terça-feira, 23 de abril de 2013

MÁRIO CRAVO - 15 DE JANEIRO DE 1977


JORNAL A TARDE SÁBADO, 15 DE JANEIRO DE 1977

                  MÁRIO CRAVO JUNIOR

 Mário Cravo Junior com uma de suas últimas esculturas 
"Na Bahia a atividade criadora em si mesma está estagnada. O que existe é que a partir da descoberta da Bahia pelos brasileiros criando um mercado veio em consequência a necessidade de uma produção acelerada para atendê-los. Assim, temos muita quantidade e pouca qualidade, visando apenas atender a este mercado em ascensão", estas palavras são do escultor Mário Cravo Júnior, umas das figuras mais importantes das artes no Estado. É impossível falarmos da arte em Salvador sem citar o seu nome, e, principalmente, o trabalho pioneiro por ele executado durante vários anos. Sua figura displicente esconde um artista do primeiro time, um homem capaz de retirar do nada grandes projetos, que depois são executados com qualidade.
Sua crítica é voltada também para as manifestações artísticas populares e cita o caso do berimbau. Sua função foi desvirtuada passando a um simples objeto de decoração exibido nas mãos de turistas que aqui aportam.
Dele só ficou o aspecto de objeto e não o som, que o capoeirista curtia para produzir o seu ritmo. Até a própria confecção deste instrumento foi desvirtuada, sendo confeccionado com qualquer madeira. E adianta á medida que os brasileiros vão ficando mais baianos, os baianos vão ficando menos brasileiros.

INVASÃO

A invasão que estamos assistindo da Bahia por milhares de turistas vem criando um mercado sem qualidade de obras de arte.Existe uma organizada indústria de casarios e marinhas. A qualidade dessas telas são duvidosas, ou quase inexiste. Mas, acontece que o turista quer levar um pedacinho da Bahia, e assim muitos inescrupulosos vão produzindo em série sem a preocupação em pintara mesma casa de ângulo diferente. Além do problema da qualidade existe uma repetição e uma falta de criação total. Portanto esta arte é muito vulnerável sob o ponto de vista crítico e a única vantagem é atender as pessoas que não tem maiores exigências ou conhecimentos artísticos.
O escultor Mário Cravo aborda o problema sem o saudosismo tão natural daqueles que atravessam os 40 anos de idade. Esta industrialização provocada pela avalanche de turistas que procuram a Bahia vem prejudicando muitos artistas, que em busca de dinheiro fácil esperdiçam os seus talentos na confecção de uma arte empobrecida. Ele mesmo diz que muitas vezes as pessoas acham que sou agressivo ou intolerante. Isto porque firo com meus conceitos essa mística baiana tão propalada. Existem cidades com muita herança cultural muito mais rica que Salvador, mas lá eles sabem preservar. Tem cidades que permanecem quase intactas, mas isto é romantismo, embora tenha seu lado positivo. Outros acham que nossa cidade tem de passar por essa metamorfose que assistimos ou seja a sua transformação numa metrópole, levando tudo de roldão. Eu estou do lado daqueles que acham que Salvador deve mudar, tentando renovar suas reservas, e heranças na área cultural e sensorial, porque nisto reside a vitalidade de nossa cultura se bem que o impasse não é um problema exclusivamente baiano, ele existe universalmente..
Como todas as pessoas sensatas, Mário Cravo Júnior esclarece que está acima dos deslumbramentos e ufanismos tão prejudiciais para entendimento de uma cultura,. E conclui dizendo que o artista tem o que ver é consigo mesmo. O resultado de sua criação é uma coisa pública posterior, é parte da própria dinâmica da comunicação.
Estas observações feitas por Mário Cravo são suficientes para que nós baianos tenhamos sempre em mente que a invasão é inevitável, mas que devemos tomar algumas medidas para que não provoque o empobrecimento da arte ou outras manifestações culturais.

             A MONOTIPIA NA OBRA DE BURCHARD

O Macaco de Saul Steinberg, monotopia de Burchard
O Museu Nacional de Belas Artes está expondo desde o último dia 12 do corrente; quarenta monotipias apresentada em formas de séries impressas por Burchard. Cada exemplar é um original não podendo ser repetido.Foram confeccionados utilizando matrizes de chapas de zinco e cobre de papel (velin d’arches, bjk rives e fabriano.
Burchard nasceu em Berlin em 1920 e seu interesse pela arte remonta a sua juventude. Formado em Economia pela Universidade de Hamburgo andou por vários países realizando trabalhos para um grupo industrial de seu país de origem. Em 1952 conhece o Brasil, aqui radicou-se é hoje é naturalizado brasileiro. Desligou-se das atividades industriais em 1973 para dedicar-se exclusivamente á sua arte. Possui obras em vários museus de renome internacional.
Quanto á sua monotipia nasceu essencialmente da gravura, depois da utilização de várias técnicas. Portanto, num processo inverso que veio ao acaso e não uma busca da monotipia, como acontece com a maioria dos artistas. Ele é um inquieto por natureza e contrária o significado rígido de palavra monotipia quando anula esta limitação aproveitando depois da primeira impressão das cores que ficam impregnadas nas matrizes. Os recursos por ele utilizados permitem a modificação de elementos antes concebidos, acrescentando novos, criando dessa forma uma composição distinta.

Todo o processamento da monotipia de Burchard é realizado por ele, seja na prensa de metal ou na de litografia, em seu atelier em Parati no Estado do Rio de Janeiro. A partir de pigmentos puros, o artista prepara suas próprias tintas. Em constante pesquisa, Burchard esteve no Pratt Graphic Center e em outras oficinas gráficas de Nova Iorque e Paris, onde encontrou respostas para muitos problemas técnicos.
O artista sempre busca novos caminhos, servindo-se da arte e nela se expressando.Vive desenhando, e com traços focaliza instantes que interpreta. Podemos dizer que cadernos são feitos de anotações, em grafismo. Assim consegue manter curiosos intercâmbios com eventuais modelos surpreendidos ora em aeroportos, ora em um parque, ou num ônibus.
As flores, o mar e o céu são significativos na obra de Burchard. Foi um velejador ativo e o contato com os elemento desafiantes da natureza retirou sua interpretação de barcos, velas e sintetizou o lirismo do vôo. Servindo-se dos recursos que a monotipia oferece, a interpretação dos personagens tornou-se uma constante em seu trabalho, como nas séries Soul, Jimy Hendrix, Lola, a mulher e Josephine Backer ou a volúpia de ser.
Em alguns momentos podemos entender a sua arte como cartoon, história em quadrinhos, não somente pelo sentido de humor e ironia que o artista imprime no desenho, mas também pela manifestação das experiências vividas; como é o caso de Ícaro, quando tendo por, inspiração o personagem mitológico cria uma ideia de vôos bem sucedidos ou não a que cada homem se propõe.
Finalmente outra característica de Burchard é a metamorfose, cujo desdobramento de uma ideia e do desenho atinge a uma completa transformação da figura, achando-se bem evidenciada nas sequências da série Bispos Cusquenhos, ou na experiência que vem desenvolvendo com retratos não convencionais, quando capta a retratada e transforma em seu próprio sonho ou no sonho de personagem. Assim é a obra de Burchard é o homem é a figura central de suas cogitações. Uma arte reflexiva de uma experiência consciente e crítica, espelho de uma realidade que sendo conhecida, deve ser discutida.
                                                      PAINEL

A ARTE POP - de Simon Wilson e O Cubismo, o Euturismo e o Construtivismo, de J.M. Nash, da Editorial Labor do Brasil S.A. são dois livros que na devem faltar na estante daqueles que estudam ou fazem arte.
Além de um texto informativo e critico trazem reproduções da mais alta qualidade, inclusive mostrando a importância das telas, esculturas e outros trabalhos ali incluídos.
Dando sua definição do que é arte pop diz Simon Wilson logo no início de seu livro: a expressão Pop Art se refere a um movimento estilístico na arte ocidental que ocorreu aproximadamente entre 1956 e 1966, na Inglaterra e nos Estados Unidos. A Pop Art tem três características distintas. Em primeiro lugar é a figurativa e realista, coisa que nenhuma arte de vanguarda tinha sido desde seus inícios com o realismo de Courbet
Em segundo lugar, o ponto de origem da arte Pop foi Nova Iorque e Londres, portanto, o mundo que ela encara é um mundo muito especial das grandes metrópoles de meados do século XX. Finalmente, Simon fala da terceira e última característica que o artista Pop trata esses materiais de modo muito especial.
Por uma lado insiste em que a história em quadrinhos ou a lata de sopa ou o que quer que seja é simplesmente um motivo, um pretexto para um quadro, como para Cézanne uma maçã é uma natureza morta.
Já Nash fala do Cubismo, Futurismo e o Construtivismo num manifesto publicado em Milão a 20 de fevereiro de 1909, e o Construtivismo surgiu em Moscou após a Revolução de 1917. Salienta a inda a existência de muita relação entre eles.

POLÍCIA DA CEIA -Quando a polícia carioca resolveu retirar a fotografia A Penúltima Ceia, do artista Sebastião Barbosa, no princípio desta semana da parede da Galeria Grafitti, em Ipanema todos ficamos perplexos. A subjetividade de uma obra de arte é uma coisa que muita gente não entende...

PRIMEIRA - O artista Edson Cezário está expondo pela primeira vez individualmente. A exposição está montada no Praiamar Hotel.

SOLEDAD  - O pintor Luis Soledad Otero está expondo na Galeria O Cavalete abrindo a programação de 1977 da referida galeria de arte. Já participou de várias exposições individuais em galerias estrangeiras e segundo ele minha inspiração é nutrida pela profunda simplicidade das pequenas pinturas Zen, que exibem o valor do silêncio nas suas maravilhosas e eloquentes utilizações dos espaços brancos, onde a linha e a forma exprimem essência pela economia absoluta de seus elementos.