quinta-feira, 27 de junho de 2013

REVIVENDO 75

JORNAL A TARDE SÁBADO, 03 DE JANEIRO DE 1976

Vamos reviver nesta coluna o que de mais relevante aconteceu nas Artes Plásticas em Salvador, no ano que passou. Destaquei dez exposições que para mim representaram o que de mais importante aconteceu. As exposições foram de Fernando Coelho, José Guimarães, Hansen-Bahia, Floriano Teixeira, Carlos Bastos, Adélson do Prado, José Pinto, Ramos Melo, Luís Brito e Líber Friedman.
Esses artistas juntos mostraram aos baianos vários ângulos da arte e várias técnicas de expressão através dos seus trabalhos expostos nas mais significativas exposições realizadas aqui.
Tive contato direto com esta gente, que contribui para aumentar os meus conhecimentos, e também, para avaliar o desenvolvimento da arte, e ainda, no mercado de arte em Salvador. Por isto, falo ou relembro ligeiramente estas exposições e seus responsáveis.
Por outro lado, não podemos deixar de falar sobre o surgimento de novas galerias de arte: a Galeria Sereia, NO Pelourinho; a Galeria RAG, na Boca do Rio e a Galeria das Portas do Carmo.
Também, perdemos o artista que muito contribuiu para o desenvolvimento das artes: Euler Pereira Cardoso, que fundou a Galeria Panorama, escolas de artistas.

          FLORIANO TEIXEIRA NA GALERIA TEMPO

Esta exposição foi realizada nos últimos dias de dezembro na Galeria Tempo, no Salvador Praia Hotel. Ali estavam reunidos alguns óleos de Floriano Teixeira.Uma pintura lírica e cheia de detalhes, que eram descobertos pelos visitantes à medida em que começavam a olhar os seus quadros.
De longe destacavam-se as figuras maiores, mas esta era complementada pelas menores, com rico detalhes: Pintor e ilustrador, Floriano Teixeira vive instalado no bairro do Rio Vermelho criando estas personagens.
Em quase todos os quadros expostos notamos a presença de um animal, uma ave e o homem. Todos os espaços foram devidamente ocupados por esses personagens numa mistura de tons que deixavam as pessoas admiradas com as tonalidades conseguidas por Floriano. Está foi sem dúvida uma das mais importantes exposições do ano que passou.

                      LÍBER FRIDMAN NA POUSADA DO CARMO

Trouxeram de longe o pintor Líber Friedman e o jogaram sem qualquer publicidade ou preparação na Galeria da Pousada do Carmo. Na sua vernissage este artista, considerado um dos mais importantes da América Latina, compareceram poucas pessoas. Por isto muita gente perdeu de ver a sua obra.
Na década de 40 ele andou pela Bahia voltando em 1974 para rever amigos e a velha Salvador completamente modificada, segundo declarou. Seu trabalho é inspirado em rituais, mitos e costumes do Peru e de outros países latino-americanos.
Suas experiências plásticas com a cultura pré-colombiana nos proporciona o conhecimento da importância desta cultura e a sua significação artística.

           FERNANDO COELHO E OS PALHAÇOS

O Tocador de Bumbo, de Fernando Coelho
Em agosto assistíamos uma exposição de um artista que resolvera dar uma guinada de 180 graus. Era o Fernando Coelho que entrava triunfante  no Museu de Arte Moderna, Unhão completamente novo, alegre carregando bandeiras e bombos com seus palhaços. Paramos para observar o seu traço e a mistura das cores leves. Sim, porque estávamos acostumados a admitir a pintura de Fernando Coelho por outro prisma, diverso e oposto do que ele mostrava naquele momento.
O homem passou a ser o centro de sua pintura. Os conflitos e as guerras dos últimos anos marcaram sensivelmente este criador. Seus quadros mostrados no Unhão, juntos, representavam um livro, sendo cada quadro um capítulo. Uma verdadeira crônica do cotidiano, onde tocadores de bumbo, equilibristas e fantoches brincam e choram.
Como o tempo passa  e não volta, como o tempo muda o Fernando está aí para mudar, para amadurecer. Vem passando por uma transformação que só faz acrescentar a seu trabalho criativo.
Ele explica esta transformação afirmando que começaram a surgiras primeiras mudanças, reflexo do que aos poucos também ocorria comigo. Simplesmente uma preocupação maior com a existência do que o formal. Passei a cuidar das coisas interiores com uma maior preocupação criativa e uma elaboração mental objetiva.
Eu tinha necessidade de dizer coisas e mais coisas através dos meus quadros. Fui pintando uma crônica, fazendo de cada quadro uma folha de um diário.
O Fernando é também um jovem artista com muita vontade de criar, de fazer e de estar presente. Quem o conhece gosta de seus papos e de ler as páginas do seu diário.
Quando vi pela primeira vez seus novos quadros fiquei espantado com a mudança. Ao abrir a exposição apareci por lá umas três vezes para examiná-los para ler as páginas de seu diário. Cada vez encontrava novas coisas belas para ler e sentir. Encontrei, por lá, também pessoas que procuravam encontrar defeitos no traço e na mistura das tintas. Elas se perderam e terminaram por gostar daquela crônica do cotidiano.

     HANSEN BAHIA NO MUSEU DO CARMO

Cinco grandes exposições marcaram as comemorações dos 60 aos de vida do gravador Hansen Bahia. A primeira foi a realizada no Museu do Carmo; em Bonn, outra em Frankfurt, ambos na Alemanha, a quarta, no Palácio Pamphily, na Itália, e a última em São Paulo.
Assim os movimentos, as expressões, as cenas eróticas de suas gravuras foram mostradas aos baianos nas seculares paredes dôo convento do Carmo. Tudo mostra a inquietude de Hansen Bahia. Embora busque tremendamente um lugar calmo para trabalhar e viver, este artista é antes de tudo um inquieto, um inconformista. É incapaz de permanecer alguns minutos sentado numa cadeira . Vive eternamente a sua odisséia e quer ser o próprio Ulisses , que lhe inspirou para fazer um álbum. Quando falei sobre sua exposição, que foi aberta no dia 19 de abril ele não pensava em deixar Salvador
Vivia com Ilse sua esposa numa mansão rodeada de coqueiros e amendoeiras nas imediações da praia de Piatã. Agora ele coloca sua casa à venda e vai partir para morar numa fazenda no Recôncavo Baiano. Quer fugir segundo conta, da barulheira  dos carros e das máquinas e não quer ter vizinhos. Os vizinhos estão surgindo e ele está saindo. Também conheço o Hansen há alguns anos quando ele ministrava um curso de gravura no Icba. Cheguei a matricular-me e ali mantive muitos contatos e conversas com este artista inquieto.
Hansen mostrou no Museu do Carmo gravuras que testemunham toda a sua trajetória, desde o lançamento do álbum Flor de São Miguel até as novas e eróticas gravuras que integram seus livros no exterior.
Mostrou àquelas gravuras feitas no Maciel, onde as prostitutas e malandros surgem às portas do casarões com seus corpos alquebrados e malandros.Hansen recriava assim toda aquela paisagem prostituída e marginalizada que é tão cantada em verso e prosa e tão triste na sua realidade.Ali ele passou algum tempo de sua vida e portanto é um dos indicados para falar sobre o mangue. Hansen mostrou também a Odisséia que viveu em águas mais mansas e hospitaleiras. Foi sem dúvida uma das principais exposições que aconteceu em 1974.

ADELSON DO PRADO

Adelson do Prado, de Vitória da Conquista, expôs na Galeria O Cavalete. Seus quadros estão sendo muito aceitos no sul do país. Ele explora a flora, a fauna e tipos de rua. Este artista capta com grande facilidade todo o clima tropical brasileiro. Suas cores, sua magia e alegria, que normalmente deixamos passar despercebidos. Desde a década de 1960 que conheço Adelson do prado e o trabalho que ele vem realizando , pelo qual mantenho respeito.É um artista que tem muito a mostrar aos baianos.

                     JOSÉ PINTO NA POUSADA DO CARMO

Adão e Eva e o Fruto do Pecado
Em outubro foi realizada a exposição de José Pinto na Galeria da Pousada do Carmo. Uma exposição onde os temas populares, as cores e o romantismo ingênuo surgem espontaneamente nos quadros de José Pinto. Um ingênuo, que diariamente é bombardeado com centenas de informações e imagens do mundo moderno, mas que se conserva ingênuo com consciência e escolha.
Como escrevi na época da sua exposição ele poderia estar fazendo outros tipo de trabalho. No entanto, ele prefere manter-se fiel às suas origens, as fazendas de cacau, ao roceiro.


                  
             LUÍS BRITTO NO TEATRO CASTRO ALVES

A exposição realizada no dia 19 de maio no Teatro Castro Alves trouxe ao seio das artes plásticas baianas o pintor Luís Britto. Um jovem talentoso que inicia a sua carreira onde dezenas de artistas lutam para chegar.
Sua pintura, bem verdade, é resultado de um trabalho solitário, de um trabalho de pesquisa em busca da cor e da temática. Conheço de perto este artista . Inicialmente pintava quadros com influência da pintura européia com os casarios com predominância do verde e do azul. As paisagens serviam de tema . Hoje o Luís Britto, adulto, amadurecido, mostrar a Bahia uma pintura nova e acima de tudo cheia de força.
A arte sempre foi uma necessidade para este artista e ela reflete muita coisa que tem dentro de si. Uma vitalidade, muitas vezes incompreendida por aqueles que lhes cercam. É exatamente esta vitalidade que Luís Britto transcende para as suas figuras caboclas. Corpos agigantados e cabeças pequenas. As mãos calejadas pela enxada, pela picareta ou mesmo de segurar o laço do boi. Sinto na arte de Luís um cheiro de mato, de roça, de Brasil. Portanto, uma pintura que não tem nada a ver com a que ele fazia quando o conheci pintando.
Neste ano que passou foram revelados alguns talentos. Porém, a meu ver o mais importante e que apresenta perspectiva de continuar  elaborando um trabalho sério é o Luís Britto. É verdade que ele tem muito a correr, a corrigir. O traço, a mistura das cores, a maneira de apresentar o tema, mas isto é um processo de enriquecimento que se consegue pintando. Pintando e pintando muito sem parar, sem olhar para trás. É uma trajetória artística que gostaria de seguir, de acompanhar. Este ano de 1976 será certamente um ano de criação para o Luís.

                   RAMOS MELO NO HOTEL PRAIAMAR

O Ramos Melo expôs alguns entalhes no Hotel Praiamar. Homens e mulheres surgiram com seus olhos profundos. Ramos é um artista identificado com sua gente. Natural do Rio Grande do Norte ele transportou para a madeira a seca e o sofrimento dos nordestinos. Os animais sofridos, felinos e desconfiados foram trazidos da caatinga , do sertão para a grande cidade nos trabalhos deste artista. Um nordestino que sabe falar e acima de tudo interpretar a sua terra e a sua gente.


 Os 50 anos de idade do artista Carlos Bastos foram comemorados com uma retrospectiva do seu trabalho que representou uma mostra completa de tudo aquilo que este artista fez. Depois de realizar um levantamento completo de tudo aquilo que fez de mais representativo, ele abriu a sua exposição no teatro Castro Alves,conseguindo até transportar grandes painéis que fez para edifícios particulares e públicos.
Carlos Bastos tem seu nome ligados às artes plásticas na Bahia, e sua primeira exposição que foi realizada em 1943, num dos salões da antiga Biblioteca Pública, na Praça Municipal marcou época. Os acadêmicos não aceitaram sua arte moderna e partiram para cortar de gilete os seus quadros, alguns dos quais são considerados peças importantes e valorizados. A própria igreja manifestou-se através de um artigo no jornal da Arquidiocese . No entanto A Tarde, Diário de Notícias e outros jornais da época saíram em defesa do jovem que iniciava sua carreira.
Porém, este incidente não desanimou o então jovem Carlos Bastos e em 1944 juntamente com Genaro de Carvalho participava do 1º Salão de Arte Americana, dedicada aos artistas baianos no Icbeu, em Salvador. Daí passou a integrar um grupo de artista que tornou-se famoso não apenas na Bahia e no sul do país, como também no exterior.
Tem vários livros publicados com desenhos seus. Os murais feitos por Carlos Bastos são famosos, como aquele da Assembléia Legislativa , no Centro Administrativo da Bahia, e do edifício Martins Catharino e o da Capela do Museu do Parque da Cidade, na Gávea, no Rio de Janeiro.Uma verdadeira guerra foi movida por pessoas incapazes de compreender o que seja uma obra de arte.
Por isto seu mural não foi encoberto de tinta, certamente reaparecerá como uma das grandes peças artísticas as do país.

   JOSÉ GUIMARÃES NO MUSEU DE ARTE SACRA

A exposição de quadros e desenhos de José Guimarães 1899-1969 – realizada no Museu de Arte Sacra, da Universidade Federal da Bahia, também foi outro grande acontecimento no setor.
Se analisarmos a obra de José Guimarães poderemos distinguir três fases: Na primeira, as obras de caráter pós impressionista,pintada sobre a influência da Escola de Belas Artes e notamos a presença de Presciliano Silva. Na segunda,agrupamos as paisagens, figuras e naturezas mortas, pintadas na Academia Julian . Na terceira, realizada na Bahia depois de 1932, notamos sua obra vanguardista, moderna com uma tendência crescente ao abstracionismo , prescindindo de detalhes, tratando vigorosamente planos e luzes.
|A exposição de José Guimarães serviu não apenas para uma reavaliação críticas , como queriam seus organizadores, mais acima de tudo para mostrar às novas gerações este talento quase desconhecido.
Também fizeram justiça: é um homem que ajudou a arte moderna a percorrer seus caminhos hoje tão procurado em todo o mundo.
Pesquisa Itaú Cultural:
José Tertuliano Guimarães (Nazaré BA 1899 - Rio de Janeiro RJ 1969). Pintor, gravador, 
ilustrador, desenhista. Estuda com Robespierre de Farias e Presciliano Silva, na Escola de Belas Artes da Bahia, em 1929. Nessa instituição recebe o Prêmio Caminhoá, ao concluir o curso Lopes Rodrigues. Com pensão do governo, viaja para Paris e estuda com Albert Laurens na Académie Julian. Recebe o primeiro prêmio de composição desta instituição e é admitido no Salon Officiel des Artistes Français.
 Em 1932, de volta a Bahia, realiza uma individual em Salvador. Esta exposição, considerada o marco inicial do modernismo na Bahia, teve crítica favorável,mas não agrada os artistas nem o público. Entre os anos de 1932 e 1939, faz ilustrações em xilogravura para a revista Seiva e Flama. É membro do Partido Comunista Brasileiro. Transfere-se para o Rio de Janeiro, onde retoma seu antigo oficio de pintor de paredes, e torna-se catedrático de Desenho no Colégio Pedro II.