nossas emoções e o sentido de liberdade do homem brasileiro, especialmente o nordestino. Assim, a ingenuidade do homem do campo e mesmo os marinheiros com suas cabrochas, o lavrador com os pés descalços, braços e mãos fortes, a poesia mágica dos balões de São João, crianças empinando pipas e os violeiros anônimos são retratados através de cores fortes, mostrando toda a vitalidade é muito importante, tendo em vista que o desenvolvimento tecnológico está acabando com a vida preguiçosa, vamos assim dizer, dessas figuras legendárias. Elas existem ainda, mas certamente dentro de algumas décadas desaparecerá o lavrador com os pés descalços, os violeiros e outras figuras que compõem este caleidoscópio que é a Bahia.
A arte para Luís Britto é uma necessidade e ela reflete o sentido e a sua percepção pois capta até aquele jeito maneiro desta gente. Diz ele que " meus quadros juntos representam um painel daquilo que veio no mundo que me rodeia. Tenho raízes interioranas, porque toda a minha família sempre residiu no campo e isto certamente me deu a possibilidade da convivência que essa gente onde senti o seu sofrimento, a sua luta diária pela sobrevivência. A arte que faço não é uma arte ingênua nem tampouco alienada. Acredito que ela reflete o próprio viver do homem. Para mim o grande interesse da arte é o sentido social que ela representa."
A figura humana sempre é presença nos trabalhos de Luís Britto e sempre são representados os tipos que compõem a paisagem nordestina: o lavrador, o violeiro, o carreiro e mesmo os pescadores de Salvador, com seus braços e mãos fortes. A lida diária com a enxada ou com o remo realmente dão a essas pessoas um físico privilegiado. Assim elas são retratadas, Fortes. Todas ou grande parte das figuras trazem um contorno que sobressai em toda a composição do quadro, destacando o rosto, os braços e o tronco.
Tenho a convicção que a arte diz muito da personalidade do criador.
É exatamente por isto que sempre procuro nesta coluna trazer declarações do artista para que sintamos o que ele pensa da vida, como vê a sua arte. E a arte de Luís é resultado de todo um processo de sedimentação, pois desde a infância que convivia com esses personagens que agora foram retratados.
O pintor Luís Britto já foi por três vezes ao exterior, onde manteve contatos com pintores estrangeiros e visitou os principais museus da Europa e dos Estados Unidos. Disse ele que desta última vez que foi aos Estados Unidos, onde se demorou por mais de dois meses, conheceu as últimas conquistas da arte contemporânea.
"Lá fora a gente sente uma falta da humanização nos trabalhos de arte, que são feitos utilizando modernas técnicas e equipamentos sofisticados. Senti por exemplo, a falta da ingenuidade e da alegria dos trópicos. As cores que utilizo dizem muito de nossa gente alegre. Daí não me preocupar em pintar a Bahia de hoje, aquele lado desenvolvido, o operário manobrando uma potente máquina. Não, o que desejo pintar é exatamente a Bahia ingênua, a Bahia pura. Evidente que não estou em busca de uma paisagem apenas, porque acredito que é melhor colocar uma fotografia bem feita do que um quadro retratando uma paisagem. A fotografia fala mais e certamente é mais real que uma tela. A minha não pertence a qualquer escola. Ela é, antes de tudo, livre como a gente que retrato."
O pintor Luís Britto é um artista que faz o seu trabalho com consciência.Ele sabe o que quer e constantemente está procurando acertar. É um trabalho resultante de um esforço individual e persistente e cada quadro é um pequeno pedaço de um mosaico onde ele retrata toda a vida dessa gente brasileira. Os efeitos que consegue dar a seus quadros, embora pareçam à primeira vista espontâneos, na realidade é fruto de uma liberdade refletida, isto é, não tem aquele caráter irresponsável. A pintura que Luís está fazendo é tão brasileira, tão baiana que às vezes penso que deveria ter sido feita por um mulato. Suas figuras fortes e às vezes com fisionomia agressiva parecem em determinados quadros até agredir a sensibilidade do espectador. Mas é assim o homem rude do campo ou do mar. Simples, forte e, acima de tudo, decidido. Luís é um artista de grande personalidade e criatividade porque soube expressar a vida dessa gente, e a arte é uma expressão da vida. O artista é apenas o interno diário, o homem que capta com a sua sensibilidade aquilo que nos rodeia e sente e leva para a tela.
É claro,  com a sua participação subjetiva, porque tudo aquilo que a gente cria tem algo de nós. Espero que este pintor continue a sua trajetória e com esta vontade em criar, que certamente dentro de poucos anos será um dos melhores artistas de nossa terra..

                        ÂNGELO E SUA ARTE BARROCA

Ângelo com um de seus últimos trabalhos
Tudo começou quando seu avô foi contratado para ensinar escultura em Santos. Ao retornar à Argentina, seu avô começou a lhe falar sobre o Brasil, especialmente sobre as cidades de Santos e Salvador. Assim, o garoto Ângelo passou a se interessar pelo Brasil, um país fascinante, segundo tinha aprendido. Já adulto, Ângelo participou em 1950 de um grupo de arte em Buenos Aires, intitulado Realidade das Artes, que reunia artistas plásticos, músicos, etc. Dentro deste grupo existia um brasileiro músico profissional, tocador de saxofone e piston. Chamava-se Assis Alves .O cantor Cauby fazia uma temporada em Buenos Aires e Ângelo era uma das atrações, pois fazia um número sapateando, nos teatros Nacional e Maipu.
Assim, entrava em contato com brasileiros sempre indagando sobre nossas coisas. Em 1954 montou um atelier em La Boca, local onde se reúne a boemia argentina, desde o intelectual ao homem do país. Lá conheceu um paulista que lhe convidou para expor no Brasil, na cidade de Itu, São Paulo. Não pestanejou, arrumou as malas e veio. Em São Paulo trabalhou com Agostini e Navarro Aguillar. Aproveitou alguns dias e deu uma esticada até Salvador. Aqui ficou e não pretende sair.
Diz Ângelo que aqui encontrei o lugar exato para desenvolver minha pintura que tem muito deste ar místico que envolve esta cidade mágica. Aqui criei juntamente com a minha esposa a Revista de Arte da Bahia Contemporânea, com os artistas Edson da Luz, Firnakaes e Gilberto Oliveira. A apresentação foi de Carybé, com uma tiragem de 3000 exemplares. Assim fui me entrosando e entendendo a Bahia. Digo entendendo, porque  à primeira vista é agressiva ao visitante. As ladeiras e este modo de viver realmente deixam o visitante desconcertado. Mas, hoje estou perfeitamente entrosado e aqui desenvolvo o meu trabalho. Uma prova do meu entrosamento é que ouso defender que todos os prédios com mais de oito andares deveriam ter painéis de artistas plásticos. Deste modo, teríamos uma cidade com um grande volume de trabalhos de arte, isto porque considero de suma importância o papel do painel, que exerce muito mais influência em relação ao quadro adquirido pelo colecionador que coloca em sua casa ou apartamento e poucos tem oportunidade de conhecer o trabalho artístico.
Ângelo tem realmente grande facilidade em criar e é por isto que gota de trabalhar em telas grandes. Para ele, o espaço de um painel, por exemplo é essencial para a gente pintar. Aí temos possibilidade de fazer um trabalho com mais liberdade.
Ele defende que o trabalho artístico não deve ser desenvolvido por um artista só. Acho que o trabalho em grupo é mais produtivo e nos dá maior possibilidade de criação.Defendo que a pintura não evoluiu. O que evoluíram foram as técnicas e essas devem ser desenvolvidas por grupos de artistas trabalhando em comum. Hoje temos melhores tintas, melhores técnicas e pincéis e os grupos de artistas discutindo e fazendo experiências podem realizar trabalhos magníficos.
Falando sobre sua pintura, que constantemente apresenta contornos dourados, ele justifica a escolha do dourado porque esta tinta reflete um pouco do barroco, e da época de opulência quando as igrejas eram cobertas de ouro.Basta a gente examinar as igrejas da Bahia que constatamos o que afirmo.
Ele tem realmente um grande interesse pela arte barroca baiana. Não pinta por encomenda. Seu trabalho é livre e sempre a temática afro-brasileira e sacra.