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quinta-feira, 7 de setembro de 2023

RELEITURA POLÊMICA DE OBRAS DE CARYBÉ

Print da imagem que ilustra a
notícia da exposição na ALBA.

 Foi com a chegada da chamada arte contemporânea que surgiram as releituras das obras de arte especialmente dos grandes clássicos. Todos nós já vimos várias releituras da Monalisa, de Leonardo Da Vinci e de outros ícones da arte universal. Quando se trata de uma brincadeira, um xisto ainda podemos entender. Dizem que é uma forma de homenagear o artista da obra original, mas confesso que não gosto muito de releituras e muitas estão perto de cópias grosseiras ou falsificação. Ao invés de homenagear artistas consagrados é mais prudente procurar criar seu próprio caminho, e assim se firmar como um criador. A busca pela releitura é mais fácil porque você está diante de uma obra que tem personalidade, é conhecida e facilmente o consumo é palatável. Agora mesmo temos uma exposição na Assembleia Legislativa da Bahia anunciada como uma releitura da obra de Carybé de autoria de Daniel Sipa, intitulada “Homenagem – 26 anos sem Carybé”.  Ao observar as obras vemos que não se trata de uma releitura, mas praticamente cópia, porque não têm nada de contribuição pessoal.  Muita gente olhando as obras do Sipa confundirá com as de Carybé. Acho que o Sipa tem o seu talento para a pintura que deve procurar mostrar sua criatividade com seus próprios trabalhos. Isto é ruim para o autor da "releitura" , para o legado de Carybé  e também para o próprio mercado de arte, que já sofre continuamente ataques de muitos falsificadores. Portanto, ao invés de releituras é melhor o artista tratar de fazer seu próprio trabalho em busca de uma personalidade e de características próprias que suas obras precisam ter para serem reconhecidas pela qualidade. Esclareço que não tenho nada pessoal contra o autor da releitura, apenas me senti na obrigação de alertar já que venho registrando há décadas o que acontece no movimento de artes visuais em nosso país.

quarta-feira, 6 de setembro de 2023

UMA CABEÇA À FRENTE DO SEU TEMPO

UMA CABEÇA À FRENTE DO SEU TEMPO

 JORNAL A TARDE. TERÇA-FEIRA. 14/1/1997
Fotos Antônio Queiroz

Conversador e arredio. Esta dualidade convive com sua personalidade forte. A barba esbranquiçada e despenteada lembra um ermitão. Corpo forte é resultado das braçadas que, diariamente, dá na praia do Porto da Barra. É companheiro de Mário Cravo, Jenner Augusto e Carybé, mas talvez seja o menos conhecido desta geração pelo grande público. Não que sua obra seja menos importante. É porque ele não circula muito, vive recolhido em sua casa-ateliê. Trata-se do escultor, pintor e pensador Antônio de Almeida Rebouças, um dos mais brilhantes artistas baianos. Engenheiro projetista, Rebouças anda à frente do seu tempo. Fez poucas mostras individuais, mas suas obras são disputadas por colecionadores e galeristas.
Antônio Rebouças diante de uma  
tela inspirada na Amazônia.

Estamos diante de um pensador, com uma característica que inibe os menos avisados: ele é muito hábil na crítica. Tem ideias firmes, mas se desmancha como uma criança quando fala em natureza, principalmente plantas. É capaz de ficar horas diante de uma planta, observando seu comportamento. Porém, é de sua arte que queremos falar. Sua obra tem forte relação com o expressionismo, embora defenda que "as formas da natureza, inclusive as dos minerais, se desdobram independentemente da definição do próprio homem e transcende sua diferenciação." Para Antônio Rebouças, "a liberdade formal do Universo não classifica ismos, apenas existe. A figura é um estágio de abstração. Quem define que uma figura é um homem ou um sapo é o homem". E vai mais além, afirmando que a abstração pode ser entendida por antiforma, e a figura, seja de um animal, mineral ou vegetal, é a relação da forma".

O artista considera que Salvador ainda não possui um mercado de arte à altura do seu potencial. "O que existe não é profissional”. Entende que a característica fundamental de um mercado de arte que funciona profissionalmente é aquela que contribui para a seleção de novos valores, incentivando-os. Quanto aos marchands, revela sem pedir ressalva: “Tenho amigos do peito e outros marchands que são meus inimigos íntimos. Com estes, faço o jogo do Tom e Jerry".

NORDESTE E AMAZÔNIA

O mestre Antônio Rebouças no ateliê,
no bairro da Barra, em Salvador.
Quando Rebouças resolve enfocar um determinado tema, ele vai fundo. Foi com o propósito de estudar, de ver de perto, de sentir, que ele programou algumas viagens ao Nordeste e à Amazônia. Voltou impressionado com o que pode observar nestas regiões. Antes de pintar, colocou algumas ideias no papel e escreveu vários poemas sobre essas andanças.

Há oito anos que Rebouças não faz uma exposição individual. Tem 68 anos de idade, segundo ele, embora a carteira de identidade ateste 72."Isto foi para entrar na universidade. Tive que aumentar a idade," e desconversa. É bom mergulhador e já foi também campeão de vela oceânica. Brinca com a filha, que é geriatra, dizendo que se todos fossem como ele ela ficaria sem ter o que fazer. Este é o outro lado de Rebouças, brincalhão e conservador.

 Suas viagens são importantes fontes de inspiração, pois ele tem uma sensibilidade muito apurada e, por isto, enxerga mais do que nós, pobres cidadãos comuns. Quando falo de Nordeste e Amazônia, não imaginem telas com figuras esquálidas ou grandes florestas. Ele mostra as angústias e a força do verde da Amazônia através de formas muito próprias. Consegue transmitir sua angústia, sua revolta e sua perplexidade frente ao descaso com a miséria e a exuberância da Amazônia, fugindo dos estereótipos. Aí está a sua grandiosidade como artista. Através de formas com tendências abstratas, Antônio Rebouças constrói seu mundo pictórico, forte, belo e valoroso.

Ele prefere chamar esta série de obras sobre a Amazônia de Morfogênica e explica porquê: “É a pintura envolvida no nascimento da forma", o que considera um conceito filosófico. E conceito de formas possui a transcendência do tempo, do espaço e da luz, não obedecendo, portanto, à observação do homem.

O artista está preparando um livro sobre seus trabalhos nos campos da pintura, escultura, arquitetura, urbanismo, decoração, desenho, paisagismo e poesias. Com este livro, pretende divulgar sua obra em várias áreas. Ensina que para gostar de boa arte não é necessário erudição. A obra de arte verdadeira fala ao ser humano, com a mesma força de um vegetal, sentencia.

 


sábado, 2 de setembro de 2023

ANTÔNIO CARLOS REBOUÇAS E A ARTE DA SUPERAÇÃO

Foto 1. Antônio Carlos Rebouças hoje.
Foto 2. A sua mãe d. Doralice.
Foto 3. Aos 50 anoscom sua filha Isis.
Estou diante de uma pessoa que tem alegria de viver e expressa isto na sua arte através das cores vibrantes e dos traços que sugerem as figuras que cria. Transita com facilidade entre a escultura, a pintura, a gravura e o desenho.  É uma pessoa  de fácil relacionamento e acima de tudo de alto astral. Está de bem com a vida, embora saibamos que todos nós temos problemas e questões a resolver no nosso dia a dia. Ele poderia estar por aí se vitimando por ter nascido negro e pobre, filho de uma empregada doméstica, morador da localidade de Matança, próxima da Avenida Barros Reis. Mas, não. Sua mãe lutadora soube encaminhar o filho para enfrentar esses desafios, e a saída foi a educação. Graças aos professores da Escola Parque, localizada no bairro da Caixa D’água, em Salvador, considerada uma experiência única que tem repercussões em todo o mundo. Foi inaugurada em 1950, por Anisio Teixeira, quando ele ocupou o cargo de Secretário de Educação do Estado da Bahia e chamou de Centro Educacional Carneiro Ribeiro, que é um conjunto escolar da mais arrojada concepção pedagógica até hoje. Deveria ter sido replicada em outros locais e em municípios baianos, mas a educação nunca foi prioridade em nosso país. Pois é, foi aí que o Antônio Carlos de Jesus Rebouças foi matriculado aos dez anos de idade e estudou do primário até a conclusão do ginasial. Aprendeu não apenas as matérias escolares, mas também como o cidadão deve se comportar no seio da sociedade para enfrentar todos os percalços e garantir a sua sobrevivência com dignidade.

O artista mostra uma escultura de resina
de sua autoria.
Já fez muitas exposições individuais e coletivas aqui e até mesmo no exterior, na Itália e França. Hoje faz parte do conselho do Instituto Beneficente Conceição Macedo - IBCM uma instituição que ajuda crianças carentes, localizada no bairro de Santa Clara do Desterro, em Salvador. Costuma fazer oficinas de arte para sensibilizá-las através desta expressão nata do ser humano, e que ele abraçou, e colabora no que for necessário. Mas, antes de abraçar a arte trabalhou ainda jovem como soldador de carrinhos de mão na Metalúrgica Cimba, que ficava no bairro de Mata Escura, em Salvador. Depois fez um concurso público para a Petrobras e foi trabalhar na extração de petróleo por todo o Recôncavo baiano. Os mais jovens não lembram, mas a Bahia já foi o maior produtor de petróleo e sustentou o crescimento do país com seu petróleo por muitas décadas.
Obras feitas em nanquim.Um traço livre
e que nos leva a pensar no movimento
das figuras.
 Hoje as reservas baianas estão escassas. Quando foi criado o Polo Petroquímico de Camaçari o Antônio Rebouças fez o concurso para trabalhar numa das empresas do Polo, a Oxiteno que lhe possibilitou vários cursos de química para lidar com os produtos que processava. Esses cursos de manipulação e conhecimento das características de produtos químicos estão atualmente lhe servindo para elaborar suas esculturas em resinas. São tão perfeitas que parecem as que vemos produzidas em escala pelas indústrias de decoração. Mas, voltando ao Rebouças a Oxiteno foi o começo de uma trajetória no Polo petroquímico e assim trabalhou na Metanol e Rhodia. Essas mudanças ocorreram, segundo ele, porque lhe ofereciam melhores salários, e foi galgando mais espaço e melhores condições econômicas. É importante salientar que paralelamente ele ia praticando a sua arte, quer fazendo seus desenhos, pinturas e até mesmo esculturas. Lembra que na época passou a ser muito bem remunerado e enveredou numa fase complicada se envolvendo com o alcoolismo, mas com o nascimento da filha, muito esforço, a ajuda de alguns profissionais e familiares conseguiu superar e tocar a sua vida.

                                        QUEM É

Antônio Carlos Rebouças em seu ateliê na
 Rua Chile, em Salvador
.
O Antônio Carlos de Jesus Rebouças nasceu em 30 de agosto de 1956, portanto está com 67 anos de idade filho de Doralice Maria de Jesus e de Renato Salustiano Rebouças. Sua mãe trabalhou muitos anos como empregada doméstica na casa da família Ferreira, no bairro de Loteamento Lanat, que fica vizinho ao bairro do Barbalho, em Salvador. Esta família era de um irmão do conhecido político Cristóvão Ferreira que foi vereador e deputado estadual por várias legislaturas. Ele tinha uma empresa de ônibus e se notabilizou na época por fornecer transporte e dispor de um carro funerário para transportar os corpos de pessoas pobres para serem enterradas nos cemitérios da Cidade. Além de ter outras ações assistencialistas menores. Depois que saiu da casa dos Ferreira a d. Dora de Jesus comprou uma casa na localidade de Matança, próxima a Avenida Barros Reis, em Salvador, e foi morar com seu filho. E depois no bairro do Pero Vaz . Era uma casinha precária de taipa e lembra Rebouças de que durante as chuvas fortes caiam bolos de barro e a água da chuva penetrava. Era uma situação de sofrimento. Mas ela melhorou de vida e adquiriu um apartamento no bairro de Brotas. Mas, a sua mãe continuava batalhando e foi trabalhar no setor de serviços gerais na Casa de Saúde Santa Mônica
O artista  no lançamento do seu romance
sendo cumprimentado pela saudosa
professora Consuelo Pondé de Senna
.
pertencente ao médico psiquiatra Sílio Andrade, que era um psiquiatra de renome inclusive trabalhava no Manicômio Judiciário de Salvador e um empreendedor. Conheci de perto o Sílio Andrade um homem culto e trabalhador. Nesta época era uma espécie de casa de repouso para onde eram encaminhados filhos de gente das classes média e alta para repousar quando sofria de algum problema com alcoolismo ou outras drogas e mesmo idosos quando não tinham com quem ficar em casa. Depois foi transformado num hospital psiquiátrico e ele abriu outro o Sanatório Bahia. Até que a esquerda   chegou ao poder e começou o movimento antimanicomial  acabando com os hospitais psiquiátricos criando sérios problemas até hoje para as famílias, especialmente as mais pobres. Ali d. Dora fazia de tudo, e assim conseguiu comprar uma casa no bairro do IAPI e foi reformando até ficar do jeito que queria. Enquanto isto o filho Antônio Rebouças ia estudando e aprendendo a se relacionar com os colegas. Ele lembra com saudade que na Escola Parque tinha contato com o maestro Hans-Joachim Koellreutter, (1915-2005) um dos mais importantes músicos do país, considerado o papa da música dodecafônica no Brasil, que fundou a Escola de Música da UFBA; o maestro Vivaldo Conceição que durante décadas foi maestro da Orquestra da Rádio Sociedade da Bahia; com Mestre King Kong  que ensinava capoeira, e com os principais artistas plásticos modernistas que também interagiam e ensinavam na Escola Parque da época e que fizeram painéis e telas que até hoje estão por lá embelezando e enriquecendo aquele conjunto educacional.

Antes de concluir o ginasial foi trabalhar como soldador na indústria metalúrgica

Antônio Carlos  Rebouças com 
pintura recente 
.
Cimba, que ficava no bairro da Mata Escura, em Salvador e produzia carros de mãos e outros equipamentos para a construção civil e o agronegócio. Já estava completando dezoito anos e resolveu fazer concurso para a Petrobras, foi aprovado e passou a trabalhar no serviço de exploração de petróleo em todo o Recôncavo baiano. Ele lembra que “era um serviço muito duro e perigoso. “Nesta época a Bahia passou algumas décadas fornecendo petróleo para sustentar o desenvolvimento de todo o país até que suas reservas ficaram escassas e foram descobertos outros campos de petróleo em outras regiões especialmente no mar. Ele saiu da Escola Parque em 1973 indo para a Petrobras. Com a chegada do Polo Petroquímico de Camaçari resolveu partir para novo desafio e fez concurso para a empresa Oxiteno que era uma das principais do complexo petroquímico. Esta empresa possibilitou que ele fizesse vários cursos de manipulação de produtos químicos usados na produção da indústria e este conhecimento e habilidades tem sido importante para a manipulação dos produtos que usa para a criação de suas esculturas. Além de trabalhar na Oxiteno conta que também trabalhou na Rhodia, Melanina e na Metanol. E que essas mudanças de empresas era porque lhe ofereciam melhores salários e outras vantagens e ele seguia adiante.

Quem o incentivou a enveredar pelos caminhos das artes plásticas foi o pintor naif Pedroso, que até hoje continua pintando em seu ateliê localizado na Ladeira da Cruz da Redenção, no bairro de Brotas, em Salvador. No meu blog  tem uma ampla entrevista que fiz o ano passado com o Pedroso. Porque seu objetivo era seguir após a aposentadoria a carreira de escritor, inclusive chegou a lançar um romance Os Herdeiros onde trata de uma família patriarcal e a disputa por sua herança. Como paralelamente vinha fazendo seus desenhos e pinturas decidiu tomar um curso de esculturas nas Oficinas do Museu de Artes Moderna da Bahia – MAMBA com o escultor Zu Campos. Fez outros cursos de pintura na Galeria Panorama e com Waldo Robato visando aprimorar suas técnicas, já que é um autodidata ou seja não frequentou a Escola de Belas Artes .

                                                   EXPOSIÇÕES

Rebouças mostra o
cartaz da exposição
na Itália.
 Fez várias exposições aqui e algumas no exterior mais exatamente duas na Itália e uma na França. Elaborou duas obras para o Centro de Recursos Ambientais no prédio localizado no bairro o Monte Serrat, em Salvador, e lamenta que um deles, o maior que era um painel de cerca de dezoito metros onde pintou em 2001 com vários elementos ligados à natureza como riachos, paisagens e animais e que infelizmente foi destruído. Restou o mural intitulado Serra do Barbado que mede 1,5 x 300cm. Suas primeiras exposições aconteceram duas em coletivas na Galeria Panorama, e a terceira na Galeria 13, do saudoso Deraldo Lima que costuma acolher os pintores em dificuldades de expor ou mesmo financeira e sua galeria ficava no Centro histórico da capital baiana. Vejamos: 1996 – Exposição Coletiva na Galeria Panorama, em Salvador; 1998 – Exposição no Bar Barcelona; 1998- Exposição Coletiva na Galeria Panorama; 1999 – Exposição na Galeria da Infraero, em Salvador; 2000 – Exposição na Casa Cor Brasil, Salvador; 2000 – Exposição na Sala Carlos Bastos, no Teatro Módulo, Salvador; 2001- Exposição na Livraria Siciliano, em Salvador; 2003- Exposição na Casa Cor Brasil; Participou do
Mural "Serra do Barbado", que
 fica na sede do CRA. em Monte
Serrat, em Salvador
.
 1º Salão de Arte Contemporânea do Consulado da Holanda na Bahia; 2004 – Exposição na Casa Cor Brasil, em Salvador; 2005 - Exposição na Salle de La Rode , na cidade de Domme, na França; 2009 - Exposição no Museo delle Genti d’Abruzzo , na Itália;  Exposição no Circolo Africano , na Itália. 2011- Exposição na Livraria Cultura, no Salvador Shopping; 2019 – Exposição no Centro Cultural da Câmara de Vereadores de Salvador. 
Estas exposições internacionais foram realizadas graças ao apoio do padre Alfredo Dórea que é o gestor do Instituto Beneficente Conceição Macedo -BCM que tem um amplo relacionamento visando arrecadar apoiadores para a obra que assiste dezenas de crianças carentes localizada na Rua da Santa Clara do Desterro, 101, em Salvador.

   DOIS REBOUÇAS

Antônio de Almeida Rebouças, engenheiro
e artista plástico. Uma pintura e uma
escultura de sua autoria do meu acervo.
Durante uma conversa há anos fiquei sabendo que o Antônio de Almeida Rebouças, já falecido, e um dos artistas do grupo modernista mais importante da Bahia ficava incomodado com a presença de outro artista com o mesmo nome. Este Antônio Rebouças era engenheiro projetista  e irmão do  arquiteto Diógenes Rebouças, que foi professor da Faculdade de Arquitetura e responsável por projetos importantes como o da antigo Estádio da Fonte Nova, que inexplicavelmente foi demolido no Governo do petista Jacques Wagner em conluio com a OAS. Lembro que durante uma visita que lhe fiz expressou esta preocupação com a indignação que lhe era peculiar e uma marca de sua personalidade. Disse-lhe que isto era normal e que meu nome Reynivaldo Brito era replicado por aí e ainda tinha as várias maneiras de me tratar como Reginaldo, Reinaldo, Ronaldo e Renivaldo. Não conhecia pessoalmente o Antônio Carlos de Jesus Rebouças e durante o nosso contato ele lembrou que certa vez recebeu um telefonema de Antônio Rebouças seu xará falando sobre o problema por assinarem o mesmo nome nas obras, e o convidou para acabar com a confusão realizar uma exposição juntos assim as pessoas poderiam diferenciar a obra de cada um. Infelizmente a exposição não foi concretizada e os amantes da arte não tiveram a oportunidade de confrontar a obra de cada um dos Antônio Rebouças. Com certeza são completamente diferentes porque o velho Rebouças pintava com características modernistas tinha uma ampla bagagem cultural e como podemos ver nesta pintura e escultura que tenho em meu acervo. Além disto são pessoas de personalidades distintas. Enquanto o saudoso Rebouças vivia a reclamar e quase sempre o encontrava carrancudo o nosso personagem é alegre e tem uma habilidade diferenciada em produzir as suas obras quer no segmento do desenho, da pintura ou da escultura. Quando o modernista Antônio de Almeida Rebouças morreu registrei o ocorrido com este pequeno texto publicado em 15 de dezembro de 2015 neste blog reynivaldobritoartesvisuais.blogspot.com. Vejamos:

A ARTE PERDE ANTÔNIO REBOUÇAS

   Conheci Antônio de Almeida Rebouças há muitos anos. Era uma pessoa altamente inteligente e criativo. Na última vez que estivemos juntos em 2010 notei que estava muito agitado e tinha horas que oscilava entre a alegria e a tristeza. Às vezes indignado com tudo que acontecia em nosso país no mercado de arte. Era difícil de relacionamento exatamente por causa de sua grande sensibilidade. Rebouças faleceu aos 90 anos no dia 27 de maio último. Infelizmente, por motivo alheio à minha vontade, não pude comparecer ao seu enterro. Rebouças gostava de sair pela manhã, cedo, e andar pelo Porto da Barra e, às vezes, "dar umas braçadas", assim confessou naquela tarde que passamos conversando sobre tudo. Costumava me enviar algumas cartas ou bilhetes expressando os seus sentimentos naquele momento, reclamando e esbravejando de alguma coisa que o incomodava. Tenho várias delas guardadas. Leiam esta cartinha que me enviou em 6 de outubro de 1997.

"Amigo Reynivaldo: 

"Sei mais do que ninguém que sou jogo duro, mas não consigo levar um ente querido ao enterro. Peço, para você, por esta mensagem no seu jornal. Encontrei Carybé passando por "Saturno”, ia puxando uma batucada da pesada, a nave estava toda orvalhada, mas depois verifiquei que não era orvalho, eram lágrimas do artista com saudades de Nancy, que representava para ele não apenas a esposa, mas um orgulho. A. Rebouças (Para Carybé –"Tonio".

Publico agora esta mensagem única e sentimental por entender que ela reflete um pouco quem era Rebouças e como sofria com as perdas e os dissabores da vida. Sua sensibilidade acurada fazia sofrer e o abalava mentalmente. Era difícil a convivência com ele que mudava repentinamente de humor, mas o seu grande talento de artista nunca foi abalado. Rebouças deveria estar entre os primeiros artistas de nosso país porque suas obras têm uma qualidade acima da média.
Nunca contou com um agente, um marchand ou um galerista que trabalhasse junto ao mercado, as suas obras levando-as para leilões, exposições e bienais, para que pudessem ser apreciadas por um número cada vez maior de pessoas. Vejo novos talentos, ainda carecendo de muito aprendizado, despontando com facilidade enquanto outros pintores de conteúdo sendo esquecidos por marchands, galeristas e colecionadores. Reparem um pouco mais para a produção de Rebouças. Não é porque ele morreu, já afirmei isto nas décadas de 70 e 80 com o mesmo entusiasmo de hoje.


quinta-feira, 24 de agosto de 2023

O NOVO MUSEU DA LÍNGUA PORTUGUESA

Visão do corredor com 106 metros de projeção. Foto RB.
Depois de sofrer um grande incêndio em 21 de dezembro de 2015 que destruiu totalmente todas as suas instalações o Museu da Língua Portuguesa foi reconstruindo e já está funcionando no conjunto arquitetônico da Estação da Luz, que é um dos prédios mais importantes e icônicos da capital paulista. Por lá passam trens desde 1860 e o atual prédio que foi reconstruído onde hoje funciona o museu foi inaugurado em 1901, e é tombado como patrimônio nacional. Dizem os historiadores que durante o século XX a Estação da Luz foi a principal porta de chegada a São Paulo de milhões de migrantes e imigrantes de todo o mundo. Estive lá e pude constatar que até hoje é uma das estações de trem e metrô de grande importância para os paulistas e visitantes, e é um lugar de encontros com as pessoas e com a língua portuguesa.

A Estação da Luz com trem trafegando e
pessoas esperando o metrô do outro
lado. Foto RB.
Ao entrar você tem uma experiência inesquecível sendo envolvido em fantásticos jogos de luz e um conjunto de projeções de imagens que passam em velocidades variáveis. Para quebrar este clima tecnológico você quase sempre se encontrará com grupos de crianças e jovens acompanhados de seus professores. Eles andam para lá e para cá, deitam-se no chão para fazer suas anotações com vistas a elaborar seus trabalhos escolares. Mas, as imagens e o som das salas que visita são mais fortes e chamam mais sua atenção e assim você consegue se concentrar naquilo que lhe interessa, mesmo com a bagunça natural e saudável da criançada.  Digo ao que interessa porque é realmente uma experiência que nos enriquece, inesquecível mesmo, porque está enaltecendo uma língua falada por 260 milhões de pessoas em vários países. Ali você pode ver a língua falada nas ruas, que é criada e recriada diariamente por pessoas comuns como nós. Esta língua viva não pode e nunca deve ser imposta por ideologias. Temos que deixá-la fluir normalmente porque será mais verdadeira.

                       EXPOSIÇÃO

Diz o portfólio distribuído na entrada do Museu da Língua Portuguesa "uma língua é muito mais do que uma ferramenta de comunicação: é através dela que organizamos pensamentos sentimentos e interpretamos o mundo". A exposição principal " é um mergulho nessa forma muito particular de pensar, sentir e perceber o que nos cerca partilhada por brasileiros, portugueses, moçambicanos, angolanos..."  É uma maneira de aprender de forma divertida imerso nas projeções e no áudio e saber toda a grandiosidade da língua portuguesa. 

Aí vemos a genealogia da nossa língua portuguesa. Foto Luciana Brito.

Foto Luciana Brito
 

Em minha opinião achei que existe um pouco de exagero com a presença de muitos cantores de rap, que poderiam ser contrabalançados com cantores de forró, de músicas gaúchas e até sertaneja. Os sambistas e cantores da MPB estão bem representados. Assim, cobriria todos os espectros com mais equidade.  São três andares e o térreo. No primeiro fica a sala das exposições temporárias. No segundo andar a Rua da Língua que tem um telão de 106 metros mostrando fragmentos de poesia visual e sonora; Laços de Família onde você vê a árvore genealógica da língua portuguesa e os caminhos percorridos a partir do tronco indo-europeu; Beco das Palavras onde você é envolvido num jogo para formar palavras e descobrir sua origem; Línguas do Mundo; Palavras Cruzadas com totens interativos mostrando a influência de outros idiomas na língua portuguesa. Enfim, tem muito mais.

Mas, para finalizar devo dizer que estive visitando antes do incêndio a primeira versão do Museu da Língua Portuguesa e confesso que o impacto foi bem maior que desta vez, talvez porque mesmo sendo reconstruído nunca conseguem refazer como na primeira versão. Se visitar a Capital paulista reserve uma tarde inteira para ir à Estação da Luz conhecer o Museu da Língua Portuguesa.

 

 


sábado, 19 de agosto de 2023

ÂNGELA CUNHA UMA TRAJETÓRIA DE ARTE

Foto 1 - Ângela Cunha em foto atual tirada
por mim em seu ateliê. Foto 2- Em 1976
recortando  gravura para expor no MAM-Ba.
Conheci a Ângela Cunha na década de 70 recém-chegada dos Estados Unidos quando veio morar em Salvador atraída pela efervescência cultural que vivia a Bahia  na década de 70, e que teve repercussões em todo o país e até no exterior. Ela é natural de Londrina, no Paraná,  e quando tinha por volta de dezessete anos resolveu   estudar nos Estados Unidos, mas seus pais não tinham condições financeiras de bancar seus estudos fora do país. Foi ai que seu pai soube que  a Associação Cultural Brasil-Estados Unidos - ACBEU iria realizar  uma seleção para levar alguns estudantes brasileiros para a América através do American Field Service, uma instituição de intercâmbio cultural. Participou da seleção e ficou em segundo lugar, mas como a vencedora tinha idade superior à permitida na seleção ela foi chamada, e assim pode estudar e se aperfeiçoar na Tenafly High School quando foi estudar inglês, espanhol e artes, dentre outras disciplinas. Esta escola fica localizada no condado de Bergen, no estado de Nova Jersey, perto de New York. "Aí me apaixonei pela arte, e tive a felicidade de fazer amizade com minha colega Sherryl Belinsky que era uma artista que fazia belos desenhos em bico de pena. Conservamos esta amizade até hoje, e tem uns anos que ela passou quinze dias aqui comigo. Foi uma maravilha", relembra com alegria
Gravura em três tonalidades , de 1977.
Ângela Cunha. Sua amiga casou chegaram filhos e netos  e não prosseguiu com a carreira artística. Concluiu o intercâmbio e ao chegar dos Estados Unidos passou seis meses em Londrina ensinando inglês num colégio. Em seguida resolveu vir morar na Bahia e seu pai preocupado lhe perguntou como iria sobreviver ao que respondeu "ensinando inglês". Veio para a  Bahia e seu objetivo era continuar desenhando e fazendo joias porque foi o ramo da arte que mais a entusiasmou enquanto esteve nos Estados Unidos. Mas, aqui chegando o professor de origem alemã August Adolf Buck, que ensinava joalheria na Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia, onde ela veio a ingressar em 1974 já estava em processo de  aposentadoria, e assim não encontrou um ambiente propício para continuar criando joias. Diante da dificuldade de fazer joias resolveu abraçar a arte da gravura. Naquela época tinha um forte movimento de gravura na Bahia especialmente na Escola de Belas Artes, da UFBA,  onde ela estudou de 1974 a 1980. Fez algumas exposições individuais e participou de várias coletivas, sendo premiada em 1994 com o Prêmio Aquisição no I Salão do Museu de Arte Moderna da Bahia. 

Ângela  Cunha com os filhos
na Galeria Atrium - 1994
.
Para sobreviver foi ensinar inglês que aprendera fluentemente durante sua permanência nos Estados Unidos. Foi então que procurou a jornalista Regina Coeli, de saudosa lembrança, que dirigia a escola de inglês Yes, que funcionava na Ladeira da Barra. Dedicou-se também neste período à pintura, mais especificamente a técnica de nanquim sobre papel em grande formato. Atualmente continua pintando em nanquim. Ela tem uma necessidade intrínseca de se expressar em grandes formatos, o que contrasta com seu jeito aparentemente calmo de ser. Seu relacionamento foi se expandindo conhecendo outras pessoas em Salvador e terminou sendo convidada para ensinar inglês na Associação Cultural Brasil-Estados Unidos, ACBEU, por James Mc Gillivery, que era o secretário executivo da instituição. Passou a ganhar mais e assim a vida foi melhorando e pode fazer seu curso de graduação sem maiores dificuldades. Ela vinha de outra região do país, com cultura e modos diferentes, embora já estivesse com a cabeça mais aberta devido ao período que passou nos Estados Unidos. Mas, mesmo assim estranhou um pouco aquele ambiente da EBA que na época enfrentava muitas greves, tinha uma grande militância política e também o modo descontraído de viver dos colegas.

                                                             QUEM É 

Ângela lembrando que o pai quase tem um enfarte quando
foram ao cartório e ela disse que viria para a Bahia.
A artista Ângela Cunha é natural de Londrina, no Paraná, onde nasceu em vinte e seis de agosto de 1954 filha de Maria José Assis Fonseca Cunha e Mário Cunha, que era correspondente do jornal a Folha de São Paulo para o norte do Paraná e sua atividade principal era a Filatelia, que é o estudo e pesquisa dos selos empregados nas postagens dos mais diversos países. Ela lembra que na época ele mantinha correspondência por cartas com colecionadores de muitos países, inclusive da China, de onde recebia os novos selos que iam circular em todo o mundo. É bom ressaltar que não havia internet e nem celular. Tudo era feito através de cartas, que demoravam muito a chegar de um destino tão longínquo como a China. Ele criou o Clube de Filatelista de Londrina e escrevia semanalmente um artigo no jornal a Folha de Londrina contando as últimas novidades da filatelia.

Obra em nanquim sobre papel
Canson de 1,5m por 1m.
Era uma família de classe média e Ângela Cunha tem um casal de irmãos. Estudou o primário na Escola Maria Aparecida, que era de freiras, e fez o ginásio num estabelecimento público chamado Ginásio Pio XII, e  não esqueceu que o uniforme tinha as cores verde e marrom. Quanto ao colegial foi também num colégio público o Colégio Professor Vicente Rijo. Disse que "naquela época as escolas e colégios públicos de Londrina eram muito bons". Quando terminou o colegial que encasquetou de estudar fora seu pai sempre preocupado com a harmonia e segurança da família reagiu com muita cautela e até espanto. Conta que ele disse que não tinha condições de mandar estudar fora. “Até descobrir a seleção que estava sendo feita pela American Field Service - AFS,  na Associação Cultural Brasil-Estados Unidos, em Londrina, no Paraná.”

Obra em nanquim sobre
papel .Hoje ela está pintando
em cores mais escuras.

Outra boa lembrança é que seu pai gostava de ler e sempre lhe apresentava novos livros para que lesse e isto contribuiu para que ela tivesse uma boa colocação na seleção do intercâmbio cultural, e durante toda sua vida. Falava com grande prazer e alegria desta oportunidade impar de estudar nos Estados Unidos. Já tinha concluído o curso colegial aqui e foi novamente fazer na High School Thenafly onde passou a ter contatos com novas disciplinas inclusive com as artes. Recordou que ao retornar estava com a cabeça mudada com as informações que recebera e o modo de vida do povo americano. Nos seis meses  que ficou em Londrina ao retornar ensinando inglês foi preparando silenciosamente seu novo salto que seria sua vinda para a Bahia. Depois que estava tudo pronto revelou a seu pai. "Ele quase tem um enfarte e me perguntou como você vai sobreviver na Bahia minha filha? Eu não tenho condições de lhe manter lá." Respondeu que ia ser professora de inglês já que fala fluentemente a língua inglesa. Seu pai teve que acompanhá-la ao cartório e na entrada parou e colocou a mão na testa, disse Ângela Cunha. "Uma cena que não esqueço, ele estava muito preocupado."

Obra de 2000 já na cor escura.
Veio para a Bahia onde está até hoje ao lado de seus dois filhos que teve com grande fotógrafo Mário Cravo Neto, o Mariozinho. São eles o Akira Cravo, que segue a profissão do pai, e o Lukas Cravo também fotografo e impressor de FineArt, que é o  único Canson Certified Printer na Bahia. Segundo a Wikipédia “a fotografia fine art é a fotografia criada de acordo com a visão do artista fotógrafo, que utiliza o meio para expressar algo que apenas vive em sua mente." Portanto, Lukas Cravo faz a impressão das fotografias e também de pinturas e gravuras de clientes com alta resolução e tem valor de mercado por ser exclusiva.

Confessa que o casamento e a convivência com Mariozinho  foi um aprendizado muito importante porque "ele era muito competente e profissional. Quase todo o ano viajava para o exterior  onde ele fazia suas exposições em Nova Iorque, Berlim, Amsterdã, Paris, Copenhague e outras cidades europeias. Quando nos separamos foi um choque para mim, porque a separação é traumática, é como uma morte.” E confessa rindo: "foi ele que separou de mim. Viver artista com artista não é fácil. Mas, continuamos grandes amigos e na época ele vinha ver os filhos com certa frequência. Confesso que quando ele morreu eu senti muito, mas quando da separação senti muito mais".

                                                     FORMAÇÃO

Ângela falando do Prêmio Aquisição que ganhou em 1994
com esta obra no I Salão MAM-BA de Artes Plásticas.
A artista Ângela Cunha quando chegou decidiu fazer vestibular para a Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia. Disse que ficou muito ansiosa e preocupada com o vestibular e em , especial com a prova de Desenho que tinha como examinador  Juarez Paraíso. Não era boa em desenhar figura humana e treinei muito e na hora da prova fiz bem meu desenho e passei. As outras provas foram tranquilas. Depois de alguns meses na escola como não conseguiu fazer joalheria pensou em desistir e voltar para casa. Durante as férias foi para Londrina  e falou com seu pai que não ia continuar o curso na EBA e ele não gostou. "O quê? Você é macaco para pular de galho em galho”? "Ai ele comprou uma passagem de volta para Salvador e me despachou”, conta rindo. 

Voltei e fui estudar até concluir o curso de Belas Artes. Durante o curso tive uma professora Zélia Maria e um dia ela escolheu uma gravura grande de 1,5 metro por 1 metro e exibiu na sala de aula para os meus colegas e disse e segurando a gravura : "Nasce uma gravadora!" "Fiquei muito feliz e passei a fazer muitas gravuras. O professor Juarez Paraíso me emprestava uma prensa que ele tinha em seu ateliê no bairro de Itapuã. Eu ia aos domingos e ficava lá sozinha com o vigia e fazia muitas impressões. Vendi muita gravura e isto ajudava a minha sobrevivência que já estava bem mais tranquila porque recebia um bom salário pelas aulas de inglês na ACBEU. Na época a EBA não deixava os alunos usarem a prensa fora da hora da aula. Foi quando participei de muitos salões e exposições. Até 1980 quando parei de fazer gravura e passei a pintar em 1984", conta Ângela Cunha.

                                                                     EXPOSIÇÕES 

Capa do livro-catálogo da exposição no Museu Afro Brasil,
em São Paulo, e as quatro mil bolinhas de argila que
 compõem a sua obra Quando o Último Rio Secar,
de 2009.
Ela disse que sua primeira exposição individual foi na Galeria da ACBEU, que promovia muitas exposições de qualidade. A segunda foi no Museu de Arte de Londrina. Quando morava com Mário Cravo Neto, o Mariozinho, um dia ele foi ler o currículo dela e notou que tinha umas vinte exposições coletivas e participação em salões. Foi quando resolveu eliminar e assim só ficaram registradas estas aqui relacionadas.
Exposições Individuais: 2009- Exposição  Os Mágicos Olhos da América, no Museu Afro Brasil, em São Paulo, quando ela apresentou o trabalho Quando último Rio Secar. Foram quatro mil bolinhas argila numa caixa de madeira, denunciando o que estão fazendo com nossos rios. Lembra que telefonou para Emanoel Araújo que era diretor do Museu e ele disse: "Você tem uma semana para enviar a sua obra." Imagine que tive que embalar quatro mil bolinhas de argila, um pouco maiores que uma bola de golfe, conseguir a grana e enviar. Foi um trabalhão, mas consegui e exibe o livro onde aparece sua obra com um texto que  Mariozinho tinha feito pouco antes de falecer. 2002 - Exposição na Bahia Design Center, Salvador, Bahia; 2000- Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador; 1994 - Exposição na Galeria Atrium, Salvador; 1990 - Galeria Artenata, Salvador; 1987 - Galeria Arte Viva, Salvador; 1978 - Museu de Arte de Londrina; 1978 - Exposição de gravuras na Galeria ACBEU, em Salvador. Exposições Coletivas: 1998 - Exposição Tropicália 30 Anos, no Museu de Arte Moderna da Bahia; 1998 -
Obra inspirada em máscara
africana feita  em nanquim.
Exposição Coleção de Arte Contemporânea, no Museu de Arte Moderna da Bahia; 1998 - Exposição no Museu de Arte Moderna, do Rio de Janeiro; 1997 - Workshop, Artistas Brasileiros e Alemães, Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador; 1996 - III Salão MAM-Bahia, no Museu de Arte Moderna da Bahia; 1994 - I Salão MAM -Bahia, no Museu de Arte Moderna da Bahia; 1988 - Exposição Artistas Baianos, no Museu de Arte Moderna da Bahia; 1987 - Exposição Escotilhas para o Aberto, no Museu de Arte Moderna da Bahia; 1980- Exposição Jovens Artistas, no Museu de Arte Moderna da Bahia; 1979 - Exposição 13 Artistas, na Galeria Baguettes, em Salvador; 1978 - I Salão Universitário de Artes Plásticas, no foyer do Teatro Castro Alves, em Salvador.

                                                    REFERÊNCIAS

Mariozinho examinando negativos de fotos suas.
Foto do Google.
Vou relembrar aqui o texto de Mário Cravo Neto fez pouco tempo antes de sua morte falando da obra de Ângela Cunha "Quando o Último Rio Secar", que tem uma história. Com a vinda de sua amiga Sherryl Belinsky a Ângela Cunha foi andar por várias vezes num pedacinho de Mata Atlântica que existe em Patamares e que está ameaçado de destruição. As pessoas que andam por lá o chamam de Vale Encantado, e sempre iam em comapnhia do arista Ramiro Bernabó, que é filho de Carybé e mora nas redondezas, e outras pessoas. Eles lutaram para a preservação deste local e ai veio a preocupação com a Ecologia e a ideia de fazer a obra. Veja o  que escreveu o Mariozinho: "As esferas moldadas de barro simbolizam as mãos que se elevam,que cobrem o rosto, são o pranto de lágrimas do leito seco do rio. O barro amassado e cozido é a síntese de um momento poético - e o rio  seca, o corpo oferece a água - com o passar do tempo tudo volta à sua normalidade. Enquanto passamos por esta terra nos confrontamos com pequenas ilhas de emoção, não necessitamos de ir muito longe à procura da verdade. Sempre nos esquecemos de que há muitos lugares dentro de nós mesmos e que pouca importância damos a eles, na sua maioria até os desconhecemos. No universo das possibilidades não convém ao artista limitações de uma geografia descritiva, ele deve descobrir a sua própria através da ação, do movimento que é vida, que está contida na auto suficiência do seu ato e do seu ser. 

Regamos a terra com as lágrimas do sofrimento, ao mesmo tempo sentimos o prazer de vivenciar o que por nós foi construído, posteriormente devemos deixá-los de lado e dar mais um passo. Assim sempre foi, assim sempre será, assim como os dedos que amassam a terra e moldam a natureza à sua imagem, assim também tateamos no escuro em busca de um caminho desconhecido. Os ninhos de barro de Ângela, também são construídos por certos pássaros e outras espécies  - todos eles servem para abrigar , para dar proteção a si mesmo ou aos outros". Mário Cravo Neto.

Ângela Cunha com o crítico Wilson Rocha.

Já Wilson Rocha no seu livro Artes Plásticas em Questão  escreveu:"A magnitude de desejo inconsciente é que, a nosso entender, mobiliza a ação do artista. Quando isso ocorre, a arte cobra vigor e energia e capta os vestígios do mundo e os fragmentos de vida. Assim são os profundos enígmas das vigorosas reflexões estéticas de Ângela Cunha. A visibilidade de seu universo plástico exige este modo de conceber o processo criativo nessas dimensões fantásticas. A visão e as metas de sua realização artística são suplamente proveitosas. de um lado, a figuração voltada para a evolução e decomposição da forma, de outro, há algo mais profundo através da dimensão oculta e original do ser, que produz atuações distintas, de inconsciente a inconsciente, para significar o fenômeno da essência e da aparência, a gêneses do signo com sua assemântica não-convencional,como verdadeira emergência estética". ......

Noutro trecho ele escreveu: Ângela Cunha é uma artista lúcida e profundamente informada, certamente a personalidade de artista mais monoestilística de nosso ambiente, a artista que encontrou mais cedo a sua fonte e o seu caminho criativo. Com uma obra reveladora e estimulante, ela é ainda impressionante pela sua admirável relação técnica com o espaço".

                                                 NANQUIM

Obra em nanquim preto e sépia.
A artista Ângela Cunha atendendo uma recomendação de Mário Cravo Neto com quem conviveu por dezessete anos passou a usar a tinta nanquim para pintar em grandes formatos e expressar suas emoções. Antes o nanquim só tinha na cor preta, mas atualmente existe em várias cores. Mesmo assim ela prefere o preto e a sépia para a sua criação artística e pintar sobre o papel Canson de 1,5m por 1 m. 

Segundo a Wikipédia "o nanquim é originário da China e é também chamado de tinta da China  preparado com negro de fumo coloidal , também conhecido por pó de sapato e empregado em desenhos aquarelas e na escrita. Foi desenvolvida pelos chineses há mais de dois mil anos, a tinta é constituída por nanopartículas de carvão suspensas em uma solução aquosa. Como nanopartículas dissolvidas em líquido se agreguem e formam micro e macropartículas que sedimentam no fundo do recipiente, os chineses antigos descobriram como estabilizar a solução ao acrescentar goma arábica (uma espécie de cola). A tinta nanquim é muito parecida com a tinta sumi, de origem japonesa para a arte sumi e que tem, como composição, fuligem, goma arábica, água e especiarias."