terça-feira, 25 de junho de 2013

MÁRIO CRAVO NETO E SUA ARTE ANTISSÉPTICA

JORNAL A TARDE,SALVADOR,  SÁBADO, 14 DE JUNHO DE 1975


Na visita que fiz Cravo Neto mostra um elemento que
usará em sua próxima exposição após o acidente.

Mário Cravo Neto no leito do Hospital Português
O  fotógrafo Mário Cravo Neto vinha trabalhando há algum tempo através uma experiência sui generis, com a utilização de símbolos que eram feitos com durex em cima do capuz de seu carro. Os símbolos eram fotografados nos mais diferentes horários e locais e, às vezes, junto com objetos que ele considera de alto valor cultural. Infelizmente este trabalho foi interrompido no dia 31 de maio passado quando às 20 horas, sua Brasília espatifou-se contra um poste de iluminação no bairro da Pituba. Além de danificar o símbolo que ele tinha feito no carro, sua máquina fotográfica virou ferro velho. Foi transportado para o hospital, onde se encontra com as duas pernas engessadas. Mesmo assim, imobilizado numa cama, Mário Cravo Neto não para de criar. As agulhas, os frascos de soro e mesmo a armação que lhe imobiliza as duas pernas estão sendo fotografadas e farão parte de uma exposição intitulada Memória Fotografa, ou Arte e a Vida é uma Questão de Vida e Morte.
Acredita o artista que levará ao público uma exposição inédita onde mostrará trabalhos fotografados pela memória. São imagens, que temos na nossa mente e que normalmente uma máquina fotográfica seria incapaz de documentar. São os símbolos, os signos ancestrais fotografados utilizando luz e sombra, a depender dos momentos de sua memória. Uma das fotos que fez ao lado um livro de Picasso, que é um dos poucos elementos que respeita por seu valor cultural. Isto é surreal e cujo trabalho só posso executar superpondo imagens.
Mário Cravo Neto está realmente voltado para os símbolos e signos. O seu cartão de apresentação é de cor cinza e traz uma estrela de David com seis pontas. No verso a sua assinatura, onde desenha uma estrela com cinco pontas para quem tem a honra de recebê-lo.
Ele lamenta que o acidente tenha cortado o desenvolvimento do seu trabalho. Porém,pretende comprar outro carro da mesma marca e de cor branca, onde será pintada uma estrela ou um circuito vermelho, porque o vermelho passa pela guerra.
Como passei por essa guerra, que foi este acidente, eu pretendo trabalhar em cima dele. As agulhas que estão me furando e outros objetos já estão sendo fotografados e com o auxílio de uma máquina vou filmando tudo que acontece neste quarto (referia-se ao quarto do Hospital onde está internado.) É a arte antisséptica, que vem sendo desenvolvida principalmente nos Estados Unidos. E como estou tomando muito soro e o soro é a limpeza, o meu trabalho estará assim perfeitamente integrado. As agulhas vou fotografá-las tendo como fundo o infinito. Esta exposição pretendo realizá-la no foyer do Teatro Castro Alves, que é um local onde o grande público comparece. Não quero realizá-la em museu ou mesmo galeria, porque são muito fechados. O fotógrafo pretende também apresentar um grande painel com fotos de amigos seus que também desenvolvem trabalhos de pesquisa e que infelizmente ainda não tiveram a oportunidade de mostrar ao público baiano. Também algumas peças grandes (parte escultóricas de fibras de vidros e resina poliéster poderão fazer parte desta sua exposição.
Ele considera a escultura uma gravação em relevo de situações da memória, e assim estariam essas peças perfeitamente integradas no objetivo da mostra.

COM OS ÍNDIOS

Diz Mário Cravo Neto que prefere ser hoje chamado de Yaxandyary, que significa porco do mato.Este é o meu nome de guerra. Depois que passei alguns meses no Araguaia, trabalhando como Diretor de Fotografia do filme Ubirajara, o Rei da Lança, do cineasta baiano André Luiz, resolvi adotar este nome. Cheguei até a furar a orelha onde uso um pedaço de bambu. Quanto a este paradoxo em trabalhar com poliéster, resinas e outros materiais vindos de civilizações desenvolvidas e esta minha vivência na selva não quer dizer nada.
Sou um artista que trabalho com aquilo que disponho no momento. Hoje em dia, estou sentindo que terei que deixar de fazer experiências com resinas e poliéster e mesmo fibras de vidro porque estão custando muito caro. Certamente trabalharei com a madeira, ferro e areia que estão mais próximos de nós, brasileiros. Diz ele que a matéria que utilizo na confecção de meus trabalhos não quer dizer que faço um trabalho fora da nossa realidade. A escultura é um relevo de momentos de minha memória que está impregnada da realidade e do ambiente que me cerca. Basta a gente lembrar que na Bienal utilizei duas toneladas de areia com jogo de luz, a cujo trabalho dei o nome de Paisagem Lunar, o qual foi muito elogiado pela crítica.

O ESPAÇO

Quando ele apresentou alguns trabalhos, em 1971, na Galeria Documenta, seu pai e também conceituado artista escreveu: "A escultura é a descoberta de um novo espaço, de uma nova matéria, de uma nova forma. Da natureza inspirado e recriando-o permanentemente, o jovem escultor marca com sua sensibilidade invulgar, a pureza do seu propósito, a intensidade de sua ação criadora e a fé de que a arte precisa ser renovada urgentemente e para isto os artistas existem. Assim Mário Cravo Neto começava a sua trajetória. Nascido em 20 de abril de 1947, em Salvador, dedica-se desde cedo às artes plásticas. Aos 14 anos já desenhava e executava os primeiros trabalhos de escultura. Vai com seu pai para a Europa e Estados Unidos e o contato cotidiano com a arte em vários studios de famosos artistas e visitas a exposições e museus inspiraram, em grande parte, a sua carreira de escultor, hoje consagrado e reconhecido por seu trabalho de vanguarda.

                   RECADO PARA CARLOS BASTOS

Um dos mais bonitos trabalhos feitos pelo artista Carlos Bastos encontra-se com meu amigo Walter Santos, que por muitos anos militou na imprensa baiana. É um quadro a óleo com 1m x 80cm e retrata o interior do Anjo Azul, tendo Carlos Bastos sentado numa das mesas.
O quadro é datado de 1951 e estará a disposição do artista para sua retrospectiva que será realizada no dia 2 de julho, no foyer do Teatro Castro Alves. O contato poderá ser  mantido com Walter Santos, pelo telefone ou com sua esposa, D. Bete. É um quadro que merece ser visto por todos aqueles que acompanham o trabalho de Carlos Bastos.
Tenho acompanhado de perto as providências para a realização desta exposição e a minha amiga Sônia Gantois tem realmente um papel destacado no seu esperado sucesso, como também o pessoal de S.A. Artes Gráficas, e outras pessoas encarregadas do áudio-visual e do Mário Cravo Júnior, que fará duas palestras.

                        MATRIZES AOS MUSEUS

A Associação de Anti-quários Brasileiros vai iniciar em breve uma campanha  para que os artistas nacionais doem a nossos museus as matrizes de suas esculturas e gravuras, ao invés de destruí-las, como determina a convenção internacional, após a reprodução de um certo e determinado número de cópias. O que vem acontecendo, no entanto, é que muitos artistas não destroem matrizes, desobedecendo a convenção e ainda por cima vendem a colecionadores as referidas matrizes, o que força a desvalorização das cópias.

ANTÔNIO REBOUÇAS VÊ ASSIM O PINTOR DE CASARIO
O artista Antônio Rebouças vê assim o pintor de casario: Para qualquer tipo de critica construtiva ou destrutiva no campo da arte ou da ciência, deveria ser exigido uma espécie de aferição, onde a escala métrica fosse no mínimo a coerência. Para se poder aquilatar a cristalização de conhecimentos impedindo que as vezes excessivamente fogosos evitam observações distorcidas no seu todo ou mesmo em ângulos restritos de sua elementar observação.Ao lado uma obra de Rebouças onde ela pintou um casario diferenciado.
Há poucos dias, um meu amigo e colega, falando em nome de sua revolucionária e válida pesquisa, condenava o pintor de casario, que em sua opinião faz uma arte ultrapassada, fiquei pasmado quando percebi que o mesmo não foi capaz de sentir que nunca existiu pintor de casario. O que sempre houve e o que há, é a boa e má arte. artistas como Segal, Di Cavalcanti, Volpi, Kandinski, Paul Klee, para não falar em Picasso, viveram pintando casas e jamais foram julgados pela simples condição de pintar casario.
A chamada pintura de cavalete, que do cavalete só recebe o apoio físico, representa e afasta-se circunscrevendo um ser e não ser que tanto pode utilizar um espaço metafísico transcendente como um simples enfoque de manchas pontiformes ou um profundo hiper espaço a maneira de Fontana. Aí está a razão da perenidade, conseguindo atingir até as regiões fugidias da estética do feio-bonito de Karl Kant. Deixando de lado o necrosado sistema acadêmico, é perfeitamente possível levar a pintura de casas a um transbordamento de tudo aquilo que o artista propõe a comunicar, dentro do seu mundo, inclusive inventando técnicas e expressões revolucionárias, circunscrita apenas na eterna pintura sobre suporte plano, e quem não sabe que as grandes conquistas da ciência e da arte surgiram através dos mais puros princípios de humildade.
É necessário que se perceba que, com o fim do perigo do virtuosismo técnico do impressionismo, um mundo de liberdade formal e cromática foi se desenvolvendo em espiral, passando pelos magníficos pintores post-impressionistas, tomando forças fantásticas dentro do cubismo, chegando até nossos dias protegidos pela análise fria das correntes hiper realistas. Assim,acreditamos que sempre somos capazes de provar que nesta seqüência infinita sempre esteve constante o pintor de casas e claro está que refiro-me ao pintor de casas que consegue extrapolar o sentido físico de sua pintura.

E tem mais, um mau pintor de casas abala muito menos as razões profundas da arte do que certos aventureiros que abraçam os modismos da arte sem qualquer sintonia. Felizes aqueles que podem realizar um safári, não aqueles que trucidam os animais mas aqueles que levam para suas casas um troféu contendo capas pintadas e do lado a assinatura de um grande pintor.