domingo, 6 de abril de 2014

ENCONTRO COM SANTE SCALDAFERRI

Sante nos mostrando (a mim e Leonel Matos)
a série digital Formigas que está produzindo
Aos 86 anos o pintor, gravador, cenógrafo, tapeceiro e ator de vários filmes de Gláuber Rocha  está em plena atividade em sua casa no fim de linha de Itapuã. É o quase monge Sante Scaldaferri , que agora vem incursionado pela arte digital como se fosse um jovem artista de 20 anos. Vive em sua casa, que é um verdadeiro museu, rodeado de obras de muitos artistas amigos que já se foram e outros que ainda estão por aqui produzindo. Sante é um observador, um experimentador de técnicas, cores e temas, bastando dar uma olhada na sua vasta produção através desses anos repletos de criatividade e de experiência.
A voz agora é mais suave, pausada, como estivesse, junto com sua inseparável Marina,  habitando um desses conventos de paredes grossas e silencioso. Ali os dois se completam no dia a dia , nas tarefas caseiras. E, ele religiosamente vai cuidar da sua arte única, forte, instigante e provocativa.
Reynivaldo, Claudius, Sante e Leonel conversando
Sua produção tem uma forte e expressa fundamentação e inspiração na arte popular, especialmente nos ex-votos, manifestação religiosa, da qual ele é um colecionador meticuloso. Tem em sua casa museu mais de 600 ex-votos, inclusive vários de metal do nosso país e de outros países. Este quase monge colecionador e pintor de ex-votos nos delicia com sua prosa fácil e seu modo carinhoso de ser. 
Estive este fim de semana visitando Sante Scaldaferri em companhia do pintor e  também, seu compadre Leonel Mattos e sua esposa Isa Oliveira, responsável pelas fotos ora publicadas. Fomos abraçá-lo depois de um "incidente" digital. Mandei um e-mail para Leonel perguntando em tom de brincadeira : "Como anda nosso amigo velhinho Sante?". Leonel, na sua pressa impulsiva, retransmitiu o e-mail, para o quase monge . Sante, ao receber o e-mail me ligou e, saiu com aqueles impropérios próprios dos italianos e seus descendentes. Esqueceu seu lado monge e que estava no monastério. Assim , marcamos o encontro e, ao chegar, fui logo dizendo que  o velhinho parecia muito bem. Rimos muito os três e conversamos mais ainda,  principalmente, sobre arte. Quando lá estávamos chegou Claudius Portugal com sua família para uma visita rápida.
Eva Em Nova Versão
Contemporânea, de Sante
Deixando o incidente digital de lado, vamos falar do que Sante anda fazendo em seu ofício. Ao abrir uma gaveta de um armário centenário ele mostrou um grosso livro, escrito a mão, onde estão meticulosamente anotados os dados de todos os trabalhos por ele produzidos desde o primeiro dia que passou a exercer seu ofício de artista. Ali está anotado o nome do trabalho, técnica, tamanho ,proprietário  e localização. Agora está transferindo esses dados para o computador. Portanto, ai está uma prova indiscutível do trabalho de um monge.
Está com um livro pronto de autoria de Maria Cristina Pipes Silva Ramos chamado Sante Scaldaferri - Aspectos da Vida e da Arte, com 328 páginas, à espera de um patrocinador ou mesmo de uma editora.Um levantamento muito interessante que irá enriquecer a bibliografia da arte produzida em nosso país, de tão fraca memória. Também, já ultimou o primeiro volume , com quase 500 páginas de uma obra que cobrirá toda sua produção. O segundo volume está em andamento. Nela reúne todos os textos publicados por críticos de arte e reportagens mais significativas além das fotos de seus trabalhos. Uma obra de folego, em dois volumes.
Enquanto isto , vive observando tudo que está ao seu redor. Conheci uma série que ele está produzindo , cujo título ainda provisório é Formigas, fruto de sua observação no quintal de sua casa do movimento de um formigueiro, que surgiu por lá. Fotografou o chão, transferiu para o computador, mandou imprimir e naquele suporte passou a desenhar meticulosamente as formigas no seu vai e vem, inclusive colocou algumas em outras situações inusitadas.Também está fazendo experiências digitais com seus ex-votos, os quais sabemos que lhe acompanham há décadas.
Sante é um exemplo para os jovens artistas que querem ganhar dinheiro e reconhecimento fácil. Ele é um trabalhador, observador, pesquisador incansável que construiu seu prestígio com muito trabalho,dedicação e estudo. Hoje é considerado um dos mais importantes e representativos artistas contemporâneos da sua geração.Sua produção é de  uma arte erudita calcada na raiz popular,onde  mostra toda a dramaticidade e a tragédia diária dos nordestinos que teimam em viver nos sertões esquecidos de nosso país.