domingo, 8 de julho de 2012

A CAIXA DE SURPRESA DE LEONEL MATTOS


ARTES VISUAIS

MUSEU DE ARTE MODERNA DA BAHIA
20 DE AGOSTO A 26 DE SETEMBRO
Texto Reynivaldo Brito



Estive no atelier improvisado de Leonel Mattos numa antiga casa na Rua da Castanheda e fiquei impressionado com a capacidade de produção do artista.
Nervosamente ele ia retirando de um local mais alto e estendendo em minha frente, no chão, centenas de folhas com desenhos, fotos e reportagens colados. As folhas são imensas, resultado de colagens de páginas inteiras de jornal com as bordas pintadas de preto. Ao terminar de mostrá-las estava diante de mim um monte, formado por aquelas grandes folhas. Fiquei parado a imaginar a cena terrível de Leonel preso. Ai me veio a imagem de um tigre bravo aprisionado numa pequena jaula, andando de um lado para outro, sem parar. Imediatamente surgiu uma segunda imagem em meu pensamento. Uma imagem vibrante, nervosa e explosiva. Imagem que era traduzida em ações gestuais rápidas e firmes. E, aparecia Leonel com canetas e pincéis observado com curiosidade, espanto ou admiração por outros colegas de presídio.
Lembrei-me que mesmo naquela adversidade o artista cria. Foi aí que a ficha caiu e voltei a examinar e avaliar a importância daquela obra que estava ali amontoada diante de meus olhos. Obra cujo projeto arrebatou merecidamente o Prêmio Braskem de Artes Plásticas, que ele denominou Caixa Preta.
Para mim ver ele produzindo estes trabalhos foi como se abrisse uma caixa de belas surpresas.
Na primeira foto Leonel e eu na loja Wine & Music. Em seguida um conjunto de fotos de sua produção no presídio. \Flagrantes de sua vida .
Para termos uma idéia da grandiosidade desta obra vou traduzir os seus números. São 601 desenhos de Leonel, 86 de seus colegas de presídio, 18 feitos por crianças parentes dos internos, e mais 7 por seu filho de 10 anos, 38 por Das Brita, 21 por Carlos Alberto, 24 por Meu Nego e 37 por “49”, seus colegas de prisão; Isa, sua mulher tem 5, e mais 210 fotografias feitas no presídio durante sua permanência e 26 reportagens publicadas nos jornais enfocando a sua arte e sua vida na prisão.
As folhas têm 1.20 por 1.80m e serão utilizadas como suporte através de pedaços de cami e unidas por grandes ilhós e cordas de nylon formando labirintos e paredes por onde as pessoas poderão circular para observar os desenhos, pinturas, fotos e reportagens. Muita gente vai ficar perdida sem saber por onde sair.
Muitos dos desenhos trazem mensagens e tons sombrios. Outros apresentam algum colorido, porém com a marca da falta de liberdade. Tem uma série de desenhos com predominância verde.
Enquanto esteve no presídio esses desenhos eram levados e guardados por seu irmão João, sendo alguns alvos de cupins. Os estragos não são consideráveis, porém, fazem parte da obra, inexoravelmente.
Diria que esta obra é um diário onde estão registradas as alegrias e, principalmente, os momentos de angústia, que de certa forma acompanhei daqui de fora, preocupado com a integridade física de Leonel Mattos.
Ele passou um ano e três meses no Corpo III, sendo posteriormente transferido para o Corpo IV, ficando por 30 dias, na Penitenciária Lemos de Brito, em Salvador, onde cumpriu o resto da pena, até ser liberado pela Justiça graças ao seu comportamento e entendimento das autoridades presidiárias, especialmente do Dr. André Barreto, diretor do presídio, e judiciária através do magistrado Dr. Rilton Góes. Este Corpo IV é um pouco pior que o anterior.
Mas foi no Corpo III onde ele pintou com os demais presos as fachadas das celas e muitos dos trabalhos expostos nesta exposição. No Corpo IV fez apenas um trabalho com as crianças e duas fachadas de celas.
Durante o período de sua prisão o visitei na Lemos de Brito e nos comunicávamos quase toda semana ou através do telefone ou por cartas que ele escrevia em qualquer papel que aparecesse em sua frente. As cartas geralmente traduziam o seu espírito angustiado, querendo livrar-se daquele pesadelo em que havia se metido. Tenho uma admiração especial pela obra de Leonel Mattos, porque ela brota límpida, como a água que sai das pedras de uma montanha. É uma obra de sentimento, de vibração, de mensagens simbólicas muito fortes. São símbolos e traços gestuais que representam a emoção de pintar, que valoriza a pintura enquanto pintura, e surgem na tela composições que parecem emitir sons empolgantes como os da 9ª. Sinfonia de Beethoven.