segunda-feira, 8 de abril de 2013

É PRECISO DAR VIDA AOS POBRES MUSEUS BAIANOS - 22 DE MAIO DE 1989.


JORNAL A TARDE, SALVADOR,  SEGUNDA-FEIRA, 22 DE MAIO DE 1989.

É PRECISO DAR VIDA AOS POBRES MUSEUS BAIANOS

Debatedores mostraram necessidade de mais ação nos museus
Visando democratizar as ações no Museu de Arte da Bahia a sua atual gerente Valdete Paranhos convidou nesta sua primeira fase, o sociólogo Gey Espinheira, o antropólogo Luís Mott, o economista e colaborador do Correio da Bahia, Justino Marinho, o jornalista Reynivaldo Brito, o artista plástico e diretor do MAMB, Chico Liberato; a museóloga Maria Célia Teixeira e a professora Ítala Grillo que sob a coordenação da museóloga Mary do Rio debateram o papel social do museu e sua relação com a comunidade.
Foram abordados diversos problemas desde o funcionamento dos museus baianos, a precariedade de suas instalações e a falta de uma programação dinâmica e seletiva. Fui o primeiro a falar. Quando recebi o convite imaginei que o debate fosse restrito aos convidados, porém, foi bem mais dinâmico do que esperava, inclusive com uma razoável participação de pessoas interessadas na problemática dos museus. Durante minha ligeira exposição mostrei que existe um marasmo, falta de ação dos diretores de museus, que ficam de braços cruzados à espera das parcas dotações orçamentárias; da necessidade de envolver vários segmentos da comunidade através da criação de conselhos, para cada instituição, com a participação de empresários, políticos e outros profissionais que realmente tenham alguma ligação ou gosto pelas artes. Falei das programações mal elaboradas, da necessidade de realizar exposições enaltecendo qualidades de peças do acervo e das visitas dirigidas num trabalho a ser desenvolvido junto aos colégios para criar um público que garante o futuro dos museus.
O acesso  para o MAM-Ba é íngreme e perigoso
O antropólogo Luís Mott lembrou que os museus baianos deixam passar despercebidos fatos que marcaram a História como a Revolução Francesa, e particularmente os aniversários da nossa Escravatura, quando poderiam ter sido feitas exposições alusivas, com um suporte didático. Mott criticou que muitos museus não funcionam aos sábados e domingos, dias em que as pessoas que residem em Salvador poderiam visitá-los. Disse ainda que é preciso ao lado da contemplação que os museus tenham uma vida mais dinâmica contribuindo na discussão das realidades. Também disse que existem muitas coleções particulares que poderiam ser alvo de interessantes mostras. Ele mesmo possui uma coleção de obras com a temática Coração de Jesus, a qual poderia ser exposta.
Fachada do Museu Abelardo Rodrigues, Solar do Ferrão

O sociólogo Gey Espinheira defendeu a necessidade de um envolvimento maior do museu com a comunidade.Revelou não ter muito conhecimento da problemática dos museus, mas que tem a mesma ideia do povo de que museu é uma coisa parada no tempo.Fez algumas citações mostrando que essas instituições congelam realidades para uma contemplação futura.
Já Justino Marinho defendeu a necessidade dos museus desenvolverem ações que possibilitem arrecadação de recursos, como por exemplo, a instalação de lojinhas para venda de livros de arte, catálogos, camisas e outros objetos promocionais com a logomarca dessas instituições ou desenhos de artistas baianos. Disse que as programações dos museus, as famosas pautas, são guardadas a sete chaves e pouca coisa transpira para os meios de comunicação de massa.
Informou a museóloga Maria Célia Teixeira que de acordo com os dados obtidos numa pesquisa feita junto a visitante dos museus concluímos que até mesmo as etiquetas indicativas das obras e outras mensagens que existem dentro dos museus são insuficientes para informar ao público. Fazemos essas mensagens para nós mesmos, com uma linguagem muitas vezes inacessível aos visitantes. É preciso um trabalho mais didático. Por exemplo, quando colocamos uma etiqueta identificando uma custódia de prata cinzelada, é preciso explicar melhor ao público. Ela enfatizou a necessidade de trabalhar melhor nossas  exposições e principalmente os acervos.
Chico Liberato lembrou que o Museu de Arte Moderna da Bahia, vem desenvolvendo as oficinas de arte dando oportunidade ao surgimento de  novos talentos. Porém, todos nós sabemos que o trabalho desenvolvido nos museus baianos é muito acanhado. O próprio museu que meu amigo Chico Liberato dirige, O MAMB, está conservando mal o seu acervo. Obras importantes como de Pancetti, Tarsila do Amaral, etc, estão amontoadas numa sala com alto índice de umidade.
Aliás, venho defendendo há alguns anos a necessidade e mudar O MAMB do Solar do Unhão, por estar muito próximo ao mar, o casario mal conservado. Isto contribui para a deterioração do acervo. Disse também que os diretores de museus, não apenas os de agora, porque é um problema antigo, não se movimentam para aumentar os seus acervos e, também, não se articulam para trazer á Bahia muitas exposições itinerantes que acontecem no Sul do País promovidas por órgãos e instituições que podem bancar a vinda para cá.
Finalmente, a professora Ítala Grillo falou do papel da Escola de Museologia e da necessidade de uma integração cada vez maior dos técnicos com as necessidades e realidades que lhe cercam.
Diria que o que ficou constatado durante o debate foi que as verbas destinadas aos museus são irrisórias, e, que, neste instante surge a adoção de medidas urgentes de sobrevivência. O Museu de Arte da Bahia está com a sua clara-boia completamente comprometida, com pingueiras por todo lado. O MAMB virou cenário de filme e está com seu acervo em péssimo estado de conservação. O prédio do Museu do Carmo pela mesma forma.

Museu Costa Pinto sempre primou pelo elitismo
Recentemente o Museu do Recôncavo foi restaurado. Espero que desmembrem verbas para sua conservação e continua para que não seja lembrado de tempos em tempos e, venha a necessitar de grandes restaurações devido ao abandono que ás vezes é relegado.
Também, que os diretores de museus vivem envolvidos em problemas burocráticos e não tomam medidas que possam dinamizá-los. O corpo técnico tem que agendar as efemérides, as grandes datas, assuntos locais de importância, como lembrou a museóloga Mary do Rio de uma exposição que promoveu sobre o Carnaval e que trouxe muito público ao museu.
Sua colega Maria Célia lembrou que uma exposição sobre o transporte urbano em Salvador, indo das carroças e bondes puxados a burros e cavalos ao bonde moderno, que a prefeitura está implantando daria uma bela exposição, a arquitetura antiga e moderna de Salvador. Enfim, assunto existe, falta ação. Vamos arregaçar as mangas, deixar de reclamar da falta de verbas.
Vamos convocar os segmentos importantes da sociedade, deixar de lado as ideologias e o idealismo pueril e partir para a prática. Os museus baianos precisam ganhar vida. Eles estão desfalecendo. Vamos reanimá-los.

     O MUNDO INFANTIL DE WASHINGTON SALLES

O artista Washington Salles continua em plena produção com seus trabalhos tendo boa aceitação entre colecionadores de todo o País. Agora ele acaba de entregar á Galeria Arte Visual, de Brasília, várias obras, algumas inclusive vão figurar no acervo da galeria. Está preparando uma mostra para a Galeria Oscar Seraphico, também em Brasília e, uma individual na Galeria Época, aqui mesmo, no bairro do Rio Vermelho.
Ele nos mostrará as bolas coloridas, anjos fotografando e tomando sorvetes, suas bonecas inconfundíveis ambientadas por móveis antigos, a maternidade, enfim, uma temática carregada de muita ternura do mundo infantil. Washington irá expor ainda juntamente com Floriano Teixeira em Fortaleza.
Me informa o artista, que é um seguidor da doutrina de Alan Kardec, que está idealizando alguns trabalhos em grandes dimensões, sem a preocupação com a comercialização, enfocando aspectos do  espiritismo. Agora, é só aguardar que o artista concretize mais este projeto.