sexta-feira, 28 de junho de 2013

VERNISSAGE OU VELÓRIO ?

JORNAL A TARDE , SALVADOR, SÁBADO, 23 DE AGOSTO DE 1975

Um belo quadro que foi ofuscado na
vernissagem pélo vedetismo do autor.
No último dia 12 do corrente tive a infeliz ideia de ir à vernissagem do pintor Roberto Franco. Ao entrar no salão do ICBA deparei-me com algumas senhoras com seus cabelos esbranquecidos, vestidas de preto ao redor de quatro grandes corbélias. Das flores exalava um cheiro que lembrava um velório de uma pessoa abastada e rica que acabara de desaparecer. Passei as vistas pela sala e me apontaram o autor dos trabalhos ali expostos: um jovem, que trazia a cabeça completamente encoberta por um chapéu de feltro de abas largas e em uma das mãos um lencinho devidamente bordado que servia para enxugar o suor, que inexplicavelmente não caía de seu rosto queimado pelo sol da Bahia. Fiquei observando aquele quadro que me apresentava aos olhos e que  chamava muito mais a atenção do que os quadros pregados nas paredes. Uma cena que também surpreendeu muita gente, especialmente jovens que diariamente vão àquele instituto para participar do movimento cultural. Certamente aquela vernissage era para ter acontecido em outro lugar qualquer, menos no Icba, onde uma juventude descontraída comparece com freqüência tendo em vista a grande atividade que este órgão desenvolve aqui na Bahia, ocupando até os espaços vazios deixados por órgãos governamentais. Com isto, quero eximir o Icba de qualquer responsabilidade, por aquele quadro estranho que presenciei.
Comecei daí a me interessar pela pessoa do pintor e fiquei sabendo tratar-se de um venezuelano que vivia radicado no Sul do País e que agora está residindo na Ilha de Itaparica, onde pode encontrar a paz necessária para produzir a sua arte.
Seu aprendizado artístico segundo fui informado começa com incursões pela Literatura, publicando contos em suplementos literários e que estudou na Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia e até em Paris.
Depois de receber algumas informações sobre o autor daquele quadro que poderia figurar num filme de Fellini, fui observar os trabalhos expostos. Confesso que gostei da técnica empregada e de alguns quadros, principalmente daquelas figuras de mulheres. O artista tem domínio da técnica e seu trabalho é cuidadoso, só que precisa cuidar mais ainda daquilo que está fazendo no campo artístico em detrimento do exibicionismo que é deprimente e lhe recomenda mal.

Gravura de Calasans na Galeria Tempo
OBRAS INÉDITAS NA GALERIA TEMPO

Foi aberta, ontem, uma grande exposição de obras inéditas de reconhecidos artistas plásticos baianos. O pessoal da Galeria conseguiu reunir obras de Calasans Neto, Fernando Coelho, Carybé, Floriano Teixeira, Emanoel Araújo, Carlos Bastos, Luís Jasmim, Luís Preti, Juarez paraíso, Tati Moreno, Mirabeau Sampaio, Sante Scaldaferri, Jenner Augusto e Lev Smarcevski.
Quero destacar a qualidade do convite que me foi enviado pelo pessoal da Galeria Tempo onde está impressa uma gravura do mestre Calá.

                    Ferjó NA MINI GALERIA ACBEU

Retornando dos Estados Unidos, para onde viajou a fim de fazer um curso de especialização, o artista plástico baiano Fernando de Jesus Oliveira, mais conhecido por Ferjó, que desde ontem, está mostrando alguns de seus últimos trabalhos na Mini Galeria Acbeu, na Avenida Sete de Setembro, 214.
Sua temática é quase sempre a mesma: o casario e as baianas. Sem dúvida, uma temática muito batida e desgastada. Conheço há algum tempo o trabalho de Ferjó e posso assegurar que alguns apresentam certa qualidade técnica no desenho e na combinação de cores.
Outros, no entanto, não despertam o interesse de qualquer pessoa que entenda o que seja uma obra de arte.
Espero que com este curso que lhe foi oferecido pelos Companheiros das Américas ele possa desenvolver melhor seu trabalho.

                          TAPETES DE  LENA DA BAHIA

Na galeria do Grande Hotel da Barra a tapeçaria Lena da Bahia expõe mais de uma dezena de trabalhos. Todos sobre temas baianos onde surgem os velhos casarios nas ruas enladeiradas e as baianas em seus trabalhos típicos. O tema, como disse acima, no caso do artista Ferjó, não nos apresenta novidades. Vale porém, pela composição plástica, pelo cuidado com os pontos das tapeçarias que são executadas por suas auxiliares mas acompanhadas de perto pela artista. As cores exuberantes, e constantes ajudam a composição. Quem conhece Lena da Bahia sabe a identificação de seu trabalho com seu modo de ser. Uma alegria facilmente só encontrada no clima tropical baiano.

                    OS GRAVADORES FRANCESES

A Aliança Francesa da Bahia e a Escola de Belas Artes da UFBa., estão patrocinando a mostra de Gravuras de Jovens Artistas Contemporâneos Franceses, na Galeria Cañizares.
Considero a gravura de grande importância para o desenvolvimento das artes plásticas, especialmente no seu papel de educar a população e despertar o interesse para as artes. Por proporcionar tiragens mais ou menos grande, uma gravura de um artista famoso pode ter um preço accessível a um maior número de pessoas.
Uma forma de divulgar a arte e nos últimos anos tanto a gravura como a litografia estão ganhando um impulso muito grande em todo o Mundo. Temos em Salvador a Coperarte, no ICBA, que  já realizou algumas feiras de arte onde presenciei jovens e pessoas da classe média adquirindo gravuras. Se pensarmos numa tela de um artista mais ou menos conhecido concluímos que seria impossível ser adquirido com tanta facilidade.
O mais importante é que muitos artistas famosos estão partindo para a gravura como uma forma de divulgar o seu trabalho a um número maior de pessoas.Pensam corretamente, porque não adianta você fazer um trabalho e cobrar alguns milhões e depois esta tela ou escultura ficar trancada nos aposentos de um colecionador. É muito mais importante a sua divulgação e que este trabalho seja visto por muita gente. È muito maior a satisfação do artista neste último caso, embora muitos não pensam desta forma:
Mas, voltando ao desenvolvimento da gravura, foi criada em 1968 a Bienal Internacional da Gravura e um organismo capaz de controlar o problema de tiragem. É um problema muito sério e que merece uma consideração especial pelos organismos encarregados de nossa cultura. É o caso da matriz da gravura que fica em poder do artista e muitas vezes ela é utilizada para novas reproduções, que não estavam previstas quando foram vendidas as primeiras gravuras.

 ADELSON DO PRADO DA GALERIA O CAVALETE

O primitivo Adelson do Prado está expondo na Galeria O Cavalete, no bairro do Rio Vermelho. São quadros onde a flora, a fauna e o homem estão presentes em todo seu esplendor, Nesse quadro (foto) pudemos observar a presença do papagaio com toda a intensidade de suas cores, que lembram as cores nacionais. Ao seu lado uma mulher vestida de branco trazendo um ramo de flores nas mãos com uma expressão de ingenuidade e pureza que caracteriza a mulher do interior nordestino.
Adelson capta com grande facilidade todo o clima tropical que estamos acostumados, e que nem percebemos também a pomba outro símbolo de sua pintura e constante presença em seus quadros. Considero o trabalho de Adelson do Prado da maior importância, guardando, é claro, as limitações de um primitivo. O que mais me impressiona é que este ´pintor vindo de baixo, levando costumes e valores primitivos para a grande cidade, permanece até hoje, preso às suas origens, mesmo com as motivações constantes e diárias dos meios de comunicação. Assim ele consegue realizar um trabalho fiel e de relevância.