quarta-feira, 7 de agosto de 2013

SAMSON FLEXOR NA CAPELA DO UNHÃO

JORNAL A TARDE,SALVADOR,  SÁBADO, 14 DE OUTUBRO DE 1978

Obra As Bailarinas, de Samson Flexor
Uma exposição gratificante a que está aberta ao público na capela do Solar do Unhão onde são apresentados vários trabalhos do mestre saudoso Samson Flexor, que aqui esteve no passado e ficou encantado pelas coisas da Bahia. Todo o mundo exterior que lhe rodeava servia para suas interiorizações e ideias, depois concretizadas em belos trabalhos, como escreveu Luís Arrobas Martins, na apresentação desta mostra itinerante, que já foi a São Paulo, Recife e agora chega a Salvador numa promoção da Arte/Global.
O artista Samson Flexor
Nascido em 1907 na cidade de Bessarabia e brasileiro por adoção Samson Flexor cursou em 1925 a Escola Nacional de Belas Artes e a Academia Ranson com Bissiére. Começou a expor aos 19 anos nos salões D'Automme, Tuilleries e Indépendents e participou da fundação do Salon des Independents em 1929 e tomou parte na sua direção até 1938.
Especializou-se em pintura de murais afrescos e arte sacra e em 1946 vem para  São Paulo onde fundou a escola e o movimento Atelier Abstração.Samson Flexor é um pioneiro da abstração na América Latina e por diversas vezes proferiu conferências no Brasil e mesmo no exterior. Sua obra é vasta, pois trabalhava diariamente em seu atelier deixando um acervo considerável, que agora depois de sua morte passa a ser disputado pelos colecionadores.
Falando de sua importância o mestre Clarival do Prado Valadares disse em 1968, que "Por ter sido um dos pioneiros da chamada arte abstrata, a muitos parece que tal capitulo esteja encerrado uma vez que ele próprio se transferiu para uma outra linguagem. Cessaram, sim, os motivos éticos, de natureza filosófica, que o fizeram abstracionista-geométrico naquela data em que a ordenação de valores parecia ser a meta da condição humana.
Abstrato, obra de Samson Flexor
Da mesma forma se explica a temática evangélica que o pintor pensador se apegava, quando lhe era possível abrigar esperança e redenção.Os abstratos líricos e geométricos de Flexor são de grande perfeição plástica e formal. As formas que se encontram dando bonitas transparências parecem fazer parte de um corpo de baile que move-se dentro de um equilíbrio indiscritível. Tudo parece movimentar-se com uma leveza singular. Me chamou também a atenção foi um quadro figurativo, realizado me parece que em 1922, na Rússia, e integrante de sua chamada primeira fase pela ousadia dos traços principalmente se levarmos em conta a época em que foi concebido."

             A PINTURA INGÊNUA DE CARLOS MANSO

O pintor argentino Carlo Manso expõe até amanhã na Galeria do Praiamar Hotel, os seus quadros. Viveu de 1960 a 1962 em Salvador como pianista do Seminário de Música da UFBa., profissão que exerceu até 1970, quando, no carnaval daquele ano, em visita à Bahia, fez um retrato do Largo de São Francisco, no Terreiro de Jesus. Daí em diante deixou definitivamente a música pela pintura e segundo ele, está feliz por isso, embora goste de música.
Trata-se da primeira exposição de Carlos Manso, no Brasil, embora já tenha feito várias em Buenos Aires, Madrid, Servilha, Barcelona e outros lugares.Segundo ele, o motivo de escolher a Bahia "é compreensível pois tenho um amor muito grande por isso aqui. O lugar onde desejo morrer é bem junto ao mar. Esse apego ao mar e à Bahia não é o mesmo que muitos artistas, por vedetismo, dizem ter, mas é porque aqui foi onde coloquei a cabeça no lugar e fiz as minhas amizades mais gratas. Carlos Manso dá a impressão de que a paz é o encontro consigo mesmo, que as pessoas comuns é mesmo os artistas procuram. Ele já encontrou esta paz. Os gestos comedidos, a voz pausada, são bem diferentes, dos descendentes espanhóis."
Sobre a temática, seus quadros abordam os bairros de Buenos Aires, o campo argentino, as festas de aniversário comemoradas com churrascos, as cidades espanholas e as ruas da Bahia, mas tudo com originalidade. Um exemplo disso é o seu primeiro quadro, pintado aqui quando veio passar o carnaval de 1970 e se tornou pintor em borá confesse também que,desde menino eu gostava de fazer caricaturas. Ao pintar o Terreiro de Jesus, principalmente o Largo do São Francisco, Carlos Manso excluiu os automóveis, os postes elétricos, o vai-e-vem das pessoas e pintou apenas os sobrados, a igreja, o Cruzeiro, um burro e uma paia , como se estivesse pintando a paisagem no século XIX.

O GOSTO PELO POVO
O que eu gosto mesmo é dos ambientes populares, do calor humano, confessa. Por isso diz ser estas coisas que formam essência do seu trabalho. E assim Carlos Manso parece fazer com que as pessoas com quem ele conversa acreditem que aí estão explicações dos seus roteiros de viagem. Como pianista fez tournées pelas Filipinas, Japão, vários países da Europa até chegar aos Estados Unidos. Fez uma viagem de San Diego ao Panamá, de ônibus e do Quito, no Equador, até Buenos Aires, de trem e de dois em dois anos vai à Espanha, terra dos meus descendentes.
O gosto pelo povo está explícito na sua fisionomia quando ele fala dos amigos, principalmente dos que convivem com ele durante os anos de 60 a 62 , aqui em Salvador. Dos vivos a mesma saudade, e esperança de reencontrá-los.

             POUCO CONCORRIDO CONCURSO DE ARTE 

Obra de Juarez Paraíso que foi selecionada, a
qual hoje está em frente do Parque de Exposições
Considerado pelo júri um trabalho surpresa pelo alto nível da proposta, domínio da técnica apresentada e completa a integração com o espaço arquitetônico, o projeto do mural em madeira da autoria do artista plástico, Celso da Silva Cunha Neto, que será afixado no Centro de Convenções da Bahia e que foi o vencedor do Concurso Público de Artes Plásticas, na categoria de murais onde concorreram quatro trabalhos. Na categoria de esculturas, Juarez Paraíso teve dois projetos vencedores, um  para o Parque de Exposições de Animais e o outro para o Parque de Pituaçu pórtico de entrada ambos considerados de valor estético pela perfeita integração com a ambiência onde serão colocados. Ainda para o Parque Pituaçu, o júri classificou em segundo lugar, com um prêmio de CR$ O mil, a escultura de Jamison Pedra que ficará como o marco do estádio de Pituaçu por decisão do governador Roberto Santos uma vez que não se inscreveu nenhum trabalho na modalidade marco.

Mural de Celso Cunha no Centro de Convenções
Ainda na modalidade escultura para obra do Centro de Convenções da Bahia, foi indicado como vencedor o trabalho do artista Lício Peixoto pela originalidade da proposta aliada à compatibilidade com as grandes dimensões do prédio e por possuir um caráter alegre e dinâmico identificado com as festas regionais. Em segundo lugar, ficou novamente Jamison Pedra. Para a obra da Escola de Administração Fazendária o júri escolheu o trabalho de Tati Moreno, um dos mais fracos. 
Deveriam ser escolhidos 10 projetos dos 26 que concorreram. No entanto, os que seriam destinados ao Hospital Roberto Santos na modalidade rural em número de quatro não atingiram qualidade artística à altura da premiação não podendo ser indicados vencedores. O mesmo aconteceu com dois inscritos para o Centro de Recuperação e Triagem não tinham nível qualitativo desejado. Também o Centro de Convivência e Cultura do Parque de Pituaçu não teve trabalhos indicados pois nenhum  dos inscritos possuíam valor artístico.
Durante dois dias ininterruptos o corpo de jurado composto pelo arquiteto Carlos Campos (presidente), professores Ivo Vellame, José Rescála e Mercedes Krushewsky, realizaram apreciação dos trabalhos dentro dos critérios de valor artístico, viabilidade de execução, originalidade, economicidade e domínio de técnica. A promulgação dos vencedores foi feita no Palácio da Aclamação, pelo governador.
Na verdade o que podemos observar é que muitos artistas não tiveram condições técnicas e mesmo econômicas de realizar seus projetos para concorrer e alguns foram premiados por absoluta falta de concorrentes. Lembro aqui algumas esculturas, especialmente uma de metal, indicada pelo júri, que lembra fitas entrelaçadas que enfeitam presentes de Natal.
Toda sua concepção é de péssimo mau gosto. Também outras que tive oportunidade de examinar não refletem a criatividade baiana e de seus autores.
Fiquei apenas feliz com a escolha de trabalho de Celso da Silva Cunha porque dos que pude examinar é uns dos poucos que se salva, juntamente com os de Jamison pedra. Os demais poderiam ter sido dispensados e realizado outro concurso com uma abertura um pouco maior para que os inibidos aparecessem. Creio que algo deve ser feito para aproveitar o dinheiro que havia sido destinado para compra de trabalhos de arte para esses novos edifícios oficiais.

                            PAINEL

KANTOR ESTÁ NO RIO- Acabo de receber mais uma das cartas do artista argentino Kantor que fala de sua exposição no Museu Nacional de Belas Artes.
Uma exposição onde o velho artista, que tanto gosta da Bahia, apresenta trabalhos feitos aqui por volta de 1977 e outros de Roma, Televiv e no Rio de Janeiro.

ESCULTOR CAREL VISSER- O Museu Municipal de Amsterdan expôs, em 1972, uma série de obras do escultor e gravador holandês Carel Visser- sobre quem aliás, o Consulado Geral holandês, no Rio, possui belo documentário em 16 mm,  para empréstimo a entidades, associações ou escolas.
Desde aquela última individual, Carel Visser dedicou crescente interesse às colagens. Sobre fundo escuro,  ele  utiliza produtos da natureza ( ostras, penas de pavão, lã de carneiro, chumaços de cabelo, de revistas ou prospectos, cartões postais ou reproduções de obras de arte, inclusive esculturas.
A obra de Carel Visser teve, desde o início, fortes laços com a natureza, a observação de formas e estruturas tendo lhe servido de fonte inspiradora em borá esta relação nem sempre fosse evidente.
Parte das obras desta nova fase, recentemente mostrada ao público no Stedelijk Museum, consiste em colagens superpostas ou conjugadas. A composição menos rígida, mais liberta, destes trabalhos; o colorido e a temática caracterizam a surpreendente modificação nos rumos da obra de Carel Visser.

CARTAZES- Criar cartazes que através de imagens e/ou textos conscientizem o servidor público quanto ao uso racional do material de serviço colocado  à sua disposição nas tarefas diárias, estimulando-o á economia e conservação, é o objetivo do I Concurso Nacional de Cartazes, promovido pela Divisão do Material do Departamento de Administração do Ministério da Fazenda e a Fundação Movimento Universitário de Desenvolvimento Econômico e Social-MUDES.
O Concurso Nacional de Cartazes é aberto a toda pessoa domiciliada ou residente no território nacional, em especial aos estudantes universitários, funcionários públicos, profissionais e artistas do campo da comunicação. Cada participante poderá inscrever um ou mais trabalhos até o dia 29 de dezembro, às 17 horas, pessoalmente ou pelo correio, com AR-aviso de recebimento, na sede da Fundação MUDES, à Rua México, 119, 12º andar, RJ.
Aos vencedores serão atribuídos os seguintes prêmios: 1º lugar- CR$50 mil; 2º lugar- CR$30 mil e 3º lugar-CR$15 mil.
O Regulamento do Concurso está a disposição dos interessados nas Secretarias do Ministério da Fazenda nos estados, faculdades e na sede da Fundação MUDES.

ARTE DO ACRE -O 1º Festival de Arte do Acre é uma promoção conjunta do Departamento de Cultura, da Secretaria Estadual de Educação e Cultura do Acre, Universidade Federal do Acre e da Funarte, e tem por objetivo incentivar e divulgar a produção artística e cultural no estado. Ele está sendo realizado de 9 a 15 de outubro, no Campus da UFAC, e conta com exposições de artes plásticas, espetáculos de música popular, de teatro amador e palestras sobre diversos aspectos do Estado.
A Funarte vem ampliando gradativamente sua participação nas promoções culturais realizadas no Acre. Este ano, o estado foi incluído no circuito da Rede Nacional de Música, e também participou de programas da Funarte visando à compra de instrumentos musicais para a Universidade Federal e o governo do Estado. Em 1979 o Acre deverá participar efetivamente do Projeto Espiral cursos para formação de instrumentistas e produção de instrumentos musicais. E também será incluído no circuito Norte-Nordeste do Projeto Pixinguinha.

CLAUDIO VALÉRIO- Um dos trabalhos mais comentados do 2º Salão Carioca de Arte, atualmente na Galeria Funarte Rodrigo Melo Franco de Andrade, chama-se Fuzilamento, uma imensa cartolina, presa ao teto da Galeria, e que se esparrama pelo chão. Nela, desenhado com lápis-cera de cor vermelha, as quatro sequências, quase fotográficas, de um fuzilamento: o tiro, a queda e a morte.
O autor deste trabalho, o carioca Cláudio Valério, está mostrando desenhos como este, na mesma Galeria Funarte Rodrigo Melo Franco de Andrade (Rua Araújo Porto Alegre 80, Rio, em exposição inaugurada ontem, e que irá até o dia 31 de outubro.
Filho  do pintor Oswaldo Teixeira que o  iniciou nos mistérios das Artes Plásticas, Cláudio é formado em pintura pela Escola de Belas Artes da UFRJ. Já participou de três salões Nacionais de Arte Moderna, da Bienal Nacional de São Paulo de 1974, de diversos Salões Universitários, além de coletivas em todo o país.
Assim Cláudio define seu trabalho: O artista é agredido pelas realidades que são seu objeto. Logo, ele também as agride, representando-as em instantâneos límpidos e claros. O desenho de Cláudio pretende aproximar-se ao máximo da realidade, de modo a revelá-la como ela é: Em minha arte não há espaço para  a ilusão.