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quinta-feira, 27 de junho de 2013

JOSÉ MÁRIO REFLETINDO NA BOA VIAGEM

JORNAL A TARDE SÁBADO, 17 DE MAIO DE 1975

O ambiente do bairro da Boa Viagem está refletido no trabalho de José Mário, um pintor que vive constantemente em busca de uma técnica e  temática que definam seu trabalho de artista. É um jovem pintor, de talento, mas que ainda tem muito a percorrer em busca de um amadurecimento e de uma técnica apurada. Tem grande imaginação e capacidade de criar que são duas grandes qualidades de um artista, aliadas a uma grande obstinação em realizar um bom trabalho.
Por viver no bairro da Boa Viagem, José Mário sofre a influência do mar e da vida à beira da praia. Assim, os tons azuis estão presentes na maioria de seus trabalhos e em alguns deles ocupam grandes espaços. Utilizando a cor azul consegue grandes efeitos com cuidado e uma dedicação do artista. Assim os homens do mar, e a própria festa do largo da Boa Viagem, que todos os anos atrai milhares de pessoas que vão bebericar nas barracas armadas ao largo e, também, a parte religiosa da festa, com a procissão, estão representados em seus trabalhos.
O artista está preparando alguns trabalhos que depois serão por ele selecionados para integrarem uma coletiva que será realizada em julho, no hall do Salvador Praia Hotel.
Estive visitando o atelier de José Mário, como faço com todos os artistas.Um quadro me chamou a atenção. Retratava um folião vestido de palhaço que vai andando numa rua estreita, trazendo preso a uma das mãos um cachorro. Ao fundo, funcionando como back-ground, você observa vários foliões ainda dançando. O palhaço está triste porque encontrou apenas o cachorrinho para acabar sua solidão. Os amores, as bebidas, tudo acabou. É uma quarta-feira de Cinzas quando os grandes foliões estão tristes, relembrando fatos do Carnaval que passou.
Mas notei ainda que as figuras retratadas por José Mário são medievais e tristes. Os palhaços, presentes e os coroinhas estão de costas para o espectador andando por uma rua onde ninguém vê o seu fim. Tudo é meditação. Tudo é contemplação.
Diz José Mário que tudo que faz é espontâneo, ao ponto de pegar uma tela em branco e fazer um desenho. Daí começa a pintar e muitas vezes muda totalmente a ideia original, fazendo um quadro diferente daquele que planejou inicialmente. Cada personagem, que desenho e pinto eu vivo. São pessoas que estão diretamente ligadas a meu sentimento de artista.
Mesmo as figuras jogadas com espontaneidade, sem formas definidas, apresentam uma composição digna de apreciação. È claro que não poderei afirmar que são formas despropositadas.
Não, elas são imaginadas e criadas dentro de um propósito, mas certamente ainda poderão ser melhoradas com o passar do tempo. Finalizando, quero deixar claro que a pintura de José Mário tende a melhorar cada dia, e sua vontade de acertar é um grande estímulo ao seu trabalho de artista.

LUÍS BRITTO CHAMA RIACHÃO PARA CANTAR

O pintor Luís Britto chamou o cantor Riachão para se apresentar no dia da vernissage que será realizada na próxima segunda-feira, dia 19, às 20:30 horas . Riachão é amigo do pintor que tem admiração sobre seu trabalho de cantor e compositor. Ele não utilizará o microfone para dar ao ambiente um momento mais intimista e de espontaneidade. Assim as músicas cantadas por Riachão estarão integradas às pinturas de Luís Brito que são impregnadas de um sentimento da gente simples brasileira.

                  DOMENICO LAZZARINI

Já tive oportunidade de escrever sobre Dominico Lazzarini quando de sua exposição recentemente realizada na Guanabara. Agora ele chega à Bahia para mostrar sua arte. Até por volta de 1960 fazia pintura abstrata e hoje está com uma disciplina onde retrata o visível. É um impressionista que não se preocupa com os modismos tão comuns em certos artistas. Ele busca o belo, a estética, através de um trabalho sério e consciente. Professor de Pintura em algumas Escolas de Belas Artes em nosso País e com vários prêmios ganhos em salões e exposições em vários países, Domenico Lazzarini certamente vai agradar àqueles que acompanham o movimento artístico no Brasil. Sua exposição foi aberta no Último dia 17, na Pousada do Carmo.

               BIENAL PAULISTA

Com realização prevista para outubro, já estão abertas as inscrições para a XIII Bienal de São Paulo. As inscrições poderão ser feitas no Museu Nacional de Belas Artes, Instituto Brasil-Estados Unidos, Fundação Getúlio Vargas e Escola de Desenho, em São Paulo. A grande novidade é que Fundação da Bienal de São Paulo mudou o sistema de Júri de seleção e, na realidade, haverá dois júris de seleção.

                 CENTO E OITO ARTISTAS

Estão participando do XVIV Salão de Arte Moderna, no Rio de Janeiro, 108 artistas, cujo regulamento foi reformulado para permitir que todos os concorrentes disputem os prêmios de viagem e não apenas os isentos de júri, como ocorria. O salão foi coordenado pela gravadora. Nelly Lanchy e Maurício Salgueiro e dentre os participantes serão indicados os 11 artistas, que, isentos de júri, concorrerão aos prêmios de viagem internacional, pintura no valor de mil dólares e viagem no País, possivelmente do mesmo valor do ano passado, ou seja, Cr$ 6 mil.

ESCULTURA BARROCA

O Museu de Arte Sacra da UFBa dará um curso de Escultura Barroca, sob a coordenação do Professor Valentin Calderon. As inscrições encontram-se abertas. O tema básico do curso será A Talha e A Escultura Barroca na Bahia, de cujo programa constarão os seguintes itens: Aparição da Arte na Bahia; Características da Decoração Interna das Igrejas Portuguesas; os primeiros Artistas na Bahia; O Estilo Nacional Português; O Estilo Joanino e o Estilo Barroco.

CRÍTICO MINEIRO

Com o propósito de analisar a evolução da arte, o critico mineiro Frederico Moraes vai pronunciar palestra de 21 a 22 do corrente, na Escola de Belas Artes.Frederico de Morais nasceu em Belo Horizonte e reside na Guanabara desde 1966. É atualmente Professor de História da Arte, na Faculdade de Santa Úrsula e da Fundação Brasileira de Educação, em Niterói.

COLEÇÃO

Trabalhos de Volpi datado de 1933, Di Cavalcanti 1924, gravuras de Segal e Portinari, retratos e paisagens de Guinard e desenhos e guaches de Djanira estão expostos na Galeria do Instituto Brasil-Estados Unidos, na Guanabara, integrante da coleção de Rubem Breitman. Além desses, Nelson Leirner, Noni Geiger, Ives Machado, Barrio, Ângelo de Aquino, Paulo Roberto Leal, Ana Maria Maiolino e Haroldo Barroso.

SÉRGIO CAMARGO

Trinta e sete peças  - 20 relevos e 17 esculturas de porte médio - de autoria de Sérgio Camargo estão expostas na Galeria de Arte Ltda. A escultura de Sérgio Camargo resume quase todos os elementos do clássico: o plano, alinha, o volume e a relação destes elementos plásticos se manifesta estruturalmente em função da luz.
Carioca de nascimento, o artista Sérgio Camargo ganhou o primeiro prêmio em 1963 na Bienal de Paris e uma Sala Especial na Bienal de Veneza em 1966.
Por outro lado, 93 trabalhos do mesmo artista: relevos em madeira e esculturas em mármore de Carrara, de grandes dimensões, estão expostos no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Não se trata de uma retrospectiva, mas de uma amostragem de trabalhos de uma de suas fases.



FRANCISCO LIBERATO ESTÁ EXPONDO NO ICBA


O Homem é o tema da exposição que Francisco Liberato está apresentando no ICBA, na Vitória. É um trabalho onde o artista utilizou materiais e objetos que constantemente estão em contato com o homem. O barro, a madeira, o cereal, o arame farpado e o revólver. São exatamente alguns dos elementos questionantes e alvo de concorrência no mundo contemporâneo. Estive na vernissage e notei que a maioria dos visitantes sentiam no trabalho de Chico Liberato uma mostra da evolução e involução do homem, onde a inteligência e a razão deverão prevalecer. Assim, o animal que ocupa o primeiro lugar na escala zoológica está sendo utilizado como temática do seu trabalho.

ECKENBERGER ESTÁ DE VOLTA

JORNAL A TARDE,SALVADOR, SÁBADO, 19 DE JULHO DE 1975

Desenho de Eckenberg
Encontra-se em Salvador o artista argentino-baiano Eckenberg que depois de dois anos de ausente retorna e já está trabalhando a todo vapor para realizar uma exposição. Na Europa realizou três exposições individuais. A primeira em Madri, na Espanha, na Galeria Tailer de Picasso, com apresentação do crítico Walmir Ayala. Ele mostrou objetos que foram considerados altares arquitetônicos, maquetes de cidades fantásticas, com espaço para circulação dos sobreviventes de uma catástrofe terrestre. A outra foi em Paris, no Atelier Jacob, 45 Rue Lacob, e também na Primeira Feira Internacional d’Art Contemporânea e, finalmente na Alemanha, no Atelier Ana - Galerie Fur Kunst Der Gegenwart.
Seu atelier está localizado na rua Renato Medrado, 34,no Politeama, onde Reinaldo Eckenberger mistura-se com papéis e os mais variados tipos de materiais que constantemente são empregados na feitura de seus objetos e colagens.
Como outros artistas que aproveitam o lixo da sociedade tecnológica, Eckemberg vai construindo um novo mundo as figuras parecem seres fantásticos muitas vezes mutilados. É um alerta de um artista que vê com sensibilidade a insensibilidade de uma sociedade tecnocrata onde o homem vai sendo substituído pela máquina e, ao mesmo tempo consumido por ela.
Seus objetos representam o renascer. Mas um renascer para uma nova vida, num mundo completamente estranho ao que estamos vivendo.
Suas colagens também mostram a preocupação com a sociedade e as figuras quase sempre estão interligadas como que por um cordão umbilical. Mostram que ninguém pode viver sozinho, ainda mais aqueles que enfrentaram uma catástrofe, ou sejam, os sobreviventes do mundo fantástico criado por Eckenberg.
O artista nasceu em Buenos Aires, em 1938, estudou arquitetura, optando depois pelas artes plásticas: faz o curso da Escola Superior de Belas Artes e o curso de Cenografia no Teatro Colón. Em 1958 realizou sua primeira mostra individual em Buenos Aires. Depois de ter viajado pela Europa, veio ao Brasil, conhecer a Bahia. Não resistindo aos encantos, aqui ficou.
Foi o ganhador do Primeiro Prêmio Estadual de Pintura da 1ª Bienal Nacional de Artes Plásticas. Aqui realizou mais de uma dezena de exposições.

        AUGUSTO RODRIGUES NA GALERIA O CAVALETE

A Galeria  O Cavalete está expondo alguns trabalhos de Augusto Rodrigues. Pernambucano de nascimento, este artista reside atualmente no Rio de Janeiro onde desenvolve suas atividades artísticas. Caricaturista, desenhista, colecionador de arte e reformulador do ensino de arte para crianças. Em todas essas atividades Augusto Rodrigues tem conseguido destaque especial, tendo ganho m 1953, no Salão Nacional de Arte Moderna, o Prêmio Viagem ao Estrangeiro e também participado de exposições internacionais.
Outros artistas estão na O Cavalete: Carlos Bastos, Leonardo Alencar, Lygia Milton, J. Cunha, Mirabeau Sampaio, Juarez Paraíso, Carl Brussel, Costa Lima, Antoneto Alberto Valença entre outros.

             DESCOBRIRAM UM MURAL DE DA VINCI

Foi descoberto um mural de Leonardo da Vinci na Igreja de São Marcos, em Milão, depois de permanecer ignorado desde o começo do século XVII. O mural estava coberto desde aquele século pois acreditava-se que os afrescos transmitiam epidemias. O mural estava escondido atrás de um retrato de Santa Bárbara pintado no século XVII e representa a Virgem Maria com o Menino Jesus e São João Batista, pintado em branco e preto. Assim, os conhecedores do trabalho de Da Vinci já podem acrescentar mais esta obra.

                UMA CONFUSÃO....

Noticiei à uns quinze dias que Frans Krajcberg tinha retirado 11 quadros de uma exposição na Guanabara, que eram atribuídos de sua autoria. Agora, a coisa está mais complicada. Descobriu-se que não eram somente 11 e sim 22. Os quadros tinham sido comprados há oito anos por Giuseppe Baccaro a Mariano Tasny.Vamos ver se, desta vez, são conhecidos e processados os responsáveis.

               ROBERVAL MARINHO NA CAÑIZARES

Outra exposição aberta ao público baiano é a de Roberval Marinho na Galeria Cañizares, no Canela.Estão expostos 30 trabalhos, sendo vinte bico de pena e dez guaches. É sua segunda exposição individual, Roberval Marinho mostra um trabalho fundamentado do exoterismo e simbolismo. Para ele a cobra quase sempre presente em seus quadros, tanto simboliza a vida como a morte. O sol é o começo e o fim. Suas figuras longilíneas vestidas com longos e vistosos vestidos parecem preparar-se para um fantástico baile de bruxas.
Trazem nas mãos cajados onde pequenas máscaras surgem nas extremidades.São trabalhos que sintetizam o começo e o fim num movimento contínuo.Roberval busca uma linguagem capaz de se comunicar. Já trabalhou em teatro fazendo figurinos e terminou diplomado pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia.
Pretende estudar Direção teatral porque acredita que não importa a técnica utilizada, o que me interessa é mostrar o que tenho dentro de mim. Para isto usarei vários tipos de linguagem. Hoje, Roberval vive no antigo Hospício São Pedro, nas dependências da atual Igreja Coração de Maria, na Rua Democrata. Era um socavão abandonado que ele recuperou e instalou o seu atelier, onde trabalha e cria suas figuras fantásticas. Acredito que a deformação proposital das figuras criadas por Roberval representa a luta do homem no Mundo. Do nascimento à morte. Num movimento contínuo onde tudo começa e termina, até as erudições que determinadas pessoas estão preocupadas em mostrar

 MUITOS QUADROS NA GALERIA RAG
Joselito Duque e Roberto Araújo,
responsáveis pela RAG

Foi inaugurada, ontem, uma grande exposição de trabalhos de mais de uma centena de artistas na Galeria RAG, na Boca do Rio.A exposição foi organizada pelo pintor Joselito Duque e seu colega Roberto de Araújo Góis. A galeria surge com bons propósitos e ambos sabem como diz o convite de apresentação dos cuidados, respeito e entendimento que merece a obra de arte, mesmo porque o Joselito Duque é um artista que vive de sua arte. Muita gente está surpresa com o número de trabalhos que eles conseguiram reunir.
Alguns colocados pelos seus autores e outros que já vinham sendo adquiridos há algum tempo pelos proprietários da Galeria Rag com o objetivo de colocá-los à venda, quando de sua inauguração. Assim, tivemos a oportunidade de ver um trabalho do mestre Réscala e um trabalho de um jovem artista desconhecido. Finalizo desejamos sucesso e esta nova galeria que certamente contribuirá para o desenvolvimento do nosso mercado de arte, que realmente está precisando de promoções deste tipo.


O MAR NA ARTE DE LEONARDO ALENCAR

JORNAL A TARDE, SALVADOR,  SÁBADO, 03 DE MAIO DE 1975

Peixe, gravura do artista Leonardo Alencar
O mar exerce uma grande influência na pintura do sergipano-baiano Leonardo Alencar. Assim ele vai criando seus pescadores, peixes e barcos de seu atelier, cuja janela descortina a  praia de Amaralina. É o casamento entre o criador e a temática que diariamente estão em perfeito contato.
Agora ele está trabalhando para sua próxima  exposição que será realizada no corrente mês, na Galeria Cañizares, onde mostrará 48 gravuras inéditas com a temática pescadores e todas realizadas no seu segundo atelier que fica na praia do Jauá.
Ele explica o seu fascínio pelo mar dizendo que 'sempre fui muito motivado pela presença do mar e do homem do mar. Hoje, por exemplo, vejo com tristeza duas poderosas máquinas destruindo ou aniquilando o mar e o pescador. A primeira delas é a indústria, a tecnologia que lança diariamente toneladas de detritos os mais diversos, e, a segunda é o turismo, que traz como consequência a quebra da ingenuidade, do calor e aconchego humano da gente simples humano da gente simples que é o pescador."
E continua  "sua vida está cada vez mais difícil porque os peixes estão cada vez mais longe da beira da praia, devido a poluição e o barulho das cidades. Assim, sua vida, além de mais difícil, corre maior risco porque são obrigados e velejar por várias milhas em busca do sustento."
Seu trabalho artístico sempre foi calculado numa realidade brasileira e Leonardo Alencar participou ativamente do movimento artístico há poucos anos atrás.
Hoje, muita gente pensa assim, ele diz: "Quando se fala em particular da vida artística baiana, lembro-me que existia uma disputa muito séria entre os chamados pintores acadêmicos e os jovens. Acontece que eu era jovem pintor e tive uma participação ativa nos mais variados setores em busca de uma oportunidade para arte que fazíamos naquela época. Assim organizamos seminários, palestras, debates, íamos aos jornais para divulgar nosso trabalho. Hoje, vejo que não exerço uma participação tão intensa porque realizo o meu trabalho no atelier e faço minhas exposições."
Mas isto não significa que tenha me ausentado de um compromisso, ou mesmo que não devo participar do movimento artístico baiano. Devo dizer que tenho um imenso respeito pelos pintores jovens e constantemente procuro discutir tudo aquilo que é novidade. O que não aceito é a presença de grande número de pintores que erradamente são chamados de primitivos. Sim, erradamente porque muitos deles são primários e não primitivos. Considero primitivos autênticos e representantes de uma cultura popular os riscados de ex-votos, os que fazem as tabuletas de circos mambembes, os quais não receberam ainda influência dos apelos visuais do mundo moderno.
Basta dizer que normalmente recebemos centenas de apelos visuais e fora outras circunstâncias que envolvem o homem. Ora, um indivíduo que mora em Salvador já sofre grande influência  de algo que assiste a televisão, vai ao cinema, lê jornais e revistas, vive numa cidade urbana, não pode ser um autêntico primitivo. Certamente os seus valores e costumes já sofreram grande alteração, daí não aceitar esta confusão estabelecida entre o primário e o primitivo.
Diz ainda Leonardo Alencar que também está um pouco ausente da vida artista baiana, porque durante três dias na semana está viajando para Aracaju, atendendo a um chamado da Universidade Federal de Sergipe, onde ministra um curso de Desenho. É um trabalho diz Leonardo Alencar muito importante porque estou levando para aquele Estado técnicas que muitos não conheciam.
Hoje estamos com um grupo que trabalha em continuidade, uma espécie de laboratório onde fazemos pesquisas e estudos.
Leonardo Alencar ministrou por três meses um curso de xilogravura e atualmente ensina desenho e pintura, em regime de atelier livre. Considera este seu trabalho semelhante aquele feito pelo gravador Hansen-Bahia há uns 15 anos atrás. E conclui. Acredito que a participação do artista não pode ser medida com fronteiras pois ela tem que ser globalizada. É por isto que estou ainda participando.

DIFÍCIL

O artista Leonardo Alencar também está fazendo uma série de trabalhos tendo o cavalo como temática.
Ele acha que a forma do cavalo é uma das mais difíceis de ser executada em termos plásticos. Além do mais, é preciso ver que os animais que retrato transmitem tudo aquilo que penso e vejo na vida, A propósito, estou preparando um álbum onde aparecerão os cavalos mais importantes entre os quais: Silver, do Zorro, de Napoleão, Átila e outros. O cavalo sempre teve participação muito importante para humanidade, como meio de transporte em tempos de paz ou na guerra. Até na Alquimia, o cavalo está presente e veio a figura do cavalo selvagem aquele que melhor representa uma artista criador.
O cavalo selvagem, sou eu e todos aqueles que tem força de criar.
Quanto aos peixes, estou trabalhando numa série de 25 trabalhos a óleo. Acho que é a forma plástica mais fácil, porém de grande conotação simbólica. Mas creio a relação plano objeto na figura do peixe é muito difícil e exige uma participação criadora muito forte. Aí o artista tem de dar tudo de si para uma boa composição plástica.

ARTE CONTEMPORÂNEA
Trabalho a óleo de Leonardo 


Falando sobre a arte contemporânea, Leonardo Alencar acredita que dentro de poucos anos retornar ao cavalete. Esta volta não diz nada de regressão e sim uma maneira de humanização. Como membro do Instituto de Arte Contemporânea, de Londres, Leonardo afirma que o Instituto está obrigando a seus integrantes a trabalhar com o cavalete. Porque do contrário ficamos naquele momento em que se fundem o artista e o projetista industrial.
Assim aparecem os múltiplos e a natureza é desprezada pelo artista. Aparecem os múltiplos e o artista esquece a realidade social em que vive. É certo que a arte contemporânea, a arte cinética ou qualquer nome que dermos não perde a sua importância e o sentido de pesquisa. O que afirmo é ela chegará a um ponto de saturação e haverá o retorno à natureza. Ela deve ser estudada e pesquisada mais não reflete nossa realidade brasileira. Assim a arte industrializada terá de recorrer á arte de cavalete como forma de abrir os seus caminhos para a humanização.
A arte é um processo de sedimentação. Não devem existir fórmulas. Ela traz segundo alguns teóricos um sentido de complexo de Édipo, de volta as origens.
No entanto o artista plástico precisa conhecer tudo que está sendo feito no campo das artes plásticas. Deve desenhar e pintar muito mais também ler para ter informações. É por isto que olho com muito carinho a arte contemporânea, os jovens artista. Procuro também fazer um trabalho onde os meus desenhos representem uma continuidade do meu eu. É uma extensão espontânea da minha própria personalidade, pois somente assim surge a individualidade e a criação no trabalho de arte.
Seu temperamento inquieto resultava em certos problemas familiares. Mas o que o menino Leonardo queria era pintar. Assim partiu para uma cidade no interior de Alagoas, á beira do São Francisco onde foi trabalhar com um mestre de obras pintando paredes de uma igreja. Teve um professor de desenho Valter Barros, que foi o responsável por uma verdadeira revolução da arquitetura no Nordeste. Este professor morreu jovem mais não desanimou Leonardo. Ele aprendera com o mestre de obras Olívio Martins e respeitar o seu material de trabalho, lavando os grandes pincéis, lavando os grandes pincéis a tinta. Mas sua família continuava irredutível. Uma família de juristas que tinha um filho com grande facilidade para aprender línguas não entendia porque ele insistiria em ser pintor. Queriam transformá-lo num diplomata ou talvez num professor de línguas; nunca um artista. Mas Leonardo não desistiu e passou a exercer outras atividades paralelas como locutor de rádio, rádio-ator, produtor, adaptador de novelas, chegando a aterrorizar o Estado com um trabalho de adaptação que fez.
Mesmo assim, o dinheiro que conseguia ganhar em grande parte era aplicado na arte.
Em 1957 começou a ter suas primeiras experiências com a cenografia. Houve um concurso de Teatro Amador em Sergipe e teve a oportunidade de conhecer Pascoal Carlos Magno. Fazendo cenografia, viajou por alguns Estados e conheceu a Bahia.
Ficou encantado com nossas praias e com o cheiro do mar e o azul do céu de Salvador. sabia que ia voltar.
Acontece que em 1960 foi apresentado por seu tio Emílio Fontes a Vasconcelos Maia, então Diretor de Turismo. Assim realizou sua primeira exposição no Belvedere da Sé, Depois passou dois anos como bolsista da Biblioteca Pública, que era dirigida por Péricles Diniz, grande incentivador das artes na Bahia. Nesta mesma época, foi ao Rio de Janeiro onde realizou uma individual na Biblioteca Nacional. Quando terminou a bolsa no atelier de Mário Cravo e Jenner Augusto muito lhe ajudou.
Assim, a pintura de Leonardo Alencar pode ser dividida, do ponto de vista técnico, em duas partes: antes conhecer inclusive, técnicas de mistura de tintas, melhoria do desenho etc. Já do ponto de vista de motivação não houve qualquer mudança, apenas ele captou as cores da cidade mágica que é Salvador.
É por isto que ele chega a ver com certo pessimismo o que estamos assistindo passivamente: o processo de desumanização de Salvador.
Quanto ao movimento artístico baiano, ele considera excesso de gestação. Estamos  vivendo um hiato que vai definir os artistas da nossa geração como: José Maria, Calasans, Sante, Emanoel e outros. O mercado é o suporte de um movimento artístico e no momento ele quase não existe, é insignificante. Além de achar que nós estaremos no clímax do processo criador daqui a alguns anos.

                    O SURREALISMO DE ANITA BUCHERER

 A pintora e desenhista alemã Anita Bucherer inaugurou no último dia 29 uma a sua primeira exposição individual no MAM no Rio de Janeiro de temática surrealista-fantástica .Ela apresenta 36 desenhos. É um trabalho de atualização das fábulas e lendas de seus país, onde a artista adota uma linguagem plástica muito semelhantes as liberdades morfológicas de  um Breughel. Ela nasceu evidente junto de um Bosch, em Bonn. Estudou na Escola Paulo Colin, em Paris; na Escola de Belas Artes ,de Berlim  e, no atelier de W. G. Haiter, em Paris. Como ilustradora, trabalha  em importantes jornais americanos como o New York Times, o Chicago Sunday Tribune. Já realizou 12 exposições individuais em vários países.

                   ABELARDO ZALUAR CONVICTO

"Nunca tive nenhuma dúvida sobre a profissão a seguir: desde que me entendo por gente, quis ser pintor."
Assim se expressou em 1972 o pintor Abelardo Zaluar que está realizando uma retrospectiva no MAM. De seu pai herdou os instrumentos de trabalho, os compassos de precisão que usava para fazer as grandes superfícies coloridas de seus mapas.
Desde cedo conciliou sua atividades de artista e professor. Realizou sua primeira exposição de aquarelas em 1947,  seguindo-se com bastante regularidade  outras exposições e hoje com 50 anos, dos quais 30 dedicados a arte Zaluar é um artista realizado.

SÉRGIO RABINOVITZ EM QUATRO PARTES

.JORNAL A TARDE, SALVADOR, SÁBADO, 12 DE JULHO DE 1975

Sérgio Rabinovitz mostra uma de suas gravuras
A partir de oito de agosto os baianos terão oportunidade de ver os trabalhos de Sérgio Rabinovitz na Galeria Usis, na Vitória. É uma exposição que apresenta quatro partes distintas, porém, integradas, revelam a capacidade criativa e o cuidado na sua realização. Embora jovem, o Sérgio leva muito a sério o seu trabalho, ao ponto de abandonar tudo e seguir nos próximos meses para os Estados Unidos onde passará algum tempo.
Sua mostra em quatro partes apresenta em primeiro lugar gravuras onde o artista utiliza sombras naturais que são transferidas através de cortes e sulcos cavados com maestria na madeira. Notamos a presença de elementos geométricos, no conjunto dessas gravuras, e mesmo formas distanciadas do elemento natural que foi captado inicialmente. Na segunda parte, as gravuras de Sérgio Rabinovitz demonstram uma perfeita ligação com a gravura tradicional japonesa e por isto ele pretende expô-las sem molduras, apenas com dois pedaços de madeira presos nas extremidades, como os japoneses faziam antigamente. Nesta parte, o artista trabalha com elementos geométricos como o triângulo, o círculo e outros. Já a terceira parte é formada por gravuras que revelam um trabalho de pesquisa onde Sérgio faz alguns estudos de cabeças humanas. Aí ele passa a trabalhar com formas planas e recortadas com utilização de tons fortes e fracos, os quais consegue dando maior ou menor força no momento a impressão.
Ainda destacamos a sua preocupação com o back-ground. E, finalmente, a última parte formada de gravuras baseadas em larvas, onde Sérgio fez um trabalho meticuloso, dando vários cortes como muitos fazem com a fotografia, destacando, assim, detalhes que apresentam uma grande composição plástica. Essas gravuras vistas em conjunto dão ao espectador uma ideia geral do desenho original.
Sérgio trabalha no atelier de Mário Cravo Júnior, na Avenida Garibaldi. O escultor cedeu-lhe uma prensa onde ele vai confeccionando suas gravuras. Já trabalhou com Calasans Neto, porém sem qualquer compromisso profissional. Agora o artista está realmente voltado para o seu trabalho. Passará de 1 a 4 anos nos Estados Unidos, como bolsista da Universidade de Wasleyan, estudando artes plásticas.

O DECEPCIONADO VENCEDOR DE UM SALÃO NACIONAL

Esta bela escultura de Haroldo Barroso data de 1971.

Acabo de ser informado que o vencedor do Salão Nacional de Arte Moderna de 1973, o escultor Haroldo Barroso, voltou decepcionado de sua viagem de estudos e tomou uma decisão que para alguns foi considerada drástica , inconsequente e para mim correta, ou seja: comunicou à Comissão Nacional de Belas Artes sua desistência do restante do prêmio em favor de outros artistas. Ele apenas sentiu de perto o que os artistas brasileiros premiados enfrentam lá fora para viver com 500 dólares mensais que hoje equivalem a cerca  de CR$4.500,00. Simplesmente o indivíduo não pode sair de casa, quando os vencedores devem visitar museus, exposições, etc. Em outras palavras, participar da vida artística. Como?

A POLUIÇÃO NOS VITRAIS DA CATEDRAL DE CANTUÁRIA

A poluição está atacando os vitrais das janelas e portas de importantes monumentos históricos em todo o Mundo. Muitos desses monumentos resistiram ás investidas dos homens e das bombas, e agora a fuligem, subproduto do progresso, está destruindo-os. Uma terrível corrosão é causada pelo depósito de pó e materiais gordurosas. Um dos elementos potencialmente destrutivos da camada externa protetora do vitral é o dióxido de enxofre, que provoca furos nos vitrais. Uma solução é formada pela umidade da atmosfera que se mistura com dióxido de enxofre e transforma-se em ácido sulfúrico.
Agora os vitrais da Catedral da Cantuária estão sendo restaurados e o processo é semelhante ao utilizado há alguns anos para as janelas medievais da Catedral de Nova Iorque, quando é tratada separadamente cada seção. São 600 metros quadrados de vitral colorido que terão que ser restaurados. Este edifício de 800 anos já ofereceu refúgio e prazer a milhões de peregrinos estudiosos, amantes da música e turistas, inclusive baianos. Dentro de suas paredes maciças foi assassinado Thomas Becket.
Voltando aos vitrais, para quem não sabe eu explico: vitral colorido é obtido aquecendo-se pó de sílica potássio, cal e outros materiais, com sais metálicos para dar cor. Alguns sais metálicos produzem o vidro incolor que é mais usado hoje em dia, outros produzem as cores. Os óxidos de ouro, por exemplo dão a cor vermelha ao vitral, enquanto que os óxidos de cobre produzem os íons verdes e os óxidos de cobalto, os azuis.

     MAIS DE QUARENTA NA BIENAL PAULISTA

O número de países inscritos na Bienal de São Paulo já ultrapassa a casa dos 40. Quando iniciou, em 1951 a Bienal contou com a participação de 21 países e chegou a contar com mais de 60. Hoje, os seus organizadores estão mais preocupados com a qualidade das obras internacionais apresentadas do que com a quantidade de participantes.
Seria uma tendência contra a realização de uma macro-exposição.
O setor de arte experimental terá destaque especial principalmente com a participação de latino-americanos. Já estão confirmadas as salas especiais hors concursos para os artistas: Fernado Szyslo, do Peru: Edgar Negret, da Colômbia: José Luiz Cuevas do México: Mário Toral, do Chile: Ary Brizzi da argentina; e Alejandro Otero, da Venezuela.
Quanto à representação brasileira, muita coisa ainda vai acontecer.

             O INGÊNUO JOSÉ TIAGO FOI À CACHOEIRA

A ingenuidade é sempre bem vista. Em qualquer setor da vida social. Os sentimentos e as manifestações populares mais puras devem ser defendidas com afinco e o pintor primitivo combatido por muitos com sua ingenuidade característica deve ser bem visto. Para muitos devido às motivações dos meios de comunicação ninguém escapa  das influências. Mas esquecem que alguns conseguem filtrar essas motivações e permanecem puros. É o caso de Tiago. E não podemos esquecer que a pintura brasileira contemporânea deve muito aos primitivos muitos reconhecidos internacionalmente.
Tiago está expondo na Galeria Amanda Costa Pinto, em Cachoeira, numa promoção daquela cidade histórica do Recôncavo baiano.
                 DESENHOS DE BARTIRA

A desenhista Bartira estará a partir do dia 14 até 24 do corrente no Solar do Unhão numa promoção da Fundação Cultura. Serão mostrados 25 desenhos a bico de pena e alguns com ligeira presença do guache, dando uma perfeita composição cromática e formal. O tema da exposição é o resultado de minhas observações do cotidiano, da gente que vive nesta cidade tão cheia de beleza e mistério. É uma captação de energias, que transformam em conhecimento a minha vivência e assim vou registrando dentro de uma perspectiva artística, explica Bartira o conteúdo do seu trabalho.

                         FIGURAÇÃO DO PORTUGUÊS MÁRIO SILVA

Desenho do português Mário Silva
Portugal está a toda hora nas manchetes dos jornais.Porém, este português nos traz uma imagem diferente daquela que lemos diariamente. Trata-se de Mário Silva, natural de Becanta, distrito de Coimbra, onde graduou-se como engenheiro geógrafo. Quando estudava engenharia Mário Silva frequentou a Escola de Belas Artes e assim foi acumulando conhecimentos que lhe permitiram uma opção e a realização de um trabalho sério. Bolsista da Fundação Calouste Gulbenkian, em Estocolmo, o artista pode, assim, continuar o seu trabalho realizando, inclusive, exposições em outros países, e particular da 1ª. Bienal Internacional de Pintura Contemporânea, em Florença, Itália. Ele já é conhecido no Brasil, pois em 1974 realizou uma exposição no Tijuca Thenis Clube, no Rio de Janeiro.
Além de sua atividade de pintor, Mário Silva fundou o Círculo de Jazz da Associação Acadêmica de Coimbra. Hoje está desenvolvendo algumas pesquisas tentando uma renovação na técnica do vitral. Esta renovação é feita através de suas esculturas de alumínio, onde aproveita os espaços vazios enchendo-os com uma cola especial, que depois de seca é pintada com tintas transparentes verniz grasse. Coloca outra acamada de cola e consegue uma transparência à semelhança dos vitrais antigos.
Os conflitos e agora mais do que nunca da sociedade moderna, que se debate com problemas aparentemente sem soluções é o seu tema preferido. Seus trabalhos servem também como um alerta para os perigos de uma catástrofe. Sua temática é influenciada pelo surrealismo, e açor, pelo expressionismo.
Mário Silva está expondo desde o último dia 10 no Gabinete Português de Leitura, na Piedade.

DICINHO CRIA A PARTIR DA MIGALHA

JORNAL A TARDE, SALVADOR,  SÁBADO, 21 DE JUNHO DE 1975

Uma obra exposta de Dicinho
Segundo o Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, 11ª Edição, de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, a palavra fragmento significa cada uma das partes em que se dividiu um todo; pedaço; fração; migalha. Assim podemos classificar a arte de Dicinho que está dividida em pedaços ou partes que juntas formam um todo. Sua exposição aberta ontem, no Solar do Unhão, promovida pela Secretaria de Educação e Cultura através de trabalhos em artesanato, esculturas e objetos feitos com materiais considerados imprestáveis pela sociedade de consumo e até móbile.
Durante a exposição, o artista dança e faz pequenas representações criando um ambiente de criação contínua. Seu temperamento inquieto e criador permite que chegue a torna-se incompreendido por determinadas pessoas. Conheço-o há vários anos e juntos já fizemos uma peça dirigida por Gey Espinheira no Grupo de Arte da Faculdade de Filosofia. Ele fazia o papel de um soldado e ninguém se controlava quando recebia as instruções militares. Era uma cena engraçadíssima. Assim, é Dicinho um artista nato que é capaz de fazer você rir e ao mesmo tempo ficar pasmado diante de seus trabalhos,
Visitei o seu ateliê antes da exposição e tomei conhecimento dos trabalhos que agora são mostrados ao público baiano.
Ele não sabe explicar, aliás não precisa, a razão porque misturou trabalhos de artesanato com esculturas e mesmo móbiles. Acha apenas que sua arte é um todo formado de pedaços e assim deve ser entendida. Muitos dos trabalhos surgiram inesperadamente. Foi ao Mercado Modelo e lá encontrou-se com um homem que vendia centenas de bonecas de pano num saco. Comprou algumas bonecas e começou a trabalhar. Montou várias representando a sociedade, guerra, desespero. Umas das cenas: um trabalho de arte popular  Suas raízes interioranas  verdadeiras permitem a feitura de um  trabalho eminentemente popular com a  utilização de materiais populares com as caixas de cigarros, tiras de  chita barata, lâminas de papelão e bonecas de pano . Considera babaca os que não aceitam seus trabalhos e diz que  falam por si.
Dicinho é um baiano, magro e elétrico, conforme vocês vão constatar. Ele está andando, falando e de repente resolve concentrar-se. Como um boneco elétrico levanta-se de sua posição yôga e começa a saltitar, a dançar. Braços e pernas giram de um lado para o outro como que a representar o papel de suas  bonecos de pano. Não é mais um aventureiro que surge no cenário das artes plásticas baianas. Tem um curriculum,embora desconhecido da maioria do público baiano, que merece ser relembrado: Montou em São Paulo a mais rápida exposição. Chegou, mostrou seus trabalhos e foi-se em apenas 10 minutos. Foi o que chamou de Uma Exposição Relâmpago, no Museu de Arte de São Paulo. Juntamente com Adinísio Primo fez o figurino da peça Na Selva das Cidades, de José Celso Martinez. Ilustrou reportagens para várias revistas como Pop, Planeta, Realidade, e também para o Jornal da Tarde, de São Paulo. Ilustrou vários livros para a editora José Olímpio e trabalhou no Jornal A Flor do Mal, dirigido por José Carlos Maciel, que teve um fim precoce, porque foram editados apenas cinco números.
Um objeto que você normalmente considera imprestável como uma boneca de plástico sem braços, uma metralhadora de plástico quebrada, e mesmo uma loteria de uma velha geladeira tem um grande significado para Dicinho. De posses desses fragmentos, ele vai reunindo-os e finalmente surge um trabalho, uma escultura, um móbile, etc.
A gula humana, por exemplo, serviu de tema para um de seus trabalhos. Sendo macrobiótico, detesta a carne bovina ou mesmo de aves. Diz Dicinho que "fico triste quando observo os homens nos açougues comprando carne. Eles também chupam balas e tem dentes cariados.Tomam injeções e seus braços embora aparentemente fortes são verdadeiros gravetos. Assim vão segurando suas muletas e cada vez mais se armando. Enquanto isto, o sexo passa de bico aberto. É isto que significa o meu trabalho", diz ele, apontando para um objeto.

              BENÉ FONTELES EXPÕE NO ICBA

A 15 de julho próximo, o artista Bené Fonteles estará expondo no Instituto Goethe, na Vitória, trabalhos áudio-visuais, montagens gráficas, curta-metragem, fotocópias e cartazes.
Também é um trabalho de aproveitamento do chamado lixo industrial. Na parte de slides o artista utiliza fotolitos de um jornal offset, onde recorta  e superpõe imagens, cola, pinta e risca. É assim o cotidiano do jornal recriado em forma plástica e cada slide é uma matriz gráfica para capa de livros, cartazes e serigrafias ou mesmo outras formas de programação visual.
Curta-Metragem Conceitual foi iniciado em Fortaleza em 1974 em O Alvo onde ele mostra que a vernissage é mais um acontecimento social que artístico, quando na realidade deveria ser o contrário.
Cartazes Conceituais - segundo Bené são decorrentes dos trabalhos conceituais em pranchas. Partiu para os trabalhos em cartazes, assumindo um tamanho maior e um maior compromisso conceitual como depõe sua proposta: Fotografia /encontrada a imagem mastigada,/ impressa,/ rotulada, /porém não consumida, /graficamente o recorte se recompõe e cria estética e um novo conceito.
Vencedor de vários salões, a exposição de Bené Fonteles promete ser uma das mais importantes já realizadas em Salvador durante o corrente ano.

            MARIZA DERRAMA CORES NAS TELAS

A carioca Mariza está expondo na Galeria do Hotel do Pelourinho, seus quadros inspirados nos personagens dos livros do escritor Jorge Amado. Ele entende que o artista tem liberdade de expressão através das cores, além das formas e traços, estado de espírito, sentimentos e paixões. Nesta sua exposição mostra que derramou cores vibrantes sobre as telas brancas misturado com o feitiço baiano.
Já realizou exposições em várias capitais brasileiras e iniciou estudos de pintura com o mestre Guido Viaro, em Curitiba, no Paraná

GARRIDO NA PANORAMA

Foi inaugurada ontem a exposição de desenhos e pinturas dos artistas Eugênio Roberto Gordilho, Afonso Roberto Martins Garrido e Odília Bouzas. São alunos e novos pintores que recebem orientação do pessoal da Galeria Panorama. Anda não tive oportunidade de ver os trabalhos deste trio de pintores que agora estréia mostrando aos baianos a sua obra.

SIRON FRANCO NA GALERIA COSME VELHO, SÃO PAULO

Este artista foi recentemente premiado com uma Viagem ao Estrangeiro, do XXIII Salão Nacional de Arte Moderna.Agora expõe na Galeria Cosme Velho, em São Paulo. Seu aparecimento meteórico no cenário das artes plásticas. Suas figuras distorcidas na realidade não retratam ninguém em especial. São pessoas do coletivo que podem estar tanto em Goiás Velho, sua terra natal, como em São Paulo.
São imagens de sua infância e juventude vividas nos chapadões onde as mais cruéis aberrações aparecem aos olhos de todos aqueles que tem capacidade em enxergar.
Essas míseras criaturas estão em vários pontos deste País, no Norte, no Nordeste e mesmo nas aglomerações populacionais marginais das grandes metrópoles. São distorcidas não apenas fisicamente, mas também mentalmente. Outros a grande maioria acostumaram-se com a crueldade e são capazes de olhar com maior tranqüilidade e indiferença um filmete na TV onde pessoas são mostradas completamente destroçadas pelas bombas. A primeira de Siron Franco é, sem dúvida, uma crônica subjetiva da época em que vivo, como ele mesmo afirma.

COR COMO LINGUAGEM

A exposição Cor como Linguagem está aberta no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro até o próximo dia 20 de julho e tem como principal objetivo apontar os rumos e as inovações radicais que enriqueceram a produção pictórica nos últimos 25 anos, abrangendo os diferentes estados de realidade na Arte Pop, às retomadas recentes do rigor formal.
Foi organizada pelo Conselho Internacional do Museu de Arte Moderna da Nova Iorque. A mostra reúne 56 artistas, na maioria pintores norte-americanos, entre os quais Andy Warhol, Robert Rauschemberg, Roy Lichtenstein, Jackson Pollock, Mark Rothko, Barnet Newman, Morris Louis, Frank Stella e Kenneth Noland. Dos europeus temos os italianos Enrico Castellani, Piero Dorazio e Lúcio Fontana, os franceses Yves Klein e Daniel Buren, os ingleses Richard Smith e John Hoyland, além de outros, totalizando 63 trabalhos.
A apresentação é de Kynaston Msnine, curador de Departamento de Pintura e Escultura do Museu de Arte de Nova Iorque que afirma A seleção dos expositores inclui alguns renomados artistas contemporâneos, sem deixar de lado outros mais jovens, alguns ainda pouco conhecido, mas todos plenamente afirmados em sua contribuição à arte de nosso tempo, merecendo ser atentamente vistos por sua disposição criadora.
Esta exposição já foi apresentada em São Paulo e depois irá para Bogotá, Montevidéu, Caracas e México.

ARTE NO METRÔ

A Régie Autonome des Transportes Parisiens está organizando pequenos museus permanentes em suas estações, onde ficam expostos quadros e esculturas de famosos artistas. Por outro lado, será organizada ainda este ano uma exposição permanente na parte antiga da estação Montparnasse-Bievenue, em comemoração aos 75 anos dos transportes parisienses.

DOIS NO CHALÉ


Os artistas Yrene Corbett e Naso Heck, ambos paulistas, residindo há alguns anos em Salvador, vão expor a partir do dia 6 de julho próximo, seus trabalhos no Restaurante Chalé, que fica ao lado do clube Costa Azul. Yrene apresentará óleos retratando figuras humanas no estilo primitivo e Naso Heck , figuras estilizadas.

terça-feira, 25 de junho de 2013

A ARTE DE EMOLDURAR DE JÚLIO MONTEIRO

JORNAL A TARDE, SALVADOR,  SÁBADO, 24 DE JANEIRO DE 1976

O português Julio Monteiro está revolucionado
 as molduras na Bahia.
Formado pela Escola de Belas Artes de Lisboa em Escultura e Pintura, Júlio Monteiro, português de nascimento, desde julho de 1975, está em Salvador com um atelier montado no Pelourinho, colocando molduras em quadros de arte dos principais artistas baianos.
Como o próprio Júlio Monteiro define, ser moldureiro é uma questão de sensibilidade. Aliado a um conhecimento artístico. A finalidade é que a moldura, apenas se enquadra à pintura, passando despercebida e se harmonizando com o artístico, valorizando-o.
Na Escola Nacional de Lisboa, Júlio Monteiro iniciou seus estudos em pintura e escultura sendo que nos dois últimos anos do curso, ganhou uma bolsa de estudos para Paris e Londres, onde ficou alguns anos. Segundo ele, ao voltar para Portugal e sabendo de antemão que o mercado por lá era quase inexistente, desistiu da pintura e da escultura, passando a trabalhar no Ministério do Trabalho durante oito anos, sem que neste período fizesse qualquer trabalho artístico.
Após este período, Júlio Monteiro começou a trabalhar junto a Dimitri, em lojas de tecidos. E já a partir deste momento desenhava as roupas que vendíamos, diz Júlio Monteiro, e com isto montamos duas galerias e durante quatro anos fizemos apenas isto, quando resolvemos vir à Bahia.
Esta ideia, continua ele, veio depois de uma visita que o Dimitri fez ao Brasil, onde entrou em contato com o ex-Diretor da Fundação da Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia.
Primeiramente, a nossa preocupação era vender obras de arte, na Galeria do Dimitri, no Pelourinho, quando, sentimos a deficiência no setor de molduras, praticamente inexistente aqui na Bahia, resolvemos então montar um atelier.
Para Júlio Monteiro, na Bahia existe quem faça moldura mas não a moldura artística. As que fazem por aqui, diz ele, são simplesmente pedaços de madeira colocados para que o quadro não fique a solto.
Eles não procuram aliar a moldura à pintura, dando-lhes uma verdadeira continuação da obra. A moldura, continua Júlio Monteiro requer um conhecimento artístico.É a complementação da pintura, e não simplesmente saber cortar madeira. Tem-se que ter sensibilidade e criação.
Não aceito imposição no meu trabalho. As molduras que faço, afirma ele, são criadas por mim de acordo com o quadro e não uma mera escolha da cor, formato, que o cliente deseja. Sem o quadro é impossível para mim trabalhar, criar, e por isto me recuso a fazer qualquer tipo de moldura, que não seja por minha criação.
Apesar de trabalhar para clientes de toda a Bahia e mesmo de várias partes do Brasil, Júlio Monteiro ressalta que prefere trabalhar para os artistas e que no momento já trabalha com a maioria dos artistas baianos, entre eles Carybé, Luís Brito, Michel e muitos outros.
Como a Bahia não possui tradição de moldura artística, como em Portugal, afirma Júlio Monteiro, o maior problema encontrado por um moldureiro artístico, é a dificuldade em se encontrar material de trabalho, o que ás vezes implica em mudar sempre as nossas criações. Aqui, produtos como folhas d’ouro, de qualidade, que é essencial para o nosso trabalho, não existe e temos que mandar procurar no Sul do País, o que leva bastante tempo, além de perfis de alumínio, vidro de dois milímetros. Tudo isto, continua Júlio Monteiro, dificulta o nosso trabalho.
Creio que o motivo da falta no mercado destes produtos, vem em consequência da não existência de uma tradição de moldura artística na Bahia.
O atelier de Júlio Monteiro, fica na Rua Alfredo Brito, número 10, no Pelourinho, local de visita constante de todo o mundo da arte baiana. Para finalizar. Júlio Monteiro afirma que, um bom trabalho, seja ele em moinho, pintura ou qualquer tipo de arte, requer antes de tudo, a criação e a sensibilidade do seu autor, além do que o próprio meio em que ele vive. Isto diz ele, só se pode encontrar aqui na Bahia, onde a terra é a própria natureza artística.

             OS ESCOLHIDOS PARA ARTE AGORA I

A mostra Arte Agora I, Brasil 70/75 que será inaugurada no próximo dia 11 de março no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro já tem definido seus participantes. Os baianos escolhidos foram: Mário Cravo Neto e Bené Fonteles. Foram escolhidos em todo o Brasil 100 artistas e apenas um da Bahia porque se não me engano, o Bené Fonteles é cearense. Ora, o critério de julgamento segundo os organizadores foi fixado na atualidade, qualidade e outras exigências variáveis e adaptadas ás diversas regiões do Estado. Mais uma vez a Bahia está bem representada na pessoa de Mário Cravo Neto e também em Bené Fonteles, porém outras pessoas poderiam ter figurado e sido convidados para essa mostra. A grande maioria dos escolhidos está no eixo Rio-São Paulo, sendo que os estados de Pernambuco Minas Gerais estão com um maior número de representantes em relação à Bahia.
Dizem os juízes que da relação acham-se ausentes certos nomes cuja obra apresenta hoje o mais inegável interesse de atualidade, mas que já se tinham afirmado de maneira incontestável em momentos anteriores. Com isto podemos crer que a maior a dos artistas baianos está nesta faixa. Mas devemos ressaltar também, que, na realidade pouca gente vem apresentando alguma novidade. Muitos de nossos famosos artistas vivem dos loiros. Vivem a pintar alagados, casarios e a fazer retrato de pessoas de destaque na sociedade, sem uma preocupação maior com a criatividade. O resultado desta escolha de dois jovens demonstra de certa forma a necessidade de uma tomada de consciência. Vamos criar. Criar e apresentar novidades, mas não confundir com modismos.

              HÉLIO VAZ EXPORÁ NO SALVADOR PRAIA

O mundo interior de Hélio Vaz será mais uma vez mostrado ao público baiano através dos seus quadros, com toda a espiritualidade que cerca a vida deste homem, que vive hoje exclusivamente dedicado à sua arte. A personalidade tímida de Hélio Vaz desaparece quando ele está diante de uma tela alva para conceber um quadro. Mesmo as naturezas mortas mostram esta vitalidade e as cores dão uma idéia ao observador daquilo que está escondido na pessoa do artista, Hélio Vaz começou a pintar em 1932, interrompendo por alguns anos sua carreira de artista e recomeçando há poucos anos atrás com toda força. Sua mostra será inaugurada no próximo dia 5, às 21 horas.

              PROTEÇÃO NUCLEAR

Como estamos vivendo na época das nucleações, é chegada a hora de o Brasil proteger seu acervo cultural através da utilização de equipamentos nucleares. Assim, um núcleo pioneiro em irradiação nuclear com finalidade puramente cultural, que é a proteção de documentos e obras de arte, utilizando-se a tecnologia da irradiação atômica, será criado em Minas Gerais.
Esta técnica será transferida para o Brasil com o objetivo de exterminar os fungos, as traças e os cupins que estão destruindo impiedosamente o nosso acervo.

                     MAIS UM REMBRANDT

 A Galeria Nacional de Arte da Inglaterra anunciou hoje a compra de uma obra prima de Rembrandt, muito pouca conhecida.
Não foi revelado o preço, mas fontes do setor artístico disseram que foi mais de um milhão de dólares.
A pintura é um retrato de Hendrickje Stoffels, mulher de Rembrandt realizada por volta do ano de 1650.
Segundo o Diretor da Galeria, Michael Levey, trata-se de uma obra de arte muito importante.
O preço pago pela Galeria ao proprietário da obra, depois de dois anos de negociações, ficou muito aquém do que seria pago para arrematar o quadro num leilão de arte, disse Levey.
O quadro, conhecido apenas pelos estudiosos, não foi exposto ao público desde 1936. Coberta por um verniz de cor escura pálida, a obra não será exposta na Galeria, senão depois de limpa e restaurada. O trabalho de restauração durará provavelmente até o mês de abril.
Durante 160 anos, a obra esteve em mãos de ingleses.
Com esta aquisição, a Galeria de Arte de Londres passa a contar com 21 obras de Rembrandt, sem incluir os quadros parcialmente pintados por ele, os que lhes são atribuídos, ou então que foram pintados por discípulos do mestre holandês, falecido no ano de 1669.

OS DEUSES AFRICANOS NO MUSEU DA CIDADE
Os velhos Orixás, Voduns e Inkices estão representados nos trabalhos de Raul Giovanni Lody, que estão expostos no Museu da Cidade, no Pelourinho. Suas festas, sem símbolos e representações mágicas foram captados por este artista com toda a dinâmica e magia que cercam os deuses africanos e sua influência no Brasil e espacialmente na Bahia.

A primeira vista, seus trabalhos lembram outros feitos por dezenas de artistas que vivem exclusivamente explorando a gasta temática das  baianas. No entanto, os seus trabalhos vão mais além porque retratam de certa forma cenas e festas dos negros com base em pesquisa, traduzindo alguma coisa de realidade. A simples fantasia a gosto do artista, a criação de imagens e cenas que provocam a distorção do que seja um candomblé, do que seja um samba-de-roda tem prejudicado o nosso folclore, e a própria seita o candomblé.

MÁRIO CRAVO NETO E O APRIMORAMENTO DE SUA ARTE

JORNAL A TARDE, SALVADOR,  SÁBADO, 31 DE JANEIRO DE 1976

Escultura em resina poliester composta de 79 unidades 
As experiências realizadas por Mário Cravo Neto, o aprimoramento de sua arte e sua visão sobre o mundo atual  e as coisas, vão surgindo de um momento para o outro, bastando para isto você lembrar algum fato corriqueiro ou até mesmo uma palavra ou ideia.
Após alguns minutos, você toma conhecimento de que aquele espaço de tempo em que o artista passou hospitalizado foi o suficiente para perceber algo de novo naquela figura de quase 30 anos de idade ou melhor, na figura de um artista que já nasceu dentro da própria arte e para a arte. De uma pessoa que pensou desde cedo em concluir um curso colegial sem pretender jamais ingressar em uma universidade, pois desde cedo sempre pensei em ser simplesmente aquilo que eu sentia dentro de mim mesmo.
Isto foi o bastante e como resposta, basta memorizar a sua primeira tentativa em ingressar no setor das artes plásticas, até o seu estágio atual, onde seu trabalho passou a ser solicitado e recomendado pela crítica especializada de todo o País.
"Eu comecei desde pequeno. Desde aquela época que a arte me sensibilizava e acredito que o meu primeiro contato com o público foi por ocasião da 1ª Bienal de Artes Plásticas da Bahia, que foi realizada em 1965.
Daí prá cá, as coisas foram acontecendo e após um longo período que passei em Nova Iorque 1970 e princípios de 1972, foi que meu trabalho encontrou uma primeira afirmação de interesses."
Na realidade, esta afirmação de interesses que vem sendo firmada cada vez mais mediante seus estudos e suas análises fez com que Cravo Neto espalhasse por todo o Brasil a sua linguagem universal.
Talvez seja por este motivo e por vários outros, que Mário conseguiu reunir ao seu redor, as razões pelas quais foi escolhido, como, o mais artista baiano a participar do conjunto da mostra Arte Agora I Brasil 70/75 que deverá ser realizada dentro dos próximos meses no Rio de Janeiro.Até o momento, afirma Mário Cravo Neto, não recebi qualquer comunicado oficial sobre a minha participação nesta mostra.
Lembro-me apenas que na última vez que o Roberto Pontual esteve em salvador ele teve a oportunidade de ver alguns dos meus trabalhos e me falou de alguma coisa parecida sobre este assunto. Acredito por outro lado, que isto se trata de  uma coisa jovem, sem fronteiras e de acordo com o espaço físico que me for concedido, ou das exigências que deverão ser feitas, poderei participar com trabalhos em poliéster com uma série de coisas naturais, ou até mesmo com minhas últimas experiências em fotografia as quais tenho realizado desde o acidente até o meu estado atual."
Mário Cravo Neto e a intimidade com a arte
De fato, refugiado com sua esposa Eve e seus filhos Lua Indiana e Chistian Apoena a junção escandinava com a indígena em uma pequena casa localizada no bairro da Boca do Rio, Mário Cravo Neto vem se reabilitando aos poucos, de um grave acidente automobilístico de que foi vitimado no dia 31 de maio do ano passado, o qual o colocou imobilizado por um bom espaço de tempo. Durante este período, ele conseguiu reunir um vasto material de trabalho que ele mesmo passou a denominá-lo de minha arte anticéptica.
"Eu não consigo ficar parado e isto vim comprovar durante todo este tempo que passei acamado. Foram quase seis meses que de uma certa forma ou de outra, fez com que eu passasse a ver a arte e a vida de uma maneira muito mais calma e mais resignada. Resignada em decorrência do meu próprio estado físico e estado de espírito, por tomar consciência d que as dores e o gesso que foi colocado em volta da minha cintura pélvica e dos meus membros inferiores estavam impedindo de realizar certas coisas. Agora o que me resta é ter paciência e começar tudo de novo."
Mas, o seu maior remédio tem sido na realidade a sua própria força de vontade.
Costumo praticar muita coisa que não foi recomendada pelo médico e talvez por isto é que a minha reabilitação tem sido tão progressiva. E quanto à sua produção? E a arte cultural e o natural, e enquanto espera um comunicado oficial sobre a sua participação no conjunto da mostra Arte I/Brasil 70-75, Mariozinho vai vivendo no seu estúdio de trabalho, sempre envolvido por fotografias, um aprimorado aparelho de som até mesmo no pátio da sua casa onde instalou objetos em acrílicos ou materiais como liquens, fungos minérios e água. 

                   UMA COLETIVA DE TALENTOS

Uma cena de rua de autoria de  Costa Lima
A Galeria O Cavalete abriu ontem, suas portas para uma vernissage onde reuniu grandes nomes das artes plásticas: Rubem Valentim, Maria Leontina, Geraldo Orthof, Carlos Bastos, Augusto Rodrigues, Rescala, Floriano Teixeira, Carl Brussel, Leonardo Alencar, Mirabeau Sampaio, Adelson do Prado, Lygia Milton, Costa Lima, J. Cunha, Jaime Hora, Capelotti, Itamar Espinheira, Edson da  Luz, dentre outros.
A mostra intitulada Arte Bahia 76, traz o Costa Lima que atualmente vem trabalhando uma nova temática: Marinha. São quadros onde o azul o movimento, e bater das ondas contra os rochedos são apresentados numa composição plástica agradável e demonstra à vista a individualidade do artista. Gosto dos quadros onde Costa Lima retrata cenas de ruas, com uma espontaneidade e movimento surpreendentes. Tive oportunidade de ver uma de suas marinhas, e posso afirmar a qualidade do seu trabalho que a cada dia vem evoluindo, o que não vem acontecendo com uma série de artistas baianos que pararem no tempo.Por isto é sempre agradável para nós que gostamos e apreciamos o trabalho plástico quando podemos afirmar que um trabalho vem evoluindo.

                     POLÍTICA NACIONAL DE CULTURA 

 O Ministro Ney Braga aprovou a Política Nacional de Cultura, fixando os elementos considerados básicos e estabeleceu também oito diretrizes destinadas a estimular o desenvolvimento cultural. No centro desta política está a revelação do que constitui o âmago do homem brasileiro e o teor de sua vida. Segundo o documento através desse conhecimento, da preservação da criatividade e da difusão da cultura, o Brasil, com sua vasta extensão territorial, população em crescimento acelerado, miscigenação étnica contínua e permanente confluência de fatores culturais mais diversos, Irá plasmando e fixando a sua personalidade nacional, devido à harmonia e á manutenção de seus vaiados elementos formadores.
O primeiro componente será o apoio direto e  acompanhamento das fontes culturais regionais, representadas, sobretudo, pelas atividades artesanais e folclóricas. O segundo será a literatura, com dinamismo do mercado de publicações de modo a promover o financiamento e a comercialização de edições. O terceiro, é a reavalidação do patrimônio histórico, científico brasileiro. O quarto, será o apoio a produção teatral nacional. O quinto. Apoio a produção cinematográfica.
O sexto elemento da política é o apoio ás diferentes modalidades da produção musical, com o objetivo de difundir, estimular e proteger a obra do autor e a defesa dos direitos autorais e o implemento às artes plásticas com o objetivo de aumentar a pesquisa no campo através de laboratórios de criatividade e correspondente comunicação, novas tendências.
Assim o MEC espera realizar festividades de arte com o objetivo de mobilizar a juventude para a criatividade. Tudo isto será feito com respeito às diferenciações regionais da cultura brasileira, oriundas da formação histórica e também com respeito a liberdade de criação em todos os campos da cultura.
A primeira vista, vemos com bons olhos os objetivos da Política Nacional da Cultural e esperançosos do que ela seja realmente colocada em prática com os objetivos maiores, que são a liberdade de criação e o incentivo a criatividade e as novas tendências das artes em todos os setores.


                 SÔNIA CASTRO VOLTOU

É com perspectiva de uma grande exposição que tomei conhecimento da volta de Sônia Castro à Bahia. Conheço a artista através dos seus trabalhos espalhados pelos quatro cantos de Salvador. São gravuras marcantes pela presença de figuras humanas, crianças e velhos famintos dispostas estrategicamente deixando espaços vazios que são preenchidos pelo espectador.
Considero Sônia Castro a mais importante gravadora baiana.Suas xilogravuras refletem muito do que algumas pessoas não enxergam:gritos, o povo nordestino e a terra seca, uma situação dramática que muitas vezes não chega à compreensão dessas pessoas.as esta gente existe, e Sônia como nenhuma outra gravadora baiana sabe transportá-los para a madeira e depois para o papel levando a mensagem ou comunicando a metrópole que esta gente clama por amor.