terça-feira, 17 de julho de 2012

ARTES VISUAIS - SANTE VESTIU OS EX-VOTOS

ARTES VISUAIS

Salvador - Bahia,12 de julho de 1982.
Texto de Reynivaldo Brito

Uma arte influenciada pelas manifestações populares 

Eles podem ser encontrados nas cruzes abandonadas à beira da estrada, ou mesmo nas igrejinhas de povoados onde a civilização ainda não chegou com a sua febre de modernidade. São esculpidos por gente sem cultura, mas sensíveis por acreditarem no mundo após a morte e temerem a Deus. São os ex-votos, encomendados por familiares de pessoas que acreditam, ter alcançado uma graça ou mesmo beneficiados por um milagre. E assim como homens- em sua grande maioria - temem a morte e o que poderá acontecer após a sua chegada, enquanto vivem, cultuam os espíritos e um ex-voto é a prova desta postura. Porém, Sante enxerga o ex-voto com toda sua misticidade e importância, que transcende a própria concepção de quem mandou fazer ou mesmo o esculpiu em barro cerâmica ou ferro. Sua obra está completamente ligada ao ex-voto, uma manifestação tão forte quanto a sua própria arte. A identificação chega a tal ponto que só enxergo Sante colocado num cruzeiro daqueles enormes, que ficam encimados, rodeado de alecrins e unhas-de-gato no alto de pequenos morros que circundam as cidades do sertão. Este é o lugar, mais apropriado para entendermos o Sante Scaldaferri. Seu físico e também seu nome, têm algo que transcendem a própria matéria e dão aquele místico que cerca o ex-voto. Conheço outros artistas que têm influência marcante em suas obras dos ex-votos. Mas ouso assegurar que ninguém tem uma identificação tão perfeita como Sante.
Nesta obra acima  "Oração do Beato", de 1968, vemos claramente  os devotos inspirados nos ex-votos.
Esta identificação passou do campo do imponderável para o material. E vejo as fraquezas do caráter humano incorporados nos ex-votos. Uma dualidade digna de registro. O misticismo, a pureza do ex-voto sendo invadida propositadamente para mostrar as fraquezas do homem. Como que a pureza do homem rude do sertão, que ainda venera o Padim Padre Cícero, Antônio Conselheiro ou Frei Damião foi impregnada, pela fraqueza que povoa os escritórios, as universidades e outros locais urbanos tão freqüentados. Os ex-votos ganharam pernas, mentes e uma representatividade. Como que estão trabalhando numa peça de teatro e vão percorrer os quatro cantos deste mundo conturbado, tentando, sensibilizar as pessoas com a estampa dura dos horrores da gula, da inveja, do puxa-saquismo, da traição, da mentira e tantos e tantos outros atributos que tem os mortais.
Sante não é um artista de formação primitiva. É um erudito que sabe ser simples. Ele sabe ser simples e com esta temática é capaz de nos mostrar quanto contemporâneo ele é ao ponto de ter acesso a qualquer mostra do que tem sido feito ultimamente neste país em termos de artes plásticas. Além disto, Sante dos artistas considerados realizados profissionalmente em Salvador, é o mais simples, o mais aberto, o que procura dialogar com os mais jovens. Não vive fechado no sucesso e numa roda de poucos amigos. É irônico no falar, no pintar.
Suas formas desconcertantes muitas
vezes não são entendidas por alguns. Essas pessoas, menos avisadas, sacam de imediato que seu desenho é primário. Incapazes, portanto, de alcançar a ambientação mística, toda a conotação que transcende o simples desenho alcançado sua plenitude no conhecimento posterior. Não conseguem penetrar, nem sentir este mundo puro dos ex-votos ou não querem enxergar as suas próprias fraquezas estampadas nas figuras desproporcionais que ganharam vida e, acima de tudo as fraquezas do caráter humano.
Dão de ombros e continuam seu caminho, mergulhados na inveja, na luxúria, na vaidade e em muitos outros defeitos que normalmente as pessoas não enxergam em si próprias.