sábado, 10 de agosto de 2013

A CRIANÇA NA OBRA DE ROBERTO

JORNAL A TARDE, SALVADOR,  SÁBADO, 09 DE DEZEMBRO DE 1978

Menina com Flores,obra de Roberto
O pintor carioca Roberto de Souza está expondo na Galeria Grossman, localizada na Rua Clóvis Spínola Orixás Center, loja 12. As 25 peças apresentadas tem como tema a figura infantil, mostrando sempre a inocência e pureza.
"Eu pinto a figura da criança com uma paisagem bonita de fundo, para lembrar o contato com a natureza, tão necessário. O Rio de Janeiro foi tomado por arranha-céus de concreto e esse tipo de quadro, além de transmitir tranqüilidade, mostra uma coisa que não existe mais e que é importante para seu filho", explicou Roberto de Souza.
Menino no Pomar, 1999
A exposição é apresentada por Geraldo Edson de Almeida, membro da Associação dos Críticos do Brasil, um dos selecionadores de trabalhos para a Bienal de São Paulo, que, entre outras coisas, diz que: Roberto de Souza "é um pintor que assume o seu romantismo conscientemente, indiferente aos diversos estágios atravessados pela arte dos nossos dias, que, como bom observador, ele tem acompanhado, com interesse obstinado, o romantismo.
Interessa ao artista fixar na tela deliciosas e ternas expressões de meninos e meninas, crianças e adolescentes no alumbramento da descoberta da natureza e na do seu despertar ainda cheio de ilusões e esperança. O momento, enfim, da inocência pela refletido na tela."
Diz Roberto de Souza que " nos meus quadros, em vez de mostrar toda a problemática social de nossos dias, eu mostro o  oposto, procurando apresentar tudo de bom que está se perdendo às custas do progresso, como uma espécie de progresso, como uma espécie de protesto passivo."
O pintor carioca, entre outros prêmios, recebeu a Medalha de Ouro na VII Salão Maçônico, deste ano; Medalha de Ouro da Sociedade Brasileira de Belas Artes; Medalha de Ouro Salão Batista de Costa; Medalha de Prata do Salão Nacional hors-concours.
Participou de leilões de quadros no Brasil e de várias coletivas, nas principais galerias do Rio de Janeiro e São Paulo.Na Bahia é a sua segunda exposição, sendo a primeira realizada em 1974, no Museu do Estado.
Essa exposição vai até o dia 22 e poderá ser visitada a partir das 9 horas.

          REGULAMENTAÇÃO DA PROFISSÃO DE ARTISTA
A artista Zorávia Bettiol

A regulamentação da profissão do artista plástico voltou a ser discutida, desta vez no Primeiro Seminário de Gravura, que se realizou em Curitiba. A proposta foi apresentada pela artista gaúcha Zorávia Bettiol, mas, apesar dos gravadores alertarem para a necessidade da medida, mostraram-se pessimistas quanto á sua execução.
Para Rubens Gerchmann,"a regulamentação está na estaca zero. É importante que isso ocorra porque somos considerados biscateiros, mas alguém fora da classe é que deve batalhar pela nossa regulamentação profissional. Para nós, artistas, é difícil nos unirmos aos juristas. Somos individualistas demais." A mesma opinião foi apresentada pela gravadora Anna Letycia, para quem até mesmo uma associação entre os artistas é difícil.
"O artista plástico," comentou Anna Letycia, "é muito egocêntrico e quando se reúne o grupo não dura nem um ano. Há 30 anos estou no meio artístico e sou muito descrente que a nossa regulamentação possa acontecer. Ela desistiu até mesmo de lutar pla insenção de taxas de importação de material artístico: se nem para a medicina o governo concede, ainda mais para a arte", sentenciou.

               MILTÃO, EXPOSIÇÃO PÓSTUMA

A exposição dos trabalhos do escultor Miltão, recentemente falecido num acidente durante trabalhos numa sonda da Petrobrás, está no Solar do Unhão.O artista, soldador por profissão, com a sensibilidade e habilidade operária, criou dos metais os orixás, os pássaros e os signos.
Alguns dos seus trabalhos, que ele os chamava de abstratos eram formações metaloplásticas da sua concepção de consciente, reflexões, deuses em metais, e outros trabalhos as quais imprimiu uma característica aparentemente primitivista, mas com uma profundidade de criação raramente vista.
Seu sonho era expor os trabalhos para os companheiros operários.
Antes que conseguisse concretizar seu desejo, morreu tragicamente, brutalmente, como nenhum ser humano, sobretudo um artista, deveria morrer. Miltão morreu, mas felizmente deixou a marca de sua criatividade. Por duas vezes uma entrevista a apreciação sobre seus trabalhos.
Fiquei com esta dívida, por motivos profissionais.
Acredito que seus trabalhos refletem exatamente sua vida no mar soldando pesados tubos e pequeninas peças metálicas.
Era um artista de força, como uma flor que brota de uma pedra.

                          AS MÁSCARAS DE REBELLO

Foi de Tápes que veio Rebello, Sílvio Luís Rebello da Rosa, um jovem que vivia apaixonado pelo nome Bahia e que daqui só fazia ideia através um postal do Farol da Barra. Chegou no verão de 1972, com a firme decisão de ficar.
Veio para trabalhar em arte e era seu propósito inicial se dedicar à pintura a óleo, cujo êxito estaria assegurado se a isso tivesse se dedicado.Logo que chegou, foi tragado pelo fascínio e magia da cidade, que imaginava mais primitiva. Impressionou-lhe, sobremodo, a alma do povo: simples, acolhedor, bem falante, místico e alegre.
A sensualidade desse mesmo povo lhe  marcou definitivamente e Rebello não teve dúvidas de que veio para ficar. Depois, havia o mar, sua grande paixão, com seu azul inconfundível e dadivoso. Sentia uma irradiação, algo que lhe integrava, sempre e cada vêz mais, à terra.
Rebello não pensava encontrar muitas dificuldades de adaptação. Trouxera pouco dinheiro, é verdade, e a sobrevivência teria de ser conseguida com o seu trabalho. Trabalho em arte.
 O elevado custo de vida da nossa capital não o desanimou. Quando ainda estava em Tápes e olhava para o postal do Farol da Barra, acreditava que naquele lugar poderia lançar a rede e pescar, com fartura e jamais lhe faltaria o alimento, nessa Bahia que ele aprendera amar por culpa  de Jorge Amado e Caetano Veloso.
A sua temática principal são máscaras, em forma de painéis, estandartes, colheres de pau,onde entram, habilmente, búzios de Itaparica, seixos, cabaças, fibras de piaçava da Feira de São Joaquim, palhas, couros, cascos e peles de animais, jibóia, tartaruga, jabuti, jacaré, arcada de tubarão, etc, tudo pintado com tinta especiais, muitas delas fruto de suas pesquisas.

              MULHERES DE SÉRGIO FRANCO MARTINOLLI

Uma obra  recente do artista italiano  Sérgio
"Basicamente eu não me canso de procurar a beleza. Nas cores que emprego, nos temas que trato, busco, captar a energia essencial pois acredito que uma obra de arte não seja um mero ornamento, mas uma fonte de forças e de vibrações.Minha procura é o mistério, minhas sugestões são mágicas, os meus devaneios românticos, sempre estritamente ligados à poesia, a um cosmo de beleza remota.
Nego o cotidiano que me reflete uma dia-a-dia cruel, mais importante é para mim recriar u mundo transfigurado, de energias positivas.
Acho que a época que instintivamente reflito é a Renascença, um  cosmo que historicamente é chamado de Renascimento Italiano, o fausto e o gosto pelo décor é o mesmo, voluptuoso e cristalizado, empoeirado de veneno e de mistério.
Minhas damas alongadas, minhas crianças rechonchudas e meio belle époque da série dos jardins e circos, as figuras crepusculares, freqüentemente flutuantes o submersas, procuram sempre expressar a ambivalência da natureza humana bondade/maldade, amor/ódio, realidade/fantasia, verdade/mentira."
Este depoimento de Sérgio Franco Martinolli é um retrato das figuras que povoam seu mundo anterior ao nosso. Um mundo onde as mulheres gordas eram modelos e as crianças com seus cabelos dourados e desnudas representavam a graça e a beleza.
Uma pintura romântica simplesmente. Ele expõe na Kattya Galeria de Arte.

 ANA MARIA MIRANDA EXPÕE DESENHOS CIRCENSES

Minha sensação diante desta exposição está muito bem representada pela figura de uma de minhas bailarinas de circo: ela está tirando a roupa para a platéia, está se desnudando.
Eu também ficarei sem portas, sem muralhas, sem defesa. E minha expectativa é saber como meu universo vai atuar nos universos alheios. Ana Maria Miranda assim se posiciona diante de sua primeira mostra individual de desenho inaugurada na Galeria Macunaíma, Rua México esquina com Araújo Porto Alegre, no Rio.
São 25 desenhos em pastel oleoso e uma série de desenhos a lápis de cor. O são personagens são figuras de circo. Ana Maria Miranda não se limita apenas a documentar esse mundo; sua maior intenção é interpretá-lo, seja através de figuras isoladas ou em grupos, desnudando-as em sua condição humana. O circo, no caso, é apenas um pretexto para a artista revelar o ridículo absurdo de certas situações sociais. E não só situações sociais completa Ana Miranda, como as minhas situações internas, o meu mundo, o meu universo.
Ana é cearense. Começou a desenhar quando morava em Brasília, onde fez uma exposição em 69.
Foi a sua primeira experiência profissional. Depois foi penetrando cada vez mais fundo no campo das artes plásticas. Diz Ana, a crítica tentou me enquadrar como uma futura pintora de prancheta, uma das poucas artistas jovens que não estava fazendo arte conceitual. Eu não tenho compromisso com a arte conceitual, nem com nenhuma outra escola. Meu compromisso é comigo mesma.
Nessa época, meus desenhos estavam voltados para o aspecto social e folclórico brasileiro, sem uma técnica muito apurada: era a minha visão do mundo exterior como ele é.
Nesse mesmo ano, Ana foi para o Rio onde estudou com vários artistas plásticos. Ivan Serpa, detonou em mim uma viagem, um mergulho no meu universo.
"Com Roberto Magalhães tive uma identificação muito profunda em termos de temática. Foi enriquecedor. Rubem Gerchman me dirigiu para um equilíbrio em ter o meu universo interno e o quotidiano. Lígia Clark fazia análise sobre cada um dos elementos que eu desenhava. E fiz com ela um laboratório onde a matéria-prima eram as sensações e a sensibilidade. Encontrei no meu mundo interior as imagens vindas do meu inconsciente, figuras da minha própria mitologia carregada de simbologia, fantasmas, demônios; era todo o meu inferno colocado para fora. Daí surgiu o circo."