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terça-feira, 29 de maio de 2018

AS CORES VIBRANTES DE BETH SALES


Obra onde vemos mulheres exercendo seus ofícios.
A artista baiana Beth Sales  (Elizabete Lopes Joahson)  mostra mais uma vez suas obras concebidas em cores vibrantes, que lembram os trópicos com suas luzes intensas . Embora tenha morado mais de uma década na fria Noruega, e atualmente residindo em Portugal, ela não perdeu a sua essência e continua pintando, expressando sua arte utilizando uma luz diferenciada dos locais onde esteve ou está.
A artista Beth Sales com  obra de sua autoria
Traz também uma grande disposição em realizar e apresentar os trabalhos que produz. A grande maioria dos criadores de arte gosta de mostrar e falar do seu trabalho, para que as pessoas possam aprecia-los e mesmo emitir opiniões. Assim, pode captar o que realmente precisa ou não ser incorporado. Sabemos que a leitura de uma obra de arte varia muito de um indivíduo a outro porque depende da sensibilidade, cultura e capacidade de expressar através a palavra ou escrita.  Mas, é importante ouvir.


Elizabete revela que pintar é uma necessidade visceral, e que quando pinta confessa  "viajo para não sei onde, ouvindo sempre boas músicas". Diz ainda que é "capaz de transpor a alegria, e as cores fortes vindas da minha alma". Portanto, ai está a essência espiritual desta artista que cruzou os mares para mostrar a sua arte. 
Suas telas sempre estão cheias de peixes, flores, gatos, elementos urbanos e traços fortes que delimitam espaços . Uma arte alegre acima de tudo que vem quebrar este ar taciturno que muitas vezes preenche a vida da pessoas que residem em locais de temperaturas mais baixas. Já em Portugal ela terá um contato maior com o sol e a luz mais intensa. Vamos aguardar para ver se vai influenciar nas suas futuras obras.





sexta-feira, 25 de maio de 2018

A SUAVIDADE DAS CORES E TRAÇOS DE FÁTIMA TOSCA AO EXPOR ÁGUAS

A artista Fátima Tosca trabalhando em seu atelier
Sou um admirador da obra de Fátima Tosca desde o primeiro dia que tive contato com uma pintura de sua autoria. Agora, para deleite dos apreciadores de arte ela está expondo a partir de hoje na MCR Galeria de Arte, em Ondina. São 20 trabalhos em vários formatos sob o título "Águas", e ela alerta que não é uma exposição para falar da falta ou mesmo do excesso de água. Nem  mesmo dos que desperdiçam este precioso líquido, que já está ficando escasso em nosso Planeta. Ela revela que não conseguiria realizar este feito, e portanto, suas obras falam da presença lúdica , necessária e vital da água.
A tela Entre águas e fantasia.
Profusão de barquinhos
A água está presente em nossas vidas desde o momento que somos concebidos, no nascimento, e até na morte. Este líquido nos acompanha por toda nossa vida , e esta mostra de Fátima Tosca tem um elemento de espiritualidade que nos remete a pensar sobre a própria existência do Homo Sapiens na face da Terra.
Sou de uma região onde a água é escassa. Lá não tem rio, riacho ou lagoas significativas .Tudo depende das escassas chuvas ou de furar um poço profundo que muitas vezes ultrapassa a 100 metros de profundidade. Portanto, tenho uma relação de muito respeito com a água, e a valorizo em todos os sentidos. Lembro que quando criança existia um pequeno riacho na entrada da cidade de Ribeira do Pombal que teimava em correr límpido, mesmo timidamente, até durante o verão. Mas, os gestores irresponsáveis o transformaram em esgoto a céu aberto, e soube que recentemente o aterraram definitivamente. 
Aqui em Salvador assistimos rios e riachos transformados em esgotos e alguns foram encapsulados  como fizeram nas avenidas Centenário , Vasco da Gama, Bonocô,  no Imbui, e agora a Prefeitura vai fazer o mesmo na Avenida Antônio Carlos Magalhães para implantar o BRT,além de sacrificar centenas de árvores de grande porte.
Portanto , mesmo que não tenha o objetivo de denunciar Fátima Tosca com sua doçura , que lhe é peculiar, nos faz lembrar estas agressões ao meio ambiente em nome de uma falsa modernidade , e agora a palavra da moda é em nome da mobilidade urbana.

                                         LEVEZA DA CORES

Canto Guardado para inverno II,
leveza das cores e dos traços
Como bem disse Francisco Senna , com sua sabedoria, na apresentação da exposição "Água é fonte de vida,princípio...atmo". Exatamente, ai começa a vida e se expande com toda sua fluidez pelos quatro cantos do Planeta. 
Mas, as cores suaves  das obras de Fátima nos proporcionam a possibilidade de parar o olhar e sentir profundamente a leveza dos elementos que compõem cada pintura. São múltiplos barquinhos na tela "Entre Águas e Fantasias",que me fazem retornar à minha infância,quando fazia barquinhos de papel e os lançava nas enxurradas caudalosas, que se formavam quando chovia trovoadas na cidade de Riachão dos Dantas, em Sergipe. Lá se iam os meus barquinhos cambaleantes até desaparecerem, e serem tragados pelas águas barrentas,
Fátima  prossegue com títulos sugestivos que remetem aos elementos que constituem suas telas. É prazeroso examiná-las em silêncio ,e se transportar a um ambiente de paz, amor e até mesmo ao passado . Flores e pássaros de todas as matizes, sempre em tons suaves de vermelhos,azuis, amarelos e verdes mostram a leveza de sua arte.

A  MCR Galeria de Arte, que fica na Avenida Oceânica, 2400,loja 23, em Ondina ,tel 33323883

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

ESCULTURAS E ASSEMBLAGES DE CARLOS FRANÇA

O artista Carlos França
O artista  plástico Carlos França está expondo várias esculturas e assemblages na galeria da Federação do Comércio, que fica na sede da entidade na Avenida Tancredo Neves , em Salvador. Conheço o artista desde os tempos que trabalhamos na redação do Jornal A Tarde onde durante 25 anos se dedicou a fazer charges e ilustrações, no tempo em que os computadores ainda engatinhavam.Atualmente, trabalha como designer gráfico do Senac Bahia onde está há 32 anos.
Assemblage com 
imagem de santo .
Estive visitando a mostra , e o que mais me chamou a atenção foi a habilidade de Carlos França em misturar vários materiais como madeira,metais, cerâmica, pvc entre outros para criar . Confesso que fiquei feliz ao relembrar os tempos que trabalhamos juntos, inclusive esta arte da página principal da  coluna tem como base uma ilustração feita por ele naquela época. 
Aproveito para lembrar que todas as colunas que escrevi durante quase três décadas estão digitalizadas, e aqui você pode pesquisar se tem algo escrito com o nome do artista que está procurando alguma referência.
Entre as obras expostas, cerca de 40, estão luminárias, espelhos, esculturas em aço inox e chapas de ferro, imagens de santos e orixás. Carlos França vai criando o que lhe vem à mente e sempre com muita habilidade e um toque artístico, fundamental para dar um valor especial às suas obras. Pinta também quadros abstratos e figurativos.
"Yemanjá",feita de
madeira,metal e
cerâmica.
Portanto, estamos diante de um  artista versátil ,introvertido, mas disposto a mostrar aos que gostam de arte o que é capaz de fazer. Em 1983 participou de  uma exposição com três outros colegas Reinaldo Gonzaga, Menandro Ramos e Núbia Cerqueira .Foi um sucesso.
Nesta mostra ele apresentou seus fantoches quando denunciou a manipulação do Estado e das empresas :"São milhões  de manipulados por uma minoria enclausurada em salas hermeticamente fechadas com ar artificial, que enxergam apenas o lucro e o próprio bem estar."
Agora, passado o período de denúncia Carlos França se debruça na atual preocupação em contribuir para o embelezamento de espaços com suas obras que servem muito bem como importante elemento de decoração, tanto as esculturas em vários tamanhos, mas principalmente as assemblages. Nestas obras ele revela " uma forte ligação com a condição humana e seus valores,buscando um sentido de movimento e equilíbrio".
Veja que muitas obras estão ligadas à religiosidade dos baianos com as presenças de santos e orixás cultuados nas igrejas e nos terreiros de candomblés.





segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

O MESTRE DO DESENHO A BICO DE PENA

A Bahia perdeu mais um dos seus grandes artistas contemporâneos que é o desenhista Ângelo Roberto, natural de Ibicaraí,  que faleceu ontem aos 80 anos de idade ,e teve hoje seu corpo cremado no cemitério Jardim da Saudade.
Nasceu em 1938, na cidade de Palestina, hoje Ibicaraí, ao sul da Bahia. E morava em Salvador desde 1944. Ângelo Roberto se considerava um "menino das linhas de bonde e linhas de arraia". 
Deixou vários amigos, especialmente os remanescestes da velha boêmia que frequentavam os bares e restaurantes cults como o bar Raso da Catarina, o Restaurante do Moreira, no Mercado das Flores ; o bar do Clarindo Silva, no Terreiro de Jesus, entre outros . Ultimamente tinha trocado o álcool por café ,e assim continuava fazendo seus extraordinários desenhos a nanquim em bico de pena.
Ele mostrava sua maestria nos movimentos que conseguia dar aos  animais que desenhava especialmente os cavalos e pássaros.
Achava o cavalo o mais belo e majestoso dos animais, e por isto sempre estava criando novos desenhos de cavalos.Fui dar uma pesquisada neste blog onde estão as colunas que escrevi por mais de vinte anos no jornal A Tarde e encontrei quatro delas onde o destaque é o trabalho de Ângelo Roberto. Separei esta que republico ao lado de 1989 quando ele fez uma exposição com caricaturas de 30 amigos .
Foi um sucesso porque o artista conseguiu com sua sensibilidade ímpar captar os traços essenciais de cada um de seus amigos . Lembro que na exposição todos riam e ficavam fascinados por esta sua capacidade de trazer o essencial de cada um deles com seus traços refinados.
Ai estão reunidos Ubaldo Ribeiro com seu riso rasgado, o papagaio Guido Guerra, o saudoso Bell Machado e assim por diante.
Faço aqui este triste registro de mais um grande artista que parte, mas deixa sua obra como uma prova da sua existência criativa .

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

FOTOGRAFIA E ARTES VISUAIS DA BELAS ARTES DE SP

Uma das obras da série Imagem Provisória,
de Giovanna Vacani.

Na minha ida à São Paulo estive também visitando num dos pavilhões do Memorial da América Latina, exatamente na Galeria Marta Traba , a exposição de Fotografia e Artes Visuais dos projetos finais dos alunos do Centro Universitário de Belas Artes  . Foi uma surpresa agradável porque eles estavam dando visibilidade a trabalhos acadêmicos que normalmente ficam arquivados em algum canto. 

O pró reitor Sidney Ferreira Leite escreveu : "Qual o destino mais comum dos trabalhos de conclusão de curso? Ser apagado pela aguarrás do tempo, colocado em uma prateleira ou, solenemente guardado no fundo de um depósito. O BA Criative Collectibles chegou para mudar este destino".
Máscaras de cerâmica envolvidas em ataduras distribuídas
na parede até o piso de Júlia Profeta.
Na realidade ai se inicia uma nova caminhada porque é o momento em que os formandos vão tentar sua inserção no mercado e graças a esta iniciativa de expor os trabalhos é uma boa oportunidade de começar a trilhar o caminho do profissionalismo.
Os alunos são do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, entidade que tem 92 anos de atividade e já revelou muitos talentos. Escreveu o professor Roberto Bertani que " o Bacharelado em Artes Visuais, Pintura, Gravura e Escultura existe há mais de 92 anos, a mesmo idade do Centro Universitário Belas Artes, e foi o primeiro curso implantado por esta instituição de ensino."
Obras de Ana Barbaro são figuras feitas em papel
marché. Destaco as expressões significativas e colorido.
Já a professora Rosa Matilde, que coordena o Curso Tecnológico de Fotografia destacou  que "o processo de escolha das imagens e de curadoria foi enriquecedor como experiência didática pedagógica. O resultado foi a revelação de novos talentos , que começam a imprimir sua identidade profissional e que, por meio de sua arte, questionam o mundo e seus diversos aspectos e nos convidam a refletir sobre ele".
Me chamaram mais atenção as obras de autoria de Giovanna Vacani - "Série Imagem Provisória"; as de Júlia Profeta "Sinédoque",com ataduras envolvendo as máscaras de cerâmica, e as de Ana C.B.Barbaro "O Sétimo livro e a pena do destino", com esculturas feitas em papel marché.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

MUSEU AFRO BRASIL RESGATA PARTE DE NOSSA HISTÓRIA

Este belo oratório encanta também
 pelo seu tamanho.
A primeira sensação dos que visitam o Museu Afro Brasil  é que estamos diante de um trabalho hercúleo do curador baiano Emanoel Araújo que conseguiu reunir peças importantes e muito valiosas do imaginário e de tudo que diz respeito ao Barroco em nosso país e em Portugal . São cerca de quatrocentas obras bem distribuídas nos espaços onde funciona a Bienal Internacional de São Paulo, no Parque do Ibirapuera. 
exatamente no Pavilhão Padre Manoel da Nóbrega, Sob o título de Barroco Ardente e Sincrético - Luso-Afro-Brasileiro, a exposição é uma homenagem ao Jubileu de 300 anos de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil e "traça variadas manifestações do estilo artístico em Portugal e no Brasil, com ênfase em suas expressões em um país miscigenado". A mostra leva o visitante ao espírito do Barroco, tão presente em nosso país, inclusive na Bahia, passando por referências nas culturas erudita e popular dos séculos XVII e XIX.
Nas paredes externas do Pavilhão onde fica
o Museu você visualiza várias obras de arte.


Entre as obras expostas estão algumas de autoria de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho ( 1730?-1814), em Ouro Preto, Minas Gerais, e do Mestre Valentim da Fonseca e Silva ( 1745-1813), no Rio de Janeiro, além do mestre do Aleijadinho, o escultor Francisco Xavier de Brito ( ? - 1751). São obras sacras de Portugal e criações de artistas anônimos .Isto confirma o sincretismo da exposição.Numa publicação da assessoria do Museu Afro Brasil o curador Emanoel Araújo declarou : “Eu chamo de ardente a questão da tropicalidade do Barroco, evocando o trabalho com a madeira e a mecânica dos afrodescendentes. É também sincrético a partir dessa vertente que engloba o lado profano das festas religiosas, como o bumba-meu-boi do Maranhão, que celebra o São João;a cavalhada de Pirenópolis, em Goiás; os reisados de Alagoas e os cortejos dos maracatus de Pernambuco. O Barroco, para mim, é um movimento que não tem fim. É contínuo na cultura brasileira. Vem de Portugal, mas encontra aqui o campo ideal para essa construção de identidade”.
Estão expostas também pinturas de José Joaquim da Rocha (1737-1807), Joaquim José da Natividade (? -1841), Leandro Joaquim (1738-1798), José Patrício da Silva Manso (1753-1801), Frei Jesuíno do Monte Carmelo (1764-1819), José Teófilo de Jesus (1758-1847) e Antônio Joaquim Franco Velasco (1780-1883). Ex-votos e artefatos desse período histórico (oratórios, talhas, esculturas, azulejaria, ourivesaria, prataria, porcelanato) se incorporam à travessia do espírito do barroco, tudo em diálogo com a poesia dos baianos Manuel Botelho de Oliveira (1636-1711), Frei Manuel de Santa Maria (1704-1768) e Gregório de Mattos (1636-1696).
A exposição também conta com a ambientação musical dos principais compositores sacros brasileiros, como José Maurício Nunes Garcia (1767-1830), José Joaquim Emérico Lobo de Mesquita (1746-1805), Damião Barbosa de Araújo (1778-1856) e Domingos Caldas Barbosa (1739-1800). Você fica emocionado com o clima dento do museu.
Diz ainda Emanoel Araujo, na publicação que esse Barroco multifacetado expõe a força da contribuição portuguesa, mas evidencia “a atitude tropical miscigenada da África e do Brasil”, do sagrado ao profano. “Os africanos e seus descendentes, com presença maciça no Brasil, se apropriaram do movimento do barroco, sobretudo porque as corporações de ofícios mecânicos absorvem essa mão escrava e contribuem para a ascensão social do negro”.
A azulejaria da igrejinha da Pampulha (em Belo Horizonte), pintada por Portinari, é projetada no ambiente de uma escada desenhada por Oscar Niemeyer, autor do projeto arquitetônico do Pavilhão Manuel da Nóbrega, onde está o Museu Afro Brasil desde 2004. Tetos de igrejas brasileiras são projetados em outro espaço, em uma elegia à influência francesa das igrejas do Carmo, em Salvador (BA), São Bento e São Francisco da Penitência, no Rio de Janeiro. A artista portuguesa Manuela Pimentel foi responsável  instalação pela  azulejaria lusitana.
Emanoel Araújo afirma na publicação que “Essa exposição se ambientaliza com uma cenografia que envolve diferentes aspectos da arte Barroca. Da azulejaria às paredes internas das igrejas da Bahia fotografadas por Sílvio Robatto na série ‘Barroco Rebolado’, em que ele visualiza a sensualidade das talhas dos anjos e das figuras mefistofélicas”.Para assinalar o contexto histórico, a exposição registra a Revolta dos Alfaiates (1798-1799), na Salvador do século XVIII, e apresenta algumas das festas profanas que surgem do advento do Barroco: as cavalhadas de Goiás, a luta dos mouros e cristãos, o maracatu, o Rei de Congo e o bumba-meu-boi maranhense. A exposição “Barroco Ardente e Sincrético - Luso-Afro-Brasileiro”. Vários artistas baianos estão presentes com suas obras plásticas.

A exposição iniciou em 3 de agosto de 2017 e estará aberta até 3 de março de 2018.Imperdível.

O MUSEU AFRO BRASIL

As manifestações populares tem presença destacada
no Museu Afro Brasil.
A exposição sobre o Barroco é itinerante,mas você ficará muito satisfeito ao visitar as obras permanentes que integram o Museu Afro Brasil criado por Emanoel Araújo.
Este museu certamente veio contribuir em muito para a compreensão , preservação e divulgação desta herança cultural e artística do negro que é tão forte em nosso país.
As obras nos permitem entender melhor a História de nosso país, pois vai além dos livros didáticos na medida em que nos apresenta a igualdade do pertencimento e respeito por uma parte importante da população matriz da nossa brasilidade.
Existe um roteiro impresso que pode ser adquirido na lojinha do museu onde você observa a temática central de cada núcleo, onde ao lado das obras existem pequenos textos explicativos que ajudam a entender e sentir a importância de cada obra. Foi pensado até nas cores que aparecem abrindo cada núcleo para melhor orientar o visitante. Uma visita imperdível.
O Museu está localizado no Pavilhão Padre Manoel da Nóbrega, no Parque Ibirapuera, em São Paulo , e abre de terça a domingo das 10 horas até às 16 horas. Tel (11)5579-0593.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

MÁRIO CRAVO JR : O TEMPO NA VIDA DE UM GRANDE ARTISTA

O velho guerreiro faz um gesto que
demonstra estar ativo e olhando
pra frente nas coisas que o cercam
no seu atelier  em Pituaçu
Durante esses vários anos que me dedico  a registrar os principais eventos da artes visuais em nossa cidade, tenho tido a oportunidade de estar diante de importantes artistas daqui e mesmo internacionais . Foram encontros muitas vezes memoráveis para mim , porém, nenhum deles me emocionou tanto como a visita que fiz no dia 9 de novembro, ao velho guerreiro Mário Cravo Jr. Este artista de 95 anos de idade, que mesmo na sua fragilidade física mantém o seu olhar de águia e sua memória com lampejos de  sabedoria, construída pela leitura e muito trabalho a ferro e fogo em suas oficinas ao longo da vasta existência.
 Este criador incansável que há décadas se mistura com as sucatas de vários tipos de metais,  grossos pedaços de madeira de construções que foram incendiadas ou demolidas, de parafusos e tarugos, borrachas, considerados por nós simples viventes como coisas imprestáveis, e resinas que se transformam em obras de arte. Ele soube e sabe como ninguém dar-lhes a grandeza criando esculturas e telas de alta qualidade, e  eternas, que estão ai nas praças, nos museus e nas coleções espalhadas por vários países.

Na conversa que tivemos pude sentir o lado humano e a sua consciência da nossa finitude. "Filho a cada novo dia, é um dia a menos de vida".Respondi brincando "mestre a gente vai morrendo  desde o primeiro dia em que nascemos. " E Mário de repente lamenta os vários conflitos que se estendem pelo sofrido continente africano e depois faz referências às migrações e a maneira como os países poderosos reagem a chegada de novos imigrantes. Para fechar a conversa sobre este assunto que tanto nos aflige nos dias de hoje ele arremata . "Minha política é a minha arte".
Escultura de madeira
pintada e tarugo de
ferro, datada de 1985
.
São frases que marcam para sempre este homem que é o último representante do grupo de artistas modernistas que mudou o rumo das artes em nosso Estado. Juntamente com Carlos Bastos, Carybé, Genaro de Carvalho, Sante Scaldaferri, Jenner Augusto e depois Floriano Teixeira e Calasans Neto, todos ligados ao escritor Jorge Amado construíram aqui uma arte de qualidade rompendo com os maneirismos dos artistas ligados à Escola de Belas Artes que ainda cultuavam a arte dos impressionistas franceses.
Em certo momento o mestre mostrou-se com certo cuidado em responder a algumas perguntas. Disse que sempre esteve ligado a gente da Bahia , mas que sua arte "foge do folclore. Vejo a minha arte como algo que transcende o artista, e traz elementos do sonho do homem que é a permanência da obra de arte através do tempo."
Sobre as muitas perguntas que teve que responder durante sua existência disse que " quando a gente é jovem responde muitas vezes provocando ou mesmo instigando uma postura ou outra de alguém, mas à medida que vamos amadurecendo e ficamos velhos, o tempo é diferenciador." Mas, fez questão de ressaltar que sempre pensou livre e nunca ficou se escondendo atrás de poderosos.
 Portanto, para perguntas que vão criar polêmicas ou embaraços atualmente prefere ficar calado. "Quem faz arte como eu e tem uma mente criativa está ligado ao que pode produzir ".
Eu ao lado de um dos mitos da escultura
 modernista no Brasil.
Deixei o mestre à vontade e quase o tempo inteiro ficou segurando em meu braço esquerdo num gesto carinhoso e sempre quando prosseguia o diálogo começava  com a palavra fraterna me chamando de filho.  Nunca tive muita aproximação com o velho Mário. Tinha uma boa amizade com seu filho Máriozinho, o grande fotógrafo reconhecido no mundo inteiro e que desapareceu precocemente. Mas, nesta manhã inesquecível me senti como uma pessoa que tivesse com ele uma convivência constante e fraterna. Por várias vezes me disse: "Filho venha me visitar." E depois corrigiu ,"venha me ver pra a gente conversar . Este negócio de visitar lembra incomodar, e quero que apareça pra a gente ficar aqui conversando. Viu filho?" . 
Cumprimento de cabeças .Um gesto
carinhoso e fraterno de Ivan com seu pai .
Foi graças ao seu filho Ivan Cravo que marquei este encontro. Ivan trata o seu pai com muito carinho e por algumas vezes eles se cumprimentaram e se acariciaram .O gesto mais repetido era o encontro de suas cabeças. Ivan me disse que tem horas que Mário chega a bater a cabeça na dele  um pouquinho mais forte que até dói. Fala rindo a acariciando a cabeça do pai.
Durante quatro ou cinco dias na semana Mário vai à sua oficina e fica por lá criando pequenas peças, especialmente de madeira, fazendo suas obras e mexendo nas tintas. Embora nesta idade ele não consegue ficar longe de sua oficina, e isto com certeza lhe dar forças para continuar aos 96 anos de idade com certa autonomia .
"É difícil falar de mim. Entende filho? É difícil falar de si sem ser hipócrita.Construí uma obra durante anos e está ai. Agora são as pessoas que vão ver, examinar e até julgar. Certamente uns vão gostar, outros nem tanto. Mas, o que fiz foi o melhor que poderia fazer".
Disse que durante às tardes fica em casa  e sempre está atualmente criando alguma coisa com pastel."Isto me dá prazer e me mantém ativo."
Sobre o gosto pela arte lembrou que sua mãe sempre disponibilizou papel e lápis para ele e os irmãos  desenharem . "Sou  neto de um almirante da Marinha de Guerra brasileira e  ele nos levou para a Europa e lá permanecemos meses . Sempre meu avô nos levava para visitar museus em todas as cidades que a gente ia conhecer. "
Sabemos que Mário Cravo Jr. é filho de um abastado empresário, que trouxe para aqui concessionárias de Williams e da Volks. A Cravo Motor , que na época as pessoas ficavam na fila esperando a hora pra comprar um carro. Ele mexia também com café e outras atividades. Porém, Mário ainda jovem queria fazer arte e foi para os Estados Unidos estudar escultura com o famoso escultor Ivan Mestrovic um amante da arte monumental, e talvez por esta influência Mário Cravo Jr. tenha hoje vários monumentos em praças, avenidas e em prédios públicos e privados. O mais conhecido na Bahia é aquele da Praça Cairu contrastando com o casarão colonial e o majestoso Elevador Lacerda.

                                                              CABEÇA DE TEMPO

Escultura de madeira
pintada datada de 1989.
Quando Ivan me presenteou com um exemplar do belo catálogo da exposição Cabeça de Tempo organizada pelo galerista Paulo Darzé ele indagou se queria que fizesse uma dedicatória e quando respondi positivamente passou a elogiar a mostra. "Montar uma exposição tem que ter o dom artístico. Afinal é um trabalho de arte. A exposição está muito bem montada e bonita". Realmente as 70 peças estão expostas numa maneira muito profissional.
São belas esculturas muitas delas feitas em toros de madeira que sobraram do incêndio do Mercado Modelo na década de setenta que Paulo Darzé conseguiu reuni-las e montar esta mostra. São peças que foram reunidas pacientemente pelo galerista conseguindo uma bela unidade. Os cortes que lembram àqueles feitos com machado e as cores fortes remetem à icnografia da esculturas africanas, porém se diferenciam na medida em que contextualizamos a ambientação da nossa Bahia. Mário  é um  artista moderno e foi ele um dos pioneiros deste movimento aqui em Salvador. Sua inquietude criadora atravessou décadas e sempre foi uma figura altiva.
Mário numa pose altiva e num
gesto blasé, segundo definiu
a foto de Máriozinho.
Ao mostrar a foto tirada por seu filho Mariozinho que ilustra a capa do catálogo e o convite da mostra ele riu e disse: "Esta foto dá uma ideia de arrogância e depois corrigiu. Arrogância não, altivez, mas olhe que estou com o pé fora da sandália numa pose blasé. " E riu em seguida. Como podemos ver o mestre continua atento à tudo aos 96 anos de idade.
Não quero aqui escrever palavras emboladas e linguagem incompreensível para mostrar uma falsa erudição que não tenho e não curto. Quando escrevo sobre um artista ou uma exposição procuro me colocar com o olhar de uma pessoa sensível que gosta de arte, que observa a técnica, que se encanta com as cores e com a elaboração da obra de arte. O que procuro fazer é um registro jornalístico dos eventos, com uma linguagem objetiva e nesta reportagem trago o lado humano deste grande artista que já respondeu a todas as perguntas possíveis, ganhou muitos prêmios, está presente nas praças, museus e coleções com suas obras, e também já foi enaltecido pelos maiores críticos daqui e de fora.
Lembrei de uma cena que me foi contada por uma pessoa muito próxima. Na década de 70 Mário Cravo Jr. foi convidado para dar uma palestra durante uma comemoração no Colégio da Bahia, que depois virou Colégio Central, localizado na Avenida Joana Angélica. Na hora combinada lá estavam a diretoria e os professores esperando o convidado, todos bem vestidos e empertigados. Daqui a pouco eis que surge no portão o Mário à vontade com suas sandálias .Parou diante de um jovem que vendia picolés numa caixa de isopor. Mário  tirou o dinheiro do bolso escolheu um picolé e veio saboreando ao encontro daqueles que os esperavam. Entrou no colégio e foi fazer sua palestra sendo ovacionado pelos professores e estudantes. Este é o Mário que escolhi para falar .Quanto à sua vasta e variada obra está ai eternizada para que os apreciadores e os críticos se deliciem e escrevam laudas e laudas sobre a sua grandiosidade e especificidade.
Mário Cravo Júnior veio a falecer em 1º de agosto de 2018 aos 95 anos de idade, no Hospital Tereza de Lisieux ,em Salvador-Ba, onde estava internado há alguns dias.


EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS 

 

E1947 – Salvador-Ba - Individual, no Edifício Oceania; 1947 – Salvador-Ba - Esculturas e desenhos, na Associação Cultural Brasil - Estados Unidos; 1949 – Salvador-Ba - Individual, no Edifício Sulacap; Nova York (Estados Unidos) - Individual, na Norlist Gallery ; 1950 - São Paulo SP - Individual, no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand; Rio de Janeiro-RJ -Individual, no Ministério de Educação e Saúde; 1951 – Salvador-Ba - Individual, na Galeria Oxumaré ;1954 - Salvador BA - Esculturas e Desenhos, na Rua Chile; Montevideo, (Uruguai) - Amigos del Arte;1955- Porto Alegre RS - Individual, na Associação Cultural Brasil-Estados Unidos;  Salvador BA - Belvedere da Sé - ar livre ;1956 - Porto Alegre-RS - Individual, na Casa Dariano; 1958 – Salvador-Ba - Individual, no Belvedere da Sé - ar livre; 1959 - Rio de Janeiro RJ - Individual, no MAM/RJ; Salvador-Ba - Colóquio Luso-Brasileiro, na Escola de Teatro da UFBA ; Belo Horizonte-MG - Individual, no Museu de Arte Moderna de Pampulha ; São Paulo-SP - Individual, na Praça da República - ar livre;  São Paulo-SP - Individual, no Saguão do Edifício Guinle; 1960 – Salvador-Ba - Individual, no Diretório Acadêmico da Escola de Belas Artes ;  Salvador BA - Individual, no Museu de Arte Moderna da Bahia; 1961 - Rio de Janeiro RJ - Individual, na Petite Galerie ; 1962 - São Paulo SP - Individual, na Petite Galerie; 1963 - Berlim (Alemanha) - Individual, na Rathus Spandau ; 1964 - Washington (Estados Unidos) - Individual, no Institute of Contemporary Arts; Wasghington (Estados Unidos) – Cravo;  Washington (Estados Unidos) - Individual, no Brazilian American Cultural Institute ; 1965 - Salvador BA - 3 Estados do Ferro, na Galeria Convivium ; Washington (Estados Unidos) - Individual, no Jardim da Embaixada Brasileira; 1966 - Rio de Janeiro RJ - 3 Estados do Ferro, na Galeria Bonino;  São Paulo SP - Individual, na Galeria Astréia; Brasília DF - Individual, no Hall do Hotel Nacional ;1968 -São Paulo SP - Cravo, na A Galeria; 1971 - São Paulo SP - Individual, no Paço das Artes; Fortaleza CE - Cravo, na Galeria Recanto de Ouro Preto ;  Salvador BA - Mario Cravo Junior, na Galeria Círculo ;1972 - Rio de Janeiro RJ - Cravo, na Galeria Bonino;  São Paulo SP - Cravo, na Galeria Documenta ; São Paulo SP - Exposição, na A Galeria ;1976 - Belo Horizonte MG - Mario Cravo, na Galeria Ami ; 1977 e 1979 - São Paulo SP - Exposição, na Galeria Scultura; 1980 - Salvador BA - Cravo 80, no Farol da Barra; 1983/1984 - Salvador BA - Exposição no lançamento do livro Cravo; Rio de Janeiro RJ - Exposição no lançamento do livro Cravo; São Paulo SP - Exposição no lançamento do livro Cravo; 1984 - Salvador BA - CRAVO, linha, forma e volume, no Núcleo de Artes do Desenbanco ; São Paulo-SP - Individual, na Galeria Múltipla ; 1986 – Zurique, (Suíça) - Esculturas e desenhos, na Galeria Ammann & Misteli ; 1987 –Salvador-BA - Escultural e desenhos, na Galeria ÉPOCA; Rio de Janeiro-RJ - Esculturas e desenhos, na Galeria Anna Maria Niemeyer; 1990 – Salvador-BA - Individual, na Ada Galeria; 1993 – Salvador-BA - Individual, na Fundação Casa de Jorge Amado; Salvador-BA - Individual, no Sebrae ; 1998 – Salvador-BA – Cravo Formas e Mitos, no Museu de Arte Moderna da Bahia; 2002 – Salvador-BA - Evocações, na Paulo Darzé Galeria de Arte.

Mário Cravo Júnior ainda participou de mais de uma centena de exposições coletivas aqui e fora do país.

 

ACERVOS 

Na Fundação Raimundo Castro Maia, Rio de Janeiro, Brasil; Instituto de Belas Artes – Porto Alegre-RS; Museu Carlos Costa Pinto – Salvador-Ba; Museu de Arte da Pampulha – Belo Horizontem; Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand – SP; Museu de Arte Moderna da Bahia – MAM/BA – Salvador- BA; Museu de Arte Moderna de Berlim, (Alemanha); Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro – MAM / RJ; Museu de Arte Popular da Bahia; Museu do Estado da Bahia; Museu Hermitage – Leningrado, (Rússia); Museum of Modern Art – Jerusalém, (Israel); Museum of Modern Art – MOMA – Nova York, (Estados Unidos); Pinacoteca do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo; Walker Art Center – Minneapolis, (Estados Unidos).