Translate

sábado, 8 de julho de 2023

CELUQUE VIVE ENTRE AS GALÁXIAS E OS PINCÉIS

E
Leonardo Celuque em 1986 e atualmente
em seu ateliê.
stou diante de um artista que vive voltado para o Universo, as novas descobertas científicas, a Filosofia e manifestações do espírito. Ele transita entre a ciência e o espiritual porque gosta de deuses  e de praticar artes marciais e ao mesmo tempo de meditar e principalmente de observar e representar o Universo em sua arte. Foi assim que decidiu ir até o mosteiro zen-budista que existe no município de Ibiraçu, no Espírito Santo, onde chegou a ser ordenado. Os monges deste mosteiro budista Soto Zen procuram unir à realidade brasileira para transmitir seus ensinamentos milenares. E a busca, a inquietude de Leonardo Celuque transita principalmente entre as realidades, a imensidão do Universo e as descobertas científicas que estão cada vez mais aceleradas com a inteligência artificial que é um dos temas que o fascina e preocupa. Quando lembrei que o cientista e historiador israelense Yuval Harari disse que a inteligência artificial vai criar uma massa de inúteis e que teremos que nos reinventar constantemente. Celuque balançou a cabeça mostrando preocupação com este futuro tão perto de nós. O historiador israelense também vaticinou que “é possível criar algoritmos que nos conheçam melhor do que nós mesmos, que podem nos hackear e manipular nossos sentimentos e desejos. Eles não precisam ser perfeitos, apenas nos conhecer melhor. E isso não é difícil, pois muitos de nós não se conhecem muito bem”, disse. Percebi que ficou incomodado porque ao conversar comigo não me aprofundei nestes temas porque não são assuntos que domino e tampouco tenho um interesse vital como acontece com ele. E durante a conversa mostrou que sente dificuldade em se relacionar porque esses assuntos quase sempre não podem ser compartilhados a não ser por um grupo restrito de amigos  e mesmo assim têm pontos de discordância. 

Catálogo da primeira
 exposição
.
Na primeira exposição que fez em abril de 1982 na Genaro Galeria de Arte, da saudosa Domitila Garrido, falecida em 2019, mostrou suas pinturas figurativas, inclusive a capa do catálogo tem um autorretrato onde aparece tendo ao fundo o mar, coqueiro e um morro. Atualmente abandonou o figurativo e faz uma arte que alguns classificam de realismo científico pintando inúmeros corpos celestes como galáxias, estrelas, nebulosas, satélites, meteoros, meteoritos e planetas que lembram as que vemos quando a Nasa nos revela novas imagens captadas por um satélite ou mesmo pelo famoso telescópio Hubble, que já transmitiu milhares de imagens do Universo para alegria dos cientistas. Escreveu no catálogo de sua exposição em 1989 que "a diferença básica entre a atitude do mágico e a do cientista é que o primeiro desenha o mundo dentro de si e o segundo externaliza e impessoaliza o mundo por um movimento de vontade em direção oposta." E continuou: “Gaia, a nossa mãe-terra funciona como um organismo vivo. Estamos não apenas circundados, mas somos parte de um mar de informação onde o mundo observável é um aspecto de uma vasta ordem invisível."

                                                               QUEM É 

Celuque e sua última obra ainda sendo
 finalizada
.
O Leonardo Ribeiro Celuque nasceu em 29 de abril de 1954 na maternidade Hospital Português, em Salvador, Bahia e teve sua infância dividida entre o Morro Ipiranga, que era um local chic, e a praia do Cristo, na Barra, que frequentava para preocupação de seus pais porque naquela época era quase deserta e ainda tinha uns frequentadores que eram considerados perigosos. Mas, o Celuque ali se sentia à vontade porque gostava de mergulhar e pescar peixes e mariscos nas locas, observar os pássaros, e outros animais que habitavam naquele pedacinho de restinga . Assim levava sua vida matando sua curiosidade. Também os rochedos e as plantas eram motivo de suas observações. Ele relembra que era um pedacinho de mundo selvagem e com alguma biodiversidade. Também frequentava as fazendas de seu pai no Vale de Iguape, em Cachoeira, onde plantavam cacau, e a do seu avô chamada de Floresta Negra, no município de Ipiaú, também dedicada ao plantio do cacau. "Adorava ir para as fazendas", diz Celuque.

Foto 1. Homem Azul 3. Foto 2.Homem Azul 2.
Foto 3. Encapuçado (croquis )

.


Fez o primário na Escola Modelo, que funcionava no bairro da Graça, onde depois passou a morar na Avenida Euclides da Cunha e continua até hoje. O ginásio e o cientifico foi no Colégio Marista, que funcionava no bairro do Canela, em Salvador, e ao terminar fez vestibular para Física, mas não conseguiu concluir porque achava que era muita teoria e pouca prática. Cursou apenas dois anos. Recorda que as aulas de Geologia I e Geologia II eram as que mais lhe agravavam porque tinha aulas de campo e que gosta muito de ver e examinar rochedos e os minerais de modo geral. Em 1976 faz vestibular para a Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia, e faz um curso com a artista norte americana Alice Baber. Em 1978 ganhou uma viagem para a Europa de seus pais e fixa residência na França e no ano seguinte participa de um curso na Academia de La Grand Chaumière onde convive com vários artistas já estabelecidos e com muitos jovens iniciantes. Lá faz muitos desenhos de modelos vivos e mesmo de objetos, de ruas e prédios. Afirmou que as modelos eram estudantes, "mulheres lindas", que tiravam a roupa para servirem de modelo no maior respeito possível.  Isto lhe permitiu aprimorar seus conhecimentos de desenho e sobre a arte de modo geral. Diz que trocava ideia com artistas já profissionais e que tinha gente de várias partes do mundo. "Foi aí que passei a ter mais atenção com o feminino porque as modelos eram mulheres jovens muito bonitas que me encantavam ".

Shiva, acrilíca sobre tela.
Volta a Salvador e continua seu curso na Eba quando foi monitor de aulas dos professores Riolan Coutinho e de Aylton Lima até concluir em 1980. Seu pai Raul Golfeto Celuque era ligado a indústria e sua mãe Walquiria Ribeiro Celuque era dona de casa. O casal teve cinco filhos, sendo três homens e duas mulheres. Atualmente gosta de Alquimia e disse que "eu não me perco, são os outros que se perdem. Quero entender as origens dos elementos, acompanhar a complexidade do nosso organismo." Fez o Mestrado em História da Ciência e hoje ensina História, Desenho e Pintura aplicado a Arquitetura, além de Perspectiva de Sentimento, Perspectiva numa faculdade particular.  "Sinto que a formação dos jovens no ginásio e no colégio está muito aquém do que estávamos acostumados. Acho que vem piorando a cada ano e os jovens chegam nas universidades muito despreparados e isto dificulta sua formação profissional.", observa Celuque. 

Ele confessa que gosta de várias áreas e que isto talvez seja um defeito. Adora aulas práticas e teve como professor Arne Mune que dava umas belas aulas práticas exatamente na praia do Cristo, que tanto frequentava e conhecia . "Parece que os deuses resolveram me ajudar conduzindo as aulas para aquele local que tanto me identificava", disse Celuque. Foi casado e tem um filho de 36 anos que reside na Austrália e gosta de surfe. Contou que ao se separar teve que criar o seu filho dos oito anos até que alcançou a maioridade. "Foi uma experiência bacana". Para e faz alguns segundos de reflexão, e como que acorda e diz. "É a vida!".  Talvez quisesse dizer a vida é assim criamos filhos para o mundo. 

Em 2018 fez uma carta a colecionadores americanos que doaram seis obras de sua autoria para a Biblioteca de Santa Bárbara , da Universidade da California, nos Estados Unidos. Vejamos o que escreveu Celuque :  "Sempre amei a noite com suas estrelas, assim como o dia com suas maravilhas reveladoras. A natureza é rica em beleza, e a maioria de nós, em algum momento é tocado por ela. A visão do mar ou de uma bela manhã no campo têm o seu encanto particular. Um arco-íris em uma tarde chuvosa também nos chama a atenção com a mesma força. Outros cenários naturais nos fornecem imagens belas, que não só se aplicam às coisas, mas também ao campo das ideias. Uma flor tanto intriga um poeta como também um cientista. Comecei meus estudos acadêmicos na Universidade Federal da Bahia, em Física, mas depois acabei me transferindo para Artes Plásticas.

Hoje em dia as imagens do nosso imaginário estão sendo ampliadas por computadores e estações orbitais. Entendo o meu trabalho como uma tentativa de expressar o meu próprio espanto nesse contexto complexo e amplo em que estamos inseridos, uma época que nos situa com espanto, como uma mistura de poeira e astro, como apontou um velho poeta."

                                                                    EXPOSIÇÕES REALIZADAS

Foto 1. Rochedo. Foto 2.Chama Solar,1898.
Foto 3.Campo Estelar, 2002. Foto 4. Rastro 
de Cometa, 1986. Foto 5. Ordem Terceira 
de São Francisco.
Ingressa na Escola de Belas Artes em 1976 e neste mesmo ano participa de um curso com a artista americana Alice Baber. Em 1977 integra a Exposição Coletiva no Salvador Praia Hotel; 1980 Exposição Proposta 80; 1981 Exposição de Artes Plásticas da XXXIII Reunião da Sociedade Brasileira de Pesquisa e Ciência - SBPC; 1981 - Exposição Encontro dos Artistas do Nordeste; 1982 - Sua primeira exposição individual na Genaro Galeria de Arte; 1982 - Participa do XXXV Salão de Artes Plásticas de Pernambuco; 1983- Participa do XXXVI Salão de Artes Plásticas de Pernambuco; 1984 - XXXVII Exposição de Arte Contemporânea Chapel Art Show, em São Paulo; 1984 - Exposição Coletiva no Beco da Arte, em Salvador; 1986 - Exposição Individual na Galeria O Cavalete, em Salvador; 1987 - Exposição Escotilhas Para o Aberto. Museu de Arte da Bahia, Salvador; 1988 - Coletiva Abril na Galeria Artenata, em Salvador ; 1988 - Exposição Rotas e Perspectivas, na Anarte Galeria , Salvador;  1988 - I Salão Baiano de Artes Plásticas no Museu de Arte Moderna da Bahia; 1989 - Exposição Individual na Galeria Artenata, em Salvador; 1989 - Exposição The Evolution of Image or The Image of Evolution: The Visual Art of Leonardo Celuque, na Universidade do Colorado, nos Estados Unidos; 1989 - Exposição no Escritório de Arte da Bahia, Salvador; 1991 - Exposição de Pinturas  Galaxies, Myths and Stars, em Nova Iorque, nos Estados Unidos; 2013 - Exposição no Circuito da Artes ,em Salvador; 2013 - Exposição Triangulações, em Brasília ;  2014 - Exposição no Circuito das Ates, em Salvador; 2016 - Exposição de Desenho no Circuito das Artes, em Salvador; 2022 - Pintura Art Walk and Talk, na Biblioteca de Santa Bárbara, na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos.

                                                   REFERÊNCIAS

Croquis de duas mulheres feitos na La
Grand Chaumière, Paris, e
detalhe de árvore.
Em 1982 quando da sua primeira exposição individual na Genaro Galeria de Arte o crítico Wilson Rocha escreveu: "A pintura dos nossos dias traz uma problemática de certo modo inédita - a inquietude dos artistas menos acomodatícios, que buscam os campos não esgotados no passado. Insinuando eloquentemente o calor da vida e a densidade de problemas ocultos sob os símbolos e objetos do nosso mundo, Celuque, jovem artista baiano, cultiva uma pintura emotiva e de grande sensibilidade com uma técnica da mais alta qualidade. uma pintura objetiva e lírica, em busca da contenção da cor e da afirmação de um cromatismo tonal capaz de expressar a quietude de sua bagagem de imaginação, pensamento e sonho.

Sua visão incorpora, com extraordinário frescor, a ressonância da pop art e a poderosa influência que a fotografia exerce sobre a pintura hoje. Uma leitura onde o fundamental é a sua existência, mesmo esboçando, sumariamente, uma explicação epidérmica, fragmentária e completamente provisória da vida atual, este campo de luta entre a violência e a poesia".

Ilustração da poesia A Volta da Primavera,
para o livro Castro Alves, editado
pela Odebrecht.
Já o psiquiatra e pensador Ricardo Chemas escreveu em 1986 no catálogo da exposição que Celuque fez na Galeria O Cavalete, que funcionava no Salvador Praia Hotel, chamou de Galáxias, Mitos e Estrelas. É um longo texto que aqui público uma pequena parte. Vejamos: ..."Encontramo-nos em plena Terceira Onda, no dizer de Toffler, num planeta azul e recém-nascido 0nde a cosmologia tornou-se uma ciência experimental, e não mais domínio do irracional ou de ficções religiosas.

Junto a este vertiginoso mergulho, a arte de Leonardo Celuque vem para nos lembrar, todo o tempo, que neste mundo a maravilha é comum, e o espanto, uma dádiva de todo o homem. Shiva é também, de fato, a imagem de um dançarino real, lida sob o espectro do infravermelho e processada por computador em cores falsas, porém agudamente belas. Vivemos numa época incrível da História, um
Foto 1. Ictiossauro. Foto 2. Peixe Fóssil
Nestas obras ele escreve mensagens .


 momento no qual o homem começa a dar-se conta de que o cosmos é mais vasto do que as fantasias narcísicas a seu respeito, e mais, que é chegado o momento de observar em vez de supor"....  Já na exposição do escritório de Arte da Bahia, que também funcionava no Salvador Praia Hotel, em 1989, foi reproduzido o texto de Wilson Rocha e parte de um texto que escrevi. Vejamos ... "Celuque trocou o pincel e passou a vasculhar os céus com seu telescópio eletrônico e captou aquilo que mais o sensibilizou, aquilo que mais se identificou com o seu próprio universo de conhecimento . Neste contato entre o homem e o desconhecido surge a arte de Celuque"....

.

 

sábado, 1 de julho de 2023

SANTOS E ORIXÁS NA LEVEZA DAS ESCULTURAS DE IZA GUIMARÃES

Iza em foto atual e em três momentos.
Os santos e orixás ganham mais nobreza nas pequenas esculturas em prata e latão da artista Iza Guimarães. Há décadas vem criando e repassando seus ensinamentos na arte escultórica que exerce com muita habilidade e criatividade.  Também cria joias como anéis, gargantilhas, brincos, pulseiras, medalhões, tiaras com incrustações de pedras preciosas, semipreciosas e esmaltadas, além de troféus. Domina com maestria a arte da joalheria e a sua aparente fragilidade física não impediu de trabalhar com laminadoras, martelos, bigornas e cinzeis para moldar os metais e outros minerais utilizando ainda o fogo do maçarico para conseguir as belas formas de suas esculturas e joias.  Muitos de seus trabalhos estão espalhados pelo país e no exterior porque dirigentes de empresas e autoridades costumam adquirir para presenteá-los aos clientes, e  aos visitantes ilustres. Temos uma tradição na Bahia de grandes ourives no período colonial como Alberto Sampaio, Lourenço Marques, Manoel Eustáquio Figueiredo, cujas peças estão expostas no Museu Carlos Costa Pinto, e no Museu de Arte do Estado, no Corredor da Vitória, em Salvador e nas sacristias de nossas igrejas. O curioso é que duas mulheres oriundas da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia a Iza Guimarães e Liane Katsuki romperam mais esta barreira masculina criando aqui as suas esculturas e joias com um requinte dos novos tempos. 

Conhecemos as extraordinárias obras escultóricas e joias feitas pelos antigos habitantes do México, Peru, Colômbia e outros países americanos as quais estão enriquecendo os acervos dos museus desses e de outros países. No Egito antigo os artesãos deixaram importante legado. São testemunhas de que o homem desde os tempos imemoriais tinha uma ligação forte com esta arte e o fogo foi um elemento determinante para que conseguissem moldar suas esculturas e joias. Antes usadas para homenagear seus deuses e líderes com o passar dos tempos passaram também a serem utilizadas como ornatos tanto masculino quanto feminino. É exatamente dentro do universo desta arte nobre que a baiana Iza Guimarães transita captando com sua sensibilidade as possibilidades que os metais, pedras preciosas e semipreciosas podem oferecer para a feitura de suas pequenas esculturas de santos, orixás e joias.

Quatro belas jóias feitas por Iza Guimarães.

Segundo Mercedes Rosa no seu trabalho  Ourivesaria Baiana Colonial: Os Ourives e Suas Obras foi "No começo do século XVII, entre vários ourives de naturalidade portuguesa, como: Joaquim Soares da Fonseca, de Lisboa; Francisco de Sousa Salgado, de Braga; João Pereira da Silva, de Vila de Caminha e Domingos e Antônio Francisco, de Lisboa, destacaram-se alguns baianos, como Pedro Guerreiro de Aguirre, João de Almeida Pacheco, Manoel de Almeida Pacheco, Antônio dos Santos, Jacinto Ferreira dos Santos, Manoel Pereira de Sousa e outros. Entretanto, Francisco Vieira, o “Fanho”, de origem portuguesa, é a grande figura da ourivesaria baiana no século XVII. A estes ourives coube a continuidade da arte, aprendida dos mestres portugueses."

A Mercedes Rosa fala ainda que existem poucas peças destes mestres ourives do período colonial porque era prática comum desmanchá-las para a confecção de outras em estilos de cada época. Quem já não levou uma corrente, um crucifixo ou bracelete para o ourives fundir e fazer uma nova joia como uma aliança, um anel? Atualmente está difícil a qualquer cidadão andar com uma joia porque o nosso país está infestado de ladrões.  Eu mesmo vinha andando na Rua Carlos Gomes, no Centro de Salvador, em companhia de um amigo por volta de umas dez horas da manhã quando fui atacado por um ladrão que tentou arrancar uma corrente de ouro que costumo trazer no pescoço. A violência foi tamanha que fiquei umas duas semanas com um hematoma no pescoço e com a voz afetada.

                                                           QUEM É 

Iza mostrando um dos Orixás de sua autoria.
A Iza Assumpção Guimarães nasceu em 28 de julho de 1943 filha de Júlia Freitas
Assumpção e Francisco Claudino Assumpção no bairro de Nazaré curiosamente na Ladeira do Prata, próximo ao Convento do Desterro. Estudou o primário e ginásio no Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, na Avenida Joana Angélica, no bairro de Nazaré, em Salvador, da famosa professora e educadora d. Afrísia Santiago que foi responsável pela formação de muitas gerações da sociedade baiana. Era conhecida  pela disciplina que empreendia em seu colégio onde só estudavam meninas. Iza Guimarães estudou lá durante sete anos e em seguida foi fazer o curso Pedagógico no Instituto Isaias Alves. Fez concursos para Supervisora de Educação, do Estado da Bahia onde atuou de 1967 a 1985  e na Secretaria Municipal de Educação de Salvador de 1969 a 1980. Nesta época já fazia seus desenhos e pinturas e mostrava aos pais o desejo de cursar a Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia. Porém, graças a uma informação exagerada, mas talvez compreensiva para alguns,  do pintor Oscar Caetano a seus pais dizendo que a Eba era "um centro de perdição". Teve assim por um tempo seu desejo impedido de ser realizado. Foi aí que ficou vinte e cinco anos como Supervisora de Educação, profissão que não gostava muito. O interesse pela arte não saía de sua cabeça. Certo dia nos idos de 1973 soube que a artista Liane Katsuki iria dar um curso de escultura e ourivesaria em seu ateliê na Boca do Rio. Procurou se informar e passou a frequentar o curso durante quatro meses. 

Foto 1, Oxóssi de 24 cm. Foto 2.Omolu com
25 cm.Foto 3.Nanã Buruku  24 cm. Foto 4.
 Iemanjá com 24.cm, todos em prata e latão.


Em 1976 fez vestibular e foi aprovada para a Escola de Belas Artes,da Universidade Federal da Bahia, e teve que sair da Prefeitura. Uma curiosidade que alguns gostam de atribuir ao destino me contou Iza Guimarães. Ainda estudante de Belas Artes tinha aulas na Faculdade de Arquitetura, da UFBA com a professora Nilza Soeiro , apelidada pelos alunos Nilzão, por ser uma pessoa acima do peso, o que hoje em tempos de politicamente correto seria cancelado quem se arriscasse a chamá-la desta forma. Ela ensinava Geometria Descritiva e Iza Guimarães  comprou o livro para acompanhar as aulas porque além de competente a professora Nilza conhecida por ser exigente. Iza era colega de uma moça chamada Clotilde Santos que era de origem humilde e não pode comprar o livro naquela ocasião. Quando foi marcada a prova ela ficou muito apavorada e então Iza resolveu emprestar o seu livro. Doou  o livro e não sabe como quando chegou em casa estava com o tal livro debaixo do braço. Foi aí que resolveu procurar a colega Clotilde que morava no bairro de Cosme de Farias e ela em Brotas. Mas, nas conversas que tinham a colega disse mais ou menos onde morava. Iza Guimarães pegou o seu carro e rumou para Cosme de Farias. Encontrou a casa da colega e lá conheceu seu pai o Gervásio Santos que era ourives e estava trabalhando no seu ofício. Interessada em aprender aquele ofício Iza começou a conversar com ele e ficou acertado que ela podia vir a sua pequena oficina que ele lhe ensinaria a técnica da ourivesaria. Acertaram o preço do curso e assim ela começou a fazer suas primeiras peças. O sr. Gervásio já estava aposentado e para não ficar parado fazia baianinhas de uma resina preta que eram vendidas aos barraqueiros do Mercado Modelo.

Pinturas de Iza G|uimarães quando jovem.
Durante três anos estagiou no ateliê de Mário Cravo que foi um aprendizado importante para Iza Guimarães trabalhando com peças de metal de grandes formatos juntamente com a filha do artista a Cade, a qual depois abandonou a carreira. "Me formei e um dia a artista Yeda Maria Correia de Oliveira, de nome artístico Yêdamaria, já falecida, que também frequentava o ateliê de Mário Cravo me disse que ia ter concurso público para professor da Escola de Belas Artes. Decidi me inscrever e fui aprovada e passei a ensinar no Departamento de Desenho e Escultura da EBA." Casou tem uma filha, três netos e cinco bisnetos. A filha, o genro e os três netos são todos veterinários e tocam uma clínica especializada em Salvador.
                                                                  ATUALIZADA

Quatro pinturas feitas com esmalte sobre tela.
Sempre atenta tomou conhecimento pela internet de um curso de esmaltação que seria realizado em São Paulo. Resolveu se inscrever e com os ensinamentos que lhes foram passados passou também a usar esta técnica em suas peças dando-lhes o colorido que os esmaltes permitem. Também experimentou usar resinas em tela em suas pinturas e inclusive excursionou pela arte digital utilizando um programa especial. Relatou que  aconteceu um acidente sem maiores consequências quando estava usando o programa fazendo uma pintura no computador. Chovia  muito e houve um estrondo  forte e seu computador queimou perdendo todos os arquivos, inclusive o programa. De lá para cá nunca mais fez sua arte digital, mas pretende retomar. 

Recentemente foi vítima de outro acidente este com gravidade. Ao chegar na porta de sua casa no bairro do Itaigara pisou na caixa da Embasa que fica no chão e caiu e bateu com a cabeça sofrendo um grave traumatismo craniano. Ficou na UTI desenganada, porém felizmente se recuperou, e está  aí firme trabalhando e tocando sua vida. É verdade que vem trabalhando menos com solda, deixou de fazer joias e apenas continua com suas esculturas que são feitas em prata ou latão e são confeccionadas em três tamanhos de 15, 20 e 25 cm com o pedestal.  Ela levou anos fazendo esculturas e troféus para as empresas do Polo Petroquímico  como a Braskem, Dow Química, e para a Federação das Indústrias, Odebrecht , além de atender os governos municipal, estadual e federal que adquirem suas peças para presentear visitantes ilustres.

Tem esculturas nos murais da Biblioteca Central e  no Instituto de Letras , ambas da Universidade Federal da Bahia . Criou inúmeros troféus  entre eles o Catavento de Prata, do jornal Gazeta do Turismo; Troféu Desempenho para a Secretaria da Fazenda da Bahia; Prêmio Sesi de Qualidade no Trabalho; Prêmio Desempenho do IMIC, da Fundação Miguel Calmon; Prêmio Cabral 2001; Prêmio FIEB por Desempenho Ambiental e Prêmio Desempenho DETEN Química S.A. Chaves da Cidade e Orixás para várias premiações de empresas e órgãos governamentais. 

                                     EXPOSIÇÕES E LEILÕES

Pinturas digitais feitas em computador por Iza.
Fez sua estreia em exposição em 1976 participando do  1º Salão  Universitário Baiano de Artes Visuais , no Teatro Castro Alves, em Salvador1978 – Expo Feira, em Feira de Santana, Bahia; 1978 – 3º Salão Nacional Universitário de Artes , em Vitória do Espírito Santo; 1978 - Exposição de Inauguração da Galeria Eucatexpo, em Salvador; 1979 – Exposição A Mulher na Arte da Bahia, em Salvador; 1979 - Coletiva no Tropicus Café Concerto, Salvador; 1979 - Exposição Artes Plásticas Universitária Hoje, no Teatro Castro Alves , Salvador; 1979 - Exposição Cadastro, no Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador;  1979 - Exposição Coletiva na Galeria Eucatexpo, Salvador; 1980 - Exposição Proposta, em Salvador; 1980 - Salão de Arte e Expressão Espontânea, Salvador; 1980 - 1º Salão de Arte Plásticas, em Feira de Santana, Bahia; 1980 - Exposição na Tereza Galeria de Arte, Salvador;;Exposição Coletiva na Eucatexpo. Salvador  1982 - Expo-Bahia Verão 82, em Salvador; 1983 - Exposição de Quadros e Objetos de Arte em Prol das Obras Assistenciais de Irmã Dulce, no Museu de Arte da Bahia, em Salvador ; 1983 - Expo-Bahia 83, Salvador; 1983 - Leilão de Arte no Museu de Arte da Bahia, Salvador; 1984- Exposição A Mulher nas Artes, Salvador; 1984 - 2º Salão de Artes Plásticas, no Museu Regional de Feira de Santana,Bahia;1985 - Exposição Coletiva de Agosto, na Panorama Galeria de Arte, em Salvador ;  1986 - Mostra Baiana de Artes Plásticas,  Coletiva da Associação dos Artistas Plásticos da Bahia, Salvador ; 1986 - Exposição de Mudança, Salvador; Exposição na Panorama Galeria de Arte, Salvador; Exposição Itinerante dos Artistas da Escola de Belas Artes da UFBA em galerias e museus americanos - International Exibit of Contemporary Artists from Bahia and Americas; 1987 - Exposição Individual na Época Galeria de Arte, Salvador; 1987 - Exposição na Galeria Arte Viva , em Salvador; 1987 - Leilão de Artes das Galerias ABT, Galeria Aracaju e Época Galeria de Arte, em Aracaju, Sergipe; 1987 - Leilão de Arte no
Iza em seu ateliê no Itaigara.
 Salvador Praia Hotel, Salvador; 1987 - Exposição Quinzena do Papel, na Galeria Arte Viva, em Salvador;  1988 - Exposição Individual no Museu Carlos Costa Pinto, em Salvador; 1989 - Exposição em Homenagem ao Centenário da da Revolução Francesa, na Galeria Cañizares, em Salvador; Exposição na Panorama Galeria de Arte; 1989 - Exposição Arte Mostra no Shopping Barra, Salvador, Bahia; 1989 - Exposição na Época Galeria de Arte, Salvador; 1990 - Exposição Individual na Ada Galeria de Arte, Salvador; 1990 - Exposição Artistas Contemporâneos da EBA/UFBA, Salvador; 1991 - Exposição Coletiva de Artistas Plásticos da Bahia; 1991- Leilão da Ada Galeria de Arte, Salvador; 1991 - Leilão de Arte na Escola de Belas Artes da Ufba; 1993 - Exposição Individual no Museu Carlos Costa Pinto, Salvador; 1993 - Exposição Panorama Galeria de Arte, Dia Internacional da Mulher, Salvador, Bahia ; 1993 - Leilão de Arte ,no Hotel Meridien, Salvador; 1993 - Art SOS Fraternal no Palácio da Aclamação, Salvador; 1994 - 1º Salão de Artes Plásticas do Litoral Norte, em Vilas do Atlântico, Lauro de Freitas, Bahia; 1994 - Exposição Semana da Padroeira da Bahia, Barra da Estiva, Bahia; 1995 - Exposição Arte na Barra, Fundação Gregório de Matos, Salvador; 1996 - Leilão de Arte da Galeria Atrivm, Salvador; 1999 - Exposição de Arte Digital , na ACBEU, Salvador; 2000 - Exposição o Salvador Menino -, no Museu Náutico, Salvador; 2000 - Wokshop Design de Joias, na Federação da Indústria do Estado da Bahia – Fieb ; 2002 - Coletiva do Acervo de A Galeria, São Paulo; 2002 - Exposição no Espaço Dulce Cardoso, Salvador; 2002 - Exposição Coletiva dos Professores da Escola de Belas Artes, Salvador;  2003 - Exposição Individual na A Galeria, em São Paulo; 2006 - Exposição de Esculturas no Hotel Sofitel Salvador, integrante do projeto cultural ArteSofitel.





domingo, 25 de junho de 2023

PAULO RUFINO UM ARTISTA MULTIFACETADO

Foto 1. O artista Paulo Rufino  terminando obra em bico
de pena . Foto 2.  O artista  jovem quando começou sua
trajetória na arte. Foto 3. Ano 2000 quando da exposição
no Centro Cultural da CEF
.
 O artista Paulo Rufino de Mattos é um criador multifacetado foi professor de litografia nas Oficinas de Expressão Plástica do Museu de Arte Moderna da Bahia, participou de diversas exposições coletivas e individuais aqui e no exterior. É cenógrafo de cinema, televisão e teatro, ilustrador de livros, trabalha em restauração de obras de arte públicas e privadas, pinta retratos, exímio na técnica de bico de pena e é um estudioso da cultura afro-brasileira que está presente em sua produção artística. Também fez esculturas e outros adereços decorativos para o Carnaval, shows de artistas famosos e eventos, colaborou com o artista Carlos Bastos, pintando personagens no painel da Assembleia Legislativa da Bahia, e em vários trabalhos artísticos de Juarez Paraíso. Embora não tenha a cabeça feita, ou seja, não é filho de santo, me recebeu todo de branco, numa quarta-feira, em sua casa na Rua Chile, no município de Lauro de Freitas, com seu alto astral, apesar das dificuldades que enfrentou e enfrenta. Não se coloca com vitimismo ao contrário, ri com muita facilidade e mostra disposição de enfrentar as adversidades da vida.  Paulo tem um desenho refinado e uma mão firme ao criar as figuras que compõem a sua produção artística, e se diz inspirado no pintor barroco holandês Johan Vermeer van Delft, mais conhecido por Vermeer, nascido em 31-10-1632 e faleceu em 15-12-1675. Foi um dos expoentes do período de ouro da pintura nos Países Baixos.

Foto 1.Mãe Sttela lápis de cor sobre papel. Foto 2. Ogum 
em lápis de cor sobre papel. Foto 3. Tabuleiro do Velho
Omolú, também em lápis de cor sobre papel.
Costuma frequentar várias casas de santo e em especial a Casa de Mãe Branca que ficava no bairro da Federação, em Salvador. Atualmente o terreiro Ilê Asé Taoyá Lonin dedicado a Omolu que já tem cinquenta anos de funcionamento está localizado em Vila de Abrantes, no município de Camaçari, na Bahia. É um candomblezeiro nato como disse seu colega Renato da Silveira no seu livro O Candomblé da Barroquinha.  Nos desenhos em bico de pena que tive o prazer de ver em sua casa tem vários deles dedicados a Exu numa diversificação de representações que nos deixam curiosos em observar e descobrir cada detalhe. É ainda um retratista de mão cheia, e ele me disse que consegue terminar uma obra em dois dias e até em menos tempo. São feitos em papel Canson A2 branco, de duzentas gramas e medem 42 cm por 59,4 cm o que possibilita a feitura de um desenho mais detalhado com uma visibilidade melhor do claro e escuro, do volume e da qualidade do desenho. Suas pinturas também mostram a qualidade do desenho ao pintar pessoas e Orixás onde vemos a proporcionalidade das formas e sua capacidade em transitar de um tom para outro com uma suavidade impressionante. É perspicaz e atento ao conversar e sempre procura expor suas ideias e pensamentos com fluidez e é uma pessoa que demonstra generosidade.

                                                     QUEM É

Fotos 1 e 3. Oxalufã visitando a Basílica do Bonfim em
lápis de cor e nanquim. Foto 2. Ogum em bico de pena


O artista Paulo Rufino Cardoso de Mattos, ou simplesmente Paulo Rufino, nasceu na ilha de Itaparica, na Bahia, em 17 de dezembro de 1949, filho de Josefina Cardoso de Mattos e Hermínio Mattos e desde criança que desenhava com uma caneta esferográfica em seus cadernos de escola tudo que lhe chamasse a atenção. Sua infância foi na ilha de Itaparica, onde seus pais se casaram, e tiveram os seis filhos. Lembra que naquela época todos se conheciam na ilha e que ele ao passar pelas pessoas mais velhas costumava tomar a benção e entre elas estava o avô materno do escritor João Ubaldo Ribeiro, que era Ubaldo Osório Pimentel autor do livro A Ilha de Itaparica - História e Tradição, o qual tenho um exemplar. Não quis falar mais detalhado sobre sua infância em Itaparica. Já adulto sempre retornava à Itaparica onde passava suas férias, e só a partir dos anos 1970 que foi diminuindo suas idas para a ilha.

O artista Paulo Rufino em seu ateliê em Lauro
de Freitas .
Depois seus pais mudaram para Salvador e foram morar no bairro do Barbalho. Matricularam seus filhos na Escola Getúlio Vargas, que pertencia ao complexo educacional Instituto Isaias Alves, o ICEIA. Nesta escola fez o primário que concluiu em 1962, e estudou até o segundo ano Pedagógico, quando abandonou o curso por questões de adaptação. Mas, decidiu fazer o Artigo 99 para ter o diploma secundário e assim poder continuar seus estudos. Em 1969 fez vestibular para a Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia. Diz que as bibliotecas eram seu refúgio preferido onde leu muitos dos clássicos e principalmente muita coisa da cultura africana e afro-brasileira. Hoje é um dos estudiosos reconhecidos e consultados na Bahia sobre cultura afro-brasileira e em especial o candomblé.

Fotos 1 e 2- Ilustrações do livro
Tia Ciata. Fotos 3 e
4 - Ilustrações do livro  Estelinha
.
Quando se submetia ao vestibular e fazia a prova de Modelagem, no Museu de Arte Sacra da Bahia, onde a Escola de Belas Artes estava funcionando provisoriamente em 1969 ele foi entrevistado por uma repórter do jornal Diário de Notícias que ficou impressionada com a sua desenvoltura. Eram cinquenta e um candidatos e cerca de 70% deles foram aprovados, número considerado alto, porque a maioria não tinha feito curso de pré-vestibular que era muito comum naquela época. Esta prova consistiu em modelar uma Flor de Lis, foi quando a jornalista entrevistou Paulo Rufino que lhe informou ter feito as três opções que era obrigado a fazer ao se inscrever no vestibular da UFBA. Então ele optou por Direito, Jornalismo e Artes Plásticas. Começou a modelar a Flor de Lis pela base e disse ainda que sua preferência seria fazer o vestibular para Arquitetura, mas "que farei no próximo ano". Não fez, e cursou a Escola de Belas Artes até 1974 quando foi jubilado, ou seja, impedido de continuar porque não gostava das aulas da disciplina Descritiva e passou a não frequentar. Porém, continuou indo para a Escola de Belas Artes e participando de algumas atividades.

Cinco representações de Exu em nanquim e
lápis de cor que mostram sua criatividade .
Sua rebeldia também foi percebida pelo professor Juarez Paraiso que questionou por que  não fazia os deveres da disciplina que ministrava que era Modelo Vivo, e Paulo Rufino respondeu porque não gostava daquilo. "Gosto de fazer os meus desenhos”. Foi aí que o professor Juarez respondeu "então faça dez deles e traga para eu ver." Ele fez o dobro, uns vinte ou mais desenhos e trouxe. Foi quando o professor Juarez Paraiso passou a lhe orientar nos seus desenhos. Hoje são grandes amigos e Juarez sempre procurou chamar todas as vezes que necessitava de mão de obra de assistentes para realizar suas obras. Ele tem uma gratidão imensa também porque o professor sempre foi atento e sensível nos momentos de dificuldades que enfrentou.  Lembrou que em 2007 caiu e quebrou o punho de sua mão esquerda, exatamente com a que desenha e ficou alguns meses impossibilitado de trabalhar. Neste período muitos amigos o ajudaram e entre eles estava o professor Juarez Paraiso. "Fiquei oito meses sem poder trabalhar e tive que viver na caridade alheia. Foi aí que fiquei sabendo o número de amigos fiéis que tenho. O médico queria operar o meu punho, mas não deixei porque iria ficar mais tempo parado e sofrendo. Felizmente fiquei bom e acho até que meu desenho melhorou depois deste acidente," disse rindo Paulo Rufino. Ao falar da queda lembrou que quando criança sua mãe insistia para que usasse a mão direita ao invés da esquerda para fazer suas tarefas. Mas, não conseguia, e assim continuou canhoto até que sua mãe contou a um médico amigo em Itaparica a sua dificuldade em usar a mão direita e o médico aconselhou que deixasse ele ser canhoto porque poderia ocasionar outros problemas na criança.
Bela representação do Caboclo,
obra que concluiu em apenas
dez horas de trabalho
.

Não tem aposentadoria ou outra fonte de renda a não ser o dinheiro que consegue ganhar fruto da comercialização de suas obras. Ensinou na Oficina de Expressão Artística do MAM-Ba e quando assumiu como Secretário da Cultura o compositor Carlos Capinam houve uma mudança na coordenação das oficinas que eram dirigidas por Juarez Paraíso exatamente quando o museu ficou um tempo fechado para as filmagens de Orquídea Negra . Quando acabaram as filmagens Paulo Rufino foi dispensado sob a alegação de abandono de serviço. Não é verdade que abandonara o serviço. Todos foram dispensados para que o espaço fosse ocupado pelo set de filmagens. Assim seus quase dez anos de dedicação ao ensino da litografia se perderam. Ai quando pergunto  como anda sua vida responde rindo: "Aqui aos trancos e barrancos".

           EXPOSIÇÕES

Fez sua primeira exposição em 1973 na casa onde morou e tinha seu ateliê o grande tapeceiro baiano Genaro de Carvalho, defronte ao então Hotel da Bahia, nas imediações do Campo Grande, em Salvador, Bahia. A casa foi transformada na Galeria Berlinda dirigida por Tânia Simões e Elizabeth Coutinho, esposa do artista Riolan Coutinho. Nesta ocasião foi realizada uma grande mostra com a participação de outros artistas, inclusive de Hansen Bahia que apresentou várias gravuras retratando celebridades e mulheres da sociedade baiana, entre elas a artista Nair de Carvalho, viúva de Genaro. Logo depois o professor Juarez Paraiso organizou uma mostra de seus desenhos a bico de pena na Galeria Cañizares. Daí em diante vieram uma série de outras exposições coletivas e individuais e participação como cenógrafo em filmes e peças de teatro e dança. 
Capa do catálogo da exposição no Rio de
Janeiro no circuito dos hóteis Sofitel
organizada pela Galeria Prova do Artista.
 
Participa de várias mostras coletivas , não só na Bahia como em diversos estados do Brasil, a exemplo da Feira da Bahia organizada pela Bahiatursa, em São Paulo; 1975- Feira da Previdência, no Rio de Janeiro; 1972 - jogos Olímpicos , em Belém do Pará; 1975 - Congresso Internacional da Asta, no Rio de Janeiro; 1975 - Exposição de Artes Negras da Bahia, no ICBA, Salvador; 1976 - Artistas Contemporâneos, na Galeria Cañizares, Salvador; 1977 - Coletiva Inaugural da Galeria Geraldo Rocha , em Vitória da Conquista ; 1976 - Coletiva Clube Cajueiro, em Feira de Santana; 1977 - Expo-poemas, Poemas Cartazes na Galeria do SENAC, Salvador ; 1979 - Realiza a Segunda Mostra Individual na Galeria Cañizares; 1980/1989 - Ensina Litografia nas Oficinas de Expressão Plástica do Museu de Arte Moderna da Bahia ; 1981 - Exposição Bahia de Todos os Santos  , Quatro Artistas no MAM-BA; 1982 - Três Artistas, Galeria Grafitti, Maceió , Alagoas ; 1982 - Executa o cenário "Pra Não Ser Trapo Nem Lixo", Grupo de Dança Contemporânea da UFBA; 1983 - Exposição Circuito de Artes Plásticas do Nordeste - MAM-BA; 1984 - Painel Coletivo na Biblioteca Central da UFBA; 1984/85 - Trabalha como cenógrafo do filme Jubiabá, do cineasta Nelson Pereira dos Santos; 1988 - Realiza o cenário da Ópera Negra, comemorativa do Centenário da Abolição da Escravatura; 1992 - Exposição A Religiosidade na Arte Baiana Contemporânea, na Galeria ACBEU, Salvador; 1994/95 - Trabalha com o artista plástico Carlos Bastos no novo mural da Assembleia Legislativa da Bahia; Restaura e Executa murais para diversos artistas , a exemplo do mural em vidrotil no Memorial de Irmã Dulce, de autoria do artista Juarez Paraíso; 1996 - Exposição Expo-Bananas, no ICBA e na Galeria Cañizares, ambas em Salvador; 1997 - Exposição Individual na Galeria Cañizares; 1997 - Executa um dos painéis e participa da montagem do Museu de História Natural da CETREL, em Camaçari, Bahia; 1998 - Monta a Exposição sobre o Ano de 1968, no ICBA, Salvador; 1998 - Monta a Exposição da XXV Jornada Internacional de Cinema, Salvador; 1999 - Monta e participa da Exposição Retrospectiva dos Anos 70, no ICBA, Salvador; 1999 - Faz o cenário do show De Caixote e Lampião, do compositor Sérgio Ricardo, no ICBA, em Salvador; 2000 - Exposição coletiva na Galeria de Arte Mokiti Okada, em São Paulo. 

Um belo Xangô em óleo sobre tela que
o artista expôs no  Centro Cultural da
CEF no ano 2000.
Na mostra que fez no ano 2000 juntamente com sua amiga Edsoleda Santos intitulada Bahia: Mito, Magia e Rendas... no Conjunto Cultural da Caixa Econômica ele escreveu este texto: "Salvador é uma Cidade sábia. Velha e sábia. De um saber antigo e sobrenatural. Um ponto de convergência de culturas e civilizações. Vindo de Itaparica, aos sete anos de idade, entrei nesta Cidade pelo mar e pelas mãos de meu pai. Aos meus olhos, de criança, a Cidade vista do mar parecia derramar-se sobre a Baía de Todos os Santos, envolta numa atmosfera fantástica de formas, cores, sons, cheiros e sabores próprios. Uma Cidade impossível de ser e, no entanto, sendo. Descobri, com o tempo, que também era uma Cidade rica. Não apenas de uma riqueza palpável, dourada, mas de uma riqueza maior, ancestral, visceral, que borbulha no ar que se respira, embriagando e transformando as pessoas. Que se renova a cada beco, a cada esquina, a cada criatura. Uma Cidade infinita, que caminha impecável rumo ao infinito, grávida de si mesma, senhora de si e de seu poder. Hoje, diante dela, sou criança ainda, temeroso do seu poder, fascinado pelo seu esplendor, consciente da minha ignorância diante de seu saber. Entrei na Cidade do "Salvador da Bahia" pelo mar e pelas mãos do meu pai, que me levou a conhecer suas ruas, seu povo e seus mistérios". A sua produção diminuiu porque deixou de trabalhar para cuidar de seu pai e da mãe. Sendo que seu pai morreu em 1996 e a mãe em 2005. Em seguida foi retomando paulatinamente sua produção e até agora está em plena atividade, cada vez mais maduro e criativo.

                                                           REFERÊNCIAS

O depoimento de Carlos Bastos em dezembro de 1999 ilustra bem a obra e o jeito de ser de Paulo Rufino. Vejam: "Como todo pintor de talento, é modesto e tímido na vida. É ousado na pintura. Precisando de um ajudante para pintar o imenso painel da Assembleia Legislativa da Bahia, ninguém poderia fazê-lo melhor do que ele. Me foi recomendado por Juarez Paraíso. Pensando e pintando do mesmo jeito, sem bom desenho e habilidade aceitavam tudo o que eu pedia com a maior humildade. Sem sua ajuda não completaria o painel. Tão agradecido, coloquei sua figura entre os maiores baianos. Ele está ao meu lado, no topo do painel, imortalizado como fez o grande muralista do século XVIII Tiepolo, que sobreviveu através dos tempos, graças aos seus ajudantes modestamente escondidos entre os grandes. Obrigado Paulo Rufino". 

Ao lado um detalhe do maravilhoso painel de autoria de Carlos Bastos na Assembleia Legislativa da Bahia onde Paulo Rufino aparece  no alto levando uma pernada de um anjo. 

Juarez Paraíso em nanquim
 feito na técnica bico de pena .
Já o artista plástico e professor Emérito da UFBA Juarez Paraíso  escreveu em 1978 sobre Paulo Rufino: "Nos seus trabalhos, explora e domina sutis evocações tonais, emanando de suas figuras uma luminosidade irradiante, efusiva, graças a concentração periférica de negros e grises transparentes. Suas figuras são entidades sobrenaturais corporificadas e dimensionadas nos mistérios da vida e da morte, nas virtudes e nos predicados do próprio homem, no seu caráter universal. O movimento em potência substitui o movimento real e o ritmo assume a devida importância na gratificante leitura das formas. A probidade com que interpreta os Orixás é consequência do seu amadurecimento individual e de sua incomum propriedade mediúnica. À sua sensibilidade criativa, à sua percepção de artista plástico, acrescente-se uma personalidade voltada para a vida espiritual e para a reflexão. Paulo Rufino de Mattos, na sua simplicidade, possui um cristalino e extraordinário caráter e os seus trabalhos refletem a sua força e a sua dignidade".

  EXPOSIÇÕES

O artista Paulo Rufino Mattos, natural de Itaparica, ingressa na Escola de Belas Artes da UFBA em 1970.Em 1973, realiza sua primeira exposição individual na Galeria Berlinda. Participa de diversas mostras coletivas, não só na Bahia como em diversos estados do Brasil, a exemplo de:1973 - Feira da Bahia organizada pela Bahiatursa em São Paulo ; 1975 - Feira da Providência no Rio de Janeiro.
1972 - Jogos Olímpicos em Belém do Pará ; 1975 - Congresso Internacional da Asta no Rio de Janeiro ; Exposição de Artes Negras da Bahia no ICBA ;1976 - Artistas Contemporâneos na Galeria Cañizares ; Coletiva inaugural da Galeria Geraldo Rocha, em Vitória da Conquista-BA ;  Coletiva Clube Cajueiro em Feira de Santana-BA ; 1977 - Expo-Poemas, Poemas-Cartazes na Galeria do SENAC; 1979 - Realiza a segunda mostra individual na Galeria Cañizares ;1980/1989 - Ensina Litografia nas Oficinas de Expressão Plástica do Museu de Arte Moderna da Bahia ; 1981 - Baía de Todos os Santos, Quatro Artistas no MAM ; 1982 -Três Artistas na Galeria Grafitti, Maceió – Alagoas; 1982 - Executa o cenário Pra não ser trapo nem lixo, Grupo de Dança Contemporânea da UFBA ; 1983 - Circuito de Artes Plásticas do Nordeste, MAM ;1984 - Painel Coletivo na Biblioteca Central da UFBA ; 1984/85 - Trabalha como cenógrafo do filme Jubiabá de Nelson Pereira dos Santos ;1988 - Realiza o cenário da Opera Negra- comemorativa do centenário da abolição ;1992 - 'A Religiosidade na Arte Baiana Contemporânea, Galeria ACBEU ; 1994/95 - Trabalha com o artista plástico Carlos Bastos no novo mural da Assembleia Legislativa da Bahia. Restaura e executa murais para diversos artistas, a exemplo do mural em vidrotil no Memorial de Irma Dulce, de autoria do artista Juarez Paraiso ;1996 - Expo-bananas, ICBA e Cañizares; 1997 - Individual na Galeria ACBEU; Executou um dos painéis e participou da montagem do Museu de História Natural da Cetrel ;1998 - Monta a exposição sobre o ano '1968' no ICBA; 1998 - Monta a exposição da XXV Jornada Internacional de Cinema;1999 - Monta e participa da retrospectiva dos *Anos 70* no ICBA ; Cenário do show "De Caixote e Lampião" do compositor Sérgio Ricardo no ICBA ;2000 - Exposição coletiva de Desenhos na Galeria de arte Mokiti Okada ; 2000 – Bahia, Mito, Magia e Rendas no Centro Cultural da Caixa Econômica Federal da Bahia; 2005 – Arte , Galeria do Hotel Sofitel, no Rio de Janeiro; 2005 – Exosição no Hotel Sofitel de Salvador-Ba; 2006 – Exposição no Hotel Vela Branca, Porto Seguro-Ba. Ilustrou vários livros.

 

 

    sábado, 17 de junho de 2023

    ZU CAMPOS O MESTRE PEDREIRO QUE VIROU ESCULTOR

    Zu Campos com  seu primeiro
    entalhe
    .
    Desde jovem que acompanhava o seu pai que era mestre de obras e levava seus filhos para aprender uma profissão. Muitas casas de moradores da Cidade de Vitória da Conquista foram construídas sob a orientação de Júlio Campos de Oliveira e com a mão de obra de seus filhos. Ele ensinava aos filhos vários ofícios no ramo da construção civil. Um deles era Jesuíno Campos de Oliveira, o mestre Zu Campos, conhecido por suas esculturas e entalhes que estão em museus e coleções particulares espalhadas por este Brasil afora e até no exterior. Mas, ao completar vinte anos de idade no ano de 1958 decidiu vir para Salvador tentar a vida e até 1964 jogou futebol no quadro de atletas do Galícia Esporte Clube. Paralelamente foi trabalhar de pedreiro no Museu de Arte Sacra da Bahia. Curioso ficava observando as formas das belas imagens que compõem o acervo do museu e assim passou a rabiscar os primeiros desenhos tentando copiar. Com o passar dos anos exerceu as funções de porteiro, guia e às vezes quando o diretor do museu o beneditino Clemente Maria da Silva Nigri tirava uns dias de férias e ia para a Alemanha sua terra natal o Zu Campos ficava tomando conta do museu. Chegou a fazer alguns desenhos e pinturas de imagens. Porém, certo dia estava em sua casa na Ladeira de Santa Tereza, número três , nos idos de 1966 quando um grupo de artistas pernambucanos tinha vindo para Salvador participar de uma exposição numa galeria que funcionava na Avenida Sete de Setembro - não lembra o nome - e estavam com problemas de arranjar um espaço onde pudessem trabalhar. Ele ofereceu seu ateliê na Ladeira de Santa Tereza, número três ,  e assim eles vieram e já trouxeram suas ferramentas. Aí passaram a criar as peças para a exposição e Zu Campos  observando e conversando sobre a arte do entalhe e de esculpir com os pernambucanos. Eles faziam esculturas e entalhes em madeira. Como já manejava algumas ferramentas na sua profissão de pedreiro resolveu arriscar fazer um entalhe. Pegou um pedaço de janela antiga de demolição, e assim surgiu o seu primeiro entalhe que guarda até hoje com muito cuidado.
    Mestre Zu Campos ao lado de uma de
    suas esculturas. 

    Tomou a iniciativa de fazer o vestibular para a Escola de Belas Artes da UFBA e na Universidade Católica do Salvador, mas optou pela federal que era gratuita enquanto a Católica cobrava CR$ 200,00 pela mensalidade. Fez o curso de Graduação em Artes Plásticas, e  tempos depois durante vinte e quatro anos ensinou escultura e entalhes na Oficina de Expressão Artística, do Museu de Arte Moderna da Bahia, no Solar do Unhão, em Salvador. Enquanto isto fazia suas exposições aqui, no eixo Rio de Janeiro, São Paulo, além de outros estados e até no exterior. Hoje é tratado carinhosamente como Mestre Zu Campos por ter repassado seus conhecimentos para centenas de alunos, e muitos estão aí produzindo sua arte. Lembro que um dos alunos  foi o também conquistense Edmilson Ribeiro, já falecido, que era também um grande artista do entalhe. Tenho no meu acervo um entalhe e um oratório de rara beleza feitos por Edmilson Ribeiro, onde está presente a influência do mestre.

                                                           QUEM É

    O Zu Campos no seu ateliê em Santa
    Tereza sendo filmado por uma equipe 
    da televisão alemã onde foi expor
    .
    Faz questão de dizer que entrou como pedreiro e foi depois aproveitado como guia e do Museu de Arte Sacra da Bahia e isto influenciou na temática de sua obra que é baseada em temas religiosos. Foram muitos anos andando naqueles corredores silenciosos do mosteiro e convivendo com centenas de imagens de santos, anjos e querubins. Embora seja um caboclo forte, parrudo como se diz no popular, tem um temperamento doce, calmo e plácido que combinou perfeitamente com o silêncio do um mosteiro secular. Nasceu em 9 de março de 1939, em Vitória da Conquista, filho de Júlio Campos de Oliveira, Maria Vitória de Oliveira, e o casal teve oito filhos, sendo quatro homens e quatro mulheres. 

    Zu Campos e um detalhe do painel que
     ficava na televisão Itapoan e  santos
     feitos por ele expostos no ateliê no Areal
    .
    Nos anos que  trabalhou com seu pai e lembra que ainda com quinze anos já era oficial de pedreiro e que foi um aprendizado muito bom porque aprendeu a lidar manualmente com muitas  das ferramentas que veio  utilizar em sua arte. Ao completar vinte anos resolveu vir para Salvador, jogou futebol do Galícia Esporte Clube , mas a arte foi mais forte e decidiu ser artista. E o trabalho de pedreiro  no Museu de Arte Sacra da Bahia foi suficiente para fortalecer esta ideia. Passou desenhar as imagens sacras e depois leu muito enquanto exercia a função de guia do museu, e em consequência "virei fazedor de santos", diz brincando.  Se desenvolveu tanto que passou a viajar pelo Brasil afora para ensinar sua arte escultórica. Tem um trabalho diferenciado como entalhador porque ele fazia sulcos profundos que lhe permitiam criar perspectiva e diferentes planos. Você olha um entalhe de Zu Campos e observa que ele faz uma rua, um beco em baixo-relevo, dando movimento com as figuras humanas que compõem a sua obra. Ainda tem a parte da pintura, porque  ao términar de esculpir pintava o casario, a rua e as figuras humanas ou religiosas que esculpia na madeira. Outro detalhe é que durante todo o tempo que trabalhou dava preferência ao uso de madeiras vindas das demolições de casarões coloniais. Era nesta madeira carcomida pelo tempo e abandonada que criava suas esculturas e entalhes. 

    Zu Campos jovem com entalhe
    numa velha janela carcomida
    pelo tempo
    .
    Tem seis anos que não mais trabalha com madeira, e isto aconteceu após ser acometido por um câncer de mama. Foi operado e de lá para cá vem se submetendo a um tratamento continuado, e o médico recomendou  não  continuar trabalhando com madeira. Diante desta dificuldade de fazer esforço físico está agora fazendo umas pinturas que lembram seus entalhes. Sempre os temas populares e religiosos surgem com as cores primárias, alegres. Já produziu umas trezentas dessas pinturas, diz sua esposa Maria Luiza Fontes, com quem está casado a cinquenta e quatro anos, tem um filho e uma neta. Está atualmente residindo no Areal de Baixo, número onze. Saiu da Ladeira de Santa Tereza,  onde residiu por várias décadas porque o ambiente nos arredores ficou pesado com a presença de muitos usuários de drogas e prostituição. A sua atual moradia ele adquiriu há mais de quarenta anos e agora vem reformando devagar. É um verdadeiro museu de esculturas, painéis e entalhes, inclusive o belo painel que ele fez e que ficava na entrada do prédio da TV Itapoãn está lá porque quando foi adquirida pelos dirigentes da  Igreja Universal os novos donos exigiram a sua retirada porque o painel é de temas do candomblé.

     Em 1977 escrevi: "A Via Crucis de Zu Campos : Zu Campos é o pai de uma gama de entalhadores baianos. Mestre no ofício de entalhar. Zu desliga-se do Museu de Arte Sacra e passa a viver do fruto do seu trabalho. Daí vieram várias exposições aqui e fora do Estado. Os sulcos feitos na madeira tornaram-se mais profundos num caminho natural em busca de novos espaços. A escultura passou a ser sua preocupação e, hoje, Zu Campos inicia vamos assim dizer sua carreira de escultor. 

    Ele próprio diz das dificuldades que encontrou para fazer suas primeiras esculturas e conseguir formas equilibradas. Recentemente esteve em Brasília e Belém do Pará a convite de órgãos culturais dando aulas de entalhe. Formou uma escola que ganha e vence nossas fronteiras. Embora com essa imensa atividade, Zu Campos é um artista cuidadoso e meticuloso. Todas as peças que faz são documentadas fotograficamente e os desenhos que lhes dão origem são guardados. Tem uma preocupação desesperada em não se repetir."

                                                          EXPOSIÇÕES

    Pinturas em guache feitas após ser
    proibido de trabalhar esculpindo
    madeiras.
    Fez sua primeira exposição na inauguração do Teatro Castro Alves em 4  de março de  1967. Lembra que aconteceu um fato curioso é que na abertura da exposição ele foi barrado na porta porque era exigido terno e gravata para a solenidade. Mesmo insistindo que era o artista que estava expondo não conseguiu entrar. No dia seguinte providenciou um terno e gravata e assim pode ver a sua própria exposição montada no foyer do Teatro Castro Alves. Ministrou cursos de entalhe na Associação Mineira de Imprensa - A.M.I, em Belo Horizonte; em 1972; Ministrou Curso de Entalhe no Teatro Paiol, em Curitiba e em 1973 na Esphera Galeria, em Porto Alegre, em 1973.

    COLETIVAS: 1967 - Exposição na Toca de Arte, no Rio de Janeiro; 1967 - Exposição na Galeria G.H, no Rio de Janeiro; 1969 - Participou da 2ª Bienal de Artes Plásticas da Bahia; 1970 - Exposição Artistas do Nordeste - na A Galeria, em São Paulo; 1970 - Exposição Artistas da Bahia - na A Galeria, em São Paulo; 1972 - Participou do 4º Salão de Verão, no Rio de Janeiro; 1972 - Participou da Exposição do Sesquicentenário da Bahia; 1973 - 5º Participou do 5º Salão de Verão no Museu de Arte Moderna, no Rio de Janeiro.

    Zu Campos no seu ateliê.
    INDIVIDUAIS : 1967 - Exposição no foyer do Teatro Castro Alves, em Salvador, Bahia; l967 - Exposição na Galeria Montmartre  , no Rio de Janeiro; 1968 -1970 - Exposições na A Galeria, em São Paulo; 1971 - Exposição na Galeria Chica da Silva, no Rio de Janeiro; 1972 - no Teatro Paiol, da Fundação Cultural de Curitiba, no Paraná, 1973- Esphera Galeria, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul; 1973- Exposição na Galeria Montparnasse Jorgestyle, no Rio de Janeiro; 1973- Exposição no Hotel Machado, em Governador Valadares, Minas Gerais; 1974 - Exposição no Touring Club do Brasil, em Brasília ; 1974 - Exposição na Galeria Valença Veículos, em Brasília; 1974 - Exposição na Associação Mineira de Imprensa - AMI, em Belo Horizonte; 1975 - Exposição no Teatro da Paz, da Fundação Cultural de Belém, Belém , do Pará; Exposição na Assembleia Paraense , em Belém do Pará; 1975 - Exposição na Escola de Belas Artes ,da UFBA, Salvador, Bahia ;1977 - Exposição Marinhas no Clube Naval;1976 -Exposição no III Concurso Nacional de Artes Plásticas-Caixego, Goiânia , Goiás; 1977 - 1º Salão de Verão, Salvador, Bahia; 1977 - Exposição na Beto Galeria , Salvador; 1977 - Exposição na Muldu Art., Salvador, Bahia; Exposição na Galeria Paço das Artes, em São Paulo -1978 - I Confronto de Escultores, na Panorama Galeria de Arte, Salvador Bahia. 

                                                                   REFERÊNCIAS

    Zu Campos no ateliê da Ladeira de Santa Tereza esculpindo.
    Vários críticos escreveram sobre a obra de Zu Campos e escritores e poetas. Estes textos de Jorge Amado e de Vinicius de Moraes foram escritos nos idos de 1978. Veja o que escreveu o escritor Jorge Amado que era um grande apreciador e incentivador das artes: "Alguns obtêm sucesso fácil, quase sem esforço. Outros devem entregar-se de corpo e alma ao trabalho, romper o coração, sangrar sobre a obra construída. Os primeiros vão com o primeiro vento, só os últimos permanecem. Zu Campos é um deles, nas cores de seus santos e de seus anjos há sangue dos homens, derramado. Não será ele próprio um anjo barroco, escuro anjo baiano fugido de uma igreja grávida de ouro para ir dançar num terreiro de candomblé em honra dos orixás? Um mágico, um guerreiro, um professor, um amigo, um artista da Bahia, dos mais sérios e mais legítimos, Zu Campos".

    O mestre Zu Campos em plena forma trabalhando.
    Já o poeta Vinicius de Moraes escreveu: "Zu Campos tem as mãos fortes, e amigas.Quando ele aperta a sua mão, você sente a pressão de sua ternura humana na palma, e você se comove com seu modo simples e honesto de transmiti-la através da pele. Essa ternura penetra também a madeira que ele entalha, a madeira rugosa e curtida que ele cata por ai, em demolições, velhos objetos que ele renova com seus instrumentos de trabalho, antigas portas jogadas fora das quais surge um ingênuo mundo de beleza; ingênuo, sim, mas com muita arte e sabedoria, pois a meu ver Zu Campos, já transcendeu o primitivo; é, a bem dizer um escultor de baixos relevos coloridos de gosto popular, mas com grande artesanato. Um poeta da arte de entalhar, Zu Campos, cujo lirismo se revela na feliz combinação de formas e cores, e em lindos achados de figuras e perspectivas que dimensionam a gravura bem para lá da matéria sobre a qual é trabalhada. Um artista de grande pureza, Zu Campos. Um bom homem simples e tranquilo, em merecedor do sucesso que vem atingindo".