quinta-feira, 25 de abril de 2013

BALANÇO 76 - 08 DE JANEIRO DE 1977


JORNAL A TARDE, SALVADOR, SÁBADO, 08 DE JANEIRO DE 1977

     BALANÇO  DO ANO DE 1976

Dois feriados seguidos determinaram a ausência desta coluna. Hoje, apresento um completo balanço das principais exposições e acontecimentos no setor das Artes Visuais em nosso Estado, com destaque especial para algumas mostras que foram realizadas no Solar do Unhão, que certamente vem tomando a dianteira. Trato desde a chegada do moldureiro português Júlio Monteiro até  a última exposição do Solar do Unhão onde tivemos mais uma vez a oportunidade de admirar o seu pequeno, mas valioso acervo, que há mais de uma dezena de anos estava armazenado em caixotes. Portanto, é um balanço total de tudo que de importante aconteceu, relembrando a participação a Bahia no cenário nacional como por exemplo, a escolha de Mário Cravo, a escolha de Mário Cravo Neto e Bené Fonteles para a mostra Agora I, Brasil 70-75 organizada no Rio de Janeiro.

Boi da Floresta, a pequena  e extraordinária obra de Tarsila do Amaral,pertencente ao MAM-Ba


JANEIRO

JÚLIO MONTEIRO- Dois fatos de destaque aconteceram no setor durante o mês de janeiro, sendo um positivo, que foi a chegada a Salvador do moldureiro português Júlio Monteiro e a invasão da tradicional Casa do Peso por quadros da artista Yedamaria.
Júlio veio inovar e revolucionar a arte da moldura na cidade. Assim houve a valorização de muitos quadros tendo em vista a grande importância que exerce a moldura como complemento de uma obra de arte. É certo que ela não deve interferir, sobressaindo mais que a tela. O seu lugar é definido como uma continuação, um complemento, e, é isto que o português Júlio Monteiro consegue com suas originais molduras.
Quanto á invasão tenho pouca coisa a falar. Denunciei e continuarei atento a qualquer atitude que venha influenciar negativamente para deturpar o nosso folclore e nossas tradições religiosas, seja qual for o credo ou seita.

FEVEREIRO

ESCOLHIDOS- Logo a seguir tomamos conhecimento da escolha de Mário Cravo Neto ( Foto) e de Bené Fonteles para participar da exposição, Arte Agora I Brasil 70-75 promovido por um jornal do sul do País. A mostra foi inaugurada em março no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro com a participação de cem artistas brasileiros, entre os quais figuram estes dois artistas, um baiano, o Mário Cravo Neto e o cearense  Bené Fonteles, hoje radicado entre nós. Disseram na época os juízes encarregados da seleção que acham-se ausentes certos nomes cuja obra apresenta o mais inegável interesse de atualidade, mas que já se tinham afirmado de maneira incontestável em momentos anteriores. Evidente que esta afirmação é em parte verdadeira, põem muitos artistas de renome deixaram de apresentar coisas novas, caíram na pura repetição.
Louvável a escolha destes dois artistas que sem dúvida representam à altura a arte feita na Bahia.

MARÇO

MULHER E SANTOS- A Galeria O Cavalete apresentou uma exposição dos trabalhos de Carlo Barbosa um jovem artista baiano que foi apresentado pelo crítico Walmir Ayala.
Seu trabalho está baseado numa temática religiosa e é mais conhecida no sul do País que em seu estado de origem.
Por outro lado, a artista Rosa Cabral, hoje estudando fotografia na Alemanha, realizou um trabalho criativo junto aos alunos do Instituto de Letras da Universidade federal da Bahia quando apresentou uma pesquisa utilizando um sincretismo de linguagem com a integração do corpo humano, o som, a luz e a fala como forma superior de comunicação.

ABRIL

Visitantes examinam os móveis de Zanini
ZANINI- Os baianos foram brindados com  uma grande exposição no Solar do Unhão dos trabalhos de Zanini. O artista é considerado um profissional de grande habilidade pois confecciona seus móveis em madeira maciça e oca sem a utilização de pregos. Ele projeta seus móveis, faz as maquetes e em seguida parte para execução propriamente dita. É baiano de Belmonte e autodidata. Tem vários projetos arquitetônicos no sul do País e sua base de trabalho é a cidade de Nova Viçosa onde encontra material em abundância para prosseguir em sua necessidade de criar.
Com 57 anos de idade Zanini tem muito a percorrer, embora já tenha um trabalho representativo e reconhecido como um dos inovadores do desenho de móveis no País.
Neste mesmo mês, dediquei à coluna do dia 24, á necessidade de contenção da violência nas cidades. Aproveitava várias fotos que foram tiradas por Gildo Lima, fotógrafo de A Tarde na rua Chile onde uma mulher agredia a todos, inclusive a um soldado da PM que tentava contê-la. No meio das pernas e botas lá estava a filhinha da mulher desconhecida chorando desesperadamente. Esta cena comum, hoje, nas grandes cidades é resultado da falta de diálogo e entendimento entre as pessoas. Os egoísmos e as vaidades bestiais também estão presentes. Basta lembrar de alguns vernissages que aconteceram no ano que passou.

MAIO

SERTÃO E LUZ- Uma grande exposição também foi a do artista J. Cunha na capela do Solar do Unhão. Com a temática  nordestina Cunha conseguiu por meio de um traço forte e simples captar toda uma atmosfera que só nos nordestinos conhecemos. Quando da inauguração da mostra escrevi J. Cunha é um artista que tem uma força de criação muito grande e profunda, embora você á primeira vista, pense ser o J. uma pessoa quase parada. Sua figura assemelha-se a um vaqueiro nordestino, magro mas forte e capaz de retirar das brenhas uma novilha e levá-la para lugar seguro. Assim, é o J. Cunha: um vaqueiro da arte que retira da inospitalidade do Nordeste as coisas que lá acontecem e joga na tela;...

JUNHO

DOIS FOTÓGRAFOS- Dois grandes artistas resolveram fazer uma mostra de seus trabalhos: Mário Cravo Neto e Vicente Sampaio. Fotografias de rara sensibilidade foram expostas no Solar do Unhão. Ambos residiam na Boca do Rio. Dois profissionais que junto representam o que de mais importante existe em fotografar na Bahia, Mário Cravo Neto é um nome nacional e seu parceiro Vicente Sampaio não fica atrás. As fotos do primeiro foram divididas em  dois grupos distintos: algumas feitas em Nova Iorque e outras na Bahia. A figura humana, os animais e mesmo a paisagem são os temas predominantes, sendo que em todas elas a gente teve oportunidade de observar não apenas a qualidade técnica como também uma sensibilidade que só os grandes artistas possuem.
Calasans Neto lançou o seu álbum Itapuã Céu. Um álbum que trata dos pássaros e do céu misterioso de Itapuã, uma continuidade de um tema maior, Itapuã, que vem sendo desenvolvido pelo artista. Teve uma tiragem de apenas 150 exemplares com texto em Português e Inglês de autoria de Guido Guerra.
Composto de oito gravuras numeradas e assinadas, este álbum marcou a evolução do trabalho de Calá. O álbum não representa uma descrição ou uma tomada de posição do artista, do ponto de vista geográfico, e sim uma situação de envolvimento e conhecimento de uma realidade que em determinados momentos passa para o misterioso.

JUNHO

A LIBERDADE DE JOSELITO- Tive a oportunidade assinar o catálogo da exposição de Joselito Duque, que teve lugar na Galeria Rag na Boca do Rio. Escrevi entre outras coisas que sua pintura é forte e original e a tela é preparada com antecedência através de misturas de tinta e outros materiais, o que permite uma textura em alto relevo. As mulatas se apresentam em suas telas, grandiosas e enroladas em lenços e lençóis coloridos, com os selos expostos á luz do sol. Noutras as mulatas com seus vestidos curtos e grossas coxas estão lavando roupas em lagoas azuis rodeadas de areia branca. Lembrando a Lagoa do Abaeté.

JULHO

CARIBÉ NA POUSADA- Foi outra grande oportunidade para os aficionados da arte. Pela segunda vez os baianos tiveram oportunidade de admirar os vinte trabalhos de autoria de Caribé que compõem o livro Sete Portas da Bahia. O próprio artista declarou na época da mostra que estes desenhos são importantes porque retratam coisas que não existem mais, como é o caso da Feira de Água de Meninos a rampa do Mercado Modelo o a própria capoeira hoje, muito modificada. A capoeira, atualmente é, muito mas uma exibição de contorcionismo e ginástica. Antes era defesa pessoal, quem jogava capoeira era carroceiro e estivador.
Os desenhos foram feitos à nanquim em 1955 e publicados na coleção Recôncavo com textos de Odorico Tavares, Wilson Rocha, Verger, dentre outros.

AGOSTO

LAMBE-LAMBES E AMERICANA ALICE BABER- Numa promoção da Secretaria de Educação e Cultura da Prefeitura Municipal foi realizada a mostra de fotógrafos Lambe-Lambes no Terreiro de Jesus. Participaram 42 fotógrafos que disputaram três prêmios em dinheiro. Eles fazem parte da paisagem de Salvador e em determinados momentos são importantes quando realizam um trabalho rápido e eficiente principalmente para aqueles que tem necessidade urgente de certos documentos pessoais. Várias pessoas compareceram ao Terreiro e foram fotografadas pelos lambe-lambes.
Na Galeria Cañizares a colorista americana Alice Baber mostrava a sua técnica de manto feminista. Na realidade Zélia Maria, Graça Ramos Carmem Carvalho,Hilda Oliveira, Rosa Alice, Denise Pitágoras e Terezinha Dumet estavam interessadas em mostrar o seu trabalho.
A reunião de sete mulheres foi uma coincidência ou obra de uma amizade surgida nos bancos da academia. Mostrei que embora estudassem na Escola de Belas Artes estas jovens artistas tinham toda uma liberdade na criação e utilização e técnica.

SETEMBRO

CANDOCA- Em setembro os artistas Raymundo Aguiar e Candoca encantaram os baianos com seus casarios e paisagens bucólicas baianas. Raymundo com mais de oitenta anos continua produzindo uma arte de alto nível. Português de nascimento e desde rapazola radicado em Salvador é um dos expoentes da arte acadêmica. Toda sua formação artística aconteceu na Bahia, Estado que adotou como sua terra. Ensinou na Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia e sua exposição aconteceu no  Museu de Arte Sacra e foi organizada pelo professor Valentin Calderon. São famosas suas charges políticas publicadas em vários jornais baianos, inclusive em A Tarde.
Outra prova de que idade não quer dizer quietude ou aposentadoria de braços cruzados foi a mostra de Candoca que o professor Ivo Velame organizou na Galeria Canizares. Suas telas falam na Bahia antiga com a presença de conhecidos tipos populares. A ternura e o misticismo de nossas igrejas e casarões que hoje estão ameaçados pelo progresso foram mostrados com maestria. Alegre e acima de tudo com uma imensa vontade de criar, Candoca é uma das páginas de nossa História da Arte.
Mas vieram também os alemães que mostraram toda uma técnica rebuscada da serigrafia.Trabalhos de alto nível técnico onde predominou a preocupação com os problemas da Ecologia. Vivendo num país altamente industrializado os artistas alemães mostraram também uma preocupação em conhecer e discutir a arte que está sendo feita na Bahia. Foram expostos cerca de 50 trabalhos. Eles integram o Gruppo Kwarz.


OUTUBRO 

RESCALA E SUAS EX-ALUNAS - Tivemos  ainda a oportunidade de visitar uma das principais exposições ocorridas em 1976.Eram telas do mestre Rescala que lotaram a Galeria Canizares com muita gente querendo adquirir suas últimas criações. Na sua calma Rescala vai criando todo uma atmosfera baiana que ele conseguiu compreender e sentir desde o primeiro dia que aqui chegou como visitante. Sem dúvida o trabalho do mestre Rescala é extensivo,bastando lembrar quantas obras de arte ele conseguiu salvar através de um processo cuidadoso e técnica da arte de restauração. Participante de alguns movimentos modernistas é considerado por alguns como acadêmico. O mestre declarou ao colunista que "não sou acadêmico.Tenho um estilo próprio e os que me consideram acadêmicos são maldosos".
Ainda na Galeria Canizares visitamos os trabalhos da sete ex-alunas do mestre Rescala. Pensávamos que a presença de sete mulheres numa mostra tinha alguma conotação de um movimento feminista. Na realidade Zélia Maria, Graça Ramos, Carmem Carvalho, Hilda Oliveira,Rosa Alice, Denise Pitágoras e Terezinha Dumet estavam interessadas em mostras as suas obras.
A reunião de sete mulheres foi uma coincidência ou obra de uma amizade surgida nos bancos da academia. Mostrei que embora estuudassem na Escola de Belas Artes estas jovens artistas tinham toda uma liberdade de criação e utilização de técnicas diferenciadas.


NOVEMBRO

ARTE AMERICANA- A mostra Arte EUA: O SUL com 35 obras trouxe toda uma gama de informações especialmente pela utilização dos mais variados materiais e técnicas. Uma exposição que retrata a zona rural do sul dos Estados Unidos que apresenta um grande contraste com a área industrializada.

DEZEMBRO

Sem Legenda, obra de Carlos Vergara
DUAS MOSTRAS NO UNHÃO- Finalmente, duas importantes exposições foram realizadas no apagar das luzes de 1976. A primeira, reunindo parte da coleção de Gilberto Chateaubriand intitulada Arte Brasileira- os anos 60 e 70, com trabalhos de Carlos Vergara, Wesley Duke Lee, Rubens Gerchamam, Pancetti, dentre outros renomados artistas nacionais.
Mas, sem dúvida que a exposição das obras do acervo do Museu de Arte Moderna da Bahia organizada por seu diretor Sílvio Robato foi a mais importante, por mostrar aos baianos obras raras pertencentes ao MAMB que estavam amontoadas em caixotes de madeira, sujeitas a deterioração. Sílvio Robato anuncia ainda a construção de um setor, com as condições ambientais necessárias, para armazenamento das obras pertencentes ao museu.