quinta-feira, 25 de abril de 2013

RESPOSTA A UM MANIFESTO -12 DE FEVEREIRO DE 1979.


JORNAL A TARDE, SALVADOR, SÁBADO 12 DE FEVEREIRO DE 1979.

             RESPOSTA A UM MANIFESTO

Alguns dos recusados explicam objetivo do Salão
Discordo do Manifesto assinado pelos artistas Antônio Luiz M. Andrade e Haroldo Cajazeiras Alves que nega a presença de vários elementos capazes de proporcionar o surgimento de uma arte vanguardista. O que existe é o comodismo dos artistas que não buscam as informações necessárias visando dinamizar sua criação. O que existe é o papel carbono que podemos observar no próprio salão dos recusados com vários trabalhos que representam cópias mal feitas da obra de Sante Scaldaferri, Pancetti e outros. O que existe é uma arte boa e uma arte ruim. Disto ninguém, pode fugir, e a seleção é uma coisa natural como separar o joio do trigo. Uma questão de valorização, que certamente entra o subjetivo, Sim, o subjetivo porque a arte é muito subjetiva.
Podemos dizer que o trabalho artístico tem um significado quase que individualizado. Daí a presença de alguns bons trabalhos no salão dos recusados. Confesso que fui responsável pela recusa de alguns trabalhos.
Este cartaz faz alusão
 àqueles que não concordaram
com o Salão dos Recusados
Uma posição que assumi consciente diante das explicações que me foram dadas no momento em que estávamos escolhendo os artistas que seriam premiados. Os organizadores estavam surpresos com a presença de grande número de obras enviadas 185 artistas com 518 obras e não tinham espaço para expô-las. Primeiro partimos para diminuir o número de trabalhos, no máximo dois, para todos os artistas e ainda tivemos que selecionar. Os erros cometidos pelos meus colegas de júri são também meus. Assumi e aceitei a regra do jogo como os artistas recusados que não desconheciam que de qualquer forma haveria uma seleção ou seja, aquela que escolheria os prêmios de aquisição. Além disto, acrescenta-se que no momento em que você expõe um trabalho para outra pessoa, ele está sujeito a criticas positivas ou não. A valoração sempre existirá porque é o próprio do ser humano.
A escolha deste ou daquele trabalho para prêmio é          portanto, que era de conhecimento público e inclusive divulguei em minha coluna por várias vezes.

Quanto à arte política, engajada, reclamada pelos assinantes do manifesto, é uma questão individual. Você pode independente da Fundação Cultural ou outro qualquer órgão fazer uma arte política. Evidente se a Fundação não aceita a sua proposta é porque ela joga em outro time. E se não existisse mais de um time, as coisas andariam ainda pior...
Contestar é fácil, bonito e estar na moda. Contesta-se tudo. É bom esta contestação porque no final alguma coisa de positiva tem que aparecer.
Duas obras de Graça Olivieri que foram recusadas
pela Comissão Julgadora







Continuando no exame do Manifesto que reflete o pensamento da maioria dos recusados digo ainda que existe uma grande contradição nele inserido. Diz o Manifesto. Somos contra, não ao fato de haver seleção pois situar-se só é possível quando se toma partido, o que somos contra é o tipo de seleção não objetiva, determinada por critérios política pessoal, burocrática.      Ataca o próprio salão alternativo que surgiu em decorrência desses fatos reproduz os mesmos defeitos do salão oficial em relação á produção artística. Ora os manifestantes são contra tudo. Contra o próprio Salão que participam na qualidade de recusados e contra a seleção de modo geral. Sim, porque toda seleção por mais objetiva que os juízes queiram, estará presente uma grande parcela de subjetividade. Todo julgamento tem subjetividade. É a questão da neutralidade axiológica, quase impossível até no laboratório, porque no momento que você elege um tema ou escolhe um tipo de doença para estudar e realizar pesquisas está presente a subjetividade. Portanto, o manifesto de Andrade e Cajazeiras carece de um estudo mais profundo e levanta a possibilidade de uma discussão mais apurada.
Creio que ele foi elaborado num momento de aborrecimento ou excitação por terem sido recusados e por isso, está também cheio de subjetividade e valorização.
Não estou defendendo os interesses da Fundação Cultural. Primeiro, porque não sou empregado de tal órgão e muito menos tenho qualquer vinculação ou aceitação passiva de sua política cultural! Discordo de muita coisa, inclusive da presença de algumas pessoas que poderiam muito bem estar vendendo livros atrás de um balcão. Sou independente dentro das  possibilidades de um ser humano, contra a burocracia, mas também contra a contestação vazia. Vamos contestar mas apresentar soluções. O manifesto não apresenta soluções e o próprio salão demonstra que os artistas aceitaram de uma forma ou de outra o jogo da Fundação. Basta dizer que se consideram e se rotularam recusados. Este é inclusive o rótulo para divulgação do salão, que em tão boa hora foi acolhido pelo pessoal da Escola Baiana de Arte e Decoração.
Quanto ao mercado de arte ele sempre esteve em mãos de burguesia. Arte sempre foi consumida por pessoas que desfrutam dentro das comunidades de um status social pelo menos estável.Basta lembrarmos dos mecenas e mesmo em tempos imemoriais você encontra a arte sendo, consumida por uma certa camada da sociedade. Esta posição de arte para o povo é muito romântica, pelo menos de maneira que nos colocam os manifestantes. O que é preciso é partir para divulgar a arte através de todas as formas de comunicação. No entanto nada disto é feito. Vocês mesmo não mostraram até hoje seus trabalhos em lugar algum.- Ah! Mas não temos apoio. Poderão responder. Esta é a posição do Jeca Tatu de Lobato. Posição assumida por muitos artistas, inclusive figurões que conseguiram uma situação financeira estável e paravam no tempo. Vocês precisam é de uma ação positiva que lhes permitia levar avante o seu trabalho, melhorando a qualidade para poder discutir, mostrar e exigir. Caso o trabalho seja bem feito, tenha qualidade, será forçosamente aceito no mercado. Evidente que concordo que muita gente consegue posição de destaque e vende trabalhos de má qualidade. É a  posição social, é a amizade que levam a isto.
É evidente que o espaço reclamado foi aberto com o I Salão de Verão. Abrir um espaço para a arte não é como a Fundação Cultural propôs, com o Salão de Verão, mas sim abrir um espaço para discussão aberta que venha criar novos hábitos de produção e leitura. Os manifestantes esqueceram que estão discutindo e contestando. Que a recua proporcionou a criação do Salão dos Recusados. Concluo falando acerca do manifesto que carece de u aprofundamento maior e maturidade daqueles que o subscreveram.
Considerando que os autores do manifesto dispõem de poucas possibilidade de divulgá-lo público por uma questão de consciência o documento na íntegra: Manifesto Arte-Bahia- Estagnação.
Para haver uma arte de vanguarda (crítica) é preciso haver instituições crítica artística, salões, escola de artes aparelhadas, mercado mínimo de operacionalidade abertas que permitam em seu interior a produção, circulação e consumo de novas informações que ampliem o repertório de signos artísticos. Na Bahia podemos constatar a ausência desses fatores, e também, como fator negativo ao desenvolvimento de novos repertórios, podemos citar a preservação de um falso patrimônio que a elite econômica se utiliza para demonstrar status e ao mesmo tempo deter a cultura, controlando a produção ideológica.
A divulgação da arte na Bahia só é possível quando os artistas aceitam as regras do mercado e dos grupos que controlam as instituições.Um fato que vem comprovar esta situação é o Salão de Verão que inicialmente tinha como estratégia uma exposição aberta a todo e qualquer trabalho, mas de última hora os organizadores mudaram de estratégia impondo uma seleção. Somos contra, não ao fato de haver seleção, pois o situar-se só é possível quando se toma partido, o que somos contra é o tipo de seleção, não objetiva, determinada por critérios de política pessoal, burocrática, etc.
Mesmo o salão alternativo que surgiu em decorrência desses fatos reproduz os mesmos defeitos do salão oficial em relação à produção artística.

Os recusados tiraram esta foto de costas. Por que?
A situação na arte na Bahia estagnou nas propostas da década de 60 (Pró-Art, etc. não havendo nenhum vínculo com a produção e as discussões dos anos 70 Arte conceitual, arte ecológica, Arte Corpo, etc. este desvinculamento da arte baiana em relação ás novas estratégias, contra o circuito artístico, levam os artistas a uma prática cultural alienada.
Abrir um espaço para a arte não é como a Fundação Cultural propôs, com o Salão de Verão, mas sim abrir um espaço para discussão aberta que venha criar novos hábitos de produção e de leitura.
O que se pretende neste texto é contribuir para a discussão da prática alienante que ainda reina nas artes na Bahia, sincronizar o fazer artístico na Bahia com os principais centros produtores e pensar formas de minar o mercado baiano. Não podemos deixar de citar também a falta de um posicionamento ideológico dos artistas. Enfim é necessário envenenar toda uma tradição cultural medíocre e suas táticas.
Concluindo, para revitalizar a estagnada produção artística baiana, è fundamental frisar que o fazer artístico é essencialmente um fazer sobre a linguagem no interior da estrutura  social e o questionamento deve ser neste nível. Politizar a arte e a semântica e as formas de circulação.
Antônio Luiz M. Andrade-Haroldo Cajazeiras Alves.

Estive pessoalmente visitando com toda a boa vontade a abertura possível, o I Salão dos Recusados de Verão o constatei a presença de alguns trabalhos que deveriam estar figurando no I Salão de Verão, o oficial Aliás isto eu já tinha dito duas vezes e minha coluna. Citei nomes de alguns artistas que não deveriam estar figurando na relação dos premiados e critiquei a falta de atenção e cuidado profissional de artistas já conhecidos que enviaram trabalhos medíocres, além de bons trabalhos recusados.
O Salão dos Recusados se propõe a uma mostra da produção artística da Bahia sem prender-se a qualquer critério, aberto ao bom e ao ruim, abrindo espaço para os novos, para a crítica e para o debate. Um salão longe da burocracia dos salões oficiais. Esta abertura é demasiada, porque o ruim é sempre desprezado pelo homem. Abrir espaço para a presença de uma obra sem qualidade, ruim, como expressam os organizadores do Salão dos Recusados, não leva a nada. O trabalho ruim deve realmente ser recusado. Não deve ser exposta ao público sob pena de seu autor sofrer maior decepção. É preferível recusá-lo numa sala fria do que expô-lo numa parede aos olhos de visitantes que terminam por ridicularizar o autor.
Quanto a alusão àqueles que não participaram do Salão dos Recusados com receio d futuras sanções dos responsáveis pela política cultural do nosso Estado, devo dizer, que alguns resolveram não contestar certamente porque aceitaram a crítica e vão procurar melhorar a qualidade, para em seguida partir para uma exposição. Alguns que estão integrando o salão dos recusados, por exemplo, poderiam ter desistido porque não apresenta nada de positivo. Verdadeiros borradores de tela, e cupins de madeira de lei.
Termino afirmando, que a discussão foi aberta. Aceitei e prometo que estarei  aberto diálogo. Não ao diálogo apaixonado. Estou disposto a dialogar com seriedade.

OS RECUSADOS:

Di Paula, Luiz Torres, Álvaro Guimarães Pinheiro, Maso, Sumaya Mendes, Menandro Ramos, Antônio Otávio de Araujo, Flanklin Wriz, Lau Ping Luen, Ling Kam Cheng Lau, Belisário C. Nunes Manoel Duran, Lila Bouzas, Siloeh, Geraldo Guimarães, Aloísio Cerqueira Campos, Carlos Bessa Magalhães, Aldo de Aquino, Henrique Passos, Graça Costa Olivieri, Celeste Coelho, Vieira Neto, Edson Cezário, Elinaldo Costa, Luisa Torres, Edson Batista Ramos, José F. de Souza, Ananias Reis, Ângela Salomão e Eusvaldo Souza.
O que houve entre a Fundação Cultural e os artistas inscritos para o Salão de Verão foi a falta de comunicação. Segundo Graça Olivieri a ideia da Fundação era de dar oportunidade para os novos. Esta foi à proposta inclusive divulgada por Jacyra Oswald em programas de televisão. Acredito que devido a esta abertura prometida foi que 185 artistas procuraram a Fundação para realizar suas inscrições. Depois a própria Fundação recuou, quando seus dirigentes notaram que tinham sido enviados muitas obras e não poderiam expô-las todas por falta de espaço.
Este cartaz  ao lado faz alusão àqueles que não concordaram com o Salão dos Recusados.