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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

LIANE KATUSIKI RETORNA COM MAIS EXPERIÊNCIA - 22 DE ABRIL DE 1985.


JORNAL A TARDE, SALVADOR, 22 DE ABRIL DE 1985.

LIANE KATUSIKI RETORNA COM MAIS EXPERIÊNCIA


Liane com algumas jóias que criou
-Aqui de longe,neste Velho Mundo, ainda meio resfriada, me recuperando do terrível inverno que enfrentei, a saudade bate mais forte, quando percebo os primeiros raios de sol mais quentes e brilhantes do início da Primavera. Os campos  começam a ficar verdes e se enchem de flores, as árvores brotam, e os pássaros cantam, combinados com a minha alegria em sentir a minha volta se aproximar”. Este é um trecho da carta que acabo de receber de minha amiga Liane Katsuki que está ausente há quase seis meses na Europa. Ela já expôs em Emmen, na Holanda; na Bélgica;e em Bremen, na Alemanha. E, atualmente expõe em Giethoom, na Holanda. Esta última é uma cidadezinha cortada por canais, e os carros são proibidos de circularem em suas ruas.
No catálogo de suas exposições no exterior Liane Katsuki escreveu: A jóia primeira é a Terra, tirada do Ventre do Criador, posta no infinito Universo. Cada ser vivo é a pedra preciosa na sua harmoniosa composição. Não destruam a Grande Obra de Arte...
Esta, e outras afirmações atestam a sensibilidade desta artista que já residiu durante seis anos no exterior, mas que tem a base de sua formação em Salvador, na Escola de Belas Artes, da Ufba.
Já participou de mais de 2º exposições individuais e 40 coletivas. Também , realizou quatro performances, projetos integrados de jóias,esculturas, música e dança, além de bienais, salões e concursos. Portanto, é uma artista que está sempre trabalhando, procurando mostrar a comercializar o seu trabalho profissionalmente.
Digo comercializar porque é preciso acabar com este falso puritanismo do artista que não pensa em vender a sua obra, e que bom, é aquele que até passa dificuldades. Ao contrário, entendo que o artista tem que sobreviver com muita dignidade do trabalho que faz. Os exemplos que a gente vê por aí são de artistas que sofrem e passam dificuldades, terminam por enriquecer terceiros, como os marchands, donos de galerias e colecionadores. Isto é muito injusto!
Participou do “Grupo No” com artistas de diferentes nacionalidades. Tendo no momento com um grupo de artistas brasileiros, o seu atelier, Galeria e Escola “Claroescuro”, aonde tem exposição constante de seus mais recentes trabalhos em : jóias, objetos, esculturas, desenhos, pinturas, vitraux e espelhos.
Ensina Desenho, pintura e Estética em Salvador, Bahia.
Suas jóias, sempre em material nobre, ouro, prata e pedras preciosas ou semipreciosas, procuram mostrar não somente o lado do luxo destes preciosos materiais, que, vindos de Terra, não-artificiais, materiais que nos levam mais próximos das nossas origens, nossa cultura e da vida em si.
Se integram com a peça falando uma linguagem única.
Quando Liane inicia uma jóia, o material que será usado é respeitado como coisa viva.
Cada pedra tem sua vida e mensagem próprias. O seu desenho e forma, numa comunidade com o Universo interior da artista, fazem nascer uma nova e exclusiva obra de arte.
Cada jóia é tratada como uma miniescultura. Por isso a força e originalidade de seus objetos são aliadas ao cuidado técnico, procurado em cada trabalho.
Algumas jóias de autoria de Liane

Na força criativa de Liane, se percebe a influência sensível e refinada do Oriente, devido aos seus estudos no Japão, e a explosão do mundo de cores e formas devido às suas origens brasileiras.
Seus objetos mostram uma forte estrutura, lembrando a força e sensualidade dos seus desenhos. Ela conseguiu desenvolver variadas técnicas de expressão artística sem perder na força e noO arquivo deve ser uma imagem ou um vídeo.
 respeito a cada diferente forma de expressão tratada. Guardando perfeito equilíbrio, os efeitos de composição e cores, trazido às suas jóias, mostram que ela aplica a técnica para trazer o efeito da pintura no mundo das jóias. Pelo seu “Curriculum Vitae”, opiniões de críticos de arte, e alguns artigos em jornais, selecionados no seu vasto “Curriculum de Imprensa”, conhecemos melhor a vida profissional de Liane Katsuki.
Falando sobre seu trabalho na confecção de jóias, ele explica: “A jóia, da maneira que procuro tratar, perde aquele sentido de simples objeto de luxo. Ela, como minha pintura, tem uma mensagem. Trabalho-a como uma mini-escultura.
Não existe uma separação entre minhas pinturas e minhas jóias. Uma completa a outra.Respeitando  linguagem e as possibilidades de cada uma, eu posso me exprimir”.Em 1972 expôs suas jóias na Galeria Studios, no Rio de Janeiro. Na época, o que mais atraiu a atenção do público foi o lançamento de seus braceletes-anéis e colares-soutiens, uma inovação no campo das jóias, mostrando um simbolismo e um sentido todo pessoal. Antes de seguir para a França, Liane participou na Bahia e no Rio de Janeiro de várias exposições de pintura e realizou importantes trabalhos, dentre os quais o painel do Grande Hotel da Barra, retratando a chegada de Thomé de Souza à Bahia.
A evolução de sua arte pode ser notada no decorrer das exposições e desfiles que vem realizando nas principais capitais do País. Recentemente, na Pousada do Carmo, em Salvador, Liane extasiou os presentes com um desfile realizando para vários visitantes.
Segundo a artista, estão tendo a cada dia de trabalhos em jóias a maior aceitação por parte do público, devido à conscientização deste no tocante ao valor artístico dos objetos. “O importante não é só o valor material do trabalho, mas o seu valor artístico. No meu trabalho, utilizo a prata, o ouro, pedras preciosas e semi-preciosas, procurando sempre criar as minhas jóias partindo do material que eu venha a usar”.
Liane afirma ainda: “Faço jóias como uma maneira de compensar o desejo que tinha de fazer escultura. A jóia é uma escultura de pequeno porte. O meu interesse pela jóia nasceu em Paris, quando frequentei a Federarion de La Seine de Deuvres Laiques trabalhando em esmaltação do cobre e da prata”
Em Salvador, as suas jóias podem ser apreciadas no Museu da Cidade, e em várias galerias (onde estão postas à venda) e no seu atelier.
No Rio de Janeiro, juntamente com Maria Amélia Villegas, Massimo Forti e Hans A. Sthar, Liane fundou a galeria e loja de arte Grupo No, onde existe exposição permanente de suas jóias.
O crescimento de suas jóias está lhe levando a objetos de maiores dimensões, devendo a artista, num futuro muito próximo partir para a escultura de grande porte, aliás, no Centro de Convenções tem uma escultura feita em tubos galvanizados, a qual inclusive está necessitando de restauração.
Liane Katsuki nasceu em Salvador, Estudou na Escola de Belas Artes da UFBa., na França e no Japão. É formada em Jóias pela Escola Francesa e em História Geral da Arte pela Escola do Louvre. Realizou várias exposições no Brasil e em Paris, e desfiles na Bahia, Toulouse e Antilhas. Tem prêmios de salões, trabalhou para Pierre Cardin. Realizou projetos de arte integrada com dança, escultura e jóias, nos quais recebeu prêmios e menção honrosa. Ganhou ainda concursos com esculturas, painéis e murais.
Criou e executou os troféus “Bahia 100 anos de Folia”. É professora em Desenho, pintura vitral e jóias.

                  A ARTE DE CRISTINA MEDRADO

Esta é Cristina Veloso Medrado Santos ou simplesmente Cristina Medrado. Desde os 14 anos que se interessa pelas artes plásticas. Um diálogo que começou cedo com as formas e as tintas. Por ser filha de militar teve que residir em várias cidades. Mas as mudanças nunca impediram que continuasse a sua vocação artística. Morou também na Inglaterra, e aqui chegando resolveu fazer o vestibular de Engenharia. Trabalha em processamento de dados, ligado a engenharia. Ela pintou muita coisa relacionada com o Velho Mundo, e também a paisagem e a vida do Nordeste, especialmente do Ceará. Sua última exposição aconteceu recentemente no Robson Club, na Praia do Forte, onde apresentou 10 telas.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

OS FANTASMAS DE SIRON EMOCIONAM OS BAIANOS - 06 DE MAIO DE 1985.


JORNAL A TARDE, SALVADOR, 06 DE MAIO DE 1985.

OS FANTASMAS DE SIRON EMOCIONAM OS BAIANOS
Nossa Senhora das Dores, óleo sobre tela do artista Siron Franco , de 140 cm X 160 cm.
Está entre nós um homem que cria fantasmas. Ele é jovem, elétrico e acompanha com avidez toda a transação louca deste universo cheio de contradições. Ama os bichos a tal ponto que os transforma em figuras fantasmagóricas e solta-os pelas ruas escuras das cidades. Especialmente, das cidades construídas há séculos e possuidoras de ruas estreitas e velhos casarões. Este cenário é importante para que seus fantasmas gozem de maior liberdade e não estranhem o ambiente. Tudo é feito com muito amor e cuidado para que suas figuras fiquem à vontade emocionem e sejam amadas pelos mortais.
Para a criação de um fantasma existe todo um ritual rico em vivências e fraternidade.Cada elemento que o compõe integra e está presente em nossos espaços e é por ele pinçado. Até uma Nossa Senhora, contrita, não escapa desta linguagem e traz no peito um coração de plástico, capaz de bater com a mesma intensidade e amor por seus fervorosos devotos. Em vez de uma auréola, tem sobre sua cabeça um rosto largo com dois olhos esbugalhados e vigilantes, como a protegê-la. À frente e ao lado, alguns elementos gráficos, captados de uma televisão, que passava um jogo de videogame. Uma santa e um joguinho de videogame. Não existe qualquer relação entre eles, a não ser no jogo que o criativo Siron Franco faz.
Ele deixa que transpareça e se concretize todo um universo psíquico, que pode parecer estranho e até chocante. Aliás, este é o primeiro impacto de seus fantasmas ou bichos.
Mas, quando a gente se detém a observá-los com mais cuidado passamos a acariciá-los, e diante de nós, eles se humanizam, nos cativam com sua pureza, com suas cores fortes e nos relembram aqueles animais que habitam nossas florestas. Ternos e vigilantes, os fantasmas de Siron Franco giram em torno de nós trazendo diabos que guardamos escondidos no cipoal de ações, muitas vezes tão cheias de inverdades.
O mundo de Siron Franco é o espelho do nosso próprio mundo. Ele reflete a nossa condição humana, e seus fantasmas são atores de um espetáculo terreno. Enquanto vivemos estamos representando personagens. Jovens, enquanto somos jovens, maduros quando atingimos a casa dos 40 e velhos, quando chegamos aos 60 anos. Meros atores que enchem casas, ônibus e ruas, e desaparecem em pouco tempo, muitas vezes sem deixar rastros. Assim são os fantasmas de Siron Franco.
O Vigia, óleo sobre tela com 140 cm x 150 cm
Eles surgem nas ruas escuras e representam os seus papéis.Só que deixam marcadas as suas presenças porque se eternizam nas suas mensagens.Tudo isto não é feito ou surge fortuitamente. Ao contrário, Siron Franco desde criança que vive entre bichos.Morando vizinho ao Horto, que em Goiânia é o Jardim Zoológico, ele aprendeu desde cedo a amar os animais.
Também são muito comuns no estado de Goiás as grandes queimadas, e os animais silvestres para fugirem do fogo aparecem nas estradas e são presos facilmente. E esta vivência com bichos é tão presente que Siron Franco já conviveu até com um tamanduá. “Era um filhote e cheguei até a catar uma formiguinhas para alimentá-lo.
Era um bicho muito dócil”. E, como acontece com tudo que ele vivencia, o tamanduá deixou de lembrar de lembrança  o seu grande focinho, multiplicado e transformado numa obra chamada Tamanduás. As cobras coloridas que também que também aparecem em várias de suas telas são reminiscências de sua infância. São as cobras de cortiça que são vendidas nas feiras livre do interior e brinquedo preferido de muitas crianças. O que podemos sentir é que o criador de fantasmas está sempre com suas antenas ligadas captando elementos para suas composições. Sabe segurar na hora exata aquilo que pode integrar o seu universo fantasmagórico, multi-colorido, cheio de emoção e de qualidade pictórica.
“Tenho um lado muito lúdico”, disse-me Siron Franco, na véspera da inauguração de sua exposição. “Herdei um pouco do místico que envolve a minha Goiás Velha. Tenho uma formação acadêmica, todo um aprendizado de técnica e formas”. Foram muitos anos de estudos que servem de base para vôos mais livres.
Ele sabe brincar com as formas e é capaz de pintar um retrato clássico.
Quando conversávamos sobre o seu universo pictórico, disse que a reação das pessoas em assustarem, “para mim já é normal”. Minha própria filha queria que eu fizesse um retrato dela. E me avisou:
Meu pai não quero que o senhor me pinte com cara de bicho, com aquelas coisas feias que o senhor faz. Siron atendeu ao pedido da filha e fez um retrato clássico lembrando aquelas belas criancinhas de Renoir. Mas dois fatos fortalecem esta sua atitude de entender as reações diante de sua obra: Certa vez ele estava numa exposição da Petit Galeria, no Rio de Janeiro, quando uma velhinha que não o conhecia começou a conversar com ele malhando os quadros.
De repente, convidou-o a olhar outros quadros expostos e foi malhando um a um “Mas que coisa feia! Este sujeito é um delinqüente. Deveria estar preso”, e foi desfiando frases mais ou menos neste tom.
Agora, nesta sua exposição no Escritório de Arte da Bahia, ele teve a oportunidade de ouvir um comentário de uma senhora: “Como é que tiraram aqueles quadros tão bonitos e colocaram estes horrorosos”.Referia-se aos 24 quadros que Siron está expondo.
Aliás este tipo de reação é esperada diante de seus fantasmas multicoloridos. É o primeiro contato. O espanto. O arregalar dos olhos. A contração fácil. Na segunda olhadela, você já começa a enxergar a beleza plástica dos fantasmas de Siron Franco, e em seguida é envolvido, é carregado para aquele ambiente lúdico.

UMA FEIJOADA
Foto recente ( Google) do artista   Siron Franco 

“Minha obra é como uma grande feijoada. Tem que tudo, perna de porco, toucinho, enfim tudo que uma boa feijoada tem direito”. Esta frase dita por Siron Franco, pode também chocar os falsos puritanos. Mas ela carece de uma explicação. Siron refere-se à variedade de assuntos ou temas que aparecem em sua obra. Ela é riquíssima em temas, em abordagens e com isto nos presenteia com telas enfocando os mais diversos assuntos nesta rica e caleidoscópica paisagem brasileira. As contradições, a riqueza da cultura popular, a tecnologia moderna dos traços gráficos que surgem em movimento no vídeo, as carrocerias e os circos mambembes. Enfim, tudo que possa servir de inspiração as antenas de Siron Franco captam e transformam em figuras e elementos integrantes de sua obra.
Disse a Siron que uma tela de sua autoria é facilmente identificada. Ela contém elementos que pertencem ao universo de Siron, e tem uma marca registrada. As cores, a própria composição, e as formas de suas figuras. Isto porque o lúdico de Siron é único e ele não permite que nada interfira, determinando as regras do seu jogo. Tudo flui com emoção e o inconsciente trabalha, age. Ele não está preocupado com a reação daquelas pessoas menos avisadas que facilmente ficam chocadas com suas figuras. Este choque, aliás, é importante, acontece porque sua obra consegue emocionar. Sua arte é toda uma relação de vida. Ele não fica apenas preso à pintura.
Faz também interferências nos espaços urbanos. Durante a Semana Santa colocou em Goiânia três cruzes de aroeira, de 10 metros de altura, e as envolveu parcialmente com panos brancos manchados de vermelho. Diz Siron que deu um grande impacto no público.
Este é o mundo de Siron Franco. Um universo aberto a novos elementos que chegam para povoá-lo. As sensações estranhas que sente quando está pintando uma grande tela,
Nos são repassados quando estão acabadas, através das reações de simpatia. Diz Siron que diante de uma tela grande é como se estivesse dentro de um ventre. E o renascer acontece à medida que ele vai modelando as suas figuras com as próprias mãos; trinchas e outros instrumentos que utiliza. Renasce dia-a-dia construindo o seu universo de fantasmas.Para terminar deixo esta frase dita por uma pessoa que adquiriu um quadro do artista.“Esta tela é estranhamente terna e linda.

RELAÇÃO DA OBRA DE POTEIRO COM O CORDEL - 13 DE MAIO DE 1985. -


JORNAL A TARDE, SALVADOR,  13 DE MAIO DE 1985.

RELAÇÃO DA OBRA DE POTEIRO COM O CORDEL
Entrevistando Antônio Poteiro quando ele veio expor em Salvador. Uma figura inesquecível.
Uma cabeleira falha e esbranquecida e uma barba longa e desgrenhada. Na face as marcas dos anos vividos em contato permanente com o barro elaborando com os gestos das mãos os potes, que guardam a água fria para matar a sede. Anos e anos fazendo e vendendo seus potes, e deste relacionamento muito íntimo surgiu o seu nome: Antônio Poteiro. Sim porque existem muitos antônios por este mundo afora, e a sabedoria popular ensina que é preciso diferenciá-los. Este não é o Antônio de Zé Preta ou o Antônio de Alcina. Este é o Antônio Poteiro, o homem que cria os vasilhames onde guardamos a nossa água para beber. Uma tradição que ele herdou da família e os gestos foram passados com maestria. Aprendeu e evoluiu. Era preciso criar e a própria vivência lhe deu o suporte necessário para alçar vôos mais altos. O mundo rico da cultura popular, as observações do relacionamento entre as pessoas, a força da religiosidade, as crenças e descrenças de Goiás.
Um pote de autoria do artista
“Comecei a fazer cerâmica por acaso.Não sabia o que era este negócio de artes plásticas, afirma categoricamente Antônio Poteiro. Estas duas frases ditas com simplicidade durante o encontro que tivemos aqui demonstram exatamente a sua origem humilde, porém verdadeira, forte e natural. Não é preciso saber de artes plásticas para ser um bom poteiro! Não é preciso saber das escolas de artes e dos críticos eruditos que complicam e escrevem palavras difíceis, consultando os dicionários ou os livros de citações. É preciso apenas ter intimidade com a terra e saber trabalhar com os gestos das próprias mãos. E o Antônio é bom poteiro. Tão bom que passou a ser conhecido como Antônio Poteiro. O pote integrou-se a expressões, o surgimento das figuras aconteceu como uma coisa natural.

O PINTOR

Uma bela obra de Antônio Poteiro
Foi uma amiga quem primeiro o incentivou a fazer cerâmicas utilizando figuras. Sua visão foi se abrindo, e hoje, Antônio Poteiro não é conhecido apenas como um excelente ceramista, mas também como pintor. Um pintor que faz escultura quando pinta. Um pintor que transporta para a tela as suas estórias cheias de criatividade e força popular. Tudo, aliás, serve para integrar este seu mundo dividido, entre a cerâmica e a pintura. São os mendigos, os desocupados, as beatas, os padres e os loucos que andam pelas ruas de Goiânia em que ele se inspira e elabora as suas estórias cheias de variantes, por onde o espectador desatento se perde entre os muitos elementos.
Suas origens populares estão a olhos vistos. Não vê, quem não enxerga. O velho Poteiro lembra um seguidor de Antônio Conselheiro. É pintor por insistência de seu amigo Siron Franco, e foi no atelier de Siron, que poteiro teve a oportunidade de conhecer uma tela branca e as tintas industrializadas usadas na pintura.
Hoje, é difícil saber se o Antônio Poteiro ceramista é melhor do que o Antônio Poteiro pintor. No meu entendimento o artista Antonio Poteiro é bom nos dois ofícios. Já chegou inclusive a fazer algumas esculturas em madeira. “Mas não fui adiante, confessa e arremata: o meu forte é o barro. Gosto de meter os dedos no barro e vou criando as minhas figuras para compor minhas estórias”. Poteiro faz cerâmica como estivesse escrevendo uma estória, mista de verdades e invencionices. Você não sabe onde começa e termina a verdade e a fantasia. Este jogo é muito gostoso da gente tentar decifrar. É um verdadeiro quebra-cabeças construído em andares. Algumas de suas cerâmicas têm mais de dois metros de altura.

BARROCO X CARAJÁ

Antônio Poteiro ,ao fundo uma obra 
Ele define sua cerâmica como uma mistura do barroco goiano com a arte carajá.As figuras não têm joelho, nem cotovelos.Sobre suas noções de religião ele diz: “Você sabe que existem três religiões básicas: os crentes, os católicos e os espíritas”. “Eu gosto muito de fazer o Deus Balança, representando o Deus Crente, o Deus União que é o Deus Católico e o Deus Espírita que é São Francisco exorcizado, dando passes, tirando o demônio das pessoas”.
Esta estória ingênua e cheia de profundidade é uma amostra do universo de Antônio Poteiro. Ele “foi formado no mundo” e captou as coisas da roça e a religiosidade difusa do povo.
Diz ainda que existem muitos personagens que gravitam em seu universo. Como o Cabral, que era um sujeito que pedia esmola em Goiânia. Segundo conta, era um grande fazendeiro que foi mordido por uma cobra urubu. Esta cobra, ensina Antônio Porteiro, tem uma cruz na testa e mata as pessoas com muita rapidez. “Cabral tinha duas feridas nas pernas que agente via o osso”.
Mas Antônio Poteiro não fica apenas em Cabral. Tem ainda João Trapo, que era sargento, e lutou na Itália e ficou doido. Tinha oito casas de aluguel e vivia pedindo esmolas pelas ruas. Vestia-se de trapos, daí o seu nome. “Uma vez paguei uma pinga para ele e me contou todas suas bravuras lutando contra o nazismo”.

VERDADES E FANTASIAS

Portanto, estas estórias, fruto de verdades e fantasias, resultam em cerâmicas e pinturas originais. “Tenho mais recurso na pintura, porque a cerâmica é mais limitada para multiplicar as minhas figuras. Na pintura eu posso colocar várias estórias, enquanto que na cerâmica tenho dificuldade.
O velho Antônio Poteiro com
duas obras de sua autoria
Para fazer aquelas cerâmicas com vários andares eu faço um a um. Faço a base e encho de papel velho, bem socado. Quando enxuga eu faço o outro andar e assim por diante.E a Mulher parideira?“Ah As mulheres não gostaram”, revela Poteiro. Mas é o seguinte: a Mulher Paradeira é um personagem importante em sua obra. Ele representa a loira por um diabinho. Como tem muitas amigas loiras, enfrentou algumas dificuldades, porque elas não aceitaram ser representadas por um diabo. A mulher morena ele representa vestida de anjo. E tem uma explicação: “A mulher pode parir um Getúlio, um Tancredo ou um Hitler. Eu não estou atacando a mulher.
Estou é defendendo, porque mulher é a forma, é quem faz tudo. Sem elas a gente não existia”. Realmente é difícil de entender a relação entre mulher loira e o diabo.
Perguntei a Poteiro se já teve alguma mulher loira, se brigou ou foi abandonado por uma loira. Ele simplesmente riu e balançou a cabeça em sinal negativo.
Logo em seguida falou de um projeto que pretende executar. É um grande mural composto de três grandes segmentos. Vai representar o Deus Construindo, Diabo construindo e, finalmente, Homem Destruindo. E diz: “Deus com uma pomba branca o Diabo com um urubu e o homem destruindo tudo. Homem é pior que o Diabo.Mata tudo, gato, animais e o urubu não é preto”?, pergunta.
Neste mundo rico em estórias, elementos e traços da cultura popular vive e trabalha um homem de idéias simples, mas que tem uma força interior muito forte. Esta força explode em cerâmicas e pinturas que devem ser vistas com cuidado, fazendo uma leitura detalhada de casa secção, para que se chegue perto daquilo que Antônio Poteiro escreve quando faz cerâmica e pintura. Escreve estórias dessas que a gente está acostumado a ler nos livrinhos de cordel. Poteiro é um artista plástico que faz cordel.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

EXPOSIÇÕES REVELAM TRÊS MUNDOS DIFERENCIADOS - 20 DE MAIO DE 1985


JORNAL A TARDE SALVADOR, 20 DE MAIO DE 1985

EXPOSIÇÕES REVELAM TRÊS MUNDOS DIFERENCIADOS

Uma semana movimentada para aqueles que gostam das artes plásticas.Três exposições significativas: de Justino Marinho, na galeria O Cavalete; a de Sante Scaldaferri que está aberta no Museu de Arte da Bahia, e finalmente, a de Nilza Barude, na Galeria Época. Três exposições com abordagens e técnicas completamente diferentes. Três artistas que devem ser vistos cada um em seu universo de informação e criatividade.Aproveitando esta oportunidade vamos falar um pouco sobre cada artista.

JUSTINO MARINHO
O trabalho de Justino é suave e se propõe a ser belo. São figuras que lembram as baronesas ou as duquesas que cultuavam o despercebido e a insensatez. Bem vestidas e de leques nas mãos elas vagavam por ricos salões falando coisas frívolas. Alguns espectadores vêem os trabalhos de Justino com alguma ligação com a art noveau. Eu sinceramente não vejo muito esta relação mas sinto um certo saudosismo do autor, uma espécie de olhadela para o passado.Seus atuais trabalhos são maiores que aqueles apresentados em 1982, na individual que fez na Aliança Francesa.
Justino Marinho e suas damas
Mas continua na mesma linha de valorizar o desenho, e noto que as texturas permitem a gente sentir uma sensação gostosa, quando passamos levemente as mãos e notamos que elas saltam do papel. As cores funcionam bem, sem começo e fim. Estão tão integradas que nem verdadeiro processo de osmose elas se combinam e resultam em composições significativas. As figuras surgem de corpo inteiro e aos grupos dando a impressão que estão dialogando sobre coisas fúteis, tão comuns nos salões de festa.
Traz como novidade nesta mostra a utilização do nanquim em alguns desenhos, em contraponto com as figuras mais coloridas e ricas em texturas. Como que separando os volumes, que em algumas figuras parecem indefinidos.
Justino em 1976 e 1978 apresentava trabalhos com visível conotação político-social, mas agora ele trilha outro caminho buscando expor sentimentos mais singelos. “Eu não tenho um projeto literário em cima do meu trabalho.
Tenho é claro um direcionamento, uma coerência, uma preocupação muito clara com a plasticidade. Embora não tenha agora esta preocupação acredito que seu trabalho permite uma leitura. O político-social deu lugar a um trabalho onde aponta um pouco de saudosismo. Saudades das baronesas de vestidos complicados.
Mas, se dermos uma olhada para o interior dos salões de hoje, elas estão aí dizendo bobagens aos ventos e quase sempre expostas com todo o exotismo vazio no colunismo social.
Justino diz que não tem preconceito com o belo. E claro, é obvio que ninguém gosta de feio!
O belo é exaltado por todos nós e a gente só gosta do feio quando não tem outro jeito. O belo é buscado por todos, e o artista plástico preocupa-se com isto mesmo aqueles que criam figuras chocantes. Nelas eles buscam demonstrar a sua própria beleza interior, que pode ser feiura para outros.
Dizem que o trabalho de Justino além de lembrar a art noveau, tem influência da arte egípcia. Enfim, procuram fazer uma série de paralelos. Acho que realmente se a gente olhar as figuras de agora, com seus turbantes impregnados de detalhes, elas parecem com as rainhas e princesas egípcias ou chinesas. Ele próprio declarou a mim que existem estas influências. “a influência bem digerida é até benéfica. O artista que abre a boca e diz que não recebe influências está mentindo”. Sentencia Justino Marinho, que aliás é um indivíduo muito crítico e combativo.
Tenho certeza que o seu desenho, que hoje está mais próximo da pintura, é um elemento catalizador desta sua visão crítica combativa. Tem plena consciência disto e vai mais além, defendendo com unhas e dentes a arte feita sobre o papel. Ele tem participado de algumas exposições com trabalhos feitos em papel e como integrante do grupo que chamei de “Geração 70”, portanto bem antes da “Geração 80”, que explodiu no Sul do País, tem discutido a arte. Só que esta discussão e este encontro desta “Geração 70”, deveria ser uma coisa mais forte, mais permanente. Mas as individualidades não têm permitido um entrosamento maior entre eles o que seria muito benéfico. Justino mostra 22 desenhos na galeria O Cavalete a partir do dia 23 de maio.

SANTE SCALDAFERRI

O Sante é o mais experiente de todos. Ele agora gravita por entre as fraquezas do caráter humano e as vulgaridades. Um crítico mordaz dos sistemas, estabelecidos e esta mostra que representa seis anos de trabalho incessante nos apresenta um Sante cada vez melhor, mais solto e mais consciente do seu papel diante da sociedade. Uma postura firme e que não faz concessões em busca do elogio fácil. Espantam-se os desavisados diante de suas figuras disformes, gordas e asquerosas. Mas elas representam aquele lado ruim que existe em todos nós. É como um alerta para deixarmos de lado este lado ruim e passarmos a cultuar aquilo que a gente tem de bom, independente de ser ou não religioso. E o compromisso com o homem.
É o compromisso que respiram igual a gente e que precisam de oportunidades, e que ás vezes, estão sufocadas ou jogadas de lado por ações injustas de nossa parte.
A sua técnica é antiga e apurada. É a eucáustica e foi com o velho mestre José Rescála que ele tomou intimidade com ela e escolheu como a melhor forma de elaborar suas composições.
Que Saudade,Meu Amor..., obra de Sante
Confirmando Sante afirma: “meu discurso é de amor e volvido para o Homem. Engana-se quem pensar que minha arte seja agressão. Quem sente agredido deve fazer uma reflexão sobre o seu comportamento, pois acaba de verificar que não está em estado de graça. As pessoas esperam encontrar no trabalho do artista os seus valores, e não os encontrando se sentem agredidos. Essas pessoas, geralmente mal-informadas a respeito do que seja arte e contemporaneidade da arte, estão ainda naquela de paisagem, natureza morta, casario, etc.”
Evidentemente que o Sante com sua cara de beato e jeito do tabaréu de Ceará não está interessado em fazer nada bonitinho. A sua mensagem é outra. É mensagem social e o espanto faz parte do seu jogo.
Ninguém consegue ficar indiferente aos homens e mulheres enormes e imbecis. Há sempre uma reação favorável ou não. Dês espanto ou riso.
Aliás o espanto e o riso fácil não denunciados em muitos de seus quadros onde os bajuladores riem da conversa ou da piada sem graça dos chefes. Sante está no Museu de Arte da Bahia até o dia 31 de maio.

NILZA BARUDE

Manchas e Geometria , de Nilza Barude
Nilza com a sua inquietude, marca registrada de sua personalidade, conseguiu elaborar um catálogo muito bem feito. Embora cultive um pouco a vaidade feminina, o que é de certa forma compreensível. A mulher está muito ligada ao espelho, e Nilza deu uma olhadela no passado, e revela em fotos um pouco de sua infância. Mistura ainda alguns versos. Para em seguida mostrar os seus trabalhos onde manchas de cores se entrelaçam, como a dar as mãos em pleno infinito. Dimensionados ou determinados por linhas as manchas lembram o céu, o fogo e o horizonte. Os círculos e os quadrados que estrategicamente ou meticulosamente foram desenhados representam apenas pequenas intervenções nas belas manchas que Nilza Barude consegue criar, com boa técnica.
Sem dúvida que uma tendência forte a abstração e o geometrismo de que falo acima perde em importância para o significado maior da espontaneidade das manchas. Suas cores são fortes, mas cores que vemos constantemente no mundo que nos cerca. São trabalhos que embelezam o ambiente, onde por acaso estejam colocados. As intervenções geometrizadas mostram ou demonstram que Nilza Barude não pintou aleatoriamente as manchas. Não jogou simplesmente a tinta na tela. Ela criou as manchas e em seguida idealizou as interferências, com os símbolos geométricos. Os círculos, os quadrados e o triângulo. Sobressaem-se evidente, porém os espaços de manchas são mais amplos e mais fortes! É como uma olhada na própria natureza.
Um mergulhar no infinito para fora ou para dentro da Terra. E, neste mergulhar segue a Nilza Barude com toda a vitalidade que lhe é peculiar. Evidente que sua arte tem mais emoção que técnica, mas acredito sinceramente que a vontade férrea que lhe conduz vai chegar e alcançar o que busca. Nilza estará na Época de 24 de maio a 2 de junho próximos.



terça-feira, 25 de dezembro de 2012

FALTOU ELA NO NATAL

A mesa está repleta de guloseimas.Fico a imaginar a vida daquele peru, que nasceu e  viveu pouco.Sempre aprisionado, até morrer e passar meses num freezer de uma indústria, ser transportado num caminhão frigorífico por horas a fio. Depois, ser jogado juntamente com muitos outros, de sua espécie, num balcão refrigerado de um supermercado. Daí continuou seu suplício, até que ser escolhido  entre os demais para a pousar em nossa Ceia de Natal. Lá está ele rodeado de farofa temperada  com as pernas mutiladas para cima.Ninguém sabe se é realmente um peru ou um chester. Não sabem e, não se interessam em saber do  seu sexo e muito menos se tinha  nome. Totalmente anônimo. Sim, nome! Já tive um peru que chamava-se Imperador, e morreu de morte natural. Ninguém ousou transformá-lo  em comida de Natal, embora sempre escutasse algumas piadinhas de mal gosto.
As crianças fazem um barulho natural, correndo de um lado para outro, mostrando os presentes que acabam de ganhar. Os adultos vão conversando e falando de cada presente que compraram, ganharam e trocaram.  Enquanto isto, bebem refrigerantes, cervejas, uísque  e comem tira-gostos como ameixas, castanhas, passas, nozes e outros petiscos.  Lá para as tantas, é a hora do peru! Uma faca amolada lhe corta a carne branca, que é servida sem cerimônias aos presentes.
A festa continua com os piscas-piscas dando aquele  cenário iluminado do Natal . Papai Noel com seu indefectível gorro vermelho está ali ao lado, feito de plástico, com sua roupa  também vermelha.
Todos os anos, ao término da festa natalina o Papai Noel é recolhido e  enrolado num saco plástico.Vai ser guardado no alto de um armário no quarto de hóspedes, onde fica aguardando o próximo Natal. Esta é a 10ª vez que ele ressuscita sorridente para participar da Ceia. Mostra  sempre um semblante de contentamento e fartura.
Participando a Ceia não me sai a lembrança de que algo me dói profundamente. É uma falta indescritível e pode até parecer patética para alguns. As lágrimas chegam sem avisar, disfarço várias vezes, mas os olhos ficam avermelhados e me denunciam. Saio do local, dou uma pequena volta, respiro fundo e pego uma cerveja para tomar.
Lembro de seus passos já lentos, sua risadinha mansa e seus pequenos olhos. O corpo já um pouco curvado e de seu vestido simples.
Ficava sentada à espera que alguém a servisse das guloseimas do Natal. Vinha quase todos os anos do interior para passarmos juntos o Natal. Este é o primeiro Natal sem ela. E, o pior é que, ao contrário de Papai Noel, que retorna todos os anos,  nunca mais a verei sentadinha participando de nossa alegria.
Como  gostaria que ela voltasse  devagarinho e sorridente!

ESCULTURA E EXPOSIÇÃO LEMBRAM CENTENÁRIO DE JORGE AMADO

ESCULTURA E EXPOSIÇÃO LEMBRAM CENTENÁRIO DE JORGE AMADO


Duas homenagens  pelo centenário do escritor Jorge Amado, ocorrido no último dia 19 de dezembro, foram concretizadas pelos artistas Tatti  Moreno , com uma escultura que está numa praça do bairro do Rio Vermelho e, a exposição de Maria Adair e Eliana Kertész , no Palacete das Artes, na Graça. Homenagens mais do que merecidas, porque Jorge faz parte da Bahia , aqui criou, viveu e levou o nome da nossa terra e da nossa gente para os quatro cantos do mundo.
Tatti foi um dos artistas chegados ao escritor e ele concebeu uma escultura em tamanho natural feita de bronze e pátina esverdeada, sentado em um banco no Largo de Santana, ao lado de seu grande amor Zélia, e de Fadul , o seu cachorro de estimação da raça pug. Ele foi o último animal criado pelo casal, e morreu em abril deste ano.
Os corpos foram esculpidos por parte e depois soldados. Já o banco onde Jorge e Zélia Amado estão sentados permite que os baianos e turistas sentem para tirar fotos ou admirar a escultura.
Na escultura Jorge aparece com uma  camisa  com flores, como ele sempre gostava de se vestir. Tatti juntamente com Paloma, filha do escritor, escolheram a foto para servir de modelo. Só que ele estava de chapéu e o artista resolveu tirar o chapéu para eternizar a cabeleira farta de Jorge. Tatti conseguiu fazer em baixo relevo as flores da sua camisa colorida.
O artista ficou lisonjeado por ter sido escolhido para fazer a escultura . Revelou que tem " um carinho  guardado pelo casal, não só pelo amor e generosidade deles,mas também por serem pessoas fantásticas,que levaram o nome do Brasil para o mundo".
A escultura custou R$400 mil e foi patrocinada pela Bahiatursa,Caixa Econômica e Bahiagás e a ideia foi de Ricardo Barreto, que era na época  presidente da Associação dos Moradores do Rio Vermelho - Amarv.
Três dias depois um vândalo riscou a escultura . São atos condenáveis, mas que acontecem por falta de respeito e educação.Este pobre diabo que fez isto é digno de pena.

Já a exposição das artistas Maria Adair e Eliana Kertész chamada de As Mulheres de Jorge e O Universo Amado reúne 230 trabalhos e é segundo elas uma ideia que vIinha amadurecendo há um ano e meio. Conheço bem Maria Adair e sei do seu talento e, também ,da sua disposição em realizar. É arrebatada. Vai e faz.
Eliana revela que ao ler Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Jorge, ela deparou-se com uma frase que lhe chamou a atenção. Vadinho , numa de suas falas, diz "Deus é gordo!". Daí veio a calhar com os personagens que ela cria em suas esculturas, sempre gordas. Ela usou bronze,fibra,resina,alumínio e pó de mármore para criar as mulheres  fartas e felizes idealizadas pelo escritor em seus romances.
Enquanto Maria Adair escolheu o tema O Universo Amado e fez 150 peças  entre pinturas, esculturas e instalações todas inspiradas nos personagens que povoam os livros do escritor.
Adair gosta de pintar tudo que está ao seu redor. Ela nunca se prendeu a pintar só telas. Portanto, vários objetos que lembram os personagens de Jorge estão lá para serem apreciados. Vale a pena visitar.

CRESCE A PARTICIPAÇÃO NA MOSTRA GERAÇÃO 70 - 15 DE JULHO DE 1985


JORNAL A TARDE SALVADOR 15 DE JULHO DE 1985

  CRESCE A PARTICIPAÇÃO NA MOSTRA GERAÇÃO 70


Estamos nos aproximando da abertura da exposição Geração 70 - 1ª mostra que ocorrerá no próximo dia 26, às 21 horas, no Museu de Arte da Bahia. Será um acontecimento, porque estamos programando uma performance com as presenças de dançarinas, atores e músicos. Não podemos enxergar esta exposição como mais uma coletiva, e sim, como uma mostra que deverá ser vista como um marco na história das artes baianas, porque nelas estão aglutinados, alguns dos melhores artistas desta geração, que já integram o mercado de arte. São artistas criativos e qualificados para participar de qualquer seleção que se faça na Bahia.
Temos acompanhado a reação de algumas pessoas descontentes. Acho perfeitamente normal e até entendo, porque é muito fácil qualquer pessoa se autovalorizar. Mas, na ótica alheia nem sempre os valores que superestimamos têm a mesma receptividade! Isto serve para todos nós.
Procurei com esta exposição ser isentos de pressões e simpatias. Os artistas que convidei foram escolhidos dentro de uma visão profissional avaliando a produção, a qualificação e a contemporaneidade. Não fiz concessões nem de amizade, nem tampouco pressionado por entidades, cartas anônimas, telefonemas imbecis e outras manifestações, tão comuns nesta Bahia, que ainda guarda em determinados setores o ranço do provicianismo. O que importa é realizar. Espero que possamos apresentar tudo que estamos programando como os espetáculos com Lívia Serafim, Lia Rodrigues, do Grupo Tran Chan; Leda Muhama Martinez, Bete Grebler, e o talentoso Márcio Meireles e, o Setexto do Beco, sem falar em Washington Falcão que está fazendo o catálogo; os fotógrafos Michel e Arestides Baptista, o pessoal do som e os 10 artistas. Uma infinidade de pessoas estão envolvidas com esta mostra que não é minha, não pertence a estas pessoas, e sim a comunidade baiana. Vamos aguardar.

ZIVÉ DENUNCIA O LADO ESTÚPIDO DOS HOMENS

O vermelho predomina.Forte e vibrante elevando suas extremidades atrofiadas.
As figuras disformes de Zivé nos levam a pensar
Parecem que estão a representar no palco da vida os desacertos e a estupidez humanos. Vagam entre espaços etéreos sem destino, com muitos homens que enchem de tragédias e incertezas as ruas das grandes metrópoles. Estão prontos a uma ação de violência ou mesmo que fuja aos cânones de uma sociedade civilizada.
São monstros que em determinado momento gravitam na mesma linha dos criados por Siron Franco. Uma temática com certa semelhança. Porém, com diferenciação de ótica e, concepção formal e técnica. Tratam ambos desta estupidez, enquanto Zivé mostra exatamente o homem como o destruidor do próprio homem, o Siron trata basicamente dos monstros que povoaram sua infância em Goiás Velha.
Estou exatamente falando da possível semelhança temática para dirigir algumas dúvidas sobre uma influência maior, que certamente inexiste. Zivé é um dos melhores pintores emergentes desta Geração 70, consciente do seu papel inovador e sabe argumentar sua postura contestatória.
É verdade, pelo próprio temperamento inquieto, ele se deixa, em alguns momentos envolver pelo calor da sua emoção. Isto faz parte da própria existência e, também, da sua formação e origem. Certamente com o tempo algumas posturas, consideradas, por muitos como radicais, serão revistas e mesmo até repensadas e, quem sabe, abandonadas. Mas, o que importa é o seu trabalho diante do qual ninguém é capaz de ficar indiferente. O espectador ou tem uma reação de satisfação, de alegria, ou faz algumas restrições, porque as suas figuras não gravitam naqueles estereótipos de “belo”, que a sociedade de consumo nos impinge através das figuras róseas que povoam os comerciais e as telenovelas.
Zivé nos mostra o lado estúpido que tentamos esconder sob falsos mantos de educação e finura, quando na realidade diante de um estímulo desfavorável reagimos como verdadeiros animais, agredindo com palavras e mesmo fisicamente nossos semelhantes. Evidente que, no momento que você expõe este lado da existência humana, as reações variam de acordo com a capacidade de autocrítica e entendimento de cada espectador.
É bom ressaltar que Zivé não faz apologia da violência, do comportamento escondido e velado.
Ele nos mostra, nos coloca cara a cara diante da estupidez para que possamos refletir, e inclusive nos serve de lição imperfeitos, independente de religiões. Não vejo sob o prisma da religiosidade, porque estou isento a esta influência.
Também é bom lembrar que o artista trabalha utilizando basicamente o papel como suporte para sua arte. Suporte que é de certa forma discriminado porque as pessoas têm uma idéia falsa de que sua durabilidade é muito pequena. Um erro de educação ou de falta de conhecimento, porque existem trabalhos feitos em papel que datam de séculos. O problema é a conservação, o cuidado que se deve ter com uma obra de arte, porque tanto o papel, como a tela, sem a necessária falta de cuidado, tornam-se facilmente perecíveis.
Diria mesmo que a arte de Zivé tem uma conotação de participação social e político, e a presença de Zivé no movimento artístico baiano tem-se revelado não apenas pela qualidade do seu trabalho, mas também por sua atuação política. Ele não aceita passivamente um argumento. Discute, contesta, briga e, em determinados momentos, é até intolerante com algumas pessoas. Sua carga emotiva explode como explode o vermelho do branco papel que utiliza para eternizar as suas formas.
E o seu trabalho revela muito da sua maneira de ver o mundo e as pessoas com quem se relaciona.
Numa conversa que tivemos recentemente, Zivé Giudice disse-me que “A Antropologia, ao resgatar a sociedades primitivas, fossilizadas, localiza o homem na escala dos seres vivos como o mais complexo e perfeito. A Razão e a Lógica são componentes a argumentos de defesa desta tese.
Porém, o meu trabalho é como uma antítese desta posição antropológica. “Porque no entender do artista o Homem no curso da História tem-se mostrado um predador, um animal violento. Ele destrói os elementos básicos da vida e cria até um estado paranóico de existência”. Se analisarmos as afirmações de Zivé podemos concordar com o seu argumento. Mas, é bom salientar que o homem é um ser complexo, como ele afirma, e que ao lado deste lado estúpido existe uma riqueza de ideais, de sentimentos nobres que também não podem ser esquecidos e que é preciso ressaltá-los. Diria que nem tudo é tão ruim assim. Até uma pessoa marcada pela estupidez, a gente pode encontrar uma pequena réstia de bondade, de emoções sinceras. É verdade também que as figuras disformes de Zivé nos levam a uma autocrítica tão necessária a nossa existência.
Precisamos sempre repensar nossas atitudes e ações. Se todos agissem assim a estupidez humana seria diminuída e as figuras de Zivé também teriam outras posturas.

ESPERIDIÃO MATTOS PINTA BAHIA DE OUTROS TEMPOS

Um bico de pena de Esperidião Mattos de rara beleza

“ A visão acadêmica, o traço exato de Esperidião Mattos vão além da performance estética, eles invadem a área da História.
As fachadas de rara beleza que ele retrata são documentos que manterão eterna memória de nossa terra. Esperidião Mattos é um artista que pinta a Bahia para sempre". Estas palavras de Heitor Reis nos revela a importância do pintor Esperidião Mattos, que a partir do dia 17, estará expondo seus trabalhos no foyer do Teatro Castro Alves.
Esperidião é um pintor de uma geração que está marcada por grandes nomes da arte baiana.
Juntamente com Raimundo Aguiar, Rescála e outros, ele enfoca a Bahia de outrora, a Bahia que está desaparecendo sobre as patas de borracha dos automóveis, que rolam sobre estradas pavimentadas, deixando um ruído ensurdecedor e um odor insuportável. Ele não se acostuma com esta pressa. Chega até a ficar assustado quando falamos que o horário é pouco, que temos que partir, que não temos tempo. Mattos é uma pessoa muito sensível, doce até, e assim assiste perplexo este passar incessante das pessoas, esta inquietação do vaivém que não resulta em nada, porque todos terminam voltando ao mesmo lugar, até o dia em que o vaivém acaba.
Ele não tem pressa e os seus desenhos a nanquim e seus quadros a óleo nos mostram este lado calmo, sereno e belo da Bahia. Vai registrando aqueles pontos que lhe tocam de perto. A calmaria das sacristias das igrejas baianas, os casarões com seus oitões debruçados sobre as ruas de pedras irregulares. Os casarões com as marcas deixadas pelo tempo.  As manchas causadas pelas águas das chuvas e da poeira incrustada. O arbusto que nasce nas fachadas e nas bicas.
Além do lado bucólico, do lado belo, os trabalhos de Esperidião trazem aquele lado documental. São importantes porque registram minuciosamente os detalhes das fachadas, de contornos dos azulejos das sacristias, enfim os elementos mais significativos daquilo que ele enfoca. Está conservando calmamente esta Bahia que desaparecerá dentro de poucas décadas, se continuar o descaso daquelas pessoas encarregadas de preservar o nosso patrimônio.
Já disse certa vez (inclusive, ele colocou no catálogo desta sua exposição), que Mattos é uma vítima do crescimento da cidade. O artista foi obrigado a mudar duas vezes, por força do progresso, e sua última residência na Avenida Joana Angélica foi demolida pela Telebahia. Portanto, enfrentou momentos de angústia, quando os prepostos da empresa chegavam com propostas irreais ao verdadeiro valor de sua moradia. Mas, soube, com a ajuda de Leda, enfrentar estas dificuldades. Quantas vezes conversamos sobre este assunto, quando mostrava-lhe que a solução viria, e veio. Hoje, está bem instalado na Vitória, é bem verdade num apartamento, porém, grande, e lá pode refazer sua vida com um local exclusivo para exercitar sua arte.