sábado, 29 de junho de 2013

FLORIANO TEIXEIRA E A VIDA EM MINIATURA

JORNAL A TARDE, SALVADOR,  SÁBADO, 20 DE SETEMBRO DE 1975

A preferência em desenhar e pintar
tipos populares
Floriano Teixeira, artista plástico dos mais conceituados  nasceu no Maranhão, morou muitos anos no Ceará e, atualmente está radicado em Salvador. Bahia. Homem de fácil diálogo, com tendência a cigano. Ama a terra onde trabalha mais de repente poderá trocá-la por outra.
Desde 1941 que participa de mostras coletivas, tendo sido um dos fundadores do Núcleo Eliseu Visconti, em 1949. Fixou-se em Fortaleza, no ceará onde fundou o Grupo dos Independentes, em 1952. Em 1962 figurou na exposição inaugural do Museu de Arte Moderna da Universidade do Ceará, bem como na mostra de oito artistas no Ceará no Museu de Arte Moderna da Bahia, no ano seguinte.Premiado  com o primeiro lugar, juntamente com Betty King, na I Bienal Nacional de Artes Plásticas que foi realizada em 1966, em Salvador. Até agora só realizou duas exposições individuais: uma na Galeria Convivium, em 1965, em Salvador, e outra na Bonino em 1967.
A criança é presença constante
em sua extensa obra
Grande ilustrador já tendo trabalhado na ilustração dos livros Dona Flor e seus Dois Maridos e A Morte de Quincas Berro D’água ( edição de luxo), de autoria de Jorge Amado e agora está ilustrando todas as obras de Graciliano Ramos que está sendo relançada mais uma vez pela editora Record.
Floriano de Araújo Teixeira, nasceu no ano de 1923, na Cidade de Cajapió, no Maranhão, e desde cedo utilizando o folclore de sua terra e outros motivos religiosos começou a dedicar-se à pintura. Utilizou também tipos populares e objetos de arte popular (naturezas mortas.) Sentiu a influência da corrente abstracionista e depois da figurativista.

O ENCONTRO
Depois desta necessária apresentação vou transcrever o encontro que tive com Floriano Teixeira, no jardim de sua casa no bairro do Rio Vermelho, recanto dos intelectuais baianos. Com seu jeito matreiro iniciou a conversa contando uma estória.
"Quando me arrumaram para fazer a primeira comunhão descobri que não lembrava de um só pecado cometido. Daí pedi ao padre que me confessava que fizesse as perguntas e  comecei a lembrar-me de alguns pecados cometidos. Eram tantos que formavam um rosário". Assim Floriano queria que eu perguntasse o que desejava saber. Perguntei e fiquei sabendo que ele está com 52 anos de idade e que desde os 14 anos leva a pintura a sério, como uma profissão. Jamais pensou em vir morar em Salvador, mas um dia foi convidado para a inauguração do Museu de Arte Moderna da Bahia e aí encontrou o Obá e escritor Jorge Amado, que naquela época acabava de chegar do Rio de Janeiro para residir aqui. Conheceu através de Jorge outros pintores e fez rapidamente um círculo de amizade. O convite foi imediato. "Floriano você tem que vir morar na Bahia."
 A princípio a ideia de vir para a Bahia com uma penca de filhos, deixando no Ceará um emprego público certo era realmente uma decisão muito grande. Mas, o Obá não desistiu e começou a escrever pedindo que Floriano viesse. Jorge Amado arranjou umas trinta assinaturas de personalidades baianas e enviou um telegrama ao Reitor da Universidade do Ceará pedindo o desligamento de Floriano. Aí não teve mais jeito. Eis que chega o Floriano sozinho. Passa alguns dias na residência do Obá e começa a procurar casa para trazer a família. Veio, e veio como profissional para concorrer com os demais artistas que disputavam um mercado em nascimento.
Começou a trabalhar respirando os ares da velha Bahia. O primeiro ano foi um pouco difícil, mas no segundo em diante o trem começou a correr nos trilhos. O círculo de amizade foi aumentando e as pessoas já procuravam o artista Floriano para adquirir uma obra de arte de boa qualidade. Hoje, é um artista amadurecido, respeitado e acima de tudo integrado à paisagem e a vida  baiana.

MERCADO DE ARTE
Diz Floriano Teixeira que antes do grupo de Mário Cravo, Genaro de Carvalho e Carlos Bastos não existia um movimento de arte na Bahia. Depois veio o Jenner Augusto, de Sergipe e, o Carybé, da Argentina .Aí a Bahia se projetou no cenário artístico nacional. O mercado de arte começou a se desenvolver .
Este desenho demonstra a
sua técnica apurada como
grande ilustrador que é
"Quando cheguei este mercado estava dando os seus primeiros passos e até algumas galerias já surgiam. Hoje posso afirmar que o mercado existe só que é um mercado para fora.Trabalhamos e, a maioria das obras que criamos são vendidas para colecionadores de outros estados ou mesmo do estrangeiro."
Sobre a inflação de artista na Bahia Floriano tem uma posição firmada : "O homem que investe numa obra de arte ele sabe o que está fazendo. Sei que existem muitos artistas e que estão vendendo. Alguns destes artistas não tem amadurecimento ou mesmo não estão realizando um trabalho sério, mas conseguem vender e isto prejudica a qualidade."
 E continua: "Toda dona de casa ou jovem que não consegue passar no vestibular inventa que é artista e começa a usar o pincel. Usam de forma indevida. Mas não sou contra ninguém, só que recomendo a essas pessoas que estudem e levem a sério. Uma exposição só deve ser realizada quando agente tem realmente alguma coisa para mostrar. De nada adianta  exposição por exposição.Quando a gente tira um quadro do cavalete e coloca numa exposição ou mesmo numa galeria para ser comercializado fica exposto ao julgamento público. Este quadro pode ser apreciado ou não. É muito chato a pessoa criar uma coisa e os outros depreciarem, porque muitas vezes não tem valor. Eu, até o momento tenho tido sorte e meus trabalhos estão tendo boa aceitação."

MELHOROU
Floriano Teixeira reconhece que deve muito à Bahia porque aqui pode dedicar-se inteiramente a seu trabalho de pintor. Aqui pesquisou e amadureceu a sua pintura: "Até antes de vir para a Bahia não vivia exclusivamente da pintura. Aqui mudei meu sistema de vida. Passei a viver de pintura.Como tinha passado por várias fases e escolas, a minha pintura reflete um pouco de cada uma delas. Este caminho que venho percorrendo no decorrer de minha vida profissional possibilitou o amadurecimento e o encontro de minha individualidade e personalidade artística. Aqui tive e tenho tempo de pesquisar. Melhorei a minha pintura tanto tecnicamente como na concepção. Hoje, faço uma pintura que tem sido aceita, até pelos mais intransigentes."

SUA PINTURA
Seus óleos de grandes espaços e planos com pinceladas largas identificam o seu trabalho. Nesses planos surgem figuras diminutas, homens, mulheres e crianças.Talvez consciente ou inconscientemente Floriano na sua simplicidade queira mostrar quanto pequeno é o homem diante do Universo. Um graveto, uma miniatura que pode ser esmagado a qualquer hora.
Além disto Floriano é um bom desenhista e exímio ilustrador o que de certa forma lhe facilitou o uso da cor, que veio acontecer com mais intensidade depois de sua vinda para a Bahia.
Seu trabalho é tão individual que mesmo sem a sua assinatura é perfeitamente identificado a sua autoria.