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domingo, 4 de junho de 2017

SEGUNDA GRANDE EXPOSIÇÃO DE BURLE MARX EM NEW YORK


Republicado de IstoÉ Independente
Crédito: Tyba
PINTURA ABSTRATA Roberto Burle Marx em seu ateliê, nos anos 1980. Os azulejos que decoram as paredes também são de sua autoria (Crédito: Tyba)


Roberto Burle Marx – Brazilian Modernist/ The Jewish Museum, NY/ até 18/9








PAISAGISMO URBANO Vista do Biscayne Boulevard (acima), em Miami, cujo pavimento foi desenhado por Burle Marx em 1988
PAISAGISMO URBANO
Vista do Biscayne Boulevard (acima), em Miami, cujo pavimento foi desenhado por Burle Marx em 1988 (Crédito:Burle Marx& Cia Ltda)

Paulistano, e “naturalizado” carioca, Roberto Burle Marx atuou desde o final dos anos 20 até sua morte, em 1994. Nesse arco de quase 70 anos de trabalho, desenvolveu uma obra multidisciplinar, “tão variada quanto fascinante”, segundo Jens Hoffman, o curador da grande retrospectiva de sua obra, organizada no The Jewish Museum. Esta é sua segunda exposição individual em Nova York. A primeira foi no MoMA-NY, em 1991, o primeiro solo dedicado a um arquiteto paisagista jamais realizado no museu nova-iorquino. Pintura, escultura, arquitetura, mosaico, cerâmica, gravura, design de joias, figurino de teatro, colecionismo e até culinária estão entre as suas habilidades, evocadas pela nova exposição, que apresenta um criador muito além dos importantes jardins tropicais que o consagraram no Brasil. “Um homem renascentista no século 20”, define o curador.
Ainda assim, o paisagismo é de fato sua marca distintiva. “O brasileiro é indiscutivelmente um dos mais influentes arquitetos paisagistas do século 20”, destaca Hoffman. Ele criou cerca de 2 mil jardins – em parte, nunca realizados – e descobriu cerca de 50 espécies de plantas. Antes de Burle Marx, os jardins brasileiros seguiam o padrão francês, valorizando as simetrias e a flora importada. Ele quebrou a regra, ao se interessar e valorizar a natureza local, nativa da Amazônia, da Mata Atlântica e da caatinga, tida então como “incivilizada”. Ao levantar a bandeira da brasilidade, Burle Marx está para o paisagismo assim como Villa-Lobos está para a música erudita, Tarsila do Amaral para a pintura e a poesia Pau-Brasil de Oswald de Andrade para a literatura.







Tapeçaria criada para a Prefeitura de Santo André, em exibição no The Jewish Museum
Tapeçaria criada para a Prefeitura de Santo André, em exibição no The Jewish Museum (Crédito:Paula Alzugaray)

Embora tenha iniciado a carreira como pintor figurativo, investindo em retratos e naturezas mortas – Burle Marx foi assistente de Portinari no final dos anos 1930 –, a exposição mostra como o criador abraça a abstração como princípio guia de seu design e paisagismo urbano. Com o partido geométrico, Burle Marx pode ser considerado um precursor dos movimentos de abstração geométrica que surgem na Venezuela e no Brasil, como o Concretismo e Neoconcretismo. O artista foi um pioneiro principalmente porque sua geometria desafiava categorias e buscava “o equilíbrio no desequilíbrio”.
Isso se reflete diretamente nos primeiros jardins, desenhados já no início dos anos 1930, sob influência da Bauhaus; em sua primeira obra pública comissionada pelo governo brasileiro, o jardim do edifício do Ministério da Educação e Saúde, no Rio, – um ícone da arquitetura moderna brasileira –, em 1937. Mas se consagra no design de pavimentos de parques e avenidas como o calçadão de Copacabana, hoje o símbolo máximo da cidade.
Acompanhada de uma publicação de 210 páginas, a exposição reúne peças – entre elas a tapeçaria criada em 1969 para a Prefeitura de Santo André (SP) –, esmiúça projetos e atualiza a influência do artista no mundo de hoje, ao apresentar trabalhos de artistas contemporâneos. Integram a mostra a francesa Dominique Gonzalez-Foerster, as brasileiras Paloma Bosquê e Beatriz Milhazes – que mostra no saguão do museu a instalação “Gamboa” (2013), composta por móbiles feitos de flores artificiais – e o compositor Arto Lindsay, autor da paisagem sonora “Butterflies, Molasses” (2016), especialmente composta para a exibição.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

MASO MOSTRA DETALHE DO NU FEMININO

Obra do conjunto que chama de Backsides ,
composto de 31 unidades.

Está expondo no Palácio das Artes, na Avenida Euclides da Cuinha, na Graça, o artista paulista Maso que morou alguns anos em Salvador, e foi um dos participantes da exposição Geração 70, que realizei no Museu de Arte da Bahia. Agora, Maso expõe 31 obras da série Backsides onde nos apresenta uma temática que ele vem trabalhando há muito tempo que é o nu feminino.
Desta vez ele focou na bunda, uma parte do corpo feminino que exerce atração e tem apelo sexual dos brasileiros em particular. Só que em suas obras Maso apenas nos leva a fazer um pequeno exercício, principalmente em algumas delas, para desvendar esta parte do corpo feminino já que não estão explícitas com imagem. Ele consegue criar um clima mágico onde o expectador fica procurando os detalhes dos traços envolvidos por camadas tênues de tinta.
Vista parcial no dia da abertura da
exposição no Palácio das Arte
s.
Ele trabalhou com carvão, pastel seco e acrílico, além de verniz para fixar. Usou um suporte não muito comum nas obras de arte que foi o cartonado duro , normalmente utilizado no dia-a-dia pelos sapateiros. Um detalhe interessante que ao cortar o cartonado este material tende a apresentar uma ligeira curvatura, que deu mais graça aos trabalhos do Maso.
Também, ele trouxe algumas obras formando séries intituladas de Inventários  do Cotidiano, são polípticos com cenas que  vivenciou no seu dia a dia.
O formato é quadrado os quais foram juntados lado a lado. Os cartões que pintou estão envolvidos em caixinhas de acrílico de cds . Assim  dá uma falsa ideia de que as caixinhas foram pintadas, quando na verdade elas estão servindo apenas de suporte dos cartões. Ambos os conjuntos de obras  expostas por Maso integram a série O Eterno Feminino, que na realidade é uma temática que permeou toda sua trajetória pictórica que foi o nu feminino.

Detalhe de um políptico autoria de Maso.
No convite, a historiadora e crítica de arte Elvira Vernaschi, escreveu : Nota-se neste conjunto sua preocupação com as possibilidades que a figura humana e, essencialmente a feminina, podem sempre desenvolver na perspectiva de estudos e detalhamento de cada trabalho, bem como em vencer dificuldades que a matéria possa oferecer e que às vezes surpreende no resultado final. Sua obra fica então no limite entre uma realidade que já quase não se percebe, e a profundeza e suavidade de formas e cores que o aproxima e ao observador de novos valores estéticos".


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

INSTALAÇÃO CAIXA PRETA

INSTALAÇÃO CAIXA PRETA 

Durante o período em que fiquei na Penitenciaria Lemos Brito, em Salvador-BA. de 2000 aos meados  de 2003, tentei amenizar àqueles dias trabalhando e atraindo alguns internos para o mundo das artes. Pintamos várias fachadas das celas com elementos de referência de cada um. Por exemplo, se o preso era um músico pintávamos  temas  identificados com sua preferência.
Passei três meses para conseguir a liberação do material de pintura, e na época contei com a força de alguns amigos que solicitaram  a liberação através de reportagens nos jornais , e conversas com a diretoria da penitenciária.
Vários dos presos estavam mexendo pela primeira vez com tintas e papéis, os quais foram  doados por um amigo dono de uma grande  empresa gráfica .O resultado foi um diário de imagens que pintamos em preto e branco.
Nos momentos que batia a angústia por estar ali tolhido da minha liberdade trabalhava intensamente .Isto pode ser visto nos traços mais vibrantes , nervosos até,e quando estava mais tranquilo pintava com poucos traços .São registros de momentos bem diferentes .Quando não tinha a tinta  vermelha  cheguei pintar com sangue, e quando faltava o marrom com  café! 
As fachadas das celas eram coloridas dando assim alguma alegria ao Pavilhão .Nos dias de visitas promovia oficinas de arte para as famílias, principalmente, para distrair as crianças filhos dos internos. 
A Instalação Caixa Preta foi confeccionada com papéis em forma de um labirinto com vários desenhos meus e dos internos , além de fotografias que registraram os momentos da prisão,  e matérias de jornais que saíram durante o período em que estive preso. É sonorizada com músicas de reggae, que era a preferência musical dos internos. Este tipo de som rolava de dia e parte da noite nas celas dos presidiários. 
Produzi várias obras durante o período ,e também, objetos com materiais encontrados por lá . Fiz questão de deixar estas obras na penitenciária. 
Quando  comecei a pintar as fachadas das celas fiquei um pouco receoso de como os internos poderiam reagir. Porém, apenas um deles chegou a me censurar, quando pintei um auto retrato na fachada da minha cela .Passados alguns dias, este mesmo interno  pediu para pintar o seu retrato  na fachada .Ele já tinha quase trinta anos  de encarceramento e tinha sido condenado por assaltar bancos.
Esta instalação  foi exposta no Mam-Ba, em 2004 e ganhou o Prêmio Braskem de Cultura e Arte.
Durante a exposição  encontrei várias pessoas emocionadas, e até chorando , quando reconheciam como sendo o autor me abraçavam e diziam com dificuldade que estavam muito emocionadas . 
Acredito que a cadeia não recupera ninguém, mas a arte sim,pode ser um dos caminhos da ressocialização.

Desde 2004 não mostrei este trabalho em nenhum outro local , porque o meu desejo é que alguma fundação ou espaço cultural adequado adquirisse para que ficasse exposta permanentemente. Desta forma um público maior e mais diversificado tomaria conhecimento de uma obra que foi realizada por um artista em um local adverso ,que é a penitenciária. É um diário de imagem singular expressivo, onde o artista deixou brotar suas emoções, suas angústias e até o desespero da perda da liberdade através uma instalação plural que cabe ser mostrada em qualquer lugar do mundo!

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

MORRE O ARTISTA CEARENSE SÉRVULO ESMERALDO

Sérvulo foi um dos pioneiros da arte cinética
Morreu ontem , dia 1º,aos 87 anos, o artista cearense Sérvulo Esmeraldo, depois de sofrer um acidente vascular cerebral ( AVC).Estive com ele na sua última exposição aqui em Salvador, na Galeria Paulo Darzé quando  mostrou suas belas esculturas. Conhecido como  "o poeta das linhas "vai deixar mais uma laguna no mundo das artes que sempre registra perdas ,mas sua obra permanecerá para sempre nos museus, nas coleções públicas ou particulares.Veja a matéria que escrevi em 5 de dezembro de 2014,sobre a exposição do Sérvulo Esmeraldo:
SÉRVULO ESMERALDO EXPÕE EM SALVADOR
São  mais de 50 anos de dedicação à arte. Um cearense que saiu de seu canto , a cidade do Crato ,e foi para a Europa onde passou boas temporadas trabalhando, aprendendo, mantendo contatos e amizades com artistas importantes.É um criador nato que pensa e elabora com cuidado quase científico o que vai resultar da sua ideia inicial. Desenha e imagina posições e os materiais que vai utilizar para concretizá-la. Neste seu processo criativo  nos apresenta uma série de volumes, que colocados em determinados locais nos leva a criar uma infinidade de imagens.São representações de papéis feitos de aço trefilado e outros metais que parecem voar nas paredes; são estruturas circulares dobradas ,côncavas ou convexas dispostas no chão, que nos dão a sensação de que podem ser manuseadas, criando pessoalmente outras possibilidades de composições;são junções de elementos que se lançam ao espaço em busca de altura; são volumes que se dobram e outros que deixam suas sombras como se fossem a continuidade da obra.

A vontade que a gente tem é de tocá-las e manuseá-las criando nossas próprias formas. É uma produção que prima pela racionalidade.Sua formação  certamente influencia na sua criação, embora a sensibilidade demonstrada na sua produção  foge um pouco do concretismo mais apurado.
Nascido no Crato, em 1929, Sérvulo Esmeraldo é escultor,gravador,ilustrador e pintor.Em sua biografia está registrado que começou como um artista dedicado à xilogravura. Em seguida foi residir em São Paulo,e logo depois fundou o Museu da Gravura em sua cidade natal.
Sua primeira viagem à Europa foi através uma bolsa do governo francês, onde foi estudar em Paris litografia na École Nacionale Supérieure des Beaux-Artes e, em seguida, inicia seu trabalho em metal.
Nos anos 60 participa do movimento cinético, quando cria obras movidas pela eletricidade estática.
Volta em 78 para Fortaleza e começa a trabalhar com chapas de aço produzindo suas esculturas com planos dobrados e pintados.Em 1986 organiza a 1ª Exposição de Escultura Efêmera de Fortaleza e passa a criar relevos que  sugestionam encontro de faces. 
Agora Sérvulo Esmeraldo com toda sua experiência com os materiais utiliza a geometria para suas construções e volumes vazados que são muito apropriadas para a gente observá-las no silêncio de uma tarde. Ai surgem diante de nós as possibilidades de girar, de dobrar, de mudar de lugar e assim vão surgindo em nossas viagens imaginárias novas obras. É como se fosse um exercício lúdico, um aprendizado inesgotável.
Sérvulo Esmeraldo ao centro ladeado por mim
e o pintor,italiano Gianfranco D'Andrea
 Estive presente na abertura da mostra na galeria Paulo Darzé oportunidade que troquei algumas poucas palavras com o artista. Embora em algumas fotos  apareça com o semblante fechado é uma pessoa de fácil acesso e cordial. Falou  de sua estadia na Europa e pouco lembrava que já foram realizadas aqui algumas exposições com suas obras. O que importa é que ele está ai firme produzindo e tendo a satisfação de ver e ouvir que sua obra está sendo apreciada por um público amplo.
Outro aspecto importante salientar é que embora já tenha mais de oitenta  anos de idade sua obra é de uma contemporaneidade ímpar. Pode figurar em qualquer museu ou coleção importante da arte contemporânea feita no mundo .Ele é um protagonista e um criador antenado com  o que acontece ao seu redor.

sábado, 28 de janeiro de 2017

PICHADORES E GRAFITEIROS E O ESPAÇO

Ai está um exemplo da pichação que enfeia
tanto as grandes cidades.
Fico revoltado quando vejo uma cidade completamente tomada por pichações que só dizem respeito a atitude  de frustração de pessoas que invejam os que têm patrimônio. Eles não podem ver um muro pintado que chegam furtivamente nas madrugadas e picham. Não  conformados disputam entre si quem é capaz de pichar mais alto. Assim, prédios de até 10 andares são pichados. Os monumentos são preferidos pelos pichadores que também não respeitam nem os grafiteiros. Picham os grafites.
Existem grafites de qualidade e outros que são verdadeiras porcarias . Muitos não merecem espaço algum. São violentos, mal feitos, grosseiros ou fazem apologia de ditadores ou de ideologias carcomidas pelo tempo,  a exemplo de um  em São Paulo que trazia  o rosto do Chaves, da Venezuela. 
O grafite é uma arte efêmera que ocupa um espaço público ou privado e permanece ali enquanto o proprietário permitir ou mesmo o gestor público. Ninguém é dono do espaço pelo simples fato de estar ali um grafite de sua autoria ou porque chegou primeiro. Não é um jogo ganho. Simplesmente, o grafite está sujeito às intempéries, e também a ação de pessoas que não gostam e não querem aquelas figuras, algumas vezes horrorosas, que contribuem para a poluição visual que enfrentam as grandes cidades.
Sou daqueles que acham que o grafite bom deve ser documentado, fotografado e filmado para que fique registrado e até guardado num museu para ser mostrado quando bem convier. Mas, não sou a favor de sua perenidade nas ruas, porque esta não é a função da arte efêmera. O mesmo acontece com as performances, hoje, tão comuns nos salões, galerias e bienais.
Noto que existe um egocentrismo daqueles que fazem grafite a ponto de  considerar sua obra intocável. Não é, e não deve ser. Deve haver sempre uma rotatividade para que outros grafiteiros possam mostrar sua arte naquele lugar. Esta coisa de lugar marcado está errado, é um contra-senso porque o espaço é público, portanto, pertence a todos. E, se o proprietário do muro quiser mudar o grafite, apoio totalmente porque o espaço é dele e cede a quem quiser.
Kids , belo grafite do Eduardo Kobra,
que merece ser fotografado e filmado para
sua preservação.

Sei que existe muita diferença entre pichação e grafite. A pichação apresenta rabiscos sujando muros e fachadas de prédios, até monumentos importantes  com palavras incompreensíveis ou de protesto. Existe uma disputa entre verdadeiras gangs para ver quem picha mais alto e eles marcam territórios.
Já o grafite tem um cunho artístico, e atualmente vários grafiteiros já expõem em museus e galerias em todo o mundo. Esta arte de rua deve ser fotografada e filmada para ser preservada, porque  está sujeita a se deteriorar com a ação do sol, das chuvas, e também de pessoas que por alguma razão resolvem deixar ali a sua marca ou mesmo ser danificada por pichadores.




quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

MANOEL BOMFIM O EMISSÁRIO DOS ORIXÁS

Manoel Bomfim na sua exposição na galeria da
Federação do Comércio
Quero registrar mais uma vez a obra de um dos

mais tradicionais artistas de origem popular de nossa Bahia. Trata-se de Manoel Bomfim que faleceu no dia 19 de março do ano passado , e está enterrado no Cemitério Bosque da Paz, no bairro de Nova Brasília, e poucas pessoas tiveram conhecimento do seu passamento.
Bomfim era um negro típico da Bahia, ligado ao candomblé, morador antigo do bairro do Rio Vermelho e depois mudou-se para um prédio na Boca do Rio.
 Tinha a conversa fácil e agradável , além de sua risada inconfundível, dando uma  aparência que era feliz eternamente. Gostava de falar de seus trabalhos plásticos sempre ligados a coisas do candomblé, principalmente os Orixás. Pintou,fez tapeçaria  e esculpiu centenas de Orixás que hoje estão espalhados em coleções daqui e de fora do país. Era ogã confirmado da Casa Branca,tinha portanto conhecimento e envolvimento com o mundo dos Orixás.
Esta escultura em forma de
uma telha retrata um Orixá.
Me foi presenteada pelo
saudoso Manoel Bomfim.
Trabalhou como servente na Escola de Belas Artes e foi através desta convivência com a arte e os professores e alunos  que descambou para iniciar seus primeiros passos na escultura dos Orixás. Terminou sendo professor auxiliar de Modelagem. Lembro que em novembro de 2002 ele comemorou 50 anos de arte. Estava visivelmente alegre com as exposições que iria realizar mostrando pinturas e esculturas. Era uma realização e reconhecimento de todos estes anos de muito trabalho e dificuldades. Na realidade o trabalho não veio lhe proporcionar uma vida mais confortável ou seja não lhe deu grandes vantagens financeiras.
 Sempre teve uma vida humilde com seus filhos e sua esposa Maria Augusta Gomes do Bonfim que era muito conhecida por preparar um gostosíssimo bacalhau de martelo e uma batida de limão inesquecíveis nos encontros com os colegas artistas. Numa conversa recente que tive com seu filho, e também artista João Augusto Bonfim  se queixou que não deram  a devida atenção à memória de seus pais, ambos falecidos,que eram  pessoas especias. Hoje,  João Augusto e o Manoel, filhos do mestre dos Orixás.estão formados pela Escola de Belas Artes da Ufba e trabalhando com arte.
O patriarca Manoel Bomfim - ele gostava de assinar com m, embora fosse batizado com n de Bonfim, uma homenagem ao Senhor do Bonfim - fez sua primeira exposição em 1963 na então Galeria Bazarte, de José de Almeida Castro,que ajudou muitos artistas que hoje estão ai como os líderes de mercado, sendo que muitos inclusive já faleceram.
Manoel Bomfim nasceu em 25 de maio de 1928,portanto, faleceu perto de completar 88 anos em 19 de março de 2016.Deixou um legado artístico que precisa ser estudado por algum aluno da Escola de Belas Artes através de uma tese de mestrado ou coisa que o valha mostrando esta sua trajetória de servente até professor auxiliar de Modelagem , sem esquecer que era  tapeceiro, pintor e escultor.
Lembro que em janeiro de 2003 ele estava expondo na Galeria da Casa do Comércio e fui encontrá-lo. Estava contentíssimo com a exposição  e na época reproduzi este pequeno texto de Jorge Amado que diz : "Manoel do Bonfim é um filho do povo da Bahia, cuja arte ingênua, porém verdadeira, nasce diretamente das fontes da cultura popular,e se mantém fiel às suas origens despida de artificialismos, modismos integrada nas tradições e na vida.
O caminho do artista Bonfim foi traçado por ele próprio, com seus próprios meios, com sua obstinação.Aprendeu com o povo, nas rodas de samba,nos candomblés,nas escolas de capoeira,nos carurus de Cosme e Damião, na rampa do Mercado , ao lado dos pescadores,dos barraqueiros, da gente pobre,aprendeu com os Orixás".
O festejado e saudoso escritor Jorge Amado sabia dizer em poucas linhas a essência da obra de um artista, principalmente quando se tratava de um artista que viesse do seio da cultura popular, fonte onde bebeu incansavelmente para escrever seus belos e grandiosos romances.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

REGISTROS DE PASSAGENS DE SÉRGIO RABINOVITZ

Sérgio autografando meu exemplar de
Registros de Passagens.
Revi pessoalmente o pintor Sérgio Rabinovitz depois de alguns anos. Foi no lançamento de seu livro de Registros de Passagens , no último dia 13, na Galeria Paulo Darzé. A sala principal da galeria estava cheia de conhecidos frequentadores de vernissagens e deste tipo de evento cultural . A alegria era geral, enquanto Claudius Portugal  organizador do livro, e Sérgio autografavam os exemplares que foram distribuídos gratuitamente entre os presentes.
Tenho acompanhado a obra de Sérgio Rabinovitz desde a década de 70 quando ele retornou de uma bolsa de estudos nos Estados Unidos, onde chegou influenciado pelos grafites que via diariamente nas ruas de New York. Assim seus trabalhos iniciais tinham uma forte marca do gestual, de um grafismo vigoroso e moderno. O artista é de certa forma metódico naquilo que pretende realizar, e assim vai construindo uma obra coerente através dos anos.
Claudius e Sérgio na noite de autógrafos.
Ao folhear o livro encontramos cerca de 80 trabalhos em preto e branco onde ele capta a essência de momentos do que acontece nas praias, nas ruas, becos ,praças e mesmo nas casas de Salvador. São cenas do cotidiano desta cidade mágica como a puxada de rede, o vendedor de passarinho, as festas populares. Cada obra é uma crônica visual. As obras nos levam a imaginar a movimentação das pessoas, a alegria estampada em rostos negros marcados pelo sol e o salitre deste mar que banha a nossa costa.
Filho de músicos, inclusive seu pai Salomão Rabinovitz era solista da Orquestra Sinfônica da Universidade Federal da Bahia e por diversas vezes esteve comigo para divulgar seus concertos no jornal A Tarde, onde trabalhava. Porém, não sabia que Sérgio andou tocando flauta doce e até viajou pelo Brasil afora em suas apresentações musicais.
O tradicional baba na praia
Frequentou os ateliês do saudoso Calasans Neto. e também de Mário Cravo. Diz Sérgio no depoimento a Claudius Portugal que no atelier de Calá "tive a pedra de toque para minha escolha colocando em minhas mãos alguns instrumentos de corte, de xilogravura, uma goiva, formões, mostrando como se cortava a madeira e me mandando para casa trabalhar e trazer o resultado". Já com Mário Cravo ele tem contato com a gravura em metal, a escultura em ferro, e ele "me ensina a ser capaz de minha arte".
A puxada de rede na orla de Salvador
Em 1979 gradua-se bacharel em Artes Plásticas pela Cooper Union for the Advancement of Science and Arte, em New York. Foi exatamente no seu retorno que tivemos o primeiro contato quando ele me mostrou trabalhos que tinha feito sob a influência dos grafites que cobriam as paredes e muros da grande metrópole americana..
Portanto, ao olhar estas obras integrantes do livro tive a impressão que Sérgio acabara de desembarcar num sonho onírico em nossa cidade, como aconteceu em Nova Iorque há vários anos. Sérgio  se delicia com as cenas urbanas desta magia miscigenada que encantam os olhos de todas as pessoas que têm alguma sensibilidade. Os traços são firmes, econômicos. Sim, porque com poucos traços e gestos ele compõe as paisagens que nos deixam reflexivos tentando preenche-las ou não  com  elementos presentes e ausentes.
Hora do passeio na Barra.

Talvez , estivesse em momentos
contemplativos observando o vaivém das marés, o andar de lá pra cá das pessoas, enquanto a brisa refrescava o seu corpo.
Quero registrar que este livro foi editado com o patrocínio da Assembleia Legislativa, que vem fazendo um trabalho cultural digno de elogios com lançamentos de livros que enriquecem a cultura baiana.