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sábado, 15 de julho de 2023

GRAÇA RAMOS UMA EXPLOSÃO DE CONTEMPORANEIDADE

Foto 1.Graça mostrando que desenha até de olhos
fechados. Foto 2 Ela jovem. Foto 3. Graça e o filho.

A artista Maria das Graças Moreira Ramos ou simplesmente Graça Ramos não para de desenhar enquanto conversamos sobre a vida e sua arte cheia de vitalidade criatividade  que se revela através de cores alegres  em grandes telas devidamente arrumadas em seu amplo e organizado ateliê. Se diz hiperativa e assim vai construindo seu mundo acadêmico e artístico com firmeza e diversificado. Utiliza em suas obras materiais diversos como pó de mármore, tecidos e crochés e outros elementos que incorpora e integra na tela e às vezes decide rasgá-la, dobrá-la ou costurá-la para expressar seus sentimentos mais profundos e sua criatividade. Mesmo antes de viajar para a Espanha onde fez seu doutorado na Universidade de Sevilla ela já fazia estas interferências nas telas e lá conheceu obras e influências de importantes artistas chamados de Informalistas que também já faziam este trabalho nas décadas de 1950 a 1960 e são reconhecidos internacionalmente entre eles Manolo Millares , (nasceu em 17-1-1926 em Las Palmas e morreu em 14-8-1972,em Madrid, Espanha); Antòni Tàpies (nasceu no dia 13 de dezembro de 1923 e morreu em 6 de fevereiro de 2012, aos 88 anos, em Barcelona, na Espanha) ,  e António Saura (22-9-1930 e faleceu em 22-7-1998). Também o Lucio Fontana que foi um pintor e escultor argentino-italiano. Foi um dos integrantes do movimento da arte Povera que se exprimia através da criatividade, da efemeridade, materialidade e espontaneidade. Criticava a comercialização de objetos artísticos e o consumismo do capitalismo. Nasceu em 19-2-1899 em Rosário, na Argentina, e faleceu em 7-9-1968 
Obra Porto Seguro, com técnica mista ,de 2016.
em Comabbio, na Itália. 
Já a  artista Graça Ramos nasceu em Feira de Santana em 8 de abril de 1948, filha da professora Maura Moreira Ramos e de Alfredo Moreira Ramos. Foi alfabetizada pela própria mãe e fez o primário no Grupo Escolar Municipal onde tinha colegas com várias idades. Estudou ainda no Colégio Santanópolis do educador Áureo Filho e em seguida no Ginásio Municipal de Feira de Santana. Ao concluir o ginasial veio estudar no Colégio da Bahia ou Colégio Central, na Avenida Joana Angélica, em Salvador, onde concluiu o científico. Desde criança que sua mãe a estimulava a pintar e desenhar e ao concluir o segundo grau fez vestibular para a Escola de Arquitetura sendo reprovada em Física, e em seguida foi aprovada nos primeiros lugares na Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia, em 1968. Foi graduada em Artes Plásticas em 1971 e em Licenciatura de Desenho em 1974. Lembra que foi um importante aprendizado porque na Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia, onde teve excelentes professores como o alemão Hansen Bahia, Mercedes Rosa, Zélia Maria Povoas, Riolan Coutinho, Jacyra Oswald, dentre muitos outros que lhes abriram os olhos para o que estava acontecendo no mundo das artes e da vida.

                                                                     MAIS ESTUDOS

Obra  técnica mista em tecido
feita durante a pandemia
Faz cursos de Pós-Graduação de Desenho e Geometrias de Representações, Criatividade na Educação, Metodologia no Ensino Superior, portanto dividia seu tempo entre os estudos e a produção de sua obra artística .  Lecionou em alguns colégios públicos e particulares e participa de exposições coletivas e individuais. Em 1975 faz concurso público e ingressa como professora no Departamento I de Pintura e História da Arte na Eba-UFBA onde lecionou a disciplina Teoria e Técnicas da Pintura, Pintura I, II,III e IV, Composição Decorativa I e II até se aposentar. Também ministra aulas em cursos livres para crianças e adultos. Em 1979 foi selecionada para bolsa de estudos nos Estados Unidos onde cursou inglês durante seis meses na The Toledo, University, em Ohio. Casou e tem um filho veterinário, que hoje dedica-se às finanças através da internet, e do seu segundo casamento, desta vez na Espanha tem uma filha  de 27 anos. Seu segundo marido faleceu e pretende voltar à Espanha para rever a filha, pois está com saudades. 

"O Vendedor de Redes, 2006.
Fez o mestrado na State University School of Visual Arts, na Pennsylvania, nos Estados Unidos, em 1980. Em dezembro retorna ao Brasil e continuou fazendo cursos de litografia, gravura em metal, estamparia em tecidos e aquarela. Em seguida fez Doutorado em Belas Artes pela Universidade de Sevilla, na Espanha, em 1997, quando defendeu a sua tese. Ao retornar e retomar a cátedra de Titular na Escola de Belas Artes no Departamento I e do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais atuou como orientadora de mestrandos e doutorandos incluindo de alunos de Belas Artes, Música e Teatro. No trabalho intitulado Intestino da Cidade que fez com alguns alunos onde prioriza a paisagem urbana, especialmente as favelas, ela e seus alunos propõem uma reflexão sobre "o contexto que envolve o homem e a Cidade com enfoque no espaço geográfico ocupado pelas favelas sob o ponto de vista da arte, do conhecimento de construir e do reconstruir. A proposta é instigante e aborda um diagnóstico sobre aspectos como costumes, escassez, degradação e sofrimento que transita pelas ruas, vielas e becos. "

Obra da Exposição Ciudad
Invadida
.
Em sua carreira de pesquisadora gosta de enfocar a Arte Híbrida quando agrega materiais e objetos diferentes à tela, procurando alcançar o tridimensional e até mesmo visando dar função como aconteceu nas caixas de luz que produziu. Diz ter sido pioneira nesta técnica de colocar a luz elétrica na tela desde o doutorado e demonstrou em sua tese de Doutorado na Espanha. Gosta de fazer poesias e já participou de algumas coletâneas como a Poetas da Bahia III onde na página 51 tem um poema datado de 2012 de sua autoria intitulado Autorretrato número 10 onde diz: Quem é esta?/Quem é esta que procura em um ventre um abrigo,/nos braços um abraço, nas mãos um afago?/ Quem é esta de rosto afável, que ainda de olhos cerrados/ busca a morada desconhecida para encontrar-se?/ Quem é esta se não aquela de outrora/ que nascera na Princesa do Sertão,/ que hoje percorrendo estradas/ procura identidade em pátria distante? /Quem é esta se não aquela, /que vagueando nas margens de oceanos/ vive apalpando um barco para navegar?....

                                                                     ESTUDIOSA

 Graça Ramos em seu  ateliê .
Uma das características de Graça Ramos é que dedicou parte de sua vida aos estudos fazendo Mestrado e Doutorado e vários cursos de pós-graduação. Falando sobre sua tese de doutorado que fez parte em Madri e apresentou em Sevilla, na Espanha, lhe pedi para fazer um pequeno resumo para que possamos entender melhor este seu lado acadêmico.  A tese chama-se "Desmitificación Del Suporte Pictórico (El Lienzo). Veja o pequeno resumo que fez da tese:'Minha investigação deu início desde 1984, ainda em Salvador, quando comecei a costurar as sobras dos panos de algodão cru, que preparava minhas telas de pinturas tradicionais. As emendas dos retalhos primeiros foram costuradas à máquina, dando volumes que passaram ser utilitários. Dando função à obra de arte. Durante sete anos trabalhei intensamente experimentado todo tipo de tecidos descartáveis com diferentes texturas e espessuras. Em 1992 fui contemplada através de concurso a nível nacional, com uma bolsa do CNPQ, para cursar o doutorado na Universidade Complutense de Madrid. Ao chegar lá imediatamente fui impactada com a obra Informalistas do artista espanhol Manolo Millares, então pude perceber que minha investigação estava no rumo certo e fui estudando enfaticamente outros artistas do Informalismo espanhol, como Antony Tàpies, Rafael Canogar, Antonio Saura, Carlos Franco, dentre tantos outros,  não somente da Espanha, mas da França, Itália... Através de visitas e entrevistas em seus ateliês, pude recolher um rico material de primeira fonte, então, minha investigação foi se consolidando. Em 1997 conclui com louvor minha tese que defendeu a ideia da obra de arte como objeto utilitário, onde o espectador além de contemplar a pintura matérica, pode ser coparticipantes da obra. Manuseando a tela tridimensional, trocando de lâmpadas, porque em muitos desses trabalhos, a *luz* entra como pintura efêmera, causado efeitos surpreendentes ao fruidor, escolhendo a cor e modificando sua aparência. Além de colocar ou retirar objetos, do cotidiano comprovando sua utilidade e enfatizando a tridimensionalidade. São obras como bem definiu o artista do modernismo americano Robert Rauschenberg com caráter híbrido de pinto/esculturas.

Graça com sua obra onde incorporou 
chinelo ,cordéis, pó de mármore,etc.
 em busca do  tridimensional
.
A maior preocupação foi desmistificar a tela como suporte artístico, imprimir um novo espírito, no sentido de "reciclar" para conseguir resultados ou efeitos plásticos inusitados, pelo menos para mim. O importante não foi realizar um quadro, sem o chassi ou sem a moldura, já que não houve obsessão em executar uma pintura trabalhada de forma tradicional. E sim, especular, descobrir o mundo visual. Não se trata de destruir., negar ou desconhecer tudo que foi feito anteriormente, pelo contrário, se pretendeu observar outras possibilidades, desenvolver outro capítulo sobre a história do quadro, a TELA, proporcionando a este suporte, outra função da estética, onde o espectador pudesse se sentir estimulado a manipular o trabalho, interagir com ele. Ser cúmplice da obra artística..."

 Ela foi também diretora da Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia. Quando diretora da EBA lembra que precisou preparar a escola para o novo ano letivo e mandou retirar materiais e obras deixadas por alguns alunos de uma sala que teria que ser utilizada e uma das alunas não gostou. Estava na cantina fazendo um lanche quando a aluna transtornada avançou contra ela com um caco de vidro nas mãos ameaçando-a. Felizmente o ato não se concretizou. Noutra ocasião lembra Graça Ramos uma outra aluna estava falando muito mal da EBA e ela começou a rebater quando também foi destratada por esta aluna. Isto demonstra como é difícil administrar e se relacionar com as pessoas, principalmente quando a gente discorda. Esta intolerância hoje está disseminada em nosso país.

                                                               EXPOSIÇÕES

Catálogo da Exposição Migration.
Fez sua primeira exposição em 1968 na Feira de Ciências e Artes, do Colégio Estadual da Bahia, e ainda no ano que se submeteu ao vestibular participou da Coletiva de inauguração da Escada Galeria de Arte. Conclui o curso em 1971 e funda com um grupo de sete pessoas o Atelier Comunicart e faz sua primeira exposição individual na Biblioteca Central da Bahia. Continuou estudando Licenciatura de Desenho na Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia concluindo em 1973.  De 1975 a 1979 teve uma fase experimental onde pesquisa diversos materiais e suportes diferentes e participa de murais em escolas públicas, bares, bibliotecas de Salvador num trabalho conjunto com alunos e artistas. Coordena a Semana de Arte Experimental na EBA/UFBA envolvendo também a Escola de Teatro.Em 2018 - Exposición Conjunta de Pintura- Brunete, Espanha; 2016- Arte Brasileira na |Contemporaneidade, em São Paulo; 2012- Exposição Água, Reflexos na Arte da Bahia; 2010 - Exposição Entre Corpo & Cosmo, no Pouso da Palavra em Cachoeira, Bahia; 2007 - Exposição Comemorações dos 80 anos de Matilde Matos, no EBEC; 2007 - Exposição Folklore Du Brésil na  Galerie Artitude, em Paris, França; 2005 - Exposição Corpus Solus, na Ebec; 1998 - Exposição e Prêmio Ecoterra e
"El Hombre y la Ciudad",técnica mista -
2010 da exposição em Lisboa, Poemas
Cromáticos, 2013.
 Lançamento do Livro A Criança que Virou Árvore, de Graça Ramos, Galeria Bahia Art, Praça do Cruzeiro do São Francisco, 5 , Salvador;1988-Exposição no Dia Internacional da Mulher, na inauguração da Galeria na Câmara Municipal de Salvador; Mostra de Artes Plásticas e Literatura ; Coletiva de Julho na Art Nata Galeria, Salvador; Exposição Uma Visão Particular da Mulher, no Shopping Barra, Salvador; Painel do Egos Bar; Painel do Espaço XIS, Fundação Cultural da Bahia, Salvador; 1987 - Exposição Arte Bahia, no Gabinete Português em Homenagem ao Presidente de Portugal em visita a Salvador, Bahia; Inauguração da Casa de Cultura o Espaço Cultural Galeria Detalhes, Salvador; Exposição na Malhoa Galeria de Arte, Salvador; I Mostra de Artes Plásticas e inauguração da Casa da Cultura Galeno D'Avelicio, Cruz das Almas, Bahia; Exposição Oito Mulheres na Galeria Raimundo Oliveira, em Feira de Santana, Bahia; 1986 - Realização de outdoor do 1º Salão Metanor/Copenor de Artes Visuais da Bahia; V Salão de Arte do Pará- Salão Art Liberal, Pará; Mostra Baiana de Artes Plásticas no foyer do Teatro Castro Alves, em Salvador; 1985 - Coletiva na Itaigara Galeria de Arte, Salvador; 1984 - Mostra de Artistas Baianos na visita do embaixador Diego Assunção à Bahia, Salvador; Vernissage no Beco das Artes, Salvador; 1983 - Exposição Circuito das Artes Plásticas do Nordeste, Mostra Estadual no Museu de Arte Moderna Bahia ; 1981 -Participação no Painel da Biblioteca Central da Universidade Federal da Bahia; 1982 - Exposição Forma, Cor e Vida na Galeria ACBEU, Salvador; 1980 - Feira dos Estudantes Internacionais na State College PA-USA: Exposição Coletiva na Zooler Gallery dos Estudantes de Pós Graduação do State College, PA-USA; 1977 -Exposição em homenagem ao Centenário da EBA/UFBA; Participação no I Salão de Verão da Bahia; 1976 - III Salão Nacional de Artes Plásticas da Caixa Econômica Federal, Goiás; Obra na Última Bienal Latino-Americana, São Paulo; 1975- IV Salão de Artes de São Cristóvão, Sergipe; 1972 - Participação na Feira dos Campeões ,Goiânia, Goiás; 1971- I Salão dos Novos Artistas do Nordeste, Salvador.

Los Amantes,técnica mista 
em acrílica, pva, pastel 
seco sobre cartão, 2019.
INDIVIDUAIS
: 1971 - Exposição Gente que a Gente Gosta, óleo sobre telas no foyer da Biblioteca Central da Bahia; 1972 - Exposição Retratos no foyer do Teatro Villa Velha, Salvador; 1973- Exposição de Desenhos e Aquarelas na Galeria Cañizares da Escola de Belas Artes da UFBA, Salvador; 1976 - Desenhos e Pinturas em óleo sobre tela ,Galeria Cañizares , da EBA, Salvador; 1976 - Desenhos e Pinturas em óleo sobre tela no Museu Regional de Feira de Santana, Bahia; 1978 - Pinturas a óleo sobre tela no Museu da Cidade do Salvador, Bahia; 1980 - Exposição de Desenhos e Gravuras na Penn State University, State College, Estados Unidos; 1982 - Exposição de Pinturas a óleo sobre telas ,Salvador; 1983 - Exposição Encanto de Gente Simples - Carnaval e Circo - pinturas no Museu de Arte da Bahia, Salvador; 1987 - Exposição Caras e Cavalos- Desenhos com técnicas mistas e Aquarelas na Galeria de Eventos Bon Vivant, Salvador; Exposição 20 Anos de Graça Ramos- Pinturas em acrílica As Mulheres e 18 do Pasqual na Galeria Arte Salvador;1990 - Exposição Navegar é Preciso, Salvador, na Galeria O Cavalete.

                                                                      REFERÊNCIAS

Obra "Prostituta da Zona Franca",
acrílica sobre tela, de 1988.
D
ois professores  falam sobre a obra e a personalidade de Graça Ramos quando ela completou vinte anos de pintura em 1988. Vejamos: 
"Uma personalidade feminina invulgar composta de valores notáveis e os mais diversos: do  tipo mignon sem fragilidade, vigorosa de temperamento e ao mesmo tempo delicada, irradiando na voz, na alegria do riso constante e nos gestos uma intensa e vibrante energia. Tudo isto está refletido na sua pintura numa fase importante da sua atualidade de novos propósitos, conceitos e resultados plásticos alcançados com muita segurança. Graça Ramos trabalha a sua temática constante, a mulher, não apenas como a figura humana mais cultivada pelos artistas de todos os tempos e épocas da história da arte, mas também envolvida pelo grande papel que exerce a nossa irmã Eva como criadora da vida e a sua função social desde os primeiros grupos humanos até os nossos dias... Na pintura de Graça Ramos o que importa é o conjunto, os objetivos alcançados, a expressão nos seus espaços próprios, nas composições corretas, no emprego da cor com toda a força de que é capaz essa mulher plena de Graça". Carlos Eduardo da Rocha.

"Entre Corpo e Cosmo I", técnica mista
sobre tela , 2010.
Já Romano Galeffi escreveu: “O tema que Graça Ramos aborda nesta exposição com que comemora vinte anos de atividade criadora é o da mulher na sociedade de hoje, tema este em que se condensa mais de um século de história da emancipação da mulher para a conquista de seus direitos na labuta da vida, ao lado de seu companheiro de sexo oposto, pois, do ponto de vista de conquista de sua dignidade espiritual, a história remonta muito mais atrás, como too o mundo sabe. .... Há em cada quadro um jogo de diferentes tensões que dialeticamente alternam tons cromáticos quentes e frios, linhas de desenho externo em função dinâmica ou equilibrante,sabiamente combinadas com cheios e vazios, mediante pinceladas soltas e transparentes, mesmo se matericamente corposas em sua textura, que o observador esteticamente maduto e distanciado de perturbações e preconceitos, não poderá confundir com borrações desnecessárias ou sentimentalmente injustificáveis.",....

A própria Graça Ramos na exposição que participou e apresentou chamada de Entre Corpo & Cosmo - O voo do poeta Damário Cruz, na cidade de Cachoeira, Bahia escreveu: "Para muitos o tempo simplesmente passa seguindo curso natural. Para outros, ela vai bordando de ideias, histórias e poesias a vida. Quando me lembro de Damário, o vejo alegre, brincalhão, anedótico no trato com os amigos íntimos, sua constante gargalhada reverbera no ar contagiando-nos. Irrequieto, autêntico, sensível, poeta por constituição, sua voz ecoa versos, que viram poemas na calada da noite cachoeirana. " E para terminar deixo aqui este poema Certo Voo, do Damário Cruz, com quem também tive uma boa e saudosa convivência: Cada /pássaro/ sabe/a rota / do retorno. / Cada / pássaro / sabe/ a rota / de si. / Cada pássaro, / na rota, / sabe-se/ pássaro.

 

 

 

 

 

 


sábado, 8 de julho de 2023

CELUQUE VIVE ENTRE AS GALÁXIAS E OS PINCÉIS

E
Leonardo Celuque em 1986 e atualmente
em seu ateliê.
stou diante de um artista que vive voltado para o Universo, as novas descobertas científicas, a Filosofia e manifestações do espírito. Ele transita entre a ciência e o espiritual porque gosta de deuses  e de praticar artes marciais e ao mesmo tempo de meditar e principalmente de observar e representar o Universo em sua arte. Foi assim que decidiu ir até o mosteiro zen-budista que existe no município de Ibiraçu, no Espírito Santo, onde chegou a ser ordenado. Os monges deste mosteiro budista Soto Zen procuram unir à realidade brasileira para transmitir seus ensinamentos milenares. E a busca, a inquietude de Leonardo Celuque transita principalmente entre as realidades, a imensidão do Universo e as descobertas científicas que estão cada vez mais aceleradas com a inteligência artificial que é um dos temas que o fascina e preocupa. Quando lembrei que o cientista e historiador israelense Yuval Harari disse que a inteligência artificial vai criar uma massa de inúteis e que teremos que nos reinventar constantemente. Celuque balançou a cabeça mostrando preocupação com este futuro tão perto de nós. O historiador israelense também vaticinou que “é possível criar algoritmos que nos conheçam melhor do que nós mesmos, que podem nos hackear e manipular nossos sentimentos e desejos. Eles não precisam ser perfeitos, apenas nos conhecer melhor. E isso não é difícil, pois muitos de nós não se conhecem muito bem”, disse. Percebi que ficou incomodado porque ao conversar comigo não me aprofundei nestes temas porque não são assuntos que domino e tampouco tenho um interesse vital como acontece com ele. E durante a conversa mostrou que sente dificuldade em se relacionar porque esses assuntos quase sempre não podem ser compartilhados a não ser por um grupo restrito de amigos  e mesmo assim têm pontos de discordância. 

Catálogo da primeira
 exposição
.
Na primeira exposição que fez em abril de 1982 na Genaro Galeria de Arte, da saudosa Domitila Garrido, falecida em 2019, mostrou suas pinturas figurativas, inclusive a capa do catálogo tem um autorretrato onde aparece tendo ao fundo o mar, coqueiro e um morro. Atualmente abandonou o figurativo e faz uma arte que alguns classificam de realismo científico pintando inúmeros corpos celestes como galáxias, estrelas, nebulosas, satélites, meteoros, meteoritos e planetas que lembram as que vemos quando a Nasa nos revela novas imagens captadas por um satélite ou mesmo pelo famoso telescópio Hubble, que já transmitiu milhares de imagens do Universo para alegria dos cientistas. Escreveu no catálogo de sua exposição em 1989 que "a diferença básica entre a atitude do mágico e a do cientista é que o primeiro desenha o mundo dentro de si e o segundo externaliza e impessoaliza o mundo por um movimento de vontade em direção oposta." E continuou: “Gaia, a nossa mãe-terra funciona como um organismo vivo. Estamos não apenas circundados, mas somos parte de um mar de informação onde o mundo observável é um aspecto de uma vasta ordem invisível."

                                                               QUEM É 

Celuque e sua última obra ainda sendo
 finalizada
.
O Leonardo Ribeiro Celuque nasceu em 29 de abril de 1954 na maternidade Hospital Português, em Salvador, Bahia e teve sua infância dividida entre o Morro Ipiranga, que era um local chic, e a praia do Cristo, na Barra, que frequentava para preocupação de seus pais porque naquela época era quase deserta e ainda tinha uns frequentadores que eram considerados perigosos. Mas, o Celuque ali se sentia à vontade porque gostava de mergulhar e pescar peixes e mariscos nas locas, observar os pássaros, e outros animais que habitavam naquele pedacinho de restinga . Assim levava sua vida matando sua curiosidade. Também os rochedos e as plantas eram motivo de suas observações. Ele relembra que era um pedacinho de mundo selvagem e com alguma biodiversidade. Também frequentava as fazendas de seu pai no Vale de Iguape, em Cachoeira, onde plantavam cacau, e a do seu avô chamada de Floresta Negra, no município de Ipiaú, também dedicada ao plantio do cacau. "Adorava ir para as fazendas", diz Celuque.

Foto 1. Homem Azul 3. Foto 2.Homem Azul 2.
Foto 3. Encapuçado (croquis )

.


Fez o primário na Escola Modelo, que funcionava no bairro da Graça, onde depois passou a morar na Avenida Euclides da Cunha e continua até hoje. O ginásio e o cientifico foi no Colégio Marista, que funcionava no bairro do Canela, em Salvador, e ao terminar fez vestibular para Física, mas não conseguiu concluir porque achava que era muita teoria e pouca prática. Cursou apenas dois anos. Recorda que as aulas de Geologia I e Geologia II eram as que mais lhe agravavam porque tinha aulas de campo e que gosta muito de ver e examinar rochedos e os minerais de modo geral. Em 1976 faz vestibular para a Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia, e faz um curso com a artista norte americana Alice Baber. Em 1978 ganhou uma viagem para a Europa de seus pais e fixa residência na França e no ano seguinte participa de um curso na Academia de La Grand Chaumière onde convive com vários artistas já estabelecidos e com muitos jovens iniciantes. Lá faz muitos desenhos de modelos vivos e mesmo de objetos, de ruas e prédios. Afirmou que as modelos eram estudantes, "mulheres lindas", que tiravam a roupa para servirem de modelo no maior respeito possível.  Isto lhe permitiu aprimorar seus conhecimentos de desenho e sobre a arte de modo geral. Diz que trocava ideia com artistas já profissionais e que tinha gente de várias partes do mundo. "Foi aí que passei a ter mais atenção com o feminino porque as modelos eram mulheres jovens muito bonitas que me encantavam ".

Shiva, acrilíca sobre tela.
Volta a Salvador e continua seu curso na Eba quando foi monitor de aulas dos professores Riolan Coutinho e de Aylton Lima até concluir em 1980. Seu pai Raul Golfeto Celuque era ligado a indústria e sua mãe Walquiria Ribeiro Celuque era dona de casa. O casal teve cinco filhos, sendo três homens e duas mulheres. Atualmente gosta de Alquimia e disse que "eu não me perco, são os outros que se perdem. Quero entender as origens dos elementos, acompanhar a complexidade do nosso organismo." Fez o Mestrado em História da Ciência e hoje ensina História, Desenho e Pintura aplicado a Arquitetura, além de Perspectiva de Sentimento, Perspectiva numa faculdade particular.  "Sinto que a formação dos jovens no ginásio e no colégio está muito aquém do que estávamos acostumados. Acho que vem piorando a cada ano e os jovens chegam nas universidades muito despreparados e isto dificulta sua formação profissional.", observa Celuque. 

Ele confessa que gosta de várias áreas e que isto talvez seja um defeito. Adora aulas práticas e teve como professor Arne Mune que dava umas belas aulas práticas exatamente na praia do Cristo, que tanto frequentava e conhecia . "Parece que os deuses resolveram me ajudar conduzindo as aulas para aquele local que tanto me identificava", disse Celuque. Foi casado e tem um filho de 36 anos que reside na Austrália e gosta de surfe. Contou que ao se separar teve que criar o seu filho dos oito anos até que alcançou a maioridade. "Foi uma experiência bacana". Para e faz alguns segundos de reflexão, e como que acorda e diz. "É a vida!".  Talvez quisesse dizer a vida é assim criamos filhos para o mundo. 

Em 2018 fez uma carta a colecionadores americanos que doaram seis obras de sua autoria para a Biblioteca de Santa Bárbara , da Universidade da California, nos Estados Unidos. Vejamos o que escreveu Celuque :  "Sempre amei a noite com suas estrelas, assim como o dia com suas maravilhas reveladoras. A natureza é rica em beleza, e a maioria de nós, em algum momento é tocado por ela. A visão do mar ou de uma bela manhã no campo têm o seu encanto particular. Um arco-íris em uma tarde chuvosa também nos chama a atenção com a mesma força. Outros cenários naturais nos fornecem imagens belas, que não só se aplicam às coisas, mas também ao campo das ideias. Uma flor tanto intriga um poeta como também um cientista. Comecei meus estudos acadêmicos na Universidade Federal da Bahia, em Física, mas depois acabei me transferindo para Artes Plásticas.

Hoje em dia as imagens do nosso imaginário estão sendo ampliadas por computadores e estações orbitais. Entendo o meu trabalho como uma tentativa de expressar o meu próprio espanto nesse contexto complexo e amplo em que estamos inseridos, uma época que nos situa com espanto, como uma mistura de poeira e astro, como apontou um velho poeta."

                                                                    EXPOSIÇÕES REALIZADAS

Foto 1. Rochedo. Foto 2.Chama Solar,1898.
Foto 3.Campo Estelar, 2002. Foto 4. Rastro 
de Cometa, 1986. Foto 5. Ordem Terceira 
de São Francisco.
Ingressa na Escola de Belas Artes em 1976 e neste mesmo ano participa de um curso com a artista americana Alice Baber. Em 1977 integra a Exposição Coletiva no Salvador Praia Hotel; 1980 Exposição Proposta 80; 1981 Exposição de Artes Plásticas da XXXIII Reunião da Sociedade Brasileira de Pesquisa e Ciência - SBPC; 1981 - Exposição Encontro dos Artistas do Nordeste; 1982 - Sua primeira exposição individual na Genaro Galeria de Arte; 1982 - Participa do XXXV Salão de Artes Plásticas de Pernambuco; 1983- Participa do XXXVI Salão de Artes Plásticas de Pernambuco; 1984 - XXXVII Exposição de Arte Contemporânea Chapel Art Show, em São Paulo; 1984 - Exposição Coletiva no Beco da Arte, em Salvador; 1986 - Exposição Individual na Galeria O Cavalete, em Salvador; 1987 - Exposição Escotilhas Para o Aberto. Museu de Arte da Bahia, Salvador; 1988 - Coletiva Abril na Galeria Artenata, em Salvador ; 1988 - Exposição Rotas e Perspectivas, na Anarte Galeria , Salvador;  1988 - I Salão Baiano de Artes Plásticas no Museu de Arte Moderna da Bahia; 1989 - Exposição Individual na Galeria Artenata, em Salvador; 1989 - Exposição The Evolution of Image or The Image of Evolution: The Visual Art of Leonardo Celuque, na Universidade do Colorado, nos Estados Unidos; 1989 - Exposição no Escritório de Arte da Bahia, Salvador; 1991 - Exposição de Pinturas  Galaxies, Myths and Stars, em Nova Iorque, nos Estados Unidos; 2013 - Exposição no Circuito da Artes ,em Salvador; 2013 - Exposição Triangulações, em Brasília ;  2014 - Exposição no Circuito das Ates, em Salvador; 2016 - Exposição de Desenho no Circuito das Artes, em Salvador; 2022 - Pintura Art Walk and Talk, na Biblioteca de Santa Bárbara, na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos.

                                                   REFERÊNCIAS

Croquis de duas mulheres feitos na La
Grand Chaumière, Paris, e
detalhe de árvore.
Em 1982 quando da sua primeira exposição individual na Genaro Galeria de Arte o crítico Wilson Rocha escreveu: "A pintura dos nossos dias traz uma problemática de certo modo inédita - a inquietude dos artistas menos acomodatícios, que buscam os campos não esgotados no passado. Insinuando eloquentemente o calor da vida e a densidade de problemas ocultos sob os símbolos e objetos do nosso mundo, Celuque, jovem artista baiano, cultiva uma pintura emotiva e de grande sensibilidade com uma técnica da mais alta qualidade. uma pintura objetiva e lírica, em busca da contenção da cor e da afirmação de um cromatismo tonal capaz de expressar a quietude de sua bagagem de imaginação, pensamento e sonho.

Sua visão incorpora, com extraordinário frescor, a ressonância da pop art e a poderosa influência que a fotografia exerce sobre a pintura hoje. Uma leitura onde o fundamental é a sua existência, mesmo esboçando, sumariamente, uma explicação epidérmica, fragmentária e completamente provisória da vida atual, este campo de luta entre a violência e a poesia".

Ilustração da poesia A Volta da Primavera,
para o livro Castro Alves, editado
pela Odebrecht.
Já o psiquiatra e pensador Ricardo Chemas escreveu em 1986 no catálogo da exposição que Celuque fez na Galeria O Cavalete, que funcionava no Salvador Praia Hotel, chamou de Galáxias, Mitos e Estrelas. É um longo texto que aqui público uma pequena parte. Vejamos: ..."Encontramo-nos em plena Terceira Onda, no dizer de Toffler, num planeta azul e recém-nascido 0nde a cosmologia tornou-se uma ciência experimental, e não mais domínio do irracional ou de ficções religiosas.

Junto a este vertiginoso mergulho, a arte de Leonardo Celuque vem para nos lembrar, todo o tempo, que neste mundo a maravilha é comum, e o espanto, uma dádiva de todo o homem. Shiva é também, de fato, a imagem de um dançarino real, lida sob o espectro do infravermelho e processada por computador em cores falsas, porém agudamente belas. Vivemos numa época incrível da História, um
Foto 1. Ictiossauro. Foto 2. Peixe Fóssil
Nestas obras ele escreve mensagens .


 momento no qual o homem começa a dar-se conta de que o cosmos é mais vasto do que as fantasias narcísicas a seu respeito, e mais, que é chegado o momento de observar em vez de supor"....  Já na exposição do escritório de Arte da Bahia, que também funcionava no Salvador Praia Hotel, em 1989, foi reproduzido o texto de Wilson Rocha e parte de um texto que escrevi. Vejamos ... "Celuque trocou o pincel e passou a vasculhar os céus com seu telescópio eletrônico e captou aquilo que mais o sensibilizou, aquilo que mais se identificou com o seu próprio universo de conhecimento . Neste contato entre o homem e o desconhecido surge a arte de Celuque"....

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sábado, 1 de julho de 2023

SANTOS E ORIXÁS NA LEVEZA DAS ESCULTURAS DE IZA GUIMARÃES

Iza em foto atual e em três momentos.
Os santos e orixás ganham mais nobreza nas pequenas esculturas em prata e latão da artista Iza Guimarães. Há décadas vem criando e repassando seus ensinamentos na arte escultórica que exerce com muita habilidade e criatividade.  Também cria joias como anéis, gargantilhas, brincos, pulseiras, medalhões, tiaras com incrustações de pedras preciosas, semipreciosas e esmaltadas, além de troféus. Domina com maestria a arte da joalheria e a sua aparente fragilidade física não impediu de trabalhar com laminadoras, martelos, bigornas e cinzeis para moldar os metais e outros minerais utilizando ainda o fogo do maçarico para conseguir as belas formas de suas esculturas e joias.  Muitos de seus trabalhos estão espalhados pelo país e no exterior porque dirigentes de empresas e autoridades costumam adquirir para presenteá-los aos clientes, e  aos visitantes ilustres. Temos uma tradição na Bahia de grandes ourives no período colonial como Alberto Sampaio, Lourenço Marques, Manoel Eustáquio Figueiredo, cujas peças estão expostas no Museu Carlos Costa Pinto, e no Museu de Arte do Estado, no Corredor da Vitória, em Salvador e nas sacristias de nossas igrejas. O curioso é que duas mulheres oriundas da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia a Iza Guimarães e Liane Katsuki romperam mais esta barreira masculina criando aqui as suas esculturas e joias com um requinte dos novos tempos. 

Conhecemos as extraordinárias obras escultóricas e joias feitas pelos antigos habitantes do México, Peru, Colômbia e outros países americanos as quais estão enriquecendo os acervos dos museus desses e de outros países. No Egito antigo os artesãos deixaram importante legado. São testemunhas de que o homem desde os tempos imemoriais tinha uma ligação forte com esta arte e o fogo foi um elemento determinante para que conseguissem moldar suas esculturas e joias. Antes usadas para homenagear seus deuses e líderes com o passar dos tempos passaram também a serem utilizadas como ornatos tanto masculino quanto feminino. É exatamente dentro do universo desta arte nobre que a baiana Iza Guimarães transita captando com sua sensibilidade as possibilidades que os metais, pedras preciosas e semipreciosas podem oferecer para a feitura de suas pequenas esculturas de santos, orixás e joias.

Quatro belas jóias feitas por Iza Guimarães.

Segundo Mercedes Rosa no seu trabalho  Ourivesaria Baiana Colonial: Os Ourives e Suas Obras foi "No começo do século XVII, entre vários ourives de naturalidade portuguesa, como: Joaquim Soares da Fonseca, de Lisboa; Francisco de Sousa Salgado, de Braga; João Pereira da Silva, de Vila de Caminha e Domingos e Antônio Francisco, de Lisboa, destacaram-se alguns baianos, como Pedro Guerreiro de Aguirre, João de Almeida Pacheco, Manoel de Almeida Pacheco, Antônio dos Santos, Jacinto Ferreira dos Santos, Manoel Pereira de Sousa e outros. Entretanto, Francisco Vieira, o “Fanho”, de origem portuguesa, é a grande figura da ourivesaria baiana no século XVII. A estes ourives coube a continuidade da arte, aprendida dos mestres portugueses."

A Mercedes Rosa fala ainda que existem poucas peças destes mestres ourives do período colonial porque era prática comum desmanchá-las para a confecção de outras em estilos de cada época. Quem já não levou uma corrente, um crucifixo ou bracelete para o ourives fundir e fazer uma nova joia como uma aliança, um anel? Atualmente está difícil a qualquer cidadão andar com uma joia porque o nosso país está infestado de ladrões.  Eu mesmo vinha andando na Rua Carlos Gomes, no Centro de Salvador, em companhia de um amigo por volta de umas dez horas da manhã quando fui atacado por um ladrão que tentou arrancar uma corrente de ouro que costumo trazer no pescoço. A violência foi tamanha que fiquei umas duas semanas com um hematoma no pescoço e com a voz afetada.

                                                           QUEM É 

Iza mostrando um dos Orixás de sua autoria.
A Iza Assumpção Guimarães nasceu em 28 de julho de 1943 filha de Júlia Freitas
Assumpção e Francisco Claudino Assumpção no bairro de Nazaré curiosamente na Ladeira do Prata, próximo ao Convento do Desterro. Estudou o primário e ginásio no Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, na Avenida Joana Angélica, no bairro de Nazaré, em Salvador, da famosa professora e educadora d. Afrísia Santiago que foi responsável pela formação de muitas gerações da sociedade baiana. Era conhecida  pela disciplina que empreendia em seu colégio onde só estudavam meninas. Iza Guimarães estudou lá durante sete anos e em seguida foi fazer o curso Pedagógico no Instituto Isaias Alves. Fez concursos para Supervisora de Educação, do Estado da Bahia onde atuou de 1967 a 1985  e na Secretaria Municipal de Educação de Salvador de 1969 a 1980. Nesta época já fazia seus desenhos e pinturas e mostrava aos pais o desejo de cursar a Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia. Porém, graças a uma informação exagerada, mas talvez compreensiva para alguns,  do pintor Oscar Caetano a seus pais dizendo que a Eba era "um centro de perdição". Teve assim por um tempo seu desejo impedido de ser realizado. Foi aí que ficou vinte e cinco anos como Supervisora de Educação, profissão que não gostava muito. O interesse pela arte não saía de sua cabeça. Certo dia nos idos de 1973 soube que a artista Liane Katsuki iria dar um curso de escultura e ourivesaria em seu ateliê na Boca do Rio. Procurou se informar e passou a frequentar o curso durante quatro meses. 

Foto 1, Oxóssi de 24 cm. Foto 2.Omolu com
25 cm.Foto 3.Nanã Buruku  24 cm. Foto 4.
 Iemanjá com 24.cm, todos em prata e latão.


Em 1976 fez vestibular e foi aprovada para a Escola de Belas Artes,da Universidade Federal da Bahia, e teve que sair da Prefeitura. Uma curiosidade que alguns gostam de atribuir ao destino me contou Iza Guimarães. Ainda estudante de Belas Artes tinha aulas na Faculdade de Arquitetura, da UFBA com a professora Nilza Soeiro , apelidada pelos alunos Nilzão, por ser uma pessoa acima do peso, o que hoje em tempos de politicamente correto seria cancelado quem se arriscasse a chamá-la desta forma. Ela ensinava Geometria Descritiva e Iza Guimarães  comprou o livro para acompanhar as aulas porque além de competente a professora Nilza conhecida por ser exigente. Iza era colega de uma moça chamada Clotilde Santos que era de origem humilde e não pode comprar o livro naquela ocasião. Quando foi marcada a prova ela ficou muito apavorada e então Iza resolveu emprestar o seu livro. Doou  o livro e não sabe como quando chegou em casa estava com o tal livro debaixo do braço. Foi aí que resolveu procurar a colega Clotilde que morava no bairro de Cosme de Farias e ela em Brotas. Mas, nas conversas que tinham a colega disse mais ou menos onde morava. Iza Guimarães pegou o seu carro e rumou para Cosme de Farias. Encontrou a casa da colega e lá conheceu seu pai o Gervásio Santos que era ourives e estava trabalhando no seu ofício. Interessada em aprender aquele ofício Iza começou a conversar com ele e ficou acertado que ela podia vir a sua pequena oficina que ele lhe ensinaria a técnica da ourivesaria. Acertaram o preço do curso e assim ela começou a fazer suas primeiras peças. O sr. Gervásio já estava aposentado e para não ficar parado fazia baianinhas de uma resina preta que eram vendidas aos barraqueiros do Mercado Modelo.

Pinturas de Iza G|uimarães quando jovem.
Durante três anos estagiou no ateliê de Mário Cravo que foi um aprendizado importante para Iza Guimarães trabalhando com peças de metal de grandes formatos juntamente com a filha do artista a Cade, a qual depois abandonou a carreira. "Me formei e um dia a artista Yeda Maria Correia de Oliveira, de nome artístico Yêdamaria, já falecida, que também frequentava o ateliê de Mário Cravo me disse que ia ter concurso público para professor da Escola de Belas Artes. Decidi me inscrever e fui aprovada e passei a ensinar no Departamento de Desenho e Escultura da EBA." Casou tem uma filha, três netos e cinco bisnetos. A filha, o genro e os três netos são todos veterinários e tocam uma clínica especializada em Salvador.
                                                                  ATUALIZADA

Quatro pinturas feitas com esmalte sobre tela.
Sempre atenta tomou conhecimento pela internet de um curso de esmaltação que seria realizado em São Paulo. Resolveu se inscrever e com os ensinamentos que lhes foram passados passou também a usar esta técnica em suas peças dando-lhes o colorido que os esmaltes permitem. Também experimentou usar resinas em tela em suas pinturas e inclusive excursionou pela arte digital utilizando um programa especial. Relatou que  aconteceu um acidente sem maiores consequências quando estava usando o programa fazendo uma pintura no computador. Chovia  muito e houve um estrondo  forte e seu computador queimou perdendo todos os arquivos, inclusive o programa. De lá para cá nunca mais fez sua arte digital, mas pretende retomar. 

Recentemente foi vítima de outro acidente este com gravidade. Ao chegar na porta de sua casa no bairro do Itaigara pisou na caixa da Embasa que fica no chão e caiu e bateu com a cabeça sofrendo um grave traumatismo craniano. Ficou na UTI desenganada, porém felizmente se recuperou, e está  aí firme trabalhando e tocando sua vida. É verdade que vem trabalhando menos com solda, deixou de fazer joias e apenas continua com suas esculturas que são feitas em prata ou latão e são confeccionadas em três tamanhos de 15, 20 e 25 cm com o pedestal.  Ela levou anos fazendo esculturas e troféus para as empresas do Polo Petroquímico  como a Braskem, Dow Química, e para a Federação das Indústrias, Odebrecht , além de atender os governos municipal, estadual e federal que adquirem suas peças para presentear visitantes ilustres.

Tem esculturas nos murais da Biblioteca Central e  no Instituto de Letras , ambas da Universidade Federal da Bahia . Criou inúmeros troféus  entre eles o Catavento de Prata, do jornal Gazeta do Turismo; Troféu Desempenho para a Secretaria da Fazenda da Bahia; Prêmio Sesi de Qualidade no Trabalho; Prêmio Desempenho do IMIC, da Fundação Miguel Calmon; Prêmio Cabral 2001; Prêmio FIEB por Desempenho Ambiental e Prêmio Desempenho DETEN Química S.A. Chaves da Cidade e Orixás para várias premiações de empresas e órgãos governamentais. 

                                     EXPOSIÇÕES E LEILÕES

Pinturas digitais feitas em computador por Iza.
Fez sua estreia em exposição em 1976 participando do  1º Salão  Universitário Baiano de Artes Visuais , no Teatro Castro Alves, em Salvador1978 – Expo Feira, em Feira de Santana, Bahia; 1978 – 3º Salão Nacional Universitário de Artes , em Vitória do Espírito Santo; 1978 - Exposição de Inauguração da Galeria Eucatexpo, em Salvador; 1979 – Exposição A Mulher na Arte da Bahia, em Salvador; 1979 - Coletiva no Tropicus Café Concerto, Salvador; 1979 - Exposição Artes Plásticas Universitária Hoje, no Teatro Castro Alves , Salvador; 1979 - Exposição Cadastro, no Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador;  1979 - Exposição Coletiva na Galeria Eucatexpo, Salvador; 1980 - Exposição Proposta, em Salvador; 1980 - Salão de Arte e Expressão Espontânea, Salvador; 1980 - 1º Salão de Arte Plásticas, em Feira de Santana, Bahia; 1980 - Exposição na Tereza Galeria de Arte, Salvador;;Exposição Coletiva na Eucatexpo. Salvador  1982 - Expo-Bahia Verão 82, em Salvador; 1983 - Exposição de Quadros e Objetos de Arte em Prol das Obras Assistenciais de Irmã Dulce, no Museu de Arte da Bahia, em Salvador ; 1983 - Expo-Bahia 83, Salvador; 1983 - Leilão de Arte no Museu de Arte da Bahia, Salvador; 1984- Exposição A Mulher nas Artes, Salvador; 1984 - 2º Salão de Artes Plásticas, no Museu Regional de Feira de Santana,Bahia;1985 - Exposição Coletiva de Agosto, na Panorama Galeria de Arte, em Salvador ;  1986 - Mostra Baiana de Artes Plásticas,  Coletiva da Associação dos Artistas Plásticos da Bahia, Salvador ; 1986 - Exposição de Mudança, Salvador; Exposição na Panorama Galeria de Arte, Salvador; Exposição Itinerante dos Artistas da Escola de Belas Artes da UFBA em galerias e museus americanos - International Exibit of Contemporary Artists from Bahia and Americas; 1987 - Exposição Individual na Época Galeria de Arte, Salvador; 1987 - Exposição na Galeria Arte Viva , em Salvador; 1987 - Leilão de Artes das Galerias ABT, Galeria Aracaju e Época Galeria de Arte, em Aracaju, Sergipe; 1987 - Leilão de Arte no
Iza em seu ateliê no Itaigara.
 Salvador Praia Hotel, Salvador; 1987 - Exposição Quinzena do Papel, na Galeria Arte Viva, em Salvador;  1988 - Exposição Individual no Museu Carlos Costa Pinto, em Salvador; 1989 - Exposição em Homenagem ao Centenário da da Revolução Francesa, na Galeria Cañizares, em Salvador; Exposição na Panorama Galeria de Arte; 1989 - Exposição Arte Mostra no Shopping Barra, Salvador, Bahia; 1989 - Exposição na Época Galeria de Arte, Salvador; 1990 - Exposição Individual na Ada Galeria de Arte, Salvador; 1990 - Exposição Artistas Contemporâneos da EBA/UFBA, Salvador; 1991 - Exposição Coletiva de Artistas Plásticos da Bahia; 1991- Leilão da Ada Galeria de Arte, Salvador; 1991 - Leilão de Arte na Escola de Belas Artes da Ufba; 1993 - Exposição Individual no Museu Carlos Costa Pinto, Salvador; 1993 - Exposição Panorama Galeria de Arte, Dia Internacional da Mulher, Salvador, Bahia ; 1993 - Leilão de Arte ,no Hotel Meridien, Salvador; 1993 - Art SOS Fraternal no Palácio da Aclamação, Salvador; 1994 - 1º Salão de Artes Plásticas do Litoral Norte, em Vilas do Atlântico, Lauro de Freitas, Bahia; 1994 - Exposição Semana da Padroeira da Bahia, Barra da Estiva, Bahia; 1995 - Exposição Arte na Barra, Fundação Gregório de Matos, Salvador; 1996 - Leilão de Arte da Galeria Atrivm, Salvador; 1999 - Exposição de Arte Digital , na ACBEU, Salvador; 2000 - Exposição o Salvador Menino -, no Museu Náutico, Salvador; 2000 - Wokshop Design de Joias, na Federação da Indústria do Estado da Bahia – Fieb ; 2002 - Coletiva do Acervo de A Galeria, São Paulo; 2002 - Exposição no Espaço Dulce Cardoso, Salvador; 2002 - Exposição Coletiva dos Professores da Escola de Belas Artes, Salvador;  2003 - Exposição Individual na A Galeria, em São Paulo; 2006 - Exposição de Esculturas no Hotel Sofitel Salvador, integrante do projeto cultural ArteSofitel.